Data comemorativa é símbolo da luta trabalhista

Arthur Caires, Giovanna Novaes, Kelvin Giambelli, Letícia Rocha, Lucas Piona e Luiz Nascimento

Em mais de 80 países do mundo, no dia 01 de maio, comemora-se o Dia do Trabalhador. Muitos também o conhecem como Dia do Trabalho, mas não do trabalhador. Por que essa diferença existe? Antes de mais nada, é necessário entender como surgiu essa data comemorativa, isso porque o trabalho em si é atrelado à vida humana desde os primeiros indivíduos, já que ter o básico, é necessário trocar horas, por dinheiro, essa ação nada mais é do que o trabalho.

No dia primeiro de maio de 1886, nos Estados Unidos, manifestantes se reuniram para lutar pela redução da carga horária de trabalho. Na época, os trabalhadores dedicavam mais de 100 horas semanais aos seus empregos, o que soma mais de 14 horas diárias, ou seja, metade do dia era dedicado apenas ao trabalho. Nessa manifestação, lutavam para que a carga horária fosse reduzida para 8 horas diárias, a mesma quantidade que a maioria dos trabalhadores atualmente.

No entanto, nesse protesto a polícia interviu brutalmente, o que resultou na morte de trabalhadores e policiais. Mas, no decorrer dos anos, essa redução foi finalmente conquistada, e a data da manifestação ficou marcada como o Dia do Trabalhador em vários países. A escolha desse dia como homenagem tinha como objetivo fazer com que o trabalhador refletisse sobre suas condições de trabalho, da mesma forma que os manifestantes da época fizeram. Então, como tradição, nessa data comemorativa, vários sindicatos organizavam manifestações e movimentos no dia primeiro de maio.

Porém, com o passar do tempo, os governos e empresas enxergaram a oportunidade de mudar a real motivação para o dia comemorativo. O Presidente do Brasil, Getúlio Vargas, mudou o nome da data de Dia do Trabalhador para Dia do Trabalho. Além disso, seu governo organizou passeatas e comemorações, com o objetivo de fazer com que o trabalhador esqueça de sua situação.

Trabalho ou emprego?

Outra diferenciação importante é a referente ao que é trabalho e ao que é emprego. O primeiro se define como uma atividade onde o indivíduo que a exerce tem como objetivo ter uma carreira e se especializar na tarefa, sendo que o termo ‘’emprego’’ apenas denomina uma atividade remunerada. O que levanta outra questão a ser pensada pelos trabalhadores: a ilusão de valorização das empresas onde trabalham. Estas usam de estratégias para fazer com que o contratado faça muito mais do que sua função, o que economiza dinheiro para a companhia. Dentre essas estratégias, as mais conhecidas são aquelas que tentam incentivar o empregado a ‘vestir a camisa da empresa’, tentando condicioná-lo a ter orgulho de trabalhar naquele local e aceitar eventuais abusos morais e de carga horária.

Saúde mental do Trabalhador

Em 2022, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou o Relatório Mundial sobre a Saúde Mental, marcando sua maior revisão sobre o tema neste século. Mais do que um retrato da situação global, o documento representa um compromisso da organização em combater a crescente onda de transtornos mentais que assola a humanidade. No centro dessa luta, encontra-se a questão da saúde mental no trabalho e o impacto que o ambiente profissional exerce sobre o bem-estar dos trabalhadores.

OMS indica que líderes precisam estar atentos a sinais de transtornos mentais de empregados (Foto: Praetorianphoto / Getty Images)

O Brasil vivenciou um cenário preocupante no âmbito da saúde mental no trabalho, em 2022. Dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) revelam um aumento de 9 mil afastamentos por transtornos mentais em relação ao ano anterior, totalizando 209.124 mil trabalhadores afastados. Ansiedade e depressão se destacam entre os principais motivos para essa licença. Dessa forma, o país posiciona-se como líder de casos na América Latina.

De acordo com a psicóloga analítica Giuliana Andrade, além da ansiedade e depressão, outros diferentes tipos de sintomas são encontrados no ambiente de trabalho, tais como: burnout, irritabilidade, isolamento social, dificuldade de comunicação, procrastinação, entre outros. “O estresse tem impacto direto sobre a produtividade do trabalhador e da equipe em que o mesmo está inserido, comprometendo assim as entregas para a empresa”, diz Andrade.

Embora reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) apenas em 2021, a síndrome de burnout já se configura como um problema de saúde pública de proporções alarmantes no Brasil. Uma pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) revela que o país ocupa o segundo lugar no mundo em número de casos diagnosticados, com 30% da força de trabalho brasileira sendo afetada. O estado de São Paulo, por sua vez, se destaca como o epicentro da doença no país.

No Brasil, 18% dos brasileiros são vítimas de Burnout, segundo estudo da USP (Foto: Charday Penn / Getty Images)

A OMS entende que o bullying e a violência psicológica, também conhecida como assédio moral, são as duas principais causas para o declínio da saúde mental no ambiente de trabalho. Para Andrade, que atua na área da Psicologia há mais de 20 anos, a melhor maneira de incentivar uma conversa aberta sobre essa questão no local de trabalho e reduzir o estigma em torno desse assunto é “fornecer ao trabalhador feedbacks positivos, a formação de líderes apoiadores e a promoção da saúde mental”.

Além das iniciativas das empresas, os funcionários também podem tomar medidas para lidar com o estresse no dia a dia. A prática regular de atividades físicas, buscar ajuda profissional de um psicólogo e participar de programas de saúde mental oferecidos pelas instituições são algumas estratégias eficazes, segundo a psicóloga Andrade.

Dados do último RAIS ajudam a traçar o perfil do trabalhador bauruense

Banco de Imagens – FREEPIK – No detalhe, uma mão feminina recebendo um documento similar a um currículo

No centro-oeste do Estado de São Paulo, Bauru tem um panorama rico e diversificado em sua força de trabalho, conforme revelado pelos dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) do ano de 2022. Com uma população laboral de 140.514 trabalhadores formais, a cidade teve um crescimento de 6,88% dos empregos formais em relação ao estudo publicado no ano anterior. Dentre os setores que mais se destacaram na atração de mão-de-obra, o comércio de varejo liderou o ranking, seguido por serviços de escritório, atividades de apoio administrativo, além do setor de atendimento à saúde humana. Áreas essas que não apenas oferecem oportunidades de emprego, mas que também contribuíram significativamente para a dinâmica econômica de toda a região.

Um dos desafios que podem ser identificados diante das estatísticas bauruenses é a questão da equidade de gênero. Enquanto que as mulheres representam 45,6% da força de trabalho da cidade, é importante notar que a remuneração média para elas foi inferior, atingindo o R$3.038,99, em comparação com os R$3.722,67 recebidos pelos homens. Essa disparidade reforça a necessidade contínua de promoção de políticas públicas que promovam a igualdade de oportunidades e a equidade salarial.

Banco de Imagens – FREEPIK – Uma mulher em ambiente corporativo estende a mão a um homem que aparece de costas

Além disso, os dados demonstram que a distribuição laboral na cidade se caracteriza por uma diversidade no porte das empresas empregadoras. As grandes empresas absorveram a maior parte da força de trabalho, representando 53,4% do total. As microempresas também desempenharam um papel importante, empregando 16,2% dos trabalhadores. A heterogeneidade reflete a resiliência e a adaptabilidade da economia local diante dos desafios variados enfrentados no ano de 2022.

Na análise dos setores econômicos que mais empregam, o destaque vocacional da cidade se deu na prestação de serviços que absorve 50,8% dos empregos formais na cidade. As indústrias empregaram 22% dos trabalhadores, e 21,7% no comércio. Distribuição essa que reflete a diversificação da atividade econômica na cidade.

Ao entrelaçar os dados que medem a equidade, a diversidade e o dinamismo econômico, o RAIS de 2022 aponta os desafios e oportunidades que compõem o tecido social do trabalho na cidade e apontam Bauru como referência regional por sua força de trabalho.

Desbravando o mercado de trabalho bauruense

Conhecida por sua localização estratégica, Bauru vem sendo cada vez mais procurada para o estabelecimento de empresas, sejam elas as de grande, médio ou pequeno porte. Situada no coração do Estado de São Paulo, a cidade oferece um acesso facilitado a importantes centros urbanos e rodovias, o que favorece o transporte de mercadorias para diversas regiões do Brasil. 

Com iniciativas cruciais para empresas que buscam otimizar custos e maximizar seus lucros, o município interiorano, a partir de ações governamentais, vem travando políticas amigáveis de incentivo fiscal. Além de um investimento significativo em infraestrutura, a fim de que seja possível atender às crescentes demandas empresariais. 

Bauru é conhecida por abrigar grandes indústrias dos mais variados  segmentos. A Tilibra, líder no ramo de papelaria e reconhecida pelo seu destaque em produções de agendas e materiais para uso doméstico, é um grande exemplo neste quesito, já que se estabeleceu na cidade há cerca de 95 anos. 

Apesar de abrigar filiais de empresas como a Haribo – líder de mercado mundial no setor de balas de gelatina e alcaçuz – e Zanchetta Foods (em Bauru popularmente conhecida como Mondelli), que é especialista em cortes bovinos, a cidade não detêm seus maiores índices de empregabilidade somente no ramo industrial. Ela é fortalecida nos setores ligados à beleza (cabeleireiros, manicures e pedicures), comércio varejista de artigos de vestuário e acessórios, promoção de vendas, obras de alvenaria, transporte rodoviário, lanchonetes e similares.

Conforme estabelecido pela Sedecon, Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Renda, a partir de dados retirados do Portal do Empreendedor, Bauru é também um bom cenário para o estabelecimento de CNPJ do tipo MEI, já que atualmente conta com 45.330 cadastros na modalidade, sendo que 24.334 destes são de mulheres. Para a Secretaria, que tem como seu foco principal os microempreendedores, esse salto no surgimento de novos MEIs têm impulsionado cada vez mais não só o empreendedorismo em si, mas também a geração e maior facilitação no acesso aos empregos, já que a maioria dos munícipes cadastrados possuem a oportunidade de contratar ao menos um funcionário.

De acordo com dados do CAGED – Cadastro Geral de Empregados e Desempregados – o município bauruense, em 2023, apresentou em seu relatório final cerca de 7.569 admissões e 6.652 desligamentos. O setor que mais admitiu pessoas foi o de Serviços, com 4100 novos admitidos, e também foi o que mais teve desligamentos, com 3078 demissões. Em contrapartida, o setor com o menor número contratações foi o da Agropecuária, com 57 admissões, também apresentando o menor índice de desligamento, com 49 demissões.

Empresas locais e o primeiro emprego

Além de ser terreno fértil para o micro-empreendedorismo e para o setor industrial, a cidade também se destaca pela gama de programas e eventos destinados ao primeiro emprego. Bauru é considerado um polo universitário, consequentemente, a demanda de jovens precisando de trabalho é grande. 

Empresas como Paschoalotto e Confiança são conhecidas pela alta taxa de empregabilidade, oferecendo oportunidade àqueles que precisam encontrar uma fonte de renda com urgência. “Foi o caminho mais prático que encontrei de ser inserido no mercado de trabalho o quanto antes. Como meu irmão já trabalhava lá, foi até mais fácil entregar o currículo e eles aceitaram de primeira”, relata Maicon Ferreira, operador de sistemas da Paschoalotto.

Atualmente, a empresa é responsável por 6,8% do emprego formal na cidade, tornando-se uma das maiores empregadoras da região (dados: Sedecon Bauru). Além disso, é considerada um importante pilar econômico, uma vez que 6% do PIB de Bauru vem de seus serviços. É responsável pelo telemarketing de variados segmentos, desde serviços bancários, até negociações referentes a veículos e cosméticos.

 “A empresa é muito boa em entrosar o pessoal mais jovem ao mercado de trabalho, especialmente os que fazem parte de um grupo de minorias, por ser uma empresa que prega pela inclusão”, diz Maicon, “ela é bem flexível caso você precise alterar o horário de trabalho por um motivo externo, então acaba sendo uma opção mais tranquila se você tem interesse em fazer algum curso, estudar, etc”.

Empresa carrega 3,2% da massa salarial da cidade (imagem: divulgação)

A rede de supermercados Confiança, por sua vez, está presente no dia a dia de grande parte dos bauruenses, não apenas dos que procuram emprego. Com doze unidades distribuídas pela região, sendo sete delas somente em Bauru, emprega pouco mais de 3,8 mil trabalhadores. 

Fundada por uma família vinda do Líbano, o surgimento da rede se deu em meados da década de 1951 através da “Casa Confiança”, em Arealva; em 1980 chegou a Bauru, permanecendo até os dias atuais como uma fonte empregadora valiosa do município.

Alex Fernandes, que é funcionário de uma das unidades do Supermercado Confiança em Bauru vê a empresa como uma das melhores para se começar a trabalhar, já que é possível, em sua visão, aprender muito e desenvolver habilidades, além de sempre haver oportunidades para crescimento (plano de carreira). “Querendo ou não, o Confiança acaba sendo uma empresa que facilita o ingresso dos jovens, e até mesmo adultos, no mercado”, completa ele.

Rede de supermercados possui mais de 3 mil colaboradores (imagem: divulgação)

A Sedecon Bauru vê a iniciativa dessas empresas, no oferecimento de oportunidades aos jovens, como um marco importante na vida desse cidadão, de modo a aliviar a tensão existente no processo do primeiro emprego, afinal, “Nem sempre o primeiro emprego está relacionado à construção de uma carreira “bem-sucedida”. Às vezes é questão de sobrevivência”, reconheceu a equipe responsável pela Secretaria.

“Quando eu estava finalizando o ensino médio, já tinha essa ideia, ou era entrar na Paschoalotto ou fazer um curso de cabeleireiro. Como ia demorar mais alguns meses pra eu conseguir finalizar o curso, preferi entrar na Paschoalotto mesmo, por ser um meio mais rápido de começar a ganhar dinheiro”, expõe Maicon, com base em sua experiência vivida.

Conforme estabelecido pelo CAGED, em fevereiro de 2024 foram registradas 5150 novas contratações. Dentre essas, 1993 foram de jovens entre 18 e 24 anos, o que destaca uma crescente incidência dessa faixa etária ao mercado de trabalho, impulsionando, de alguma maneira, a inserção destes no parâmetro que diz respeito ao perfil do trabalhador bauruense.

Ações municipais de empregabilidade

Buscando oportunizar o acesso ao trabalho para todos os habitantes, possibilitando não só aos jovens, mas todos aqueles que precisam de emprego, Bauru, com o apoio da Sedecon, passou a implementar projetos, eventos e editais em prol da inclusão de cada vez mais bauruenses no mercado de trabalho.

O Gera Bauru – Oportunidades e Carreiras, é um evento realizado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Renda (Sedecon), objetivando a divulgação de vagas de emprego. A iniciativa já ofertou mais de 11 mil vagas à população. 

A última edição do programa foi realizada em 22 de março de 2024, no Recinto Mello Moraes, com cerca de 2.000 vagas de trabalho sendo oferecidas para as mais de 30 empresas parceiras. O evento é sempre divulgado no site da Prefeitura de Bauru e aberto para todos os interessados.

Emprega Bauru é o nome dado a mais uma alternativa estabelecida pela gestão do município. Seu objetivo é oferecer o serviço de intermediação entre empregadores e candidatos, através de uma Plataforma Digital, facilitando a busca de oportunidades para colocação ou recolocação no mercado de trabalho e oferta de empregos. No site, o candidato tem na palma de suas mãos grande parte das oportunidades que estão sendo ofertadas na cidade pelas empresas cadastradas ao portal. 

Iniciativas como essas propostas pela Sedecon, em parceria com a Prefeitura de Bauru, atuam como pontes entre os empreendedores e/ou grandes empresas e os empregados, de modo a fomentar o crescimento das próprias organizações empresariais e estimular a diminuição cada vez mais frequente dos indicadores de desemprego no território.

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