De acordo com especialista em Tecnologias Ambientais, poucas cidades estão preparadas para lidar com as consequências das mudanças
Daniel Souza, Isadora Sousa e Samara Meneses
Do calor extremo à falta de chuva, seguidos por precipitações intensas e inundações, as irregularidades climáticas têm sido um fardo para a população bauruense ao longo das últimas décadas. Ainda que debatido pela sociedade e o Estado, o meio ambiente permanece sendo uma temática ampla que embora discutida, não se esgota.
Bauru, o município brasileiro mais populoso do Centro-Oeste paulista, assim como diversas outras cidades de São Paulo, lida com as consequências de temperaturas que superam 40°C e um clima inconstante. E apesar de lidar com condições adversas, os cidadãos bauruenses acham desafiador identificar e quantificar os impactos ambientais em seu dia a dia, bem como responsabilizá-los.
Esse é o caso de Mauro Gaude, um comerciante local de 22 anos que, inicialmente, não conseguiu reconhecer como os fenômenos ambientais afetam sua vida. No entanto, ao mencionar as chuvas intensas que inundaram parte da cidade em 14 de fevereiro, fortes o suficiente para arrastar um carro, ele relacionou isso aos desgates no asfalto, que se tornam mais evidentes após precipitações intensas, “eu dirijo, e quando chove aqui, fica cheio de buracos, principalmente na Avenida Nações Unidas, isso sem contar o que acontece com o trânsito”.
Chuva em Bauru provoca enxurradas e arrasta carros na Nações Unidas
A centralidade das questões ambientais está presente em diversos aspectos do cotidiano da sociedade. É evidente, por exemplo, no bem-estar, na saúde, no lazer e na mobilidade. De acordo com Graziele Ruas Lagoas, mestre e doutora em Tecnologias Ambientais e professora no Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da UNESP, quando se trata de infraestrutura urbana, poucas cidades no Brasil e no mundo estão preparadas para lidar com as consequências das mudanças climáticas.
Urbanização e impactos ambientais
Para que uma cidade seja construída, é essencial considerar questões como hidrografia e geologia, visando reduzir danos ambientais e mitigar os impactos das mudanças climáticas na vida cotidiana da população. Antes ocupado pela flora e fauna, o ambiente natural mantinha ciclos de massa e energia equilibrados, mas com a chegada de prédios, residências e vias urbanas, esses ciclos foram perturbados, afetando de maneira direta, a qualidade de vida dos habitantes.
Comum no Brasil, a retificação é um processo utilizado durante a construção das cidades para modificar os rios artificialmente, alterando seu curso natural. Em Bauru, ele se faz presente na região da Avenida Nações Unidas, conhecida por suas enchentes e pelo risco à população nas épocas de chuvas. Canalizado entre a década de 50 e a de 80, o Córrego das Flores deu espaço à construção da avenida.
Hoje, a canalização do recurso natural impede a absorção do excesso de chuvas devido à impermeabilização do asfalto. Sem um caminho natural de escoamento, a água acumula-se nas ruas, resultando no desgaste das vias e na formação de buracos, o que acarreta em problemas para a população.
“Quando temos acesso a uma via e ela não está em perfeitas condições, a gente tem aí um direito fundamental constitucional sendo ferido, que é o direito à mobilidade urbana. E o direito à mobilidade garante outros direitos, porque você tem que se deslocar para conseguir ter acesso à saúde e à educação. Então não é só um buraco na rua”, explica Graziele.
Segundo o artigo 5° – parágrafo XV, um dos direitos fundamentais da constituição de 88, a locomoção em território nacional é livre, e qualquer pessoa perante a lei pode entrar, permanecer ou sair dele. Dessa forma, é entendido que as vias de trânsito devem estar em bom estado para que não seja violado tal direito, e devido a isso, há a necessidade de que os órgãos públicos cumpram a sua função administrativa.
Responsável por administrar recursos vindos da União, a SEMMA (Secretaria Municipal do Meio Ambiente) de Bauru tem a responsabilidade de zelar pela política ambiental do município. Sua missão é garantir a implementação de políticas públicas ambientais, visando à preservação, conservação e recuperação dos ecossistemas, bem como à melhoria da qualidade de vida da população.
Ao longo dos anos, pode ser observado um aumento nos recursos destinados à gestão ambiental local. O crescimento populacional constante resulta em mais demandas por infraestrutura urbana e ambiental na cidade.
Esses dados revelam a importância de acompanhar de perto a evolução do orçamento destinado à área de preservação ambiental, em especial com relação ao contexto de crescimento urbano e às demandas crescentes por serviços e gestão de resíduos
Ainda que seja responsabilidade dos órgãos públicos atenuar os efeitos negativos dos impactos ambientais, a população pode também colaborar de forma direta para resolver o problema ao criar áreas permeáveis, como jardins e gramados em suas residências. Essa prática não apenas auxilia na recarga de água subterrânea, mas também promove uma maior segurança hídrica.
Arborização e diminuição da temperatura
Comum devido às mudanças climáticas, o aumento da temperatura nas cidades é outro fator que afeta a qualidade de vida da população, sendo agravado pela escassez de vegetação nos ambientes urbanos. Essa ausência de áreas verdes contribui para a formação de ilhas de calor, um fenômeno caracterizado pelo aumento da temperatura em determinadas regiões urbanas devido ao concreto dos edifícios, à pavimentação asfáltica do solo e às superfícies escuras, que absorvem mais calor e tornam o ambiente mais abafado.
Segundo estudo conduzido por Vinícius Piccolomini, Marcius Fabius Henriques de Carvalho e Claudia Cotrim Pezzuto, alunos da PUC-Campinas, que visava avaliar o impacto da vegetação na temperatura do ar em sua proximidade, foi constatado que as áreas verdes podem registrar uma diferença térmica de até 1,5°C a menos em comparação com áreas pavimentadas. Esse resultado evidencia a importância de investimentos na arborização de praças e ruas como uma medida eficaz para amenizar o calor urbano.
O plantio de árvores e a manutenção desses espaços permite que ocorra a evapotranspiração, processo em que a transpiração das plantas, em conjunto com a evaporação da água do solo, devolvem água à atmosfera, melhorando a qualidade do ar e deixando a temperatura mais amena. Além disso, há uma diminuição do desequilíbrio ambiental quando árvores nativas são plantadas devido ao seu impacto positivo na fauna do local, que propicia a alimentação de pássaros e outros animais.
Em Bauru, o Jardim Botânico possui um viveiro de mudas com espécies originárias da região, o que possibilita à população a realização do plantio de árvores adaptadas ao ambiente, auxiliando na restauração ecológica da cidade,“o jardim botânico tem uma estrutura muito legal, porque ele faz todo o tratamento do efluente sanitário gerado num sistema de soluções baseadas na natureza. A gente também tem casinhas de abelhas nativas, que são extremamente importantes para a qualidade das áreas verdes. Então a gente tem ali uma coisa muito rica”, finaliza a especialista em tecnologias ambientais.




