De acordo com pesquisa realizada na Unesp Bauru, a relação do desinteresse religioso entre os jovens tem se acentuado nos últimos anos

João Pedro Bolognesi, João Vitor Segura, Laura Sipoli e Vitória Kimura

O Brasil, conhecido por sua diversidade cultural, apresenta um cenário religioso complexo e dinâmico. Historicamente marcado pelo catolicismo, o país tem testemunhado nas últimas décadas uma crescente pluralidade de crenças, com o surgimento e fortalecimento de diferentes denominações evangélicas, religiões de matriz africana, espiritismo, além de um aumento significativo no número de pessoas que se identificam como sem religião.

Entre a população jovem, especificamente na faixa etária de 18 a 24 anos, essa diversidade religiosa é ainda mais pronunciada. Dados do Datafolha 2022 mostram que os jovens brasileiros estão cada vez mais se distanciando das religiões tradicionais e buscando novas formas de espiritualidade ou adotando uma postura mais crítica em relação à religião institucionalizada. Esse fenômeno pode ser atribuído a vários fatores, incluindo o acesso à informação, a influência da internet e das redes sociais, além de uma maior valorização da autonomia individual e da liberdade de escolha.

Para muitos jovens, a universidade é um espaço crucial de desenvolvimento pessoal e intelectual, onde ideias e crenças são constantemente questionadas e reavaliadas. Nesse ambiente, muitos estudantes acabam explorando novas perspectivas espirituais, seja por meio de grupos de discussão, movimentos inter-religiosos ou mesmo pela prática da meditação e do autoconhecimento. Ao mesmo tempo, há aqueles que reafirmam suas crenças tradicionais, encontrando nas suas comunidades religiosas um senso de pertencimento e apoio emocional.

Apesar dessa busca por novas expressões de fé, muitos estudantes enfrentam desafios ao conciliar sua espiritualidade com a vida acadêmica e social. O preconceito religioso, a pressão por conformidade social e a falta de espaços inclusivos nas universidades são questões que ainda precisam ser abordadas para garantir uma convivência harmoniosa e respeitosa entre as diferentes crenças.

A realidade na Unesp de Bauru

A diversidade religiosa nas universidades públicas brasileiras é um reflexo da pluralidade cultural e social do país. Para entender melhor as manifestações religiosas no campus, a Agência Trilhos realizou uma pesquisa com 47 alunos da Universidade Estadual Paulista (UNESP) no campus de Bauru. A amostra revelou um panorama interessante sobre as crenças e experiências dos estudantes com a religião.

Dos 47 participantes, 6 se identificaram como espíritas, 13 como católicos, 17 declararam não seguir nenhuma religião, 5 são evangélicos e 6 são umbandistas. Além disso, 23 dos entrevistados relataram já ter presenciado episódios de intolerância religiosa.

Os dados mostram que a maioria dos estudantes entrevistados não segue uma religião específica, com 17 dos 47 afirmando não ter qualquer tipo de vínculo religioso. Este número é significativo, especialmente quando comparado aos dados gerais do Brasil, em que o Cristianismo é predominante. Segundo o Censo de 2010 do IBGE, cerca de 86% da população brasileira se identifica como cristã. Portanto, a menor representação de cristãos na amostra da Unesp sugere um afastamento religioso entre os jovens universitários.

Várias hipóteses podem ser levantadas para explicar esse fenômeno. Uma das mais plausíveis é a pressão social dentro do ambiente universitário. As universidades são espaços de intensa troca de ideias e exposição a diversas perspectivas, o que pode levar os alunos a questionarem suas crenças e valores tradicionais. O contato constante com colegas de diferentes origens e visões de mundo pode incentivar uma postura mais crítica em relação à religião.

Outro fator relevante é a mudança nos interesses dos estudantes. A rotina acadêmica, os compromissos sociais e as atividades extracurriculares podem ocupar grande parte do tempo dos alunos, relegando a religião a um papel secundário. A prioridade dada à formação profissional e às experiências universitárias pode reduzir o espaço dedicado à prática religiosa.

A intolerância religiosa é um problema recorrente e preocupante nas universidades. Dos 47 entrevistados, 23 relataram ter presenciado algum episódio de intolerância. Isso indica que, embora as universidades sejam vistas como espaços de liberdade e diversidade, ainda há desafios significativos a serem enfrentados quando se trata do respeito pelas diferentes crenças.

O estereótipo da religião nas universidades públicas 

Existe um conflito silencioso entre a ciência e a religião na suposição de que a educação religiosa e acadêmica são opostas por se basearem em mundos diferentes: o metafísico e o material. Por isso, a maioria dos jovens criados em lares cristãos se distanciam da fé ao ingressar no ensino superior, reforçando um estereótipo nocivo sobre o distanciamento da religião na universidade.

Uma pesquisa realizada em 2017 pela instituição estadunidense The Barna Group, que questionou jovens entre 18 a 29 anos, revela que o momento de entrar no ensino superior é o de maior evasão das igrejas. Neste tópico, além da faixa etária dos universitários representar uma fase de transição e autoconhecimento, existe o desincentivo dentro dos centros religiosos em relação ao ingresso dos jovens na universidade pela crença de que o ambiente não seria compatível com os ideais da religião.  Por isso, muitos jovens aproveitam esse período para explorar novas ideias e redefinir suas identidades, o que pode incluir o afastamento de práticas religiosas com as quais foram criados.

Para além das crenças, segundo a mesma pesquisa, 25% dos jovens entrevistados afirmam que o “cristianismo é anticiência” ou que “os cristãos são tão confiantes que acham que sabem todas as respostas” (35%). Os respectivos jovens também se sentem pressionados por acreditarem que não podem se aproximar de pessoas de religiões distintas e sentem que são “forçados a escolher entre minha fé e meus amigos”. 

De volta ao contexto da Unesp Bauru, o estereótipo do estudante agnóstico ainda existe e, neste contexto, os alunos encontram maneiras de se unir a uma comunidade religiosa. Os coletivos cristãos estão presentes e não são silenciosos: espalhando panfletos convidando o público estudantil a participar dos encontros, o coletivo ABU (Aliança Bíblica Universitária) ocupa seu espaço na cidade e em outras universidades públicas ou privadas, como USP e Unisagrado.  

Por outro lado, religiões não cristãs não encontram espaços, como os coletivos, na universidade. Eles podem servir como lugares de apoio e diálogo para os estudantes, ajudando a promover a tolerância e o respeito mútuo e, a ausência dessas iniciativas pode deixar os alunos mais vulneráveis à discriminação e dificultar a construção de um ambiente verdadeiramente inclusivo.

A diversidade religiosa nas universidades públicas brasileiras reflete a complexidade cultural do país. No interior do estado de São Paulo, o público jovem vem em movimento constante de afastamento das crenças e práticas religiosas. A intolerância religiosa, por sua vez, ainda permanece um desafio, apontando a necessidade de espaços inclusivos e diálogos inter-religiosos para promover o respeito e a convivência harmoniosa.

Por fim, vale o destaque de que a convivência dessa diversidade nem sempre é harmoniosa. A pesquisa realizada em Bauru mostrou que muitos estudantes enfrentam intolerância religiosa, indicando que as universidades, apesar de serem espaços de liberdade e diversidade, ainda precisam trabalhar para garantir um ambiente inclusivo e respeitoso. A presença de coletivos religiosos, como os citados anteriormente, somada à falta de representatividade de religiões não cristãs apontam para a necessidade de mais iniciativas de apoio e diálogo inter-religioso.

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