Conheça o quadro da dependência química e como as ONGs da cidade de Bauru têm ajudado nessa causa
Amanda Trentin, Juliana Allevato e Nathan Nunes
A dependência química é uma problemática da ordem da Saúde Pública, na qual há o uso incontrolável de substâncias lícitas – como o álcool – e ilícitas – drogas como crack e cocaína. Uma pessoa com dependência química enfrenta dificuldade em executar tarefas cotidianas sem o consumo de substâncias, já que estas fornecem sensações de alívio ao serem ingeridas, inaladas ou administradas.
Na avaliação da enfermeira e doutora em enfermagem, Simone Quadro Alvarez , “drogas são substâncias que produzem mudanças nas sensações, no grau de consciência e no estado emocional das pessoas. As alterações causadas por essas substâncias variam de acordo com as características individuais, emocionais e físicas de quem as usa, da droga escolhida, da quantidade, frequência de uso e circunstâncias em que é consumida”, afirma no artigo “Causas da dependência química e suas consequências para o usuário e a família”, divulgado em 2014.
A dependência química nasce da utilização de qualquer substância natural ou sintética capaz de alterar as estruturas e funções orgânicas e afetar o comportamento, seja por uso ocasional, hábito, vício ou abuso.
Na investigação publicada por Alvarez, alguns relatos anônimos explicam as causas do uso de drogas pelos usuários: “eu acho como todo jovem, que comecei muito novo com 14, 15 anos. Acho que foi a curiosidade, isso foi um fator importante […]”, menciona fonte anônima.
No entendimento desenvolvido no artigo, as consequências dessa prática implicam no afastamento da família, o que reforça a marginalidade acometida aos indivíduos que se encaixam no quadro de dependência.
Outros aspectos abordados por Alvarez em relação às consequências para as pessoas vítimas desse evento envolvem inabilidade para controlar o impulso à droga, incapacidade de admitir impacto do transtorno, necessidade de receber ajuda financeira, sensibilidade ao receber críticas e usufruir da sedução para a obtenção das drogas.

Reabilitação
De acordo com informações disponíveis no site do Governo Federal, há a Confederação Nacional de Comunidades Terapêuticas, comunidades terapêuticas sem fins lucrativos, as quais assistem às pessoas com transtornos devido à dependência química. O atendimento é temporário e de forma voluntária. Além disso, há, também, redes de apoio como a AA (Alcoólicos Anônimos), ALATEEN e NA (Narcóticos Anônimos).
Tais opções mencionadas são iniciativas oferecidas para o tratamento e acompanhamento psicológico não somente de pessoas com dependência química, mas também para seus familiares.
Uma luta antiga contra dependência química em Bauru
Desde os anos 80, Bauru vem sendo referência na luta por um tratamento humanizado às pessoas com dependência por algum tipo de droga. Em 1987, bauruenses ocuparam as ruas da cidade interiorana em apoio à luta antimanicomial.
A ação deu origem a famosa Carta de Bauru, um manifesto que tornou-se referência na luta contra o tratamento desumanizado de pessoas com algum tipo de transtorno mental, dentre os quais se encontra a dependência.
Nos anos seguintes, o manifesto também serviu de base para a tomada de ações afirmativas, como a criação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) pelo Ministério da Saúde em 2002.
De lá para cá, outras iniciativas também se somaram a esse tratamento, como podemos ver a seguir.
Unidos por uma causa
De acordo com o Relatório Mundial sobre Drogas 2023, divulgado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), há um acréscimo de 23% no número de pessoas que consumiram drogas nos últimos dez anos em comparação com a década anterior.
Diante desse cenário, Organizações Não Governamentais (ONGs) têm desempenhado um papel fundamental no acolhimento e tratamento de dependentes químicos, especialmente àqueles que não dispõe de recursos financeiros. Em Bauru, cidade interiorana mais populosa do Centro-Oeste paulista, elas atuam em várias frentes, oferecendo desde apoio psicológico e médico a acompanhamento domiciliar.
Essas organizações, que sobrevivem por meio de doações, colaboradores e investimentos do setor privado contribuem diretamente para evitar que os pontos públicos de acolhimento previstos pelo RAPS (Rede de Atenção Psicossocial), como as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), fiquem sobrecarregados ou ultrapassem sua capacidade.
Além disso, as ONGs também são importantes atores sociais na reintegração desses indivíduos à vida em sociedade. Com o desenvolvimento de atividades que estimulem a criatividade e a capacidade motora dos pacientes, as ONGs expandem o leque de atuação durante e após o período de recuperação.
Pontos de acolhimento
Conheça cinco ONGs de Bauru que cumprem esse papel:
Fundada pelo Padre Haroldo Rahm, a ONG atua como apoio e orientação aos familiares de dependentes químicos desde 1984. Sua sede está localizada em Campinas (SP), mas a fundação tem mais de 500 grupos espalhados pelo Brasil e conta com mais de 10 mil voluntários.

A Federação oferece reuniões tanto no formato presencial quanto online. Em Bauru, os encontros de apoio são divididos em três grupos: apoio aos familiares dos dependentes químicos (Familiares); apoio aos dependentes químicos (Sobriedade); e apoio aos cônjuges (Cônjuges). Todos eles são realizados às terças-feiras, às 20h, na Rua Oliciar de Oliveira Guimarães, Jardim América, Bauru-SP.
O RV (Restaurando Vidas) é um ministério criado em 2012 pela igreja evangélica Vida e Paz para auxiliar e tratar dependentes e codependentes químicos, oferecendo casa de recuperação, apoio, moradia e assistência. Dentro dele, está inserida a Comunidade Terapêutica Restaurar, onde são oferecidos serviços que passam desde terapias ocupacionais à orientação social e psicológica.
A unidade de Bauru é localizada na Chácara São Luiz (Crt.212B – São Luiz, 1,154/Bauru).

Referenciadas pelo RAPS
Fundada em 1971 por quatro jovens, o Esquadrão da Vida é uma comunidade terapêutica e serviço de acolhimento de dependentes químicos.

Nele são realizadas atividades terapêuticas, suporte psicológico diário, reuniões de apoio, entre outros.
Ela fica localizada na Alameda Dr. Octávio Pinheiro Brisolla, 1350 – Jardim Brasil.

A organização tem como finalidade principal a assistência psicossocial a usuários de Substâncias Psicoativas (SPA). A assistência também é feita pelo modelo de comunidade terapêutica oferecendo acolhimento para adultos do sexo masculino de 18 a 60 anos durante o período de 6 meses.

Após isso, a comunidade encaminha aos serviços públicos de saúde e assistência social, que tem como objetivo principal viabilizar a aquisição das documentações civis, tratamentos e acompanhamentos da saúde, retorno aos estudos, inserção nos programas de distribuição de renda e capacitação profissional.

A Comunidade está localizado na R. Peru, quadra 3 – Jardim Terra Branca, Bauru – SP.
A Comunidade Terapêutica Bom Pastor é um serviço de atenção a pessoas que fazem uso e/ou abuso de substâncias psicoativas (SPA), encaminhadas pela Secretaria Municipal de Saúde.
A ONG atua no tratamento contra a dependência química desde 1991 e é executada em parceria com a Prefeitura Municipal de Bauru através do Termo de Colaboração firmado mediante à Secretaria Municipal de Saúde.

A comunidade oferece serviços de acolhimento, disponibilizando refeições diárias, higiene pessoal, encaminhamento e acompanhamento à rede pública de saúde, orientação e acompanhamento para emissão de documentos de identidade, entre outros recursos e direitos.
Além disso, orientações familiares, palestras sócio-educativas de prevenção ao álcool e outras substâncias são algumas das atividades que contemplam as atividades da CTM. As reuniões semanais de apoio ocorrem todas as quinta-feiras, às 20h, na Rua Madre Clélia, 4-37,Jardim Cruzeiro do Sul, Bauru-SP.
Quem educa, previne
Uma das formas de evitar que os jovens tenham contato com as drogas é por meio de campanhas educativas, que cumprem o dever de informar e alertar sobre os possíveis riscos para a saúde.
Nesse sentido, o COMAD (Conselho Municipal sobre Álcool e Outras Drogas) de Bauru, órgão que gere a construção de políticas públicas sobre álcool e outras drogas, tem por função formular, supervisionar e avaliar as políticas públicas.
“O conselho se reúne mensalmente para deliberar as temáticas relacionadas às suas atribuições, promover o debate público e estabelecer ações para articulação de órgãos e atores sociais envolvidos na prevenção, tratamento e reinserção social de pessoas que fazem uso de álcool e outras drogas”, disse o COMAD em nota para a Agência Trilhos.
Anualmente, a entidade é responsável por organizar eventos e palestras que promovam a discussão do tema sob diversos aspectos. Em 2024, ela foi responsável pela Tenda de Redução de Danos no Carnaval de Rua e o Encontro da Luta Antimanicomial, celebrado no dia 18 de maio. Além desses, o COMAD prevê a realização da Semana Municipal de Políticas sobre Álcool e Drogas.
Educar por meio da ação
A Universidade de São Paulo de Bauru (USP) também mobilizou uma campanha voltada ao combate às drogas. Com o tema “A juventude na prevenção do uso de drogas”, a universidade fará seu primeiro concurso de fotografia, o qual poderão participar alunos, professores, funcionários, filhos ou dependentes dos servidores, entre 10 a 17 anos, das unidades FOB, HRAC e CCB e de entidades e órgãos lotados no campus.
De acordo com o jornalista Luís Victorelli para o portal de notícias oficial da USP, “A finalidade é incentivar a reflexão e a discussão sobre a questão das drogas no ambiente universitário e familiar, por meio de ações educativas e linguagem visual. A promoção é da Comissão para Ações e Assuntos Relativos ao Uso de Álcool, Tabaco e Drogas Ilícitas do campus”.
A participação será individual e terá inscrições abertas até o dia 01 de dezembro. Para se inscrever, basta que o participante ou seu responsável legal encaminhe pessoalmente o trabalho com a ficha de inscrição devidamente preenchida ao Centro Cultural do Campus USP de Bauru. Os vencedores do concurso irão concorrer a prêmios de R$ 600 e R$ 400, respectivamente em cada categoria.
Desafios e perspectivas
Uma das ações mais famosas no combate a dependência por algum tipo de droga é o Alcoólicos Anônimos (AA), que está prestes a completar 89 anos de existência no próximo dia 10 de junho. Ao longo de sua história, a iniciativa vem auxiliando pessoas ao redor do mundo a lidar com o vício em álcool, considerado a droga lícita mais consumida no Brasil, de acordo com o 3° Levantamento Nacional do Uso de Drogas pela População Brasileira, divulgado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em 2019.

Uma dessas pessoas é o historiador Fábio Chagas, que, também no mês de junho, completará 17 anos de abstinência do álcool. Segundo ele, a decisão de abandonar o alcoolismo foi motivada pela perda de um emprego em 2007, ocasionada por conta do abuso da droga. “Estava completamente decidido, mas, mesmo assim, precisei procurar ajuda”.
Fábio frequentou o AA como ouvinte e palestrante durante oito anos e recorda algumas memórias da dinâmica da comunidade. “Em sua maioria, os frequentadores são homens, pardos e pretos. Existe a figura do ‘padrinho’, uma figura mais experiente que ajuda com as crises de abstinência. Na segunda parte [dos encontros], chamada ‘Palavra Franca’, as pessoas voluntariamente dão os seus depoimentos sobre o que viveram com o alcoolismo. Isso sensibiliza muito”.
Por conta de sua experiência na comunidade, Fábio também acredita que a plena recuperação não depende somente do Alcoólicos Anônimos, mas também de uma disciplina particular do indivíduo. “O AA é importante e necessário, mas não acredito que seja o melhor para a maioria das pessoas, pois trabalha na perspectiva da abstinência. Se disciplinar para isso é um pouco mais complicado”.




