Apesar de uma queda expressiva nos indicadores de ocorrências no trânsito nos últimos 10 anos, a cidade ainda registra números elevados de acidentes e vítimas fatais
Apurado e escrito por Marina Barrelli de Carvalho

Um mapeamento de trânsito feito pela Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (EMDURB) referente aos primeiros três meses de 2024 aponta um índice alarmante: de janeiro a março, foram documentadas 546 ocorrências de trânsito. Desse total, 262 casos envolveram vítimas. Na última atualização, do dia 08 de abril, os dados indicaram que 10 foram vítimas fatais. Além disso, todas eram do sexo masculino e conduziam carro ou moto.
Quando comparado com o mesmo período do ano passado, é possível notar um aumento dessas ocorrências:

Dados: EMDURB.
Essa análise, ainda que de períodos curtos, induz dois questionamentos: sempre foi assim em Bauru? Quais são as razões desse aumento? Para responder essas perguntas, é importante entender alguns aspectos do trânsito da cidade e como sua evolução impacta os indicadores de acidentes.
Progressão do número de acidentes
A realidade é que o número de ocorrências de trânsito em Bauru caiu anualmente. Em 2013, a cidade totalizou 7.340 acidentes de trânsito, enquanto que em 2023, uma década depois, o número foi de 1.992 casos (dados da EMDURB Bauru).

Segundo Erik Mulato, atual presidente do Conselho Municipal de Mobilidade de Bauru (CMM), uma possível razão para a queda desse tipo de ocorrido é a realização de campanhas de conscientização.
Em maio de 2017, por exemplo, foi lançada uma campanha pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran-SP) de São Paulo, com o tema “Foca no Trânsito”, em apoio ao Maio Amarelo — um movimento internacional de conscientização para redução de acidentes de trânsito. A “Foca no Trânsito” mobilizou todo o estado, inclusive Bauru.
Segundo o texto de divulgação da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), “equipes da Polícia Militar, do Corpo de Bombeiros, da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (EMDURB), do Detran-SP e o deputado Celso Nascimento (PSC) participaram da distribuição de folhetos educativos a motoristas e pedestres que passaram pelo cruzamento do Calçadão da Batista de Carvalho com a rua Rio Branco entre 10h e 12h”.

A iniciativa tinha como objetivo reduzir em 50% o número de mortes no trânsito até 2020. Mas, isso não foi alcançado, pois como mostra o gráfico a seguir, o número de mortes apenas cai entre 2017 e 2018, e logo volta a subir, entre 2018 e 2020. Esse aumento percentual foi de 125% no número de vítimas fatais em acidentes de trânsito.

Novos motoristas e circulação de veículos
Apesar do decréscimo, o número de acidentes em Bauru é um problema, e para pensar em soluções é necessário compreender os fatores que impactam os índices. Dois pontos de análise que são relevantes correspondem aos números anuais de novos condutores na cidade, além da frota de veículos em circulação.
A partir de dados fornecidos pelo Detran-SP, é possível notar um aumento das emissões de CNH entre os anos de 2019 e 2023:

Dados: Detran-SP.
Ou seja, apesar das quedas durante os anos de pandemia (de 2020 até 2022), a alta procura pela habilitação é evidente e um fator de mudança nos números de ocorrências de trânsito. Isso porque quanto mais motoristas estiverem circulando na cidade, a chance de acidentes acontecerem também pode aumentar.
Essa ideia também pode ser pensada quando se considera a frota de carros e motos em circulação. Acompanhe a seguir a evolução nos números da frota, segundo dados fornecidos pelo Detran-SP:


*Estão inclusos os tipos de veículos: ciclomotor, motociclo, motoneta, quadriciclo e triciclo.
Ainda que com um crescimento moderado, também é possível relacionar o aumento da frota de carros e motos com o número de ocorrências de trânsito. Quanto mais veículos e motoristas estiverem em circulação na cidade, a implementação de novas medidas de infraestrutura e educação no trânsito impactam positivamente o cenário alarmante de acidentes.
Visão dos condutores
Rose Luciene, de 61 anos, mora em Bauru desde 1987. Atualmente, é aposentada e não costuma utilizar carro ou moto para se locomover na cidade. Porém, Rose utilizava uma moto como seu meio de transporte, desde quando morava em sua cidade natal, Lins. “Eu fazia as coisas de moto. Viagens, dirigia normalmente, nunca tive nenhum acidente. Aí, eu vim para Bauru, onde ocorreu o [meu primeiro] acidente de moto”, relata.
Rose estava há alguns meses na cidade e no dia ela dirigia no Centro. Em um certo momento, um senhor que conduzia um carro cruzou sem utilizar a seta, entrando bruscamente na frente de Rose. Para que ela conseguisse parar e não colidisse com o veículo, Rose desviou rapidamente, se desequilibrou e caiu ficando com a perna presa no escapamento da moto. Além de sofrer uma queimadura, também acabou sendo banhada por gasolina. “Foi uma coisa boba, mas foi o início [da vivência] com o trânsito irracional de Bauru”, relembra.
Na visão de Rose, mesmo após mais de 30 anos desde seu acidente, a cidade continua enfrentando um trânsito problemático. Em entrevista, ela relata que já presenciou outros acidentes e que também conheceu pessoas que se envolveram em ocorrências, todos aqui em Bauru. “Cada vez está ficando pior”, desabafa.
Casos recentes
Dentre as vítimas fatais de acidentes dos 100 primeiros dias de 2024, estava Wanderley da Silva Cardoso. No dia 06 de abril, noite de sábado, o motociclista colidiu de frente com um Fiat Uno, no cruzamento da quadra 5 da rua Bertholdo do Carmo entre o Mary Dota e o Jardim Ivone. Wanderley tinha 53 anos e foi resgatado pelo SAMU, mas faleceu a caminho do Pronto-Socorro Central.
Dentro do carro, estavam um motorista de 42 anos, que sofreu ferimentos leves em um dos braços e uma passageira, de 51 anos, que não teve lesões.
Conselho Municipal de Mobilidade
O CMM é constituído como um órgão consultivo e atualmente busca entender as estratégias que auxiliam no fluxo de mobilidade ativa em Bauru. Quanto ao olhar para a circulação de veículos na cidade, o Presidente do Conselho, Erik Mulato explica: “É procurar ter uma estrutura que traga segurança, conforto e baixa velocidade”.
Atualmente, uma das principais pautas do órgão é a intervenção nos limites de velocidade, uma vez que a maioria dos atropelamentos e acidentes ocorrem quando motoristas dirigem em alta velocidade. Erik aponta que “estatisticamente é comprovado que, se a velocidade é reduzida, além do trânsito fluir melhor pois as velocidades são compatíveis, a segurança também é trabalhada”.
Outro ponto que Erik Mulato faz é referente a necessidade da criação de uma Secretaria de Mobilidade, dentro da estrutura da Prefeitura de Bauru. Segundo ele, “ela iria estabelecer todos os parâmetros de trânsito na cidade”. Esse apontamento feito pelo Presidente do Conselho refere-se, também, à atuação má definida que a EMDURB possui dentro do cenário de mobilidade urbana de Bauru. Ainda que a empresa implemente melhorias relacionadas ao trânsito, como sinalização, e também realize a fiscalização (a partir da atuação do Grupo de Operações de Trânsito, o GOT), a EMDURB é uma empresa prestadora de serviços da cidade, e não é inteiramente responsável pela manutenção da infraestrutura de mobilidade urbana.
Futuro do trânsito em Bauru
Ainda que o ano de 2024 esteja no início, é importante buscar uma reversão desde já dos indicadores de ocorrências de trânsito, principalmente visando uma queda no número de mortes. Erik Mulato reforça a necessidade da criação de um órgão que cuide, especificamente, da mobilidade urbana em Bauru, evitando a sobrecarga de outras entidades e setores.
“É no ensino [desde] pequeno, usando um triciclo. Porque aquilo que você aprende criança, você nunca mais esquece”, destaca Rose, ao explicar que a educação de trânsito é um fator que muda o quadro de acidentes.




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