As estações ferroviárias auxiliaram no crescimento do município no início dos anos 90

Flávia Carvalho, Flávia Gracinda e Juliana Fusco

NOB nos anos 80 / Imagem de reprodução: Facebook: A Bauru que não vivi

Fundada em 1º de agosto de 1896, Bauru é repleta de histórias que começaram bem antes de se tornar a cidade de hoje. Conhecida por ser a cidade do lanche e a cidade dos trilhos, Bauru tem também suas raízes indígenas. 

Antes de ser Bauru, era Espírito Santo da Fortaleza e habitada por indígenas das tribos Kaingang, Guaranis e Otis, cada uma em uma parte da região. A ameaça de vida às três tribos começou quando os desbravadores, vindos de Minas Gerais, procuravam viver uma nova vida após o declínio da mineração.

A estadia dos mineiros não foi fácil, eles só conseguiram permanecer após os desbravadores do Rio de Janeiro se estabelecerem na região e conter os ataques indígenas. Isso ocorreu por volta do século XVII, com a ajuda da indígena Vanuíre, que já tinha contato com os não-indígenas, intermediou a relação entre os povos e conseguiu uma trégua nos ataques. 

Estação Val de Palmas construída em 1909 / Imagem de reprodução: Nilton J. Gallo – Estações Ferroviárias

O processo de povoamento da cidade não começou na época em que as estações ferroviárias foram construídas, mas no período em que os colonos e os desbravadores descobriram as terras da antiga Espírito Santo da Fortaleza. Os primeiros habitantes não-indígenas chegaram em 1850 e se firmaram em volta do Ribeirão Bauru e do Córrego das Flores. 

Em 1895, a produção de café, que era forte no país, chega à cidade e tem como espaço a Fazenda Val de Palmas, considerada a maior fazenda produtora de café do mundo. A mão de obra utilizada na fazenda era estrangeira, principalmente de italianos e espanhóis. A partir daí o processo imigratório começou na cidade. Os imigrantes chegavam em Jaú por meio dos trens e eram levados até a fazenda em carros de bois.

Na época a cidade era alvo de aventureiros e pessoas que vinham com o objetivo de ganhar dinheiro. Os imigrantes, ao vir para Bauru, tinham como objetivo trabalhar nas fazendas de café e se estabelecerem economicamente. Uma vez fortalecidos financeiramente, eles partiam para a cidade e construíam suas lojas. Em paralelo, os imigrantes árabes e libaneses desenvolveram aqui a cultura do mascate e iam de fazenda em fazenda realizando suas vendas. 

Trem de passageiros na estação central de Bauru na década de 1940 / Imagem de reprodução: Museu Ferroviário Regional de Bauru

Quatro anos depois da fundação de Bauru, em 1900, as pessoas adentraram a cidade pela Rua Floresta, como é conhecida hoje, que era apenas terra. Residiam na Rua Araújo Leite, que na época era conhecida como Viradouro de Bauru. Anos à frente, em 1904, engenheiros e operários chegam à cidade para criar e construir a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil – NOB, que ligava Bauru a Mato Grosso. Dois anos depois, em 1906, a ferrovia foi inaugurada e deu início ao processo de expansão da cidade. 

Um dos objetivos da ferrovia era povoar a região. Com a sua construção ao menos 3 mil operários chegaram à cidade e depois dela a quantidade de pessoas cresceu. Na época, não era só a NOB que existia como ferrovia, mas também a Estrada de Ferro Sorocabana, desde 1905, e a partir de 1910 a Companhia Paulista de Estrada de Ferro, que contribuíram ainda mais para o povoamento da cidade.

Com o passar do tempo, mais imigrantes chegaram à cidade com sua cultura junto e  contribuíram para a Bauru que é conhecida hoje, com hospitais e prédios que hoje são relíquias, como a Casa Lusitana, e a forte tendência culinária presente em diversos lugares da cidade. 

Você sabe quais são os tipos de vistos concedidos aos imigrantes?

O visto é um documento que dá ao titular a possibilidade de entrar em um território nacional e precisa ser concedido antes da sua entrada. Porém, há exceções para os visto diplomático, oficial e de cortesia, que podem ser concedidos no Brasil.

Ele pode ser concedido por embaixadas, consulados e escritórios comerciais e de representação do Brasil e no exterior, desde que sejam autorizados pelo Poder Executivo.

Existem cinco tipos de vistos concedidos pelo Brasil:

Visto de visita: é concedido à pessoa que não tem intenção de estabelecer residência e vem ao país para estadias de curta duração. Logo, a esse é vedado o exercício de atividade remunerada, mas que pode receber cachê ou ajuda de custo, por exemplo. 

Visto temporário: esse é destinado para imigrantes que pretendem ficar por um tempo determinado e que se adequa em algumas das condições: estudo, tratamento de saúde, trabalho, serviço voluntário, reunião familiar ou atividades artísticas ou desportivas que tenham contrato com prazo determinado. 

Visto diplomático: é concedido a autoridades e funcionários estrangeiros que tenham esse status e venha ao país representando o governo de seu país de origem.

Visto oficial: concedido a funcionários administrativos estrangeiros, que podem vir ao Brasil em missão oficial ou sob chancela de seus Estados.

Visto cortesia: concedido a personalidades e a autoridades estrangeiras que venham ao país em viagem não oficial e que podem ser concedidas aos familiares do estrangeiro.

Quantos imigrantes vieram para Bauru nos últimos dois anos?

Nos tempos atuais, Bauru continua sendo a escolha de cidade para muitos imigrantes. No ano de 2022, o município registrou a entrada de 884 imigrantes, enquanto em 2023 o total foi de 921, totalizando 37 pessoas a mais que no ano anterior. Até março de 2024, a cidade contava com 179 imigrantes registrados.

Fonte: SISMIGRA

Em 2022, 754 pessoas vieram da América do Sul.

Fonte: SISMIGRA

Mais especificamente, eles vieram do Equador.

Fonte: SISMIGRA

Dos 884 imigrantes que chegaram à cidade, 36 solicitaram vistos provisórios, enquanto três (3) solicitaram vistos de residência, e 845 solicitaram vistos temporários.

Em 2023, a América do Sul ainda era o lugar em que as pessoas mais se deslocavam de outros países para ir a Bauru. A diferença é que, além do Equador, Peru ganhou destaque com 280 pessoas saindo do país, segundo os registros feitos pelo Sistema de Registro Nacional Migratório (SISMIGRA).

Fonte: SISMIGRA

Dos 921 imigrantes que se registraram em Bauru em 2023, 902 tinham registro temporário, 2 de residência e 17 provisórios. 

Como comentado no início desta reportagem, o status de “temporário” serve para indicar que os vistos concedidos a esses imigrantes servem para um curto período de tempo. Muitas das classificações temporárias vem com uma outra indicação, como “reunião familiar”; “estudo”; “estudo/pesquisa”; “humanitário”; “trabalho”.

Isso mostra que Bauru também é um dos destinos procurados para pesquisa e intercâmbio. Segundo dados do SISMIGRA, entre 2020 e 2023, 739 pessoas vieram a Bauru para fins de estudo. Destes, 71,45% eram mulheres. Suas nacionalidades são quase as mesmas dos gráficos acima. Da Angola vieram 7 intercambistas, da Bolívia 5, do Chile 11, da Colômbia 51, do Equador 440, da Espanha 2, dos EUA 4, da Itália 1, do Peru 84, da República Dominicana 117 e 17 vieram da Venezuela.

Já na questão da faixa etária, o gráfico a seguir mostra quais são as idades destes intercambistas.

Fonte: SISMIGRA

O Brasil

Olhamos muito para Bauru, mas e o Brasil?

O Brasil não está entre os países que mais recebem imigrantes, mas também não está entre os que menos recebem. Pode-se dizer, então, que o Brasil recebe uma quantidade média de imigrantes quando comparado aos demais países do mundo.

Segundo dados da UN DESA (Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU), de toda a população do Brasil, em 2020, só 0,5% eram imigrantes, enquanto 99,5% eram nacionalizados ou brasileiros nativos. Ou seja, a população imigrante dentro do Brasil era de 1,08 milhões.

O mesmo relatório também mostra que as principais origens desses imigrantes são da Venezuela, Portugal, Japão, Paraguai e Bolívia:

Venezuela248.105
Portugal175.251
Japão62.296
Paraguai49.842
Bolívia49.289

Ao pegar dados do SISMIGRA, OBMigra e DataMigra, a Agência Trilhos produziu gráficos sobre os imigrantes no Brasil entre 2018 e 2023. Veja-os a seguir.

Fonte: SISMIGRA

Ao olhar para a questão de gênero e para a questão da idade, temos:

Fonte: SISMIGRA

Para o gráfico interativo, clique aqui

Fonte: SISMIGRA

A origem dos imigrantes no Brasil é diversa. Todos os continentes do mundo possuem seu espaço no território brasileiro. Mas a América se destaca como o continente que mais migra para o Brasil.

Fonte: SISMIGRA

A Agência Trilhos filtrou esses dados pensando em imigrantes como aqueles que possuem um visto de residentes, provisórios ou outros. Porém, é importante destacar a questão dos refugiados.

Os refugiados, diferentemente das outras categorias de imigrantes, deixam o seu país por guerra, por desastre climático ou para procurar uma qualidade de vida melhor, já que seu país não consegue oferecê-la. Por esses motivos e muitos outros que os refugiados entram em uma categoria um pouco diferente dos demais imigrantes. 

A seguir, está um gráfico que mostra o número total de pedidos de vistos que reconheçam esses imigrantes como refugiados.

Fonte: OBMigra e Datamigra

É importante diferenciarmos os tipos de imigrantes e migrantes dos países, pois cada um precisa de um amparo diferente do Estado e da população nativa do país também. Por exemplo, um intercambista não necessariamente precisa de um amparo econômico ou uma urgência de conseguir um emprego para se sustentar quanto um refugiado de guerra precisa. Mas ambos, dependendo da faixa etária dos refugiados, precisam de uma escola de qualidade que acolha e dê espaço para boas vivências.

Já ouviu falar em fuga de cérebros?

O termo “fuga de cérebros” é usado para identificar a saída, ou seja, a emigração de profissionais extremamente qualificados para outro país que não o de origem. Em sua maioria, a saída se dá pela falta de qualidade de vida e de remuneração ou reconhecimento pela profissão.

Por exemplo, pelos dados de 2020 do IOM (Organização Internacional de Migração da ONU), existiam 517.519 brasileiros que moravam nos EUA, 204.814 no Japão, 154.017 em Portugal, 133.398 na Itália e 133.244 na Espanha.

EDUCAÇÃO E SAÚDE ESTÃO ENTRE OS PRINCIPAIS MOTIVOS DE IMIGRAÇÃO EM BAURU

Historicamente, diversas causas estão associadas à imigração no Brasil, desde crises políticas e socioeconômicas, perseguições étnicas e religiosas, até a busca por melhores oportunidades de emprego e qualidade de vida. Em Bauru, a maioria dos casos de imigração se deve ao fato de que a cidade é um polo regional de ensino superior, e as bolsas de intercâmbio atraem estudantes da Venezuela, Paraguai, Argentina, Uruguai e outras nacionalidades.

Acolhimento aos imigrantes

A ONG Apoio Para Recomeçar atende refugiados e imigrantes em Bauru desde 2019, e surgiu com o propósito de auxiliar indivíduos e grupos familiares a se reestruturarem na cidade. Dados compilados pela organização, em parceria com a Polícia Federal, revelaram que havia 2.637 pessoas de outros países morando em Bauru no ano de 2022.

Aline Florêncio, professora e diretora da organização que presta suporte aos estrangeiros, observa que muitos fatores contribuem para a imigração no município, mas que a educação e a saúde estão entre os principais deles. “Hoje, a maior parte dos imigrantes em Bauru são estudantes de odontologia que vieram se especializar na área”, conta. A clínica do Centro de Pós-graduação em Odontologia (CPO), o Instituto Mondelli de Odontologia e a Faculdade do Centro Oeste Paulista (FACOP) são algumas das instituições de ensino que oferecem bolsas de estudo para alunos de outros países.

“Centrinho da USP” é hospital de referência na região | Reprodução: ALESP

Em relação à saúde, Aline menciona o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/Centrinho da USP) como referência no tratamento de fenda lábio-palatina, o que também é uma motivação para alguns estrangeiros.

Além disso, a reunião com familiares também é causa de imigração, segundo Aline. “Às vezes, uma pessoa vem primeiro e convida seus parentes posteriormente. Também já acompanhei cinco casos de estrangeiros que conheceram brasileiros pela Internet e vieram morar aqui por causa do relacionamento”.

Carlos André é angolano e está em Bauru há um ano e cinco meses, veio com o irmão e conta que se sentiu bem recebido ao chegar. “Eu vim para Bauru porque queria morar no interior, e achei que essa é a cidade ideal. Fui bem recebido pelo povo bauruense e me sinto muito bem morando aqui. É tranquilo, tem o estilo de cidade grande, com bastante coisa para fazer”, conta.

Imagem de arquivo pessoal: Carlos André

Mas quando perguntado sobre as perspectivas para o futuro, Carlos revelou que pretende ir embora algum dia. “Eu quero ir embora, sim, mas não tão cedo. Gostaria de mudar de país, na verdade”. Ele ainda disse que, primeiro, tem vontade de conhecer outros lugares do Brasil, e citou Rio de Janeiro, Floripa e Bahia como exemplos. Para Carlos, Bauru é uma ótima cidade, mas a oportunidade de se mudar novamente também representa oportunidade de crescimento.

Aline Florêncio diz que esse fluxo constante de imigração e emigração é normal, e pontuou que alguns imigrantes permanecem no país por, no máximo, 5 anos, e então retornam para o país de origem ou procuram outro lugar para morar. “Já tive vários casos de estrangeiros que vieram para Bauru e depois foram para o sul, ou para o exterior, para países como Inglaterra e Estados Unidos”, detalha.

Em relação aos motivos que levam às saídas do município ou ao regresso para o país de origem, Aline argumenta que é difícil para alguns estrangeiros se adaptarem. “Para muitos, é desafiador recomeçar do zero. Às vezes, ninguém fala a língua do imigrante, e eles aceitam posições de trabalho menos qualificadas do que a própria formação. Também já acompanhei casos de pessoas que não conseguiram lidar bem com a distância e a saudade, e que ficaram até doentes, porque a imigração muda a realidade familiar, social e econômica”.

O mercado de trabalho é outro importante aspecto considerado ao analisar a possibilidade de sair de Bauru ou do Brasil. Aline percebeu que as famílias estrangeiras que se mudaram para o sul brasileiro buscavam por melhores oportunidades de emprego, e as que se mudaram para o exterior priorizavam uma boa qualidade de vida. “Geralmente, um só membro da família vai primeiro, começa a receber em dólar, para depois levar os seus familiares. Além disso, dependendo do país em que se mudem, podem contar com leis de auxílio ao imigrante. Os Afegãos que conheci, por exemplo, ficaram poucos meses em Bauru, e foram para o exterior”, finaliza.

Esse fluxo constante de entradas e saídas no município bauruense não acontece somente entre os estrangeiros. Clarete Aparecida é natural de Agudos, também no interior de São Paulo, e mora em Bauru desde os oito anos de idade. Descontente com a cidade, ela conta que sempre desejou sair, mas que não teve coragem de fazer isso antes. “Quando era adolescente, eu queria sair do país. Mas depois de muitos acontecimentos, especialmente depois que minhas filhas nasceram, comecei a pensar em só sair de Bauru”, revela. A intenção de Clarete é se mudar para Maringá, no Paraná. “Ainda não fui visitar, mas pretendo ir para conhecer. Também planejo me estabilizar, ter um dinheiro guardado para ir, mas acho a cidade linda! Pelos vídeos que assisto, acredito que tanto eu quanto minhas filhas iremos gostar do lugar”.

O fenômeno da imigração e emigração em Bauru é influenciado pela acessibilidade de informações e meios de transporte atuais, e contribui para a diversificação de culturas e para o desenvolvimento econômico do município. 

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