Com quase quatrocentos mil habitantes, a cidade ainda sofre com estrutura viária deficiente
Amabile Zioli e Carolina Nogueira
Com a chegada do Maio Amarelo, mês dedicado para a prevenção de acidentes de trânsito, o foco se volta para a infraestrutura viária bauruense. Apesar do assunto ficar em evidência, a segurança da população depende diretamente dos recursos oferecidos pela gestão pública, que, por sua vez, ainda deixa muitas lacunas nas necessidades do povo. Sabemos que a população enfrenta diversas questões de mobilidade no seu dia a dia e encontra formas de contornar os problemas persistentes: seja utilizando veículos tradicionais, como carro e moto, dependendo do transporte público, ou recorrendo à locomoção ativa – a pé ou com bicicletas.
Independente da forma escolhida para se locomover no perímetro urbano, as pessoas se veem obrigadas a encarar situações complicadas em momentos que, em teoria, deveriam ser simples. Os pedestres, por exemplo, sofrem com dificuldades para atravessar as grandes avenidas, como a Duque de Caxias e a Nações Unidas. Na segunda,Nações Unidas o problema é a falta de faixas de pedestre, uma fica muito distante da outra, o que faz com que vários atravessem fora da faixa, contribuindo com o aumento no número de atropelamentos.



De acordo com Erik Luciano Mulato, presidente do Conselho Municipal de Mobilidade, “o Conselho busca fazer a campanha (com as empresas responsáveis) de que esses espaços precisam priorizar o pedestre justamente em lugares em que as pessoas costumam transitar a pé, como a região citada. (…) a gente sempre tem que estar dialogando e buscando atender essas demandas da população”. Erik também cita na entrevista que após a pandemia as tendências de transporte urbano mudaram, com mais pessoas transitando a pé e de bicicleta.
No caso da Duque de Caxias, apesar das várias faixas de pedestre, a avenida é repleta de cruzamentos. No momento em que o semáforo da avenida fecha, o dos cruzamentos abre, o que acaba por impossibilitar um momento seguro para a travessia. Além disso, os carros não costumam dar seta com antecedência, o que atrapalha os motoristas, mas também os pedestres, que não tem como saber da intenção do motorista e assim, transitar com segurança.
O transporte público é um caso à parte. Os ônibus não têm ar condicionado, coisa que já é bem comum em grande parte das cidades do estado e sua falta é causadora de mal estar em grande parte dos passageiros, afinal, a temperatura no centro-oeste paulista aumentou exponencialmente após a passagem do El Niño pelo país.
Nos horários de pico, os veículos sempre estão lotados em um nível que algumas pessoas são deixadas para trás no ponto, pois não caberia mais ninguém. Trajetos longos, de mais de 30 minutos, são feitos sem passar pela catraca por conta da lotação, o que oferece risco aos passageiros que têm que ficar encostados na porta. Além disso, não seguem o horário pré-determinado e demoram muito tempo para concluir o trajeto, o que se torna um transtorno.
De acordo com Roseli e Ana da Silva, utilizadoras assíduas do transporte coletivo em Bauru, os principais desafios enfrentados na locomoção do dia a dia envolvem o congestionamento em horários de pico e a superlotação dos ônibus, devido, principalmente, à falta de veículos disponíveis. “Os horários (de ônibus) estão péssimos. Sempre lotados, e os pontos também são muito longes (uns dos outros)”.
Falando ainda sobre o tempo de trajeto, a equipe da Agência Trilhos preparou um conteúdo especial sobre o assunto, com a intenção de ilustrar a diferença de tempo levada para realizar o mesmo trajeto utilizando três meios de transporte diferentes – carro, ônibus e bicicleta:
O trajeto exemplificado foi partindo da Unesp até o Supermercado Confiança Flex, seguindo a Avenida Nações Unidas até o estacionamento do mercado. O ônibus utilizado foi o Isaura P. Garms.
Uma das dificuldades em comum em todos os meios de transportes são as chuvas. Em Bauru, as chuvas geram alagamentos em diversos pontos, dentre eles a avenida Nações Unidas, já citada nesta reportagem. Ela é uma das principais da cidade, essencial para muitos dos moradores e caminho para vários pontos importantes, como a rodoviária e a UNESP. Em período de chuvas, transitar por ela de carro, moto, ônibus, bicicleta ou a pé, pode ser perigoso por conta das enxurradas que se formam. São fortes a ponto de arrastar carros e ônibus.
Quando chove, as pessoas que dependem do transporte público são extremamente prejudicadas, já que várias linhas de ônibus importantes passam pela avenida. Em caso de precipitação, o trânsito da Nações é deslocado para as ruas Engenheiro Saint Martin e Maria José, que são paralelas à avenida, mas não comportam todo o seu fluxo.
Quando questionado sobre a influência das mudanças climáticas na mobilidade urbana da cidade, o Presidente do CMM reitera que, para além da ação do Conselho, a colaboração comunitária deve ser um pilar. “A gente quer algo limpo, mas para você ter uma emissão de poluentes (CO2), uma boa parte da população precisaria começar a utilizar o transporte ativo ou público”.
Dentre as consequências das chuvas estão os danos ao asfalto, porém, no caso da cidade de Bauru, os problemas de pavimentação são causados por outro fator importante: o tipo de solo. A região central do estado de São Paulo é caracterizada pela predominância de um solo arenoso. “O processo de urbanização no município de Bauru não acompanhou as necessidades das estruturas pedológicas da região; o asfalto não cria aderência a longo prazo com o solo arenoso da cidade. É como a aderência do leite condensado sendo colocado em cima de um prato com farinha.”, explica o geógrafo e professor da UNESP, Lucas Almeida Dias. Ou seja, apesar de existirem diferentes tipos de asfalto, cada um com sua durabilidade, no geral, a região de Bauru tem uma questão específica com a pavimentação.
O Plano de Mobilidade Urbana de Bauru
“Art. 5º São princípios da Política Municipal de Mobilidade de Bauru:
I – acessibilidade universal; II – desenvolvimento sustentável das cidades, nas dimensões socioeconômicas e ambientais; III – equidade no acesso dos cidadãos ao transporte público coletivo; IV – eficiência, eficácia e efetividade na prestação dos serviços de transporte urbano; V – gestão democrática e controle social do planejamento e avaliação da Política Nacional de Mobilidade Urbana; VI – segurança nos deslocamentos das pessoas; VII – justa distribuição dos benefícios e ônus decorrentes do uso dos diferentes modos e serviços; VIII – equidade no uso do espaço público de circulação, vias e logradouros; e IX – eficiência, eficácia e efetividade na circulação urbana.”
O trecho acima foi retirado do decreto Nº 14.446, de 22 de novembro de 2019. A partir dele, o Plano de Mobilidade Urbana foi instituído. Os princípios básicos vão se destrinchando no decorrer do documento, focando mais em determinados aspectos. Você, leitor, pode acessar o decreto na íntegra clicando aqui. No Art. 6º, surge o seguinte tópico: I – priorizar os modos de transportes não motorizados sobre os motorizados e dos serviços de transporte público coletivo sobre o transporte individual motorizado.
Sabemos que apesar de, no papel, essa ser a prioridade, na vida real não é bem assim. Os problemas, sinalizados no início da reportagem, acabam por ferir os princípios básicos deste documento. E, para além disso, demonstram não priorizar de forma alguma os meios de transporte não motorizados.
Quando aborda o descumprimento de alguns princípios expostos no plano, como na priorização do transporte ativo, Erik cita a interligação das ciclovias como forma de reduzir acidentes e aumentar o número de ciclistas em Bauru. “Quando você faz a interligação das ciclovias, você conecta elas. Então o ciclista que pega a ciclovia com a intenção de atravessar a cidade tem a certeza de que ele vai usar uma estrutura que vai protegê-lo”.
Para Ellen Beatriz, recém-transferida da Secretaria de Planejamento Municipal (SEPLAN) para a Educação, Arquiteta, Urbanista e Vice-Presidente do Conselho Municipal de Mobilidade, entre os principais impedimentos para a implantação de ciclovias previstas no Plano, está a falta de vontade política. “Com o recape de um quarteirão eu faço praticamente um quilômetro de ciclovias. Então, se eu quero implantar quatro quilômetros de ciclovias eu vou deixar de recapear quatro quadras? Com as ciclovias, às vezes eles (prefeitura) não tem tanta visibilidade aqui na região. É questão de prioridade.”
Uma conquista da SEPLAN foi a adesão de ciclovias para os bairros novos da cidade. De acordo com Ellen, todos os bairros que surgirem a partir de agora já nascem com ciclovias implantadas. “O Vargem Limpa, já conta com o cicloviário”, afirma. A urbanista reitera que o foco não pode ser direcionado apenas para a cidade nova e que a antiga ainda precisa receber melhorias. “A vontade política não envolve apenas o dinheiro, também envolve a retirada de estacionamentos, por exemplo, é um espaço muito caro que poderia ser utilizado para diversas outras modalidades.
A implantação de lombofaixas também é mencionada como forma de facilitar a locomoção de pessoas com mobilidade reduzida, pedestres e cadeirantes, além de contribuir para o controle de velocidade, corroborando com a diminuição de infrações de trânsito e acidentes.
Cumprimento do Plano
O Plano de Mobilidade, publicado em 2019, tem vigência de dez anos, sendo válido até 2029. No entanto, a não criação de um Observatório de Mobilidade, órgão citado no documento, que teria o objetivo de fiscalizar a evolução da mobilidade na cidade, afetou diretamente o acompanhamento e cumprimento dos decretos outorgados, além da pandemia, que alterou o significado de curto, médio e longo prazo propostos no documentos. “O CMM está trabalhando para levar às pré-conferências tudo que ainda não foi feito e que ainda pode ser cumprido para tentar trazer as propostas de tudo isso em uma Conferência do Município.”
EMDURB e TRANSURB: Todos já ouvimos falar desses órgãos, mas afinal, quais são as funções de cada um?
A EMDURB (Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru) tem várias funções para além da mobilidade urbana: serviço funerário e limpeza urbana são algumas delas. Na parte do transporte, a empresa atua na sinalização e interdição de vias e na manutenção das tarifas de ônibus.
Já a TRANSURB (Associação das Empresas do Transporte Coletivo de Bauru) administra as concessões do transporte público, ou seja, a emissão de cartões de ônibus, venda de créditos tarifários e o repasse da verba para as empresas que oferecem o serviço: a Cidade Sem Limites e a Grande Bauru.
O preço das passagens é determinado pela EMDURB a partir do Cálculo Tarifário, que leva diversos fatores em consideração: os fixos (que não sofrem alteração de acordo com a quilometragem rodada pelo veículo) como o salário dos motoristas e impostos, e os variáveis, como gasto de combustível e desgaste de peças.

A fiscalização de trânsito também é responsabilidade da EMDURB, que coordena o GOT (Grupo de Operações de Trânsito). Segundo o portal da empresa, as funções do GOT incluem a atuação em qualquer tipo de ocorrência em via pública, a fim de tornar o tráfego fluido, como em casos de interdição por conta de acidente de trânsito, buraco na via, e outras ocorrências. Também é papel do grupo fiscalizar motoristas que tenham infringido alguma lei de trânsito.
Maio Amarelo
O Maio Amarelo é uma campanha criada com a finalidade de chamar a atenção da comunidade para o alto índice de mortos e feridos no trânsito, com a intenção de reforçar medidas de segurança. Até mesmo a cor escolhida, o amarelo, não é em vão – significa a atenção que usuários das vias devem ter ao conduzir quaisquer tipos de veículos.
Em Bauru, a campanha envolve palestras e ações que cheguem à sociedade. Teve seu início em 10 de maio com ação do SEST SENAT, DETRAN SP, Policiamento Rodoviário e das concessionárias e as concessionárias CART, VIARONDON, RODOVIAS DO TIETÊ e EIXO-SP.
A ação foi direcionada aos motoristas de caminhões pesados e motocicletas, com a possibilidade de orientações para uma direção segura, brindes e alguns serviços, como aferição da pressão arterial, glicose e simulação de embriaguez.
As atividades continuam ao longo de todo o mês.
Soluções: um futuro próximo?
A Conferência Municipal de Mobilidade, prevista para acontecer em maio deste ano, foi postergada por conta da troca de gestão do Conselho Municipal de Mobilidade, ainda sem data definida. No mais, pré-conferências poderão ser realizadas em junho, a fim de acelerar o solucionamento de questões urgentes. A atualização do Plano Municipal de Mobilidade é uma das principais pautas, afinal, sua aprovação ocorreu em 2019, e, desde então, principalmente no cenário pós-pandêmico, houve um aumento do número de pedestres e ciclistas, chegando a 31% em algumas capitais, fazendo com que o olhar do Conselho para essas classes devesse ser apurado, afirma Erik Luciano.




