O aumento das fake news na sociedade e suas consequências para o jornalismo

Laura Santos, Rafael Oliveira e Rafaelly Silva

Não é novidade que a dificuldade na compreensão de informações e que a crise de confiança entre população e notícia sejam obstáculos emergentes na sociedade, mas dados recentes indicam que esse problema já pode afetar a maior parte da população.

A cada 10 brasileiros, 8 admitiram ter acreditado em informações falsas recebidas na internet, as chamadas fake news. A pesquisa, divulgada em abril, foi feita pelo Instituto Locomotiva e contou com 1.032 pessoas.

Ainda segundo o estudo, 80% dos entrevistados reconheceram que há grupos de pessoas pagas para produção e disseminação de notícias falsas. Sobre as consequências da desinformação, as mais citadas foram a eleição de maus políticos, degradação de reputações, insegurança na população e prejuízo nos cuidados com a saúde.

Em meio a um mar de informações, pode ser difícil distinguir o que é ou não notícia. O medo do julgamento torna-se empecilho: 35% dos entrevistados admitiram um sentimento de ingenuidade, enquanto 31% ficam com raiva e 22% sentem vergonha.

Mas o que é notícia?

Segundo o dicionário, ‘notícia’ vem do latim ‘notitia’, que significa notoriedade, conhecimento e noção. Trata-se de um gênero textual que tem como objetivo apresentar um novo fato ou a atualização de um já existente. Uma de suas principais características é a busca pela representação da realidade da forma mais impessoal possível. A notícia é a matéria-prima do jornalismo.

Quando escrita por um profissional, a notícia apresenta uma série de características que são essenciais para a transmissão eficaz do fato ao público. São elas: objetividade, veracidade, clareza, relevância, equilíbrio, contextualização, ética e atualidade.

(Link do gráfico no flourish: https://public.flourish.studio/visualisation/17620426/ // colocar no código html)

Segundo a professora de mídias digitais Dayane Iglesias, em um mundo com cada vez mais acesso à tecnologia, é comum que as pessoas passem a ser não apenas consumidoras de informação, mas também produtoras. Nem sempre quem escreve tem compromisso ou até mesmo a capacidade de exercer essa função. É então que surge a desinformação.

E o que são as fake news?

De acordo com o Tribunal Regional Eleitoral do Paraná, fake news são formas de desinformação estrategicamente disseminadas que ganharam impulso graças à internet. Essas notícias falsas possuem grande apelo para obter ganhos financeiros ou políticos e utilizam como estratégia títulos chamativos, textos opinativos disfarçados de informativos, entre outros. O termo ganhou força mundialmente em 2016, durante a corrida presidencial dos Estados Unidos. No Brasil, a expressão começou a ser utilizada em 2018, durante o período eleitoral. A polarização gerada pela disputa entre Jair Bolsonaro (PL) e Fernando Haddad (PT) foi fator crucial para o advento do fenômeno.

Ao decorrer da disputa, muitas notícias falsas sobre os candidatos à presidência foram espalhadas pelas mídias sociais. Segundo o artigo “O impacto das fake news na sociedade”, publicado pela FATEC em 2021, as fake news são criadas para disseminar ódio e vingança, pessoais ou institucionais. “As notícias fabricadas carregam conteúdos afirmativos, dando a impressão de que as informações são reais por terem sido amplamente divulgadas, compartilhadas e com vários likes

Qual a importância do jornalismo para a sociedade?

Um exemplo foi a atuação da mídia durante a pandemia de Covid-19, em que a imprensa teve que enfrentar inúmeras notícias falsas relacionadas a questões de saúde pública. Houve um grande esforço para verificar os fatos, desmentir informações e fornecer dados confiáveis e cientificamente embasados sobre sintomas e tratamento.

“Nós carregamos consequências da pandemia até hoje. Uma delas é o baixo nível de vacinação das crianças, que diminuiu muito por conta das fake news que foram difundidas durante o período da covid”, explica Fernanda Ubaid, jornalista e assistente parlamentar da Câmara Municipal de Bauru.

Segundo dados do Ministério da Saúde, a vacinação é uma das mais importantes para a prevenção de doenças, preservando não só quem as recebe, mas toda a comunidade ao seu redor.

“Por mais falsa que a informação possa ser, as pessoas tendem muito mais a acreditar em uma notícia quando ela é dada por alguém que ela conhece do que por uma fonte confiável ou um veículo de informação com profissionais capacitados”, afirma Fernanda.

O jornalismo descredibilizado

O cenário atual do jornalismo se mostra cada vez mais desafiador. Nos últimos anos, a confiança em veículos jornalísticos foi abalada pela circulação das fake news e o surgimento de políticas sensacionalistas.

Em Bauru, segundo pesquisa feita pela Agência Trilhos, mais da metade dos entrevistados avaliou o desempenho dos jornais da cidade como ‘regular’, enquanto 26,5% considerou ‘bom’ e 8,8% ‘ruim’. ‘Muito bom’ e ‘péssimo’ atingiram 2,9% das respostas.

Os efeitos da desinformação são sentidos também pelo profissional: “quando jornalistas são alvos de violência, cria-se um ambiente de medo e autocensura, em que o exercício livre e imparcial do jornalismo é inibido”, diz Francisco Belda, professor do curso de Jornalismo da UNESP, que em 2024 completa 40 anos.

O jornalista ameaçado

Em 2021, cerca de 75% dos 450 alertas de ataque a jornalistas estavam relacionados a ofensas, descredibilização e intimidação, segundo dados do relatório de monitoramento de ataques a jornalistas no Brasil, feito pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

A disseminação de desinformação pode criar um clima de hostilidade e desconfiança contra esses  profissionais, sobretudo em localidades em que o poder político e econômico age de forma abusiva e autoritária.

“Isso cria um ambiente propício para a violência contra jornalistas e, em alguns casos mais graves, há inclusive incitação de ataques físicos diretos ou mesmo atentados criminosos contra esses profissionais”, explica Belda.

Fernanda conta que já sofreu ataques durante o exercício do cargo de repórter. Em 2020, ela atuava na TV Tem de Bauru e estava em Pirajuí fazendo uma reportagem sobre o fechamento do comércio durante a pandemia.

“Algumas pessoas passaram de moto nos xingando. Logo após, cerca de 20 a 30 pessoas cercaram a praça que eu e o cinegrafista estávamos gravando. Eles abriram uma live e começaram a nos ameaçar jogando ovos”.

A apresentadora do podcast Estação 3 conta ainda que eles tentaram derrubar o equipamento de gravação para impedir que eles fossem ao ar: “tivemos que chamar a polícia militar para nos escoltar até a saída da cidade, pois eles nos perseguiram até a estrada”.

Fernanda vê na educação midiática uma saída para o problema que o jornalismo enfrenta: “enquanto as pessoas acharem que o WhatsApp é fonte de informação e que qualquer pessoa com uma câmera e acesso à internet pode noticiar informações, vamos ter que lidar com as consequências das fake news”, finaliza.

Educação Midiática: uma vacina para a desinformação?

Segundo o Instituto Palavra Aberta, educação midiática é o conjunto de habilidades para acessar, analisar, criar e participar de maneira crítica do ambiente informacional e midiático em todos seus formatos – dos impressos aos digitais. Seu objetivo é estimular o senso crítico e adaptar o aprendizado à era tecnológica.

Apesar de uma ideia recente, experiências indicam que a alfabetização midiática gera resultados positivos e pode ser uma alternativa para o combate à desinformação.

Além disso, como forma de blindagem contra as notícias falsas, diversos veículos possuem ferramentas e iniciativas de checagem de informações, o que é conhecido como fact-checking. Você pode conferi-las clicando nos links abaixo.

Aos Fatos

Boatos

Uol Confere

Lupa

Estadão Verifica

Fato ou Fake

Tendência