Sem secretaria específica, práticas desportivas dependem da iniciativa privada

A Associação Bauruense de Desportos Aquáticos é uma das entidades sem fins lucrativos que oferecem modalidades esportivas a pessoas com deficiência (Foto: ABDA / Reprodução)

Texto alternativo: A imagem exibe um homem branco com traje de banho branco da Associação Bauruense de Desportos Aquáticos. Na touca é possível ler o nome “Lucas” e a identidade visual da entidade em azul. Ele está submergindo na piscina.

Manuela A. Pupo e Matheus Santos

A oferta de esportes inclusivos em Bauru é bastante restrita, com poucos programas disponíveis para atender pessoas com deficiência. A maioria dessas iniciativas depende quase exclusivamente dos esforços isolados de instituições privadas ou entidades sem fins lucrativos.

Esportes inclusivos são aqueles que permitem que pessoas com deficiência física, mental, intelectual ou sensorial (como surdez ou cegueira) pratiquem diferentes modalidades esportivas de forma similar às pessoas sem deficiência. Para que essa prática seja acessível e democrática, são desenvolvidas estratégias de acessibilidade nos espaços, adaptações nos equipamentos, revisões de regras e promoção de jogos específicos para pessoas com deficiência. Exemplos incluem basquete em cadeira de rodas, paracanoagem, paratletismo, voleibol sentado, paranatação e tênis de mesa.

 A multiplicidade de modalidades paralímpicas abriu espaço para maior inclusão de deficiências nos Jogos Paralímpicos de Tóquio de 2020. Fonte: Divulgação.

Texto Alternativo: A imagem mostra a simbologia de todas as modalidades paralímpicas praticadas na última Paralimpíada que ocorreu em Tóquio em 2020.  As práticas ilustradas, nesta sequência, são: Tiro com Arco, Atletismo  Badminton, Bocha, 

A prática de exercícios físicos é essencial para uma vida saudável, beneficiando tanto o condicionamento físico quanto a saúde mental, reduzindo o estresse e promovendo autoconhecimento. No esporte, esses benefícios se somam às práticas coletivas dos jogos e treinos, que fomentam a socialização e a criação de vínculos entre os praticantes. Para aqueles que adquiriram deficiência ao longo da vida, essas atividades são cruciais para aumentar a autoestima e facilitar a reinserção social.

Esportes inclusivos são particularmente significativos para pessoas com deficiência, pois além dos benefícios mencionados, promovem maior autonomia e visibilidade social em áreas geralmente marcadas por estereótipos e preconceitos. Historicamente, a sociedade construiu uma visão limitante sobre pessoas com deficiência, associando-as à incapacidade de realizar atividades, especialmente esportivas.

Surgimento dos esportes inclusivos

Historicamente a sociedade construiu uma visão limitante sobre os PCDs, associando a deficiência com a incapacidade de realizar atividades, principalmente em se tratando de práticas esportivas. Na Antiguidade, por exemplo, os gregos, os quais criaram os Jogos Olímpicos, eram também os responsáveis pela morte de bebês que nasciam com algum tipo de deficiência. 

Essa ideia começou a ser deixada de lado na Inglaterra, nos anos 40. Nesse período, o esporte praticado por pessoas com deficiência começava a surgir como medida terapêutica, a fim de dar mais qualidade de vida aos militares que retornaram da Segunda Guerra Mundial com lesão medular.

A partir daí, essas práticas começaram a se popularizar em todo o mundo, dando origem à primeira edição dos Jogos Paralímpicos de Verão em Roma, na Itália, em 1960.

Essa visão inclusiva no esporte passou a ser adotada até mesmo nas escolas, onde as aulas de educação física que antes apenas retiravam pessoas com deficiência em momentos da prática, agora buscam realizar modalidades que consigam ser realizadas por todos os alunos, sem exclusão.

O método de reabilitação promovido pelo alemão Ludwig Guttmann na Inglaterra foi a base para o nascimento das Paraolimpíadas. Fonte: Facebook / Reprodução

Texto Alternativo: A foto em preto e branco mostra o desfile dos atletas de diferentes países nos primeiros Jogos Paraolímpicos de 1960, em Roma. Todos então em cadeiras de rodas, sendo uma mulher exibida na imagem e o restante homens. Duas placas aparecem sendo carregadas por dois atletas, uma tem o escrito “Great Britain” e a outra “Yugoslavia”.

Em Bauru, a ausência de uma secretaria específica para acessibilidade faz com que associações desempenham um papel crucial na promoção do esporte inclusivo. A Associação Bauruense de Desportos Aquáticos (ABDA), localizada no bairro Terra Branca, é um exemplo notável. Fundada em 2011, a ABDA prioriza o desenvolvimento da autonomia de crianças e adolescentes com deficiência, oferecendo modalidades esportivas como polo aquático, natação e atletismo. Apenas natação e atletismo são adaptadas para turmas com PCDs.

A natação é uma das modalidades adaptadas oferecidas pela ABDA. Fonte: Manuela A. Pupo

Texto Alternativo: A foto mostra a piscina esportiva da ABDA onde alguns alunos de natação estão tendo aula.

A ABDA não separa os alunos por tipo de deficiência, mantendo todos juntos na mesma piscina, o que exige uma boa comunicação com os professores e adaptação ao ambiente esportivo. A seleção dos alunos é baseada nos critérios do Comitê Paralímpico Brasileiro. Com mais de 3 mil alunos, a turma de paranatação conta com 63 alunos com deficiência.

Maria Raunith, assistente social da ABDA, destaca o impacto social do programa: “As crianças se desenvolvem bem, aprendem a comer, a conversar, e ganham uma autoestima muito boa… Na escola também sentem melhora no rendimento, no foco. Eles são mais valorizados pelos colegas, porque daí participam de competição, ficam ‘famosinhos’ e aí isso é muito legal. Então são oportunidades que tanto o aluno como  família percebem que é possível. “

Ela também trabalha com os familiares, orientando-as sobre como promover a independência dos alunos.  A política da ABDA de não permitir a entrada dos pais na área de treinamento, exceto em casos específicos, reforça essa autonomia.

“Para trabalhar essa autonomia, não deixamos os pais entrarem na parte externa”, explica Raunith, observando que essa prática foi ainda mais reforçada durante a pandemia.

Práticas esportivas também são desenvolvidas na reabilitação de pacientes com deficiência da SORRI Bauru. Diferente da ABDA, a participação dos pais é presente em todo o processo de acompanhamento clínico. Na unidade, crianças com diferentes tipos de diagnósticos praticam educação física e desenvolvem habilidades úteis à vida cotidiana, como fala e noção de espacialidade e locomoção.

A Sorri Bauru utiliza a educação física como complemento terapêutico. Fonte: Sorri Bauru

Texto Alternativo: A foto mostra a entrada da instituição de reabilitação Sorri Bauru onde é possível notar a identidade visual do local formada pelo letreiro: “SORRI BAURU”. Embaixo há escrito: “Uma parceria de amor com Tauste Supermercados”.

O educador Gustavo Aparecido Fidelis Monteiro, formado pela Unesp Bauru e funcionário da instituição, menciona a Special Olympics caracterizada por ser uma organização internacional que promove eventos esportivos para pessoas com deficiência no mundo todo, até mesmo para parte desse grupo que não pode competir em modalidades Paralímpicas.

Ele explica mais sobre como funcionam os torneios da organização voltados para práticas não competitivas. “São modalidades. Eles pegam uma habilidade do futebol que seria o chute ao gol e aí geram esse clima de competição que na verdade não é séria, é mais uma competição recreativa assim para estimular que essas crianças e esses adultos que não conseguiram chegar num esporte de alto rendimento, participem de alguma coisa mais voltada para essa linha competitiva.”

Além da abordagem da educação física como complemento para planos terapêuticos específicos dos pacientes,  a Sorri Bauru aplica o método transdisciplinar, que visa a capacitar todos os profissionais de diferentes áreas para que consigam abordar questões que fogem de suas especificidades, a fim de gerar maior contato entre os pacientes e  práticas do próprio tratamento.

“A criança pode chegar aqui, e sua principal demanda no momento foi uma questão fonoaudiológica, por exemplo… A Fono vai identificando outras demandas que seriam necessárias para ajudar no processo de reabilitação e vai indicando ela para as outras áreas…Então chega uma criança aqui que durante a fono está aprendendo a juntar palavras, formar sílabas, eu monto um circuito, por exemplo, para trabalhar o repertório motor das mãos, como um basquete (faz). Então ela vai saber diferenciar direita e esquerda, e no final, eu vou juntar com ela uma sílaba. Então eu também vou estimulando ela durante as minhas aulas.”

Juliana, mãe de Everton, um menino autista, fala sobre a evolução do filho nos tratamentos com a Instituição.

“O Everton tinha 4 anos de idade, quando a gente ingressou aqui. Encaminhado pela escola, pela EMEI. Ele não sabia se comunicar, não falava, e também era muito disperso. E aí ele foi diagnosticado com autismo. A partir daí começou o tratamento, né? Mas a educação física começou faz uns dois anos. Eu acho que evoluiu bastante, desde a comunicação, até o desenvolvimento motor dele também.

Medidas para garantia da acessibilidade no esporte da cidade

Embora alternativas como essas e de instituições privadas contribuam significativamente para a inclusão esportiva no município, a falta de medidas políticas públicas voltadas para essa área prejudicam o acesso democrático e igualitário de PCDs aos esportes e às atividades físicas.

De acordo com o artigo “Acessibilidades no Esporte Adaptado” publicado pelo site JusBrasil, a ausência de garantia de recursos orçamentários voltados para o esporte adaptado é umas das principais causas para que a acessibilidade seja afetada. Isso porque este é um fator essencial na promoção de medidas públicas como acesso inclusivo em áreas de treinamento, transporte público acessível para os atletas, e apoio financeiro para que pessoas com deficiência iniciem esportes e tenham a oportunidade de avançar até um alto nível.

Além do poder público, agir com cidadania e empatia são medidas importantes para a população contribuir nessa causa. Respeitar locais exclusivos para PCD´s como vagas de estacionamento, e desmistificar ideias capacitistas e preconceituosas relacionadas a estes indivíduos, são exemplos de como isso pode ser feito.

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