Qual é o papel da infraestrutura para a promoção da inclusão social por meio do esporte?
Ágata Bueno e Raquel Freire
No dia 6 de abril de 2024, a prefeita Suéllen Rosim inaugurou o Complexo de Esporte e Lazer do Jardim Rosa Branca, na região noroeste de Bauru. No parque, foram construídas quadras de basquete e de vôlei de praia, minicampo society, playground, academia ao ar livre e pista de caminhada.
Antes do complexo esportivo, foram executadas as obras de drenagem e construção de galerias pluviais, com o objetivo de recuperar o processo erosivo que se manifestava na região. De acordo com uma matéria publicada no site da prefeitura, o vereador Júnior Rodrigues, presidente da Câmara Municipal, relembrou que a obra era muito esperada, porque “as pessoas tinham medo de perder as casas no período de chuva”. Ainda em sua fala, ele afirma que um investimento desse tipo dá “dignidade” à população, já que o problema “foi resolvido e as pessoas ainda terão onde praticar esportes”.
É fato que a construção do Complexo, dentre a obra de drenagem e a pavimentação que foi feita de algumas quadras próximas a ele, não ocupava o primeiro lugar da lista de prioridades da prefeitura. Entretanto, é interessante observar o fato quando se analisa o papel da infraestrutura para a inclusão social por meio do esporte.
A Constituição Federal defende que a promoção e o fomento das práticas desportivas, sejam elas formais ou informais, são deveres do Estado. A democratização do acesso ao esporte pode ser uma ferramenta importante para estimular a inclusão social, levando em consideração que as práticas abrem espaço para a quebra de barreiras sociais e culturais. Além disso, é uma forma de melhorar a qualidade de vida e contribuir para o desenvolvimento de habilidades sociais, como a disciplina e o trabalho em equipe, daqueles que o praticam.
Contudo, o tema ainda se mostra como um desafio de âmbito nacional. Políticas públicas de inclusão social e investimentos em infraestruturas esportivas, assim como capacitação de profissionais e campanhas de conscientização, são medidas fundamentais para garantir a democratização. Em um país que tem a desigualdade social como algo profundamente enraizado, essas providências são, muitas vezes, deixadas de lado, principalmente quando o foco se direciona para cidades do interior.
Complexo de Esporte e Lazer do Jardim Rosa Branca em Bauru. Foto: Prefeitura Municipal de Bauru
A burocracia em torno dos espaços públicos
Na cidade de Bauru, de acordo com dados disponibilizados pela prefeitura, as principais infraestruturas públicas para a realização de práticas esportivas são divididas em academias ao ar livre, centros esportivos, estádios distritais e ginásios poliesportivos.
São 48 academias ao ar livre, localizadas em 44 bairros. Elas estão concentradas, em sua grande maioria, em praças públicas. A cidade oferece para a população 11 centros esportivos, dentre eles o Bauru Skate Park, na Vila Universitária, e a Piscina Municipal Frederico Arena, no Centro. Por fim, Bauru possui 9 estádios distritais e apenas 4 ginásios poliesportivos. A divulgação desses espaços é feita, especialmente, pelo site da prefeitura e pelos meios de comunicação local.
Veja o mapa com os espaços esportivos municipais de Bauru
Créditos: Carolina Capucho
Na teoria, Bauru se mostra como uma cidade que tem muito a oferecer quando o debate gira em torno dos espaços esportivos municipais disponíveis. Por outro lado, na prática, isso se apresenta de uma forma um pouco diferente quando se fala sobre a qualidade desses locais. A pista de skate localizada no bairro Mary Dota, por exemplo, possui diversas pichações, o que interfere no seu acabamento e afeta negativamente a prática.
Em entrevista com Alexandre Zwicker, secretário da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (Semel), ele afirma que o vandalismo é o maior problema com o qual a prefeitura precisa lidar. A pichação dos espaços e o roubo dos equipamentos presentes nas praças públicas, juntamente com o processo de desgastamento natural deles, se mostram como os principais obstáculos para a garantia da plena utilização dos mesmos pela população. “A Semel está repondo tudo o que está quebrado. Só que aí é um problema de administração pública; para eu fazer a compra de uma caneta, por exemplo, leva seis meses. Isso não é Bauru, isso é lei de licitação, que é muito ruim”, afirma.
Pista de skate no bairro Mary Dota. Foto: Carolina Capucho
De acordo com o secretário, a Semel recebe uma verba anual de aproximadamente 15 milhões de reais; desses, 2 milhões são direcionados para a manutenção dos espaços esportivos e outros 2 para repasse às entidades, detalhados no chamamento público. Ele acredita que a secretaria, “a terceira que menos recebe”, deveria possuir uma verba maior, “em torno de 20 milhões”, a fim de suprir com as demandas da área. Zwicker não especificou onde é utilizado o restante, e os dados não puderam ser verificados pela Lei de Acesso à Informação a tempo da produção da reportagem.
Com exceção das academias ao ar livre, os espaços públicos para a realização de práticas esportivas são mantidos tanto pela prefeitura quanto por parcerias com instituições privadas. Maurício Birelo Furlaneto, técnico de atletismo pela Semel, diz que o Estádio Dorival Cosmo (Campo do Oriente), espaço em que atua, é cedido pela prefeitura, mas é mantido pela Associação Bauruense de Desportes Aquáticos (ABDA). Ele comenta que “perto do que era, já está muito melhor”, mas que ainda falta, por exemplo, uma pista de borracha, para aumentar a performance e segurança das crianças e dos adolescentes que têm aulas no estádio.
Alexandre Zwicker informa que a manutenção dos centros, estádios e ginásios é feita a cada três meses, e mensalmente nas academias ao ar livre. Nelas, em específico, a secretaria conta com o apoio da Secretaria de Administração Regional que, quinzenalmente, realiza uma vistoria das praças.
No que diz respeito aos critérios que estipulam a criação de um espaço destinado às práticas esportivas, o secretário comenta que a demanda populacional possui a maior importância, seguida da densidade demográfica. “A maioria dos investimentos que nos pedem e nós fazemos não são grandes, como um ginásio de milhares de reais. São investimentos mais simples, como um campo”, diz ele. Esse fator é um reflexo, por exemplo, da quantidade de academias ao ar livre disponíveis pela cidade comparada ao número de estádios. Na conversa, ele ainda cita a criação do Complexo de Esporte e Lazer do Jardim Rosa Branca para exemplificar o critério do número de habitantes, já que esse é um bairro populoso de Bauru.
Alexandre Zwicker, secretário da Semel. Foto: Marcela Evangelista
Além da infraestrutura: acessibilidade, engajamento e inclusão social
Afinal, qual é o propósito dos investimentos em construção e manutenção de infraestruturas esportivas? Entre estimular a convivência social e promover a saúde nas comunidades de Bauru, a aplicação de recursos destaca a finalidade da inclusão social – algo que, para Zwicker, possui um valor “transformador”.
As academias ao ar livre, centros esportivos, estádios distritais e os ginásios poliesportivos são espaços que, de acordo com as verbas direcionadas a cada necessidade infraestrutural, tornam-se espaços de estímulo à prática esportiva. O orçamento destinado às entidades, citado anteriormente, têm priorizado associações esportivas que, além de participarem dos Jogos Escolares, Regionais e Abertos, se encaixam também nas modalidades olímpicas.
A união da transformação e do forte apelo dos Jogos Olímpicos, então, resulta na exploração do critério inclusivo que vem das práticas esportivas. De acordo com o secretário da Semel, “Bauru é uma das poucas cidades em que você encontra quase todas as modalidades em competição”. Alexandre Zwicker também afirma que o município oferece treinos de vôlei, basquete, futebol, atletismo, natação, tênis de mesa, handebol, futsal, boxe, kung fu e skate. Os espaços onde essas modalidades são praticadas são, em sua maioria, cedidos pela prefeitura, sem custos para a população.
Pensar no papel da infraestrutura pública para a promoção da inclusão social através do esporte é pensar, também, na questão da acessibilidade. Da instalação de eletricidade até a facilitação do acesso para pessoas com algum tipo de deficiência locomotora, a acessibilidade é um recurso que ultrapassa as fronteiras da inclusão – tanto social quanto socioeconômica. Durante a entrevista, o secretário afirmou que quatros estádios bauruenses de futebol estão passando por um processo de revitalização, “principalmente os banheiros, com acessibilidade e segurança”. Ainda em sua fala, Zwicker afirma que dois ginásios poliesportivos estão passando por processos de regularização. Dialogando com a área do direito, sua formação acadêmica, ele diz que “na parte da documentação, nenhum tinha; agora tem. Faz oito meses que eu estou regularizando isso”.
Centro Esportivo Sylvio Carlos Simonetti (SYCA), localizado na Avenida Getúlio Vargas. Foto: Sala de Notícia
Espaços públicos para a prática do beach tennis são grandes exemplos de aplicação dos critérios de inclusão e acessibilidade no esporte em Bauru. Ao disponibilizar quadras públicas de areia, como as presentes nas avenidas Getúlio Vargas e Jorge Zaiden, democratiza-se a prática de uma atividade ainda muito elitizada. “Se você tem esse espaço… Cria[-se] engajamento social”, relembra o secretário da Semel, argumentando que, para além da inclusão social, esses locais promovem o lazer e a cultura.
Entretanto, mudanças e renovações efetivas sempre estarão um passo atrás das necessidades do município, e os órgãos públicos estão cientes disso. “Em espaços públicos, tudo que você fizer sempre vai estar atrasado. Sempre dá para melhorar. Sempre dá para você incrementar, em qualquer lugar, não só em praça ou em parque”, sintetiza Alexandre Zwicker.




