Os desafios enfrentados pela comunidade são incontáveis e de conhecimento geral, encontrar oportunidades de emprego dignas é mais um deles
Amabile Zioli

A comunidade LGBTQIAPN+ enfrenta desafios em diversas áreas da sociedade. O preconceito e a discriminação são fatores que impedem que pessoas vivam suas próprias vidas e, até mesmo, encontrem oportunidades de trabalho. As limitações ao buscar um trabalho afetam diretamente a qualidade de vida do indivíduo, e, no caso de comunidades minoritárias, esse é mais um dos inúmeros desafios a serem enfrentados.
No Brasil, os dados deixam claro: é o país que mais mata pessoas LGBTQIAPN+. Os dados foram apurados pelo Grupo Gay Bahia (GGB), a ONG LGBT mais antiga da América Latina. Em 44 anos que a ONG realiza a pesquisa, é a primeira vez que travestis e transexuais ultrapassaram gays no número de mortes violentas, tornando o grupo um dos mais vulneráveis da sigla.
Além das ruas, os desafios também permanecem no cenário mercadológico – um levantamento feito pelo Center For Talent Innovation mostra um padrão que parte das empresas: segundo os dados, 33% das empresas no Brasil não contratariam pessoas da comunidade LGBTQIAPN+. Outra pesquisa feita pelo mesmo instituto evidencia que mesmo após empregada, a comunidade ainda enfrenta certos desafios: 61% dos profissionais LGBTQIAPN+ não assumem sua orientação sexual ou a identidade de gênero para colegas de trabalho e gestores, e 49% dizem não esconder, mas também não falam abertamente sobre o assunto no ambiente de trabalho e alteram o próprio comportamento para se integrar entre os colegas.
De acordo com um levantamento realizado pelo LinkedIn, 35% das pessoas que foram entrevistadas já sofreram algum tipo de discriminação no ambiente de trabalho. O estudo revelou que piadas e comentários homofóbicos foram os mais citados entre as formas de discriminação atual, por isso, muitos evitam expressar sua sexualidade e identidade de gênero no trabalho, pois sentem que isso pode impactar negativamente em sua posição atual.
Flora Amorim, estudante de jornalismo e mulher transexual, externaliza os desafios enfrentados ao trabalhar como professora voluntária em um cursinho universitário. “Nunca sofri preconceito de instituição, né, então assim, (os coordenadores) sempre me trataram super bem, eu tive muita muita sorte com eles e ser trans nunca foi uma questão, mas pros alunos era, então, principalmente no ano passado, eu tive algumas dificuldades com alguns alunos que não entendiam, erravam o meu pronome de propósito, riam de mim, o que foi muito chato”. É importante observar que, mesmo que o preconceito não tenha sido destilado pela instituição, ainda sim estava presente na experiência profissional.
Desemprego: quais são as consequências para a comunidade e sociedade em geral?
A falta de uma fonte de renda fixa é vista como um dos maiores agravantes na saúde mental, seja integrante da comunidade LGBT ou não. A incerteza de ter ou não dinheiro suficiente para bancar suas despesas mensais é agonizante, e, para um grupo em situação de vulnerabilidade social, é ainda pior. No contexto pandêmico, estudos apontaram a as consequências do desemprego para a comunidade:

A população Transexual é apontada como uma das que mais sofre com o desemprego. De acordo com dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra), apenas 4% das pessoas trans e travestis estão no mercado de trabalho formal, e 0,02% teve acesso ao Ensino Superior. Uma alternativa desesperada e comum encontrada como meio de sustento muitas vezes é a prostituição: a mesma associação revela que essa porcentagem chega a cerca de 90% da população trans.
Rick Ferreira, Presidente da ABD (Associação Bauru pela Diversidade), cita a vulnerabilidade trans como uma situação em tratamento. “Infelizmente a população trans ainda tem muita dificuldade de ingresso nas organizações e empresas devido a questão do gênero”. Ainda sim, cita o portal TransEmpregos como forma de suavizar esse problema. “O canal (TransEmpregos) é o maior portal de empregabilidade do mundo, que possui cases fantásticos dessa população que sempre foi excluída e hoje está em grandes multinacionais”.
O TransEmpregos é uma iniciativa que teve como objetivo minimizar os desafios enfrentados pela população transgênero na busca por empregos. No início o trabalho consistia em juntar currículos e apresentá-los nas empresas para possíveis contratações, mas, com o tempo, também passaram a oferecer auxílio às empresas na criação de um ambiente acolhedor. Então, se tornou o maior portal de empregabilidade trans do mundo, com um banco de currículos vasto e repleto de oportunidades para a inserção da comunidade no mercado.
É uma via de mão dupla: as empresas também se beneficiam
A não contratação de profissionais LGBTQIAPN+ com a justificativa do gênero ou sexualidade pode ser uma grande perda para o mercado corporativo. Profissionais extremamente capacitados perdem a oportunidade de mostrar suas habilidades e competências por conta de um detalhe que não mudaria nada em sua jornada empregatícia.
É o que diz Rick ao enfatizar as competências que pessoas da comunidade têm a oferecer para o mundo corporativo.
“Na ausência de oportunidades de empregos, aquele que consegue ingressar no mercado de trabalho vai agarrar com tanta dedicação! Já temos milhares de relatos de muitos empresários que foi a melhor coisa que fizeram: criar oportunidades para aqueles que são excluídos, porque deles brotam habilidades que não se comparam às outras pessoas”.
Além da criação de um ambiente de trabalho saudável, a diversidade também pode trazer benefícios competitivos para a empresa: com uma variedade de experiências, habilidades e nichos. Os negócios que possuem diversidade de gênero são 15% mais propensos a terem performance financeira superior à média nacional, de acordo com estudos da Mckinsey.
Quais medidas são adotadas em Bauru?
Os dados a respeito da empregabilidade diversa em Bauru são escassos. Não há um órgão que seja inteiramente responsável pelo levantamento e essa falta acaba acarretando na dificuldade da criação de novas iniciativas e atividades que beneficiem o grupo.
Apesar da escassez de números no município, Taylise Zagatto, presidente da Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero da OAB e ex-membro e presidente do Conselho Municipal de Atenção à Diversidade (CADS), diz que a empregabilidade de pessoas trans na cidade de Bauru têm sido uma causa pré-observada.
“Nos últimos meses que estive ali à frente do Conselho e também no último ano, eu tentei criar ali um projeto de empregabilidade trans, orientação jurídica e cursos profissionalizantes”, diz.
De acordo com a advogada, foram cerca de quatro empresas abertas à oportunidade. O projeto aconteceu no CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) e envolveu a orientação jurídica da comissão da OAB sobre a mudança de nome, catálogo de cursos profissionalizantes, oficinas de criação e formatação de currículos e até mesmo entrevistas de emprego foram feitas no dia, pelas empresas parceiras.
Além do projeto proposto por Taylise, existem outras formas de profissionalização para a comunidade LGBT, em especial, para Transexuais e Transgênero. O SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) também oferece alguns cursos gratuitos que focam no empreendedorismo trans como alternativa para encontrar oportunidades dignas de trabalho e condições de vida.
Como uma empresa pode ser mais inclusiva?
É importante frisar que apenas mostrar a inclusão não é suficiente para fazer a diferença. A empresa realmente põe em prática tudo aquilo que promete? Essa é uma pergunta que deve ser respondida antes, durante e depois que o vínculo empregatício acabe.
As vagas afirmativas têm se tornado uma forma eficaz de demonstrar a preocupação com populações minoritárias. Flora atribui um grande papel a essa categoria, de acordo com suas experiências pessoais, na busca de empregos.
“O que me abriu as portas foi o Instituto Polis, sem brincadeira. Foi o meu primeiro emprego da minha vida, e foi através de uma vaga afirmativa.” A estudante completa indicando a necessidade da regulamentação desse tipo de vaga: “Eu acho que esse tipo de iniciativa deveria virar lei, porque não é, né? A empresa faz o que quer, faz do jeito que quer, faz como quer, mas eu acho que deveria virar lei, porque é essencial. Para mim foi essencial, né?”.
No entanto, é importante esclarecer que a busca pela diversidade não deve parar no momento na contratação. O apoio para os profissionais deve permanecer durante todo seu trajeto profissional e envolve o treinamento adequado da equipe, o cultivo de práticas e hábitos saudáveis no ambiente de trabalho até a punição do comportamento preconceituoso, que muitas vezes é relevado pela empresa.
“Então, treinar funcionário, melhorar o sistema para fazer o reconhecimento melhor das pessoas trans pra que elas não sofram constrangimento, né? Eu acho que é uma coisa que se você cultiva um ambiente em que os funcionários sabem e tratam bem as outras pessoas, que os próprios empregados sejam também de outras etnias, de outras sexualidades, de gêneros diferentes, enfim, se houvesse treinamento e esse acolhimento por parte da empresa, eu acho que tipo 90% dos problemas já seriam resolvidos, de verdade, porque eu acho que não é difícil, sabe, basta querer”, afirma Flora.
A inclusão da comunidade LGBTQIAPN+ vai muito além do acesso à vaga. Também inclui o desenvolvimento de um ambiente de trabalho seguro e acolhedor, fazendo com que o vínculo empregatício cresça e tenha continuidade na empresa.




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