Veja o que está sendo feito para melhorar o trajeto de milhares de passageiros que usam o sistema todos os dias

Apurado por Luana Brusiano e escrito por Guilherme Siqueira

O transporte público tem sido um dos principais focos de investimento nas mais importantes cidades do mundo, seja nas capitais europeias com seus bondes, Tokyo com seus trens de alta velocidade ou mesmo na China, onde as estações de metrô são construídas antes das cidades se desenvolverem. Os altos índices de urbanização e o aumento da densidade populacional fazem a questão ser ainda mais urgente: como comportar milhares de pessoas, que precisam ir do ponto A ao ponto B, sem ter de enfrentar um congestionamento infinito?

A solução que Bauru, uma cidade de mais de 370 mil habitantes, propôs para este problema foram os ônibus. Eles são relativamente baratos e fáceis de se instalar em comparação com outras modalidades de transporte, como trens e metrôs, mas se não forem bem gerenciados, o que poderia ser uma vantagem vira um problema na vida do trabalhador, que muitas vezes se sente inferior por não ter um carro e que pode passar a enxergar o ônibus e o transporte público em geral como um símbolo de pobreza e falta de liberdade, e não como uma alternativa ecológica e eficiente.

Administração

Em Bauru, o sistema de ônibus é gerenciado pela Transurb (Associação das Empresas do Transporte Coletivo Urbano de Bauru), fundada em 2002, e pelas empresas associadas, Grande Bauru e Cidade Sem Limites, que operam juntas mais de 200 veículos, e atendem mais de 32.000 passageiros todos os dias. Toda a organização do transporte público é prevista na Lei Nº 4035, de 11 de março de 1996, que define sobre a prioridade do transporte coletivo sobre o individual, sua provisão, e sua qualidade, incluindo conforto, rapidez, e segurança. 

Mas, na prática, muitas das linhas andam acima da capacidade máxima, os ônibus não possuem ar condicionado, e o preço das passagens não agrada. É o caso, por exemplo, das linhas 32 e 88, Unesp/Camélias e Falcão ITE, como relata Pedro Goes, estudante universitário da Unesp: “Principalmente a quantidade de horários, acho que isso é uma questão falha. A parte da manhã eu acredito que funciona um pouco melhor, a partir das 6h30 passa um de 30 em 30 minutos.” Pedro é o administrador de um grupo em que os usuários da linha usam para se orientar quanto aos horários, uma vez que os oficiais não batem com a realidade, muitos deles apelidados de “Ônibus Fantasma” por existirem nos apps, mas nunca realmente passarem nos pontos.

“Eu criei pra ficar algo meio fechado, só a gente, o grupo da galera que usava da minha sala, só que isso foi escalonando.” Ele diz sobre a fundação do grupo que hoje tem mais de 300 membros. “Eu acho que isso mostra que existe esse senso de comunidade”. Pedro não só organizou o grupo, como também mobilizou uma pressão por mudanças. O estudante também organizou e enviou a Transurb um formulário para definir as principais exigências e demandas dos colegas em relação ao ônibus, “É um intervalo muito grande entre um ônibus e outro e nem sempre todas as aulas vão acabar só às 23:30, a pessoa vai chegar em casa lá pela meia noite, dependendo de onde ela mora, então a galera tentou se juntar, só que no fundo não mudou muita coisa, o noturno continua sendo o principal prejudicado quanto ao uso do transporte público no geral, além de ser muito mais perigoso andar de ônibus à noite”.

Em 2014 houve uma tentativa de elaborar um novo plano que incluía revisão de trajetos e reformulação de linhas. O Plano de Modelagem do Transporte Público trazia também a possibilidade de melhorias nos veículos, como ar condicionado e WiFi gratuito, além disso, o projeto também citava melhoria nos pontos de parada, uma vez que muitos deles não possuem cobertura. Porém, a realização do projeto necessitaria de um estudo aprofundado e não foi completamente implementado.

Segundo Erik Mulato, Presidente do Conselho Municipal de Mobilidade, este tipo de plano não é simples de ser feito, já houve estudos sobre VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) e Trens, mas para chegar à fase de obras ainda existe um longo e burocrático caminho. “Se você tem o edital aberto e não tem o projeto, esquece, não vai funcionar. Você tem que ter o projeto pronto e para pleitear o edital”, disse ele em entrevista.

Erik também conta sobre as dificuldades de se pensar em novos meios de incorporar as novas tecnologias no sistema de transporte bauruense: “A gente imagina que se tivesse uma secretaria de mobilidade, daria para trabalhar em parceria, comparado à experiência de outras cidades, por exemplo, nós conseguimos ter um panorama maior, estamos engatinhando com muita coisa. A questão do passe eletrônico aqui foi uma evolução, porque às vezes dentro de uma hora e meia, com uma tarifa, você consegue chegar no seu ponto.”

A Transurb é responsável pela venda dos passes de ônibus (Foto: Site Transurb)

Acessibilidade

Segundo a Transurb, “o transporte coletivo urbano de Bauru é 100% acessível a pessoas com deficiência de mobilidade. Todos os veículos das empresas Grande Bauru e Cidade Sem Limites dispõem, desde 2011, de plataforma elevatória e nichos internos para fixação de cadeira de rodas. Todos os assentos dos ônibus são também preferenciais para deficientes não-cadeirantes, bem como para gestantes e idosos. As pessoas com deficiência têm gratuidade total no transporte coletivo.” 

Para conseguir a gratuidade o usuário deve se direcionar à Sebes (Secretaria de Bem-Estar Social) para então serem encaminhadas para a loja da Transurb, onde conseguirão o Passe Cidadão. As operadoras de transporte da cidade ainda contam com quatro vans que fazem o transporte porta à porta para pessoas com deficiência grave ou múltipla, ou que estejam acamadas.

Estrutura e pessoal

Bauru não conta com um terminal de ônibus centralizado como muitas cidades de tamanho similar possuem, os veículos aguardam nos pontos finais das suas respectivas linhas antes de fazer o trajeto oposto. A maioria das conexões é feita no centro da cidade, na avenida Rodrigues Alves, que serve como um terminal informal para quem precisa de mais de dois ônibus para se deslocar para a cidade. Alguns dos pontos de ônibus não possuem cobertura adequada, sendo apenas sinalizados.

Os motoristas dos ônibus executam dupla função, uma vez que além de dirigirem os ônibus operam o caixa, cobrando a passagem ou identificando os cartões de estudante. Isso vem acontecendo desde os anos 2000, quando a empresa responsável pelos cobradores perdeu a licitação. Este fator ajuda a atrasar as viagens uma vez que além de se sobrecarregarem, eles precisam transferir a atenção total do trajeto para o passageiro, e, dependendo do caso, esta ação pode ser arriscada, já que alguns pontos ficam em vias movimentadas, como a Avenida Nações Unidas.

Planilha do cálculo tarifário realizado em Julho de 2023 (Fonte: Emdurb)

Investimento

O preço da tarifa comum é de 5,00 reais, e é calculada pela Emdurb (Empresa de desenvolvimento urbano e rural de Bauru), com base nas despesas como salários, combustível e reparos. A passagem é gratuita para pessoas com deficiência e cidadãos com mais de 60 anos, desde que estes apresentem um documento durante o embarque. Para os estudantes do ensino fundamental ao superior a tarifa é de R$2,50 mediante o uso do cartão específico, emitido pela Transurb na loja.

Apesar do valor das passagens ter um peso grande no orçamento das famílias, não se nota grande investimento no transporte público, a começar pelos modais escolhidos, uma vez que as possibilidades são infinitas. E não estamos nem falando em veículos como metrôs ou monotrilhos ultra futuristas, que são caros e complicados de instalar, um sistema de BRT ou mesmo uma simples faixa exclusiva nas principais vias poupariam um tempo precioso.

A Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos – NTU diz que instalar este tipo de solução demanda em torno de 100 mil a 500 mil reais por quilômetro, o que é muito mais barato do que um trem ou metrô. Há quem pense que sistemas como estes se destinem apenas às capitais, mas cidades do interior do estado, como Campinas, já operam projetos do tipo. Santos, cidade natal de Pedro, entrevistado acima, não só possui ônibus com WiFi e Ar Condicionado, como também conta com o VLT, tudo isso em uma cidade litorânea com uma população pouco maior que a de Bauru. Mas os últimos governos da cidade parecem ter priorizado os carros e o transporte individual, contradizendo a lei que deveria ser a base de toda a política pública sobre o tema, citada no começo da reportagem.

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