Mais de três mil profissionais já foram formados pelo curso
André Victor, Bernardo Corvino e Maria Gabriela Oliveira
No dia 17 de agosto de 1984, o curso de Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) foi autorizado pelo MEC. Em 2024, o curso completa 40 anos na Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design (FAAC).
Durante esse período, a graduação em Jornalismo passou por diversas mudanças: desde modificações na grade curricular à decisão do STF a favor da não obrigatoriedade do diploma para exercer as funções da profissão, feita em 2009.
A professora doutora Angela Grossi, que atua na FAAC desde 2008 e chegou a passar pela coordenação do curso, relembra os momentos de mudança. “Minha coordenação começou em um momento muito difícil para o curso de Jornalismo, quando precisava ser implementado o novo currículo”, começa a jornalista.
“Na Unesp usamos duas nomenclaturas: a atualização de uma disciplina, por exemplo, que seria uma mudança simples, sem mexer na estrutura do curso, é chamada de “alteração curricular”. Já a “reestruturação curricular” é quando deve ser feita uma grande mudança, esse era o caso do curso de jornalismo”, explica ela.
Angela afirma que, apesar de necessária, a reestruturação foi complexa em um curso que tinha 400 alunos na época. Além disso, gerou descontentamentos entre discentes e docentes.
“Mexer com carga horária de curso e de departamento, é mexer com estrutura de poder. Então, começou uma discussão, uma briga, uma resistência. Os alunos foram incitados a dizer que estávamos perdendo a crítica do curso”, relata.
A docente aponta, contudo, que mesmo com o pensamento dos alunos, a reclamação não era verdadeira: “Na verdade, havia uma requadração para que algumas disciplinas fossem atualizadas e outras fossem criadas. Não era uma mudança, uma exclusão da disciplina, mas sim uma adequação as novas demandas.”
Angela lembra que na primeira tentativa de aceitação do currículo atual, em julho de 2017, a coordenação foi muito retalhada pelos alunos. Foi feita uma manifestação que chegou a ser violenta e ofensiva e, por isso, não foi aprovada. No mês seguinte, o Conselho Estadual de Educação foi avaliar a graduação de Comunicação da FAAC. “O novo projeto pedagógico tinha que ser feito, inclusive sob ameaça de perda da autorização do curso”, conta.
“Em 2018, faríamos uma alteração curricular, mudando o nome do curso e incluindo o estágio, para adequar as turmas que tinham sido ingressantes em 2016, 2017 e 2018. A partir de 2019, a coordenação já teria uma outra condição”, explica Angela.
Primeiro aconteceu uma alteração curricular, que passou rapidamente para adequar esses alunos e continuaram planejando a reestruturação curricular. “Nós fomos até a reitoria, a comissão veio aqui, fizemos os ajustes necessários e chegamos ao currículo atual”, explica.
Mesmo com todo o trabalho, Angela conta que o currículo ainda não é o ideal, mas afirma que foi feito o possível naquele momento. Ainda durante a sua coordenação, o curso de Jornalismo passou do 269° lugar no ENADE, com nota 1, para o 4° lugar, com nota 5. A mudança de mandato era prevista para 2020, mas por conta da pandemia, foi pedido para que ela continuasse na posição.
“O primeiro ano da pandemia foi terrível, porque foi um momento em que a gente realmente não sabia como fazer. A turma ingressante em 2020 seria a primeira turma desse novo currículo, que tínhamos tantas coisas em mente para realizar”, relembra. Angela diz que, em conjunto com professores, alunos e coordenação, foi decidido que disciplinas práticas como radiojornalismo e telejornalismo, não seriam dadas de forma remota, mas que as matérias teóricas continuariam a ser ministradas de forma virtual durante a pandemia.
Ela comenta que a turma de 2021 ainda sofreu com essas mudanças e teve algumas matérias condensadas, mas que a de 2022 voltou a ser mais tranquila. “A turma de 2023 tem um novo desafio, que é uma nova alteração curricular: a inclusão da extensão e a retirada do trabalho integrado e das atividades complementares. Além da redução e exclusão de algumas disciplinas”, expõe. A docente justifica que as alterações aconteceram para que a inclusão da extensão acontecesse sem alterar a carga horária do curso.
As mudanças também afetaram o corpo discente e docente de Jornalismo. “Se chegarmos numa sala de aula hoje, vemos uma turma 45% masculina e 55% feminina. Isso é uma mudança”, conta. Angela percebe que essa mudança aconteceu com os professores do Departamento de Comunicação também. “De quinze, seis são homens e nove são mulheres. As últimas cinco contratações foram femininas também”.
Juarez Xavier, docente do curso de Jornalismo desde 2011 e atual vice-diretor da FAAC, comenta a mudança que viu desde quando chegou à Unesp: “A nossa universidade foi a primeira a adotar a política de ação afirmativa, em 2012”. Ele também relata que não havia muita diversidade com relação aos estudantes, e que hoje, temos um curso repleto de alunos vindos de escola pública, com forte presença de mulheres e um pouco mais de estudantes pretos e pardos.
Sobre o aumento da diversidade nos cursos de Jornalismo em geral, o vice-diretor comenta: “Nós temos hoje uma pluralidade muito grande, o jornalismo deve acompanhar essa realidade. A universidade tem se preocupado muito em formar as pessoas dentro dessa perspectiva e com relação aos próprios cursos de jornalismo, não tem mais sentido serem monotemáticos”.
Ainda assim, Juarez critica a falta de diversidade na bibliografia que continua com características patriarcais, segregacionistas, capitalistas, supremacistas racial branca. O vice-diretor também afirma que a diversidade passou a ser um fator fundamental para a reinvenção do Jornalismo. “Ela implica vários possíveis campos de visões que você pode utilizar de uma reportagem. Então, tornou a reportagem muito mais rica, com muito mais informação e muito mais qualificada”, afirma.
Sobre a importância do curso para o profissional, o professor afirma que o jornalismo é um exercício de formação intelectual, teórica, conceitual e prática. Ou seja, se não tiver uma formação intelectual, no sentido de compreender a complexidade dos fenômenos e processos, ele vai ser um jornalista tecnicamente “imprestável”.
“O que faz com que o jornalista tenha uma relevância social é a capacidade que ele tem de observar fenômenos complexos e colocar isso num formato jornalístico, com estrutura narrativa adequada. O jornalismo não se faz de “orelhada”. Jornalismo é o exercício intelectual fundamental da atividade profissional”, declara.
“Mas a segunda questão importante é que é necessário que ele tenha um espírito de formação profissional. Ele não está a serviço do dono do jornal, da emissora, ou do capital, ele está a serviço da sociedade”, esclarece Juarez.
Luís Ricardo, jornalista formado pela Unesp, que atualmente é repórter do G1, portal de notícias da Globo, expressa a importância da universidade na formação: “A Unesp é uma vivência que ultrapassa a sala de aula, isso é fato. Especificamente sobre o curso de jornalismo, posso citar o fator humanista na formação. É algo que, quando estamos na graduação, podemos não perceber, mas dentro do mercado passamos a entender a diferença entre o profissional formado ali e em outros lugares.”
O repórter comenta o momento atual do curso no mercado de trabalho. “A nova grade tentou englobar práticas mais mercadológicas, o que de fato sinto ser uma carência da Unesp”, conta. “Por outro lado, a questão humanista do curso é um fator muito forte e capaz de preparar o profissional para compreender e exercer a profissão dentro desse contexto, uma vantagem que costuma nos beneficiar dentro do mercado de trabalho”, completa.
Liliane Ito, formada em Jornalismo pela Unesp e docente do curso, aborda o assunto por outro ponto de vista. “Tivemos altos e baixos, mas mesmo assim vejo que a qualidade se manteve. Hoje, olhando para o currículo do curso, vejo que este, está próximo das demandas do mercado de trabalho, apesar de um ou outro ponto que ainda precisa ser melhorado”.
Ela relembra a entrada na universidade com muito carinho e explica a importância da Unesp em sua vida, citando a sensação como “uma das mais maravilhosas da minha vida”. “Chorei muito, pois vinha de uma trajetória de estudante de escolas públicas e me parecia um sonho distante estudar na Unesp. Mas, aconteceu e eu me apaixonei pela universidade. Na Unesp, fiz graduação, mestrado e doutorado. E hoje sou docente, tanto na graduação, como na pós-graduação, o que me orgulha demais”.
Liliane afirma sentir um dever em tentar fazer a parte dela para que o curso de Jornalismo melhore cada vez mais. Quando pedida para definir o curso em apenas uma palavra, Liliane responde sem pensar: “Maravilhoso”.































