O período com maior transmissão da doença é nos meses mais chuvosos de cada região, geralmente de novembro a maio
Somente as fêmeas de mosquitos são responsáveis por picar os seres humanos (Foto: James Gathany/CDC-HHS)
Manuela Pupo e Matheus Santos
Com o aumento das temperaturas em níveis cada vez mais extremos, Bauru enfrenta um alarmante aumento no número de casos de dengue. Até o momento, as 38 cidades que compõem o Grupo de Vigilância Epidemiológica de Bauru, somadas a Botucatu e São Manuel, contabilizaram mais de 10 mil casos da doença, e a situação preocupa a região do centro-oeste paulista.
Originário da África, o Aedes aegypti foi introduzido no continente americano durante as Grandes Navegações, acarretando um desafio de saúde pública à medida que as cidades cresciam de forma descontrolada. A relação entre a densidade populacional e o aumento da temperatura preocupa a comunidade científica, pois essa combinação acelera o ciclo de vida do mosquito e, consequentemente, a taxa de transmissão da doença.
Embora seja comum acreditar que o Aedes aegypti emite zumbidos, a principal característica que o diferencia de outros pernilongos é a ausência de som. Além disso, o mosquito costuma voar abaixo de 1,2 metros e, por isso, pica mais pés, pernas e joelhos.
Além da dengue, o inseto também é responsável pela transmissão de outras três doenças: febre amarela urbana, zika e chikungunya. Exceto pela febre amarela urbana, cuja última notificação remonta a 1942, essas enfermidades causaram sérios prejuízos na história recente da sociedade brasileira. A epidemia de zika, por exemplo, ocorrida entre 2015 e 2016, comprometeu a qualidade de vida de inúmeros recém-nascidos, os quais desenvolveram microcefalia, uma malformação congênita que afeta o tamanho do cérebro.
Assim como na zika, as complicações causadas pela chikungunya também são permanentes. Os sintomas incluem fortes dores nas articulações e nos músculos, acompanhadas de inchaço que podem levar à incapacitação. As primeiras manifestações da doença surgiram na Tanzânia em 1952 e os primeiros diagnosticados com o vírus adquiriram aparência curvada, por isso o nome em língua suaíli, cujo significado é “aqueles que se dobram”.
Segundo o médico infectologista Taylor Endrigo Toscan, foram identificados quatro sorotipos da dengue no Brasil: DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4. Cada um desses sorotipos pode causar desde formas assintomáticas da doença até casos moderados ou mesmo fatais. Ele acrescenta ainda que a segunda infecção por qualquer sorotipo tende a ser mais severa do que a primeira. No entanto, o DENV-2 e o DENV-3 são considerados mais virulentos, ou seja, altamente contagiosos.
Nesse contexto, a reinfecção por um sorotipo diferente representa um fator de risco para a dengue hemorrágica, pois o sistema imunológico pode reagir de forma mais intensa. De acordo com o especialista, embora a dengue possa afetar pessoas de todas as idades, certos grupos têm maior probabilidade de desenvolver complicações decorrentes da doença, como crianças, idosos e indivíduos com diabetes e problemas cardíacos.
Toscan informa que a primeira manifestação da dengue, normalmente, é a febre alta, seguida de dor de cabeça, dores no corpo e nas articulações. Além disso, também é comum sentir fraqueza, dor atrás dos olhos, surgimento de manchas vermelhas e coceira na pele.
Outra observação ressaltada pelo médico é a respeito da superlotação das unidades de saúde devido à presença de pacientes desorientados. “Para evitar sobrecarregar os serviços de saúde, o ideal é que o paciente busque hidratação, pois o tratamento para a dengue é simples e econômico. Não é necessário nenhum medicamento específico, e geralmente, dentro de 24 a 48 horas, o paciente mostra melhoras significativas. Quando as unidades de Pronto Atendimento, por exemplo, estão superlotadas, os pacientes não são avaliados com a frequência necessária, o que pode levar a uma piora do quadro até mesmo a óbito quando o paciente possui alguma comorbidade.
Situação de casos de dengue em Bauru
De acordo com o Painel de Monitoramento de Casos de Arboviroses, realizado pelo Ministério da Saúde, desde o início do ano foram registrados 4.722 casos prováveis de dengue na cidade de Bauru, com 2.486 casos confirmados, 5 óbitos em investigação e 2 mortes. Geralmente, os casos de óbitos estão associados a comorbidades e ao estado geral de saúde do paciente, bem como à busca tardia por atendimento médico ou dificuldades no diagnóstico precoce.
A pesquisa aponta um índice maior de mulheres infectadas em relação aos homens, sendo 54,7% dos casos prováveis ligados ao grupo feminino, e 45,3% ao masculino. Além disso, em relação à faixa etária da população bauruense infectada, a doença é mais prevalente no grupo de 20 a 29 anos, seguido pelo grupo de 30 a 39 anos em segundo lugar, e o de 40 a 49 anos em terceiro.
O município enfrentou significativo aumento do número de casos. Em relação a janeiro deste ano e ao mesmo mês de 2023, houve um número de aproximadamente seis vezes mais infectados.
Relação entre dengue e saneamento básico
O tratamento de água e esgoto de uma cidade influencia diretamente o número de contaminados com dengue, pois constituem medidas importantes de prevenção contra a doença. Daniel Godoy Tarcinalli, diretor da Divisão de Vigilância Ambiental de Bauru, ressalta como a falta de acesso à água incentiva o armazenamento irregular, capaz de gerar possíveis criadouros do mosquito.
Daniel também cita a importância da coleta de resíduos sólidos para o combate da doença. “Muitas pessoas acumulam materiais em casa ou em comércios para venda. Esse acúmulo sem os cuidados necessários permite a postura de ovos e aumento da infestação”.
As lixeiras instaladas próximas aos pontos de ônibus da Unesp acumulam lixo e água parada (Foto: Manuela A. Pupo)
Em entrevista ao portal de notícias G1, a professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, Maria Anice Mureb Sallum, explica que embora não haja registros documentados de proliferação do mosquito da dengue em esgotos, estudos indicam a possibilidade de sua reprodução nesse meio.
Além disso, conforme publicado pela pesquisa O líquido da vida: estimando os impactos dos serviços de água e saneamento na saúde no Brasil, realizada pela IDB Invest em colaboração com a BRK, uma das principais empresas privadas de saneamento do país, foi constatado que um aumento de 10% na cobertura de água potável e serviços de esgoto pode resultar em uma redução de mais de 50% nas internações por dengue no Brasil. Além disso, a melhoria nos serviços de água contribui para uma diminuição de 16% nos gastos públicos com internações para tratamento da dengue, enquanto o incremento nos serviços de esgoto reduz em 8% as despesas públicas com internações relacionadas à doença.
Situação de saneamento básico em Bauru
Os dados do Censo de 2022 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o município apresenta bons números em relação aos itens analisados pela pesquisa, os quais foram: quantidade de moradores que possuem abastecimento adequado de água, coleta de esgoto, banheiros e coleta de lixo. Os resultados chegam perto dos 100% em todos os itens.
Porém, apesar de Bauru apresentar um bom número em relação à coleta de esgoto, de acordo com a pesquisa de 2022 feita pelo Instituto Trata Brasil (ITB), apenas 3,7% do esgoto é tratado.
Segundo Daniel Godoy, a cidade realiza ações que priorizem o combate à infestação do mosquito. “Hoje, Bauru avalia a infestação por meio de dois mecanismos: o Levantamento Trimestral dos Índices de Infestação e as armadilhas Mosquitrap georreferenciadas – uma espécie de vaso preto capaz de capturar o mosquito Aedes aegypti – que são avaliadas semanalmente. Após a obtenção dos dados, iniciam-se as ações de controle, incluindo visitas casa a casa, mutirões de limpeza e trabalho quinzenal em pontos estratégicos para o controle de dengue. Além disso, são realizadas ações de controle em imóveis especiais e atividades de Educação em Saúde direcionadas a crianças, adolescentes, universitários, comércios, indústrias, feiras e eventos.”
O diretor também explica como está a situação das estruturas hospitalares da cidade, em relação ao enfrentamento da doença. “Hoje, a Secretaria Municipal de Saúde está preparada para atender um contingente maior de casos de dengue. No entanto, há um limite mesmo para a rede privada. Quando ocorre uma explosão de casos e a demanda por atendimento no sistema de saúde aumenta significativamente, isso também afeta consideravelmente a rede particular.”
Por que a vacina da dengue não é para toda a população?
A campanha de imunização contra a dengue no Brasil pelo Sistema Único de Saúde teve início em fevereiro de 2024, com a vacina da dengue, desenvolvida pelo laboratório Takeda. Devido à quantidade limitada de doses disponíveis, o Ministério da Saúde estabeleceu critérios específicos para a sua aplicação na rede pública.
Neste momento, a estratégia inicial para a vacinação contra a dengue prioriza indivíduos com idades entre 10 e 14 anos, residentes em localidades estratégicas, com critérios estabelecidos com base no cenário epidemiológico da doença no país. Entretanto, de acordo com Daniel Godoy Tarcinalli, a cidade de Bauru ainda não recebeu doses da vacina.
Como se prevenir contra a dengue
Daniel destaca o dever do Poder Público em oferecer serviços de qualidade no saneamento da cidade e da Educação em Saúde, para assim, garantir a todos o conhecimento sobre a doença e as formas de evitar a proliferação do mosquito transmissor.
A população também desempenha um papel significativo neste processo, uma vez que o inseto transmissor se reproduz, na maioria das vezes, dentro ou nas proximidades das residências.
As principais medidas estão relacionadas à inspeção de locais com água parada, visto que é onde o Aedes Aegypti se reproduz. Abaixo, veja algumas medidas que você pode adotar para se prevenir da doença:
“Experiência traumática”, diz Cacilda Cezario ao relatar suas vivências na UTI do hospital
Em meio ao combate à dengue, emerge uma história de resistência e determinação personificada por Cacilda Cezario. Este é o relato de uma longa jornada, desde os momentos mais sombrios em uma cama de hospital até sua recuperação na UTI, narrada por uma mulher de vida simples e doméstica.
Cacilda Cezario, aposentada de 58 anos, vivenciou dias intensos dentro de um quarto hospitalar. Sua batalha contra uma das doenças febris mais prevalentes nos dias atuais é comovente. Reconhecida por seu trabalho na cozinha do hospital de Iacanga, cidade próxima a Bauru, Cacilda, desta vez, tornou-se paciente ao sentir fortes dores e suspeitar de ter contraído o vírus da dengue.
A cozinheira hospitalar Cacilda Cezario sentiu fortes dores ao contrair dengue (Foto: Arquivo pessoal)
O que começou como sintomas aparentemente inofensivos rapidamente se transformou em uma luta pela vida. “Nunca imaginei que isso pudesse acontecer comigo”, compartilha a cozinheira, enquanto reflete sobre as dificuldades enfrentadas durante sua internação na UTI.
A dengue se manifestou em Cacilda como uma leve dor de cabeça que logo se tornou algo mais grave e preocupante de maneira implacável. Os sintomas, incluindo febre alta, dores intensas no corpo e fadiga extrema, logo levaram a complicações graves, resultando em sua internação na UTI, onde travou uma batalha pela vida.
Cacilda relata que passou oito dias internada em um hospital da rede pública em Iacanga antes de ser transferida para a UTI do Hospital de Base, em Bauru, onde permaneceu por mais oito dias. Nos corredores da UTI, ela enfrentou uma crise inimaginável. Uma equipe de sete médicos trabalhou diligentemente para estabilizar suas condições enquanto lutava contra a febre intensa, dores no corpo e perda de paladar. A cada atualização sobre seu estado de saúde, amigos e familiares aguardavam ansiosamente por boas notícias, misturadas com esperança e apreensão.
Enquanto Cacilda lutava pela vida, sua família solicitava constantemente que parentes e vizinhos fizessem orações em seu apoio. Mensagens de solidariedade e apoio chegavam via WhatsApp, questionando sobre sua melhora e destacando a força que ela representava para muitos. “Eu era muito novo na época, lembro que fiquei com muito medo de perder minha mãe”, conta João Cezario, seu filho mais novo.
Após dias intensos no hospital, Cacilda começou a apresentar sinais de melhora. A febre e as dores de cabeça diminuíram, e seus sinais vitais melhoraram progressivamente. Durante sua recuperação, ela enfrentou falta de ar, extrema fadiga e dores de cabeça, mas sua determinação inabalável a manteve firme.
Hoje, Cacilda compartilha sua difícil jornada como símbolo de esperança e resiliência. Ela agradece a Deus pelo apoio de sua família durante sua ausência no hospital. Sua história é um lembrete vívido dos perigos da dengue, mas também é um testemunho poderoso da capacidade humana de superar adversidades. Com gratidão e determinação renovadas, Cacilda Cezario enfrenta o futuro com coragem e firmeza, pronta para abraçar cada novo dia como um presente precioso.




