Quando o conhecimento ultrapassa a sala de aula
Camila Terra, Emanuelly Teixeira e Nathan Nunes
“A educação existe onde não há a escola e por toda parte podem haver redes e estruturas sociais de transferência de saber de uma geração a outra… Porque a educação aprende com o homem a continuar o trabalho da vida”, com essa fala Carlos Rodrigues Brandão, professor referência nas Ciência Sociais, traz uma reflexão acerca das formas de conhecimento para além dos muros das escolas.
Por vezes, apenas a educação formal, aquela aprendida em escolas e universidades, é tida como conhecimento legítimo, porém, existem outras formas de aprendizagem.
Deize Degrande, graduada em Pedagogia e doutoranda em Educação pela Unesp, explica as três fontes de aprendizagem: formal, não-formal e informal. A primeira tem como principais características a sistematização – divisão de estruturas em níveis de ensino – e o caráter avaliativo.
“Os teatros e bibliotecas são exemplos de fonte não-formal porque existe uma sistematização e objetivos definidos, mas não há cobrança no sentido de avaliações que emitam nota”, coloca a doutoranda.
Já a informal acontece no dia-dia por meio de um diálogo – não sistematizado – mas que gera conhecimentos e contribui para elaboração de um ponto de vista, sendo conceitos aprendidos mas que não se encontram em livros.
“O ser humano que não tem tanto contato com isso – educação informal-, terá uma visão de mundo ‘menos ampliada’ e dificuldades para compreender as significações que tem sobre as coisas”, diz a pedagoga que relaciona a aprendizagem informal com a formação de identidade dos indivíduos.
“Esse conhecimento acaba desaparecendo pois as pessoas não veem importância em cultivar isso”, expõe Degrande que exemplifica, por meio do saber de ervas e sementes medicinais, outrora passados entre gerações, mas que hoje, com a tecnologia e praticidade de buscar informações e ir à farmácia, acabam se perdendo.
Linhas de afeto





Grupo aprende a arte de crochetar enquanto cria memórias – Créditos: Emanuelly Teixeira
Reunidas há mais de 20 anos, grupo de moradoras da região do Núcleo Presidente Geisel, em Bauru, se encontram semanalmente às terças-feiras para realizar trabalhos de crochê. Rita de Fátima Rodrigues, que frequenta os encontros desde o início, revela que no começo o grupo era uma oficina de mães, realizada na EMEF Lydia Alexandrina Nava Cury Ner. Com a necessidade da escola de utilizar mais salas de aulas, o grupo das crocheteiras precisou encontrar um novo local para as atividades, que após pedido para a Secretaria de Cultura, passou a ser a Biblioteca Ramal do Geisel, utilizada até os dias de hoje.
O grupo das Crocheteiras do Geisel não possui professores, a dinâmica funciona com aprendizagem mútua entre as integrantes, que vão aprendendo umas com as outras e tirando dúvidas. “Aqui é uma troca de saber, de experiência, eu ensino para ela o que ela não sabe e eu aprendo com ela alguma coisa”, explica Rita de Fátima Rodrigues. A escolha do que vai ser feito em crochê também parte das próprias participantes, que produzem desde tapetes até roupas e mantas. O destino das peças também varia de acordo com cada integrante, que pode vendê-las, dar de presente ou ainda comercializá-las.
Os encontros do grupo vão além da produção em crochê, as reuniões servem também como espaço para troca de experiências, de receitas feitas, conselhos e desabafos de situações da vida. “O crochê não é só chegar aqui e aprender, mas o carinho, o amor que a gente tem”, comenta Rita de Fátima Rodrigues. Como parte da integração do grupo, em cada encontro é realizado um café antes do encerramento da reunião e outra atividade promovida pelas mulheres é a celebração das aniversariantes do mês.
Sílvia Cardoso Moura conta o papel que o crochê tem em sua vida e como a atividade a ajudou a superar desafios: “Às vezes, no tempo que eu estou em casa sem fazer nada a gente só pensa besteira, hoje não, hoje eu pego o meu crochê, faço e fico feliz da vida. Mudou bastante coisa na minha vida depois do crochê, no grupo de senhoras a gente se reúne e tem um monte de amizade”, revela ela à Trilhos.
Rita de Fátima Rodrigues aponta que, em média, as reuniões contam com 15 pessoas, mas que no começo havia 36, sendo problemas relacionados a doenças o principal motivo da diminuição. As Crocheteiras contam que a forma mais utilizada para a divulgação do grupo é o boca a boca e o convite para amigas. O perfil no Instagram @bibliotecasmunicipais bauru, das bibliotecas do município de Bauru, divulga as ações realizadas nas cinco unidades, entre elas o grupo das Crocheteiras do Geisel.
Pelo olhar do mais velho
“Eu acho que cada um tem uma prática, fora dos estudos tem a prática. É um conhecimento que às vezes o estudante não tem, que vêm da família e ele não estudou, conseguiu porque trabalhou com essas coisas”, opina José Maria dos Santos, de 94 anos, sobre as formas de aprendizado.
“Não, nunca deram valor, pelo menos as autoridades não. O rico não dá valor para pessoa que sabe mas não estudou e isso já é muito conhecido”, responde o mais velho ao ser questionado sobre a valorização desses conhecimentos adquiridos fora dos ambientes formais.
O senhor traz a história de um rapaz com o qual trabalhou junto, o homem era servente mas sabia ler pois o pai tinha lhe ensinado. Sua capacidade chamou atenção e foi levado para uma conversa no escritório.
“Disseram para ele ‘Você tem muito boa leitura, até mais que alguns estudados, mas acontece que você não tem diploma, então isso não simboliza nada’”, relata José que complementa que, caso o rapaz cursasse o ginásio, poderia ser uma pessoa grande na empresa.
Ao ser questionado sobre como se sente ao ver aprendizados decorrentes da educação não-formal e informal serem desvalorizados, o mais velho diz já ter se acostumado.
“Já sei que não dão valor para quem tem conhecimento assim, de prática, de serviço. Com isso já sou acostumado”, relata sobre sua experiência de vida.

Com o passar do tempo, a transmissão de conhecimento sofreu alterações em seu conteúdo e forma. José conta que, quando mais novo, gostava de escutar a conversa dos “mais antigos” e observar. Dessa forma, aprendeu, dentre outras coisas, sobre medicamentos naturais.
“O precisar obriga”, diz o mais velho, que entende que o interesse nos conhecimentos depende da necessidade pessoal. Hoje, com a praticidade da internet e melhoria dos serviços básicos, as opções são diferentes de décadas atrás quando ao adoecer “não havia outro jeito, tinha que fazer o remédio ”, como reconta José.
Arte como conhecimento
Pedro Blanc tem 29 anos e é artista de rua há quase 10 anos. Em entrevista à Trilhos contou que seu primeiro contato com a arte foi por meio do palhaço e do malabarismo, mas que encontrou outras formas de enriquecer seu trabalho com o passar do tempo.
“Eu comecei dentro do ambiente formal, mas acabei seguindo pelas vias do autodidata”, reconstroi Blanc ao relembrar dos seus 20 anos, quando estudava Artes Cênicas na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e conheceu um artista mais velho que era palhaço e desenvolvia malabarismo. A partir dali, ele se apaixonou pelo circo e “largou tudo” para se dedicar à vida de artista.



Pedro em apresentação artística – Créditos: Guilherme Caixeta Andriani
Blanc revela que sempre teve dificuldades com ambientes formais de aprendizagem, porém, mesmo sem ter ensino superior voltado para o campo artístico, se debruça sobre as produções acadêmicas ao ler artigos em busca de aprimoramento.
“Milhares foram os ensinamentos. Posso falar de aprendizados pessoais, sobre o desenvolvimento de caráter que tive ao longo desse tempo trabalhando na rua. Já dentro do teatro, encontrei muitos aprendizados relacionados ao campo de teatro e comédia físicos”, conta o artista.
Atualmente em Bauru, seu principal ofício é como artista de rua, mas também faz parte da Companhia de Circo Vulto e da Companhia de Dança Kaya. Ele considera que essas atividades andam juntas com ensinamentos que podem ser compartilhados entre as práticas.
Blanc cita a fala do ator Ian McKellen – quando ele admite não ter tido conhecimento formal de teatro, mas que aprendeu assistindo peças – para exemplificar a possibilidade do público adquirir conhecimento prestigiando atividades artísticas, modo classificado como educação não-formal.
“São muito poucas as pessoas que veem a arte como um ambiente de pesquisa de fato, como algo de repetição, estudo, leitura e discussão. Não vejo um reconhecimento como espaço do conhecimento”, admite o artista que opina que as pessoas veem a arte mais como uma manifestação cultural, da qual gostam, mas “se negam constantemente a reconhecer os esforços do artista por trás daquilo”.
A associação com as palavras “dom” e “talento” é vista por Blanc como um dos principais fatores para impedir que as pessoas considerem a arte como um campo do conhecimento, uma vez que veem o dom como algo que não pode ser ensinado, dificultando a visão sobre o trabalho por trás da atividade.
Clique aqui para conferir uma das apresentações de Pedro.
Entre livros e pontos de vista
Cinco anos atrás, uma vontade pessoal motivou a criação de uma iniciativa coletiva. “Havia um desejo de algumas amigas em participar de um clube do livro presencial. Não encontrávamos em Bauru, então decidimos fazer o nosso”. É o que conta Aline Planellas, uma das fundadoras do Clube de Leitura Só Mais Um Capítulo.
Desde os primeiros encontros em 2019, todo último sábado do mês, sem um local fixo, o clube se reúne para debater uma nova obra literária, escolhida por meio de uma votação no grupo de WhatsApp. Pelo menos um terço dos mais de 90 participantes comparece com frequência, segundo Aline.




Reuniões do Clube de Leitura Só Mais um Capítulo – Créditos: Aline Planellas
A variedade dos gostos literários pode ser percebida nas escolhas mensais para os debates, que, somente em 2024, foram desde o suspense Misery de Stephen King em janeiro, até a comédia O Auto da Compadecida de Ariano Suassuna em março. “No clube, lemos todos os tipos de livros, então temos uma abertura para falarmos de diferentes assuntos”, explica.
Essa característica tão marcante do clube é também reflexo da educação informal que ocorre na troca de ideias em prosa, essencial para uma atividade como um debate literário. “Ter a oportunidade de ouvir diversos pontos de vista faz com que nossa mente se abra para enxergar situações de forma diferente. Os debates mudam nossos olhares. Eu não diria que a faculdade ou a escola (ambientes formais) não nos proporcione isso, mas talvez seja de uma forma mais limitada”, complementa Aline.




