Entenda como o trabalho dessas instituições pode mudar carreiras
Clara Sganzerla, Isabela Domingos e Juliana Allevato
Atingir o ensino superior é o desejo de muitos no Brasil. Para alguns, a preparação vem desde o início do ensino médio, com muita organização, estudos e diversas idealizações sobre como será alcançar uma vaga em uma das maiores universidades públicas do país. Outros, no entanto, não ultrapassam nem o campo das ideias: cursar uma faculdade não passa, realmente, de um sonho.
Dentro deste cenário, o estado de São Paulo se destaca: segundo dados do Semesp de 2023, a região possui a maior taxa de escolarização líquida da região Sudeste dos jovens de 18 a 24 anos. No setor público, as matrículas chegam aos 283 mil nos cursos presenciais, competindo com quase 1 milhão nas instituições privadas.
Em Bauru, a rede pública e privada totalizam mais de 27 mil matrículas na modalidade presencial, com 25 instituições de ensino superior (IES) disponíveis. Dentro da rede privada, são 19.651 matriculados e, na rede pública, 8.321. Comparado com dados de 2021 do mesmo instituto, tivemos uma queda de 6 mil matriculados no total de ambas as modalidades.
A Cidade Sem Limites também é casa de duas faculdades da Universidade de São Paulo (USP): a Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB), com os cursos de odontologia e fonoaudiologia e, mais recentemente, a Faculdade de Medicina de Bauru (FMBRU).

Nas cores azul e amarelo, o câmpus da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) de Bauru também é um lugar de referência para as Ciências Humanas, Exatas e Biológicas com a Faculdade de Engenharia de Bauru (FEB), a Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC) e a Faculdade de Ciências (FC).

Para concretizar o mundo das ideias e entrar pelos portões dessas instituições como aluno, é necessário muita dedicação e, acima de tudo, oportunidades. Nesse contexto, os cursinhos populares são peças essenciais para essa passagem ao ensino superior, servindo de porta de entrada para alunos que almejam ver o seu nome na lista de aprovados.
Pensando nisso, a Trilhos te convida a conhecer o impacto da educação na vida de alguns estudantes depois de passarem por cursinhos populares dentro das universidades públicas bauruenses.

CALCULANDO TRAJETÓRIA
Nascida em Bauru, Raissa Ronquezelli (20) viu no cursinho popular sua chance de estudar Odontologia em uma universidade pública. A escolha pelo curso veio depois da experiência em um curso gratuito de auxiliar de saúde bucal para pessoas de baixa renda, oferecido no Hospital de Anomalias Craniofaciais da USP-Bauru.
O curso profissionalizante de um ano, realizado pela manhã, permitiu a Raissa ter contato direto com a rotina da odontologia. Paralelamente, ela frequentava à noite o Sapiens, cursinho popular pré-vestibular da FOB, onde ficou ainda mais ligada à área e à faculdade.
A rotina intensa de estudos, combinada com uma longa distância de casa, por vezes foi desafiadora para a jovem, que usava todo seu tempo livre para treinar questões de provas. “Quando eu comecei a estudar para o vestibular foi tudo muito intenso, fazia o curso profissionalizante de manhã, voltava para casa, que era longe. Foi um período que exigiu bastante de mim”, relembra.

Apesar disso, Raissa reconhece que o Sapiens foi um divisor de águas para sua carreira. Ministrado por alunos, o cursinho fez ela sentir que a universidade pública também seria para ela. “Lá eu via matérias que eu nunca tinha visto nem mesmo no meu ensino médio. Estar no ambiente em que você sonha estar faz com que a gente se sinta mais próximo dessa realidade que parece tão distante”.
Ela conta que, na sua realidade, nunca teria condições de se preparar adequadamente para as provas se não fosse essa iniciativa.“Eu passava em frente à USP e pensava ‘qual a chance eu tenho de fazer parte disso?’ mas estando ali, participando do Sapiens, ouvindo relatos dos estudantes, que são as pessoas que nos dão as aulas e falam com mais propriedade de como é o vestibular, eu me sentia cada vez mais capaz de enfrentar. E, assim, já fazia parte disso de alguma forma”, comenta.
Veterana, ela fala da sua vontade em futuramente ministrar aulas no Sapiens e dar continuidade ao projeto. “Eu quero que cada vez mais pessoas que tiveram a mesma realidade que eu possam fazer parte desse mundo, o mundo da USP, que é incrível. É a realização de um grande sonho!”, finaliza.

Uma outra bauruense que conheceu o trabalho dos cursinhos populares da cidade foi Giulia Grandini (26). Depois de não ter sido aprovada em engenharia química após o fim de seu ensino médio, a estudante precisou recalcular a rota e, em uma pesquisa pelo Facebook em 2016, conheceu o Principia.
Surpreendida pela gratuidade do serviço e, sem saber dos projetos de extensão da UNESP ofertados para a comunidade, Giulia prestou o processo seletivo e foi aprovada – apenas o início de uma relação com a universidade que duraria oito anos.
Durante seu período na preparação pré-vestibular, a pesquisadora ressalta a riqueza da experiência: “ […] Não só me permitiu descobrir o que gostava de verdade, mas também a conhecer o valor das instituições de ensino. As salas tinham alunos diversos e as aulas eram planejadas para atender a todos. Isso demonstra um tato e um enorme compromisso pela educação.”

Após se graduar em química, Giulia continuou pela UNESP para seu mestrado em 2022 e, atualmente, faz doutorado pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Em entrevista à Trilhos, ela agradece a oportunidade que o cursinho a ofereceu de conhecer o ambiente acadêmico e universitário com os professores do Principia, que a fez descobrir o amor pela pesquisa.
Ao ser questionada sobre a importância do ensino público na sua trajetória, Grandini ressalta: “Depois da minha experiência no cursinho e do meu ingresso na faculdade, decidi dedicar minha carreira a pesquisa e extensão para retribuir a comunidade o mesmo que me foi ofertado quando eu fiz o cursinho popular.”
Além dos futuros professores terem contato com o ambiente da sala de aula cedo, a pesquisadora também ressalta que os cursinhos são um passo importante para a entrada nas universidades. “Para mim, como aluna, foi uma experiência que moldou toda a minha trajetória até aqui.”
ABRINDO CAMINHOS

Organizados e administrados pelos próprios alunos, os cursinhos populares pré-vestibular, oferecidos pela USP (Universidade de São Paulo) e Unesp (Universidade Estadual Paulista) têm o intuito de preparar jovens de baixa renda para encarar as principais provas do país que dão acesso ao ensino superior.

QUANDO A FACULDADE ROMPE MUROS
Os projetos de extensão universitária são uma das formas mais eficazes de integrar a universidade junto à comunidade, isso porque, a partir dele todo conhecimento absorvido pelos estudantes por meio do ensino e da pesquisa desenvolvidos na instituição são devolvidos ao seu público externo.
Segundo o Professor Doutor e vice-diretor da FAAC (Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design), Juarez Tadeu de Paula Xavier essa é uma prática que beneficia os dois lados.
“Os projetos têm potencial para a inclusão da sociedade na Unesp, mas da Unesp na sociedade. É uma via de mão dupla, na construção de uma ambiência de troca de ideias, informação e saberes compartilhados”, diz.
Apesar de inovador, a extensão universitária já está em ação há mais de uma século. Ela passou por diversas mudanças, mas a proposta do Conselho Nacional de Educação (CNE), de 2018, com a aprovação das diretrizes da extensão universitária, modificou profundamente a orientação sobre essa dimensão universitária, consolidando a indissociabilidade, aprovada na Constituição de 1988.
Para o professor, tais projetos têm a finalidade de apresentar uma solução para a comunidade bauruense, sendo a mais eficiente plataforma de ação política da universidade com a sociedade.
“Os projetos pela natureza de enxergar um problema, têm um período determinação de execução, entre de 12 a 24 meses, debatê-lo com a sociedade e outros entes sociais, como governos e ONGs, ter objetivo, metas e ações compartilhadas, assim como os programas, que são de longa duração, têm grande potencialidade social, inclusive para a aprovação de políticas públicas, que darão continuidade ao que foi iniciada na universidade”, ressalta.
No campus de Bauru, onde se concentram os cursos como engenharia, comunicação, ciências, entre outros, existem diversos projetos correlatos às disciplinas da graduação e que contemplam os discentes de todas as áreas .
Nesse segmento, Antonio Vinicius Santos (20), aluno de Jornalismo, faz parte do RUV Podcasts. Apaixonado pelo rádio, ele conta que fazer parte do projeto deu muito mais segurança para atuar na área e conquistar uma vaga como repórter na Rádio Auri Verde de Bauru.
Para além da sua carreira, Antônio ressalta a importância do projeto como fomentador da cultura no município. “Acredito que a RUV, além de ajudar os estudantes que dela fazem parte a ampliar horizontes e habilidades no jornalismo, também leva para o público interno e externo da Unesp conteúdos de qualidade sobre esportes, entretenimento e jornalismo, debates muito ricos e que exigem muito estudo, além de incentivar o esporte e a cultura local, como nas coberturas in loco que o projeto faz em jogos de Vôlei, futebol, basquete e grandes eventos culturais”.
Sobre o futuro, o jovem acredita que o projeto possa se expandir com muitas mais atividades para a comunidade de Bauru. “Pretendemos oferecer oficinas para a comunidade, em escolas, sobre como produzir um podcast, assim, incentivando a criatividade e oferecendo alternativas para que os jovens possam colocar suas ideias e sonhos em prática nesse formato que já está consolidado no mercado da comunicação”, destaca.




