Cidade do interior de São Paulo se tornou referência na imunização contra a Covid-19 a partir de pesquisa realizada em 2021
Letícia Rocha
A pandemia de Covid-19 uniu pesquisadores do mundo todo na busca por algum mecanismo capaz de conter o crescimento desenfreado no número de mortes. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), existem pelo menos 200 vacinas contra o coronavírus em estudo no contexto mundial, sendo que mais de 90 destas já chegaram à fase de testes com humanos, a partir de experimentos clínicos. Ao redor do mundo, são aprovados 14 imunizantes diferentes.
No Brasil, foram registradas, de forma definitiva, somente as vacinas Astrazeneca/Oxford e Pfizer BioNTech. No entanto, durante o ápice pandêmico fez-se uso emergencial também dos imunizantes Janssen e CoronaVac, conforme estabelecido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).
Em São Paulo, o início da vacinação contra a Covid-19 se iniciou em 17 de janeiro de 2021 e marcou um momento crucial na luta contra a pandemia, mas não foi isento de desafios significativos. A primeira dose foi administrada à enfermeira Mônica Calazans, utilizando a vacina CoronaVac, desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com a Sinovac. No entanto, a campanha enfrentou graves problemas, como a escassez de vacinas, que atrasou a imunização de grupos prioritários e gerou longas filas e aglomerações nos postos de saúde.
Apesar de contratempos enfrentados para a vacinação na capital paulistana, cidades do interior do estado desenvolveram mecanismos para a vacinação em massa da população, estimulando uma adesão significativa por parte da sociedade, a fim de que a eficácia dos imunizantes fosse testada. Isso aconteceu em Botucatu, município localizado há 240 quilômetros de São Paulo.
O Estudo de Vida Real foi uma iniciativa idealizada pelos pesquisadores da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu, em parceria com a prefeitura local, governo do estado, Fundação Bill e Melinda Gates, Fundação Oswaldo Cruz e Universidade de Oxford, no Reino Unido.
O intuito do projeto era o de vacinar 100% da população municipal, na faixa etária de 18 a 60 anos, com o imunizante Oxford-Astrazeneca, produzido pela Fiocruz, e analisar a eficácia da vacina utilizada a partir de contínuas testagens nos habitantes atendidos para compará-los com os indicadores de controle estabelecidos. Nos casos de testagem positiva, aplicaram o sequenciamento genético para análise de sintomas e complexidade do caso (se houve internação ou não).
Vacinação contra o coronavírus em Botucatu, interior de São Paulo Foto: Vitor Orsola/Uai Foto/Estadão Conteúdo
Para a análise foram utilizados como parâmetro três grupos de controle, que na época se tratavam de conjuntos de habitantes usados para comparação com os imunizados: adultos não vacinados em municípios vizinhos, pessoas já alcançadas pelo Programa Nacional de Imunizações e menores de 18 anos moradores de Botucatu.
Em entrevista à TV Unesp na época, Carlos Magno Fortaleza, médico epidemiologista da Faculdade de Medicina da Unesp Câmpus Botucatu, afirmou que “Não existe uma outra cidade no Brasil que reúna todas as condições de Botucatu neste momento. A população da cidade não é grande a ponto de inviabilizar o estudo operacionalmente, o município tem uma excelente estrutura para vacinação e uma excelente estrutura laboratorial”.
Para o prefeito de Botucatu, Mário Eduardo Pardini Affonseca (PSDB), a escolha do município para a realização da abordagem despertaria muito prestígio e transformaria o polo de pesquisa num centro de atenções perante o mundo acadêmico e científico mundial.
Dia “D”
16 de maio de 2021, o dia “D”, ficou marcado como o ponto de partida para a concretização de todo o trabalho, que apenas se iniciava. Neste dia, ocorreu a primeira campanha de vacinação em massa na cidade, atendendo os munícipes compreendidos na faixa etária nos mais de 45 colégios eleitorais espalhados.
O então Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, esteve presente e acompanhou a imunização na Escola Municipal de Ensino Fundamental Cardoso de Almeida. Ele foi o responsável por dar a largada na campanha, aplicando a primeira dose, de maneira simbólica, da Oxford- Astrazeneca na aposentada Suze Helena Crespam, de 58 anos.
Ex- Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, aplicou a primeira dose de vacina em escola de Botucatu. (Reprodução: Marina Pagno)
Com um trabalho intensivo e repleto de voluntários, foi possível imunizar com a primeira dose um total de 66 mil pessoas. A meta inicial, antes mesmo da concretização deste dia, era vacinar 60 mil, cerca de 80% da faixa etária selecionada. No entanto, ela foi ultrapassada.
Segundo um balanço geral feito pela prefeitura, foram aplicadas exatamente 66.703 doses da Oxford-Astrazeneca.
Desinformação e incertezas
Segundo informações divulgadas pela TV Unesp, em 2021, muitas dúvidas e incertezas surgiram por parte da população. Porém, a reação nas redes sociais foi positiva e as notícias sobre a iniciativa foram bem recebidas.
Morador de Botucatu toma vacina contra Covid-19 fantasiado de Jacaré. (Reprodução: G1.globo)
A pesquisa inédita realizada em Botucatu procurou ao máximo mostrar a importância do projeto, não somente pela cidade, mas também para o público em geral. Houve um planejamento para apresentá-lo da maneira mais clara possível, a fim de garantir que não houvesse dúvidas, buscando uma comunicação direta com a população.
Órgãos fiscalizadores passaram a intensificar a atuação, com base no desenrolar da pesquisa, de modo a assegurar que a imunização ocorresse dentro dos critérios que são estabelecidos pelo PNI – Plano Nacional de Imunização.
Resultados parciais
Seis semanas após iniciar a vacinação em massa de sua população contra a Covid-19, a cidade de Botucatu passou a apresentar queda de 71,3% no número de novos casos da doença.
Conforme estabelecido pela prefeitura municipal, a média móvel de casos ficou na casa dos 283 entre 20 e 26 de junho. No último pico, enfrentado cerca de duas semanas antes, no dia 12 de junho de 2021, a cidade registrou 988 casos semanais, sendo que nesse mesmo período cerca de 38 pacientes ainda estavam na UTI.
Com relação às internações, também houve queda. Em 09 de junho, cerca de 92 pessoas estavam internadas, enquanto na análise feita em 25 de junho de 2021, os casos de internação caíram em 46%, totalizando aproximadamente 50 pessoas.
O ex-secretário municipal de saúde, André Spadaro, em entrevista à CNN (em 28/06/2021), afirmou que a vacinação em massa foi realizada em um período de elevado crescimento da transmissão na cidade. “No entanto, em linha com o cronograma esperado pelos pesquisadores do estudo e dados publicados na literatura científica, após 21 dias da vacinação em massa, a proteção conferida pela primeira dose atinge seu pico e os resultados começam a surgir”, acrescentou.
A vacinação em massa para aplicação da segunda dose do imunizante aconteceu em 08 de agosto de 2021. Nesta etapa, cerca de 61.741 moradores de Botucatu foram imunizados. Após essa remessa, os casos semanais novamente tiveram queda. Desta vez, de acordo com dados do Ministério da Saúde, o número de positivos para covid-19 no município caiu cerca de 80%. O mesmo ocorreu com os dados de internação pela doença, que teve uma queda de 86,7%.
Cenário atual, pós estudo
Mesmo com a finalização do estudo e encerramento da vacinação em massa, dados de 2022 divulgados pela Prefeitura Municipal de Botucatu mostraram que nenhum dos habitantes da cidade estavam internados em unidades de terapia intensiva (UTI). Ainda que tenha tido um aumento de casos na cidade em alguns meses daquele ano, em decorrência de novas variantes, o município se manteve em destaque com a maior cobertura vacinal do estado de São Paulo, entre os de população na casa dos 100.000 habitantes.
“Embora o grande número de casos, devido à característica da nova variante Ômicron, não vemos esse aumento refletido nas internações e nas mortes. Isso demonstra a eficiência da vacina e a importância de cada botucatuense que ainda não se imunizou procurar o quanto antes um posto de saúde. Iniciamos nesta semana a vacinação das crianças de 5 a 11 anos de idade e queremos o quanto antes proteger todas elas”, destacou o ex-secretário Municipal de Saúde, André Spadaro, para a Agência Brasil.
Atualmente, em 2024, Botucatu possui uma cobertura vacinal de 99,52%, com relação à cobertura do esquema vacinal prioritário (etapa obrigatória). Embora alguns picos tenham ocorrido após a campanha, a cidade se manteve em boas avaliações, já que as pessoas tinham sintomas leves e não apresentavam casos de UTI e/ou óbito.
O estudo, portanto, provou sua efetividade a partir da diminuição de casos, óbito e internações na UTI.
Vale lembrar que os dados mais atuais passaram a incluir todas as faixas etárias de habitantes, conforme o que é previsto pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, já que o estudo buscou vacinar somente as idades permitidas na época, enquanto a campanha de vacinação geral promovida pela prefeitura segue impulsionando a vacinação dos menores de idade e casos prioritários acima dos 60 anos.
Mais informações acerca das porcentagens vacinais podem ser encontradas a partir do próprio site desenvolvido pelo Governo do Estado de São Paulo, o Vacina Já, no link: https://vacinaja.sp.gov.br/vacinometro/.




