Saiba como a cidade do centro-oeste paulista trata a mobilidade urbana voltada para pedestres e ciclistas

Apurado por Júlia Hilsdorf e escrito por Tharek Alves

As pessoas que se utilizam de meios de transporte ativos ainda são muito prejudicadas pelo planejamento urbano (Foto: Guilherme Matos)

Os meios de transporte ativos, ou seja, aqueles que não exigem motor para funcionar, costumam ter menos visibilidade na hora do planejamento da mobilidade urbana, fato ocorrido principalmente pela hipervalorização dos veículos motorizados. O modo a pé e o ciclismo são importantes meios de locomoção da população e, quando valorizados em uma cidade, acabam por virar grandes aliados da saúde, do meio ambiente e da mobilidade urbana.

Calçamento de qualidade, faixas de pedestres bem localizadas, semáforos que permitem a passagem de pessoas pela faixa e oferecem tempo suficiente para atravessar são alguns dos muitos fatores que podem oferecer maior segurança às pessoas que andam a pé. Entretanto, devido a cultura da desvalorização do pedestre, fatores que influenciam negativamente na experiência diária são vistos como cotidianos, e passam a ser ignorados pelas pessoas.

O mesmo ocorre com o ciclismo. Ainda que cidades de grande porte tenham melhorado sua estrutura para atender a esse meio de transporte, ainda há muito o que aprimorar em municípios de menor porte. A falta de ciclovias e ciclofaixas somada à falta de conscientização dos motoristas colocam em sério risco a vida dos ciclistas.

Sendo a maior cidade do centro-oeste paulista, Bauru não foge disso. Mesmo que tenham ocorrido melhorias, principalmente a partir de 2019, com a instituição do Plano de Mobilidade Urbana de Bauru (PLANMOB), a infraestrutura ainda peca na hora de levar mobilidade para ciclistas e pedestres. O Plano foi criado para assegurar medidas que possam melhorar a qualidade dos “modais ativos”. Segundo o DECRETO Nº 14.446, DE 22 DE NOVEMBRO DE 2.019, foram considerados 3 objetivos gerais principais para o desenvolvimento urbano voltado para ciclistas e pedestres, sendo eles:

I. Prioridade dos modos de transporte ativos sobre os motorizados; 
II. Reconhecimento e valorização da bicicleta como meio de transporte urbano; 
III. Reconhecimento e valorização do transporte a pé. 

Com base nesses objetivos, medidas foram adotadas e realizadas pela prefeitura bauruense, porém, é necessário atenção para saber se essa aplicação vem sendo suficiente para população e se tem sido realizada de maneira correta.

Bauru para pedestres 

Segundo a Associação Nacional de Transporte Público (ANTP), o ato de andar também é considerado meio de transporte e usado com exclusividade por 36% da população brasileira. Somado a isso, os serviços públicos têm obrigação de garantir a mobilidade urbana, considerada como serviço básico e direito de todo cidadão. 

Falta de calçamento ou, quando presente, em situação de irregularidade, ocorrem em diversos trechos da Avenida Nações Unidas, em frente ao Parque Vitória Régia, local de grande movimento e fluxo de pedestres. Uma região tão movimentada e frequentada apresentar deficiências tão básicas alertam como o planejamento de mobilidade de Bauru merece uma melhor aplicação para as pessoas que caminham pelas ruas.

Corroborando com isso, Erik Mulato, Presidente do Conselho Municipal de Mobilidade, reconhece que a empresa responsável pelas calçadas da cidade não tem colocado como prioridade o calçamento em localidades amplamente utilizadas por pedestres, e como isso afeta negativamente quem se locomover a pé “A gente tem que priorizar o pedestre justamente em lugares onde a maioria das pessoas estão usando”, diz ele. 

Além da qualidade das calçadas, outro fator que corrobora para a melhoria da situação é a conscientização, tanto de motoristas quanto de pedestres. Difundir o conhecimento para que se respeite as leis de trânsito, assim como mostrar os perigos gerados pelas imprudências, são artifícios que, quando somados às outras medidas, garantem menos chances de ocorrência de acidentes e fatalidades.

Segundo dados da EMDURB, nos últimos 10 anos, houve uma queda de 30% em relação a média do número de atropelamentos, o que evidencia uma efetividade nas ações realizadas pela prefeitura. Tornar as ruas um lugar propício para pedestres é investir na qualidade de vida da população, permitindo não só que o deslocamento dentro da cidade seja realizado a pé, como também propiciando uma opção de transporte econômica, ecológica e saudável, evitando  a superlotação de veículos.

(Fonte: EMDURB)

Bauru para os ciclistas

Atualmente Bauru possui 13,1 km de ciclovias, 9,5 km de ciclofaixas e 6,3 km de ciclofaixas de lazer, que somados resultam em 28,9km, de acordo com dados da prefeitura. Segundo descrito no Plano Municipal de Mobilidade de Bauru, as ciclovias totalizariam 223,3 km de extensão. Como é perceptível, a cidade ainda está muito longe do ideal que se planeja. Vamos entender melhor qual a diferença entre cada um dos termos citados e como eles impactam de maneira diferente na mobilidade ciclística?

Bauru e seu complexo de ciclovias (Fonte: Prefeitura de Bauru)

Primeiramente, ciclofaixas e ciclovias são trechos destinados ao uso de bicicletas. Ambas podem ser unidirecionais ou bidirecionais, mas as ciclovias se encontram separadas fisicamente do tráfego de veículos automotores, como por exemplo, no canteiro central da Avenida Nações Unidas, na extensão da quadra 43. Já as ciclofaixas se encontram no mesmo nível das ruas de circulação de carros, motocicletas e ônibus, sendo uma opção que oferece mais riscos ao ciclista, enquanto a categoria de ciclofaixas de lazer, são rotas convertidas em vias para ciclistas apenas em finais de semana e feriados, mas que no resto da semana são utilizadas para a circulação de automóveis ou estacionamento, como é o caso das ciclofaixas da Avenida Getúlio Vargas. 

Sabendo disso, é possível afirmar que mesmo com uma extensão menor do que o planejado, as vias para bicicletas atuais apresentam qualidade? Para Fernando Verones (56), bauruense que pratica o ciclismo na cidade, as condições estão longe do ideal. Ele e sua família passaram a optar por trilhas de terra devido ao perigo oferecido para o usuário de bicicletas nas vias urbanas. “Bauru tem uma ciclovia disfarçada. Na verdade, a gente não tem ciclovia, a gente tem faixas pintadas no chão que não servem pra nada. Os carros estacionam (na ciclovia), você tem que desviar. Se você vai para rua, corre o risco de ser atropelado”, diz o ciclista, que completa: “A gente não sente segurança de pedalar na cidade. Mesmo nos locais onde a ciclovia aparentemente é melhor sinalizada, você corre  sério risco ao andar de bicicleta”.

A Av. Moussa Tobias é uma das vias de Bauru que apresenta ciclofaixa, porém de maneira não segura aos ciclistas (Foto: Priscila Medeiros/Prefeitura de Bauru)

A falta de integração entre as ciclovias é outro sério problema da mobilidade urbana bauruense, pois ele limita o uso da bicicleta somente em sua extensão, e as pessoas que a utilizam como meio de transporte, não apenas de lazer, saem prejudicadas. Mesmo que garantido no Art. 58 do Código de Trânsito o direito do ciclista usar as bordas das vias quando relatada ausência de faixa específica, ainda há grande desrespeito por parte dos motoristas, que não respeitam a distância mínima  de um metro e meio, exigida pelo Código, como também tentam afrontar os usuários de bicicletas através da buzinadas.

Outro ponto que não pode ser excluído quando se pensa na mobilidade urbana é o local para se prender as bicicletas. Quando utilizada como meio de transporte, a pessoa necessita de um lugar adequado para que se possa deixar a bicicleta estacionada com segurança e sem interditar as vias pedestres. Mesmo que pareçam pequenas, a presença delas é imprescindível para que o uso de bicicletas como meio de transporte seja viável.

Com a aplicação cada vez maior do que é planejado pelo PLANMOB, a cidade de Bauru tem grande potencial para atender à parcela da população que opta pela mobilidade ativa. Permitir uma locomoção segura e acessível de maneira sustentável e saudável deve estar sempre dentro dos objetivos procurados pela gestão municipal.

Tendência