Antes descartado pelas usinas, bagaço de cana-de-açúcar tem potencial para complementar a geração de energia elétrica
Matheus Santos / Unesp Bauru
Com o fim da exploração do pau-brasil nas primeiras décadas da colonização, a Coroa instituiu um sistema de administração territorial baseado na monocultura de cana-de-açúcar. Beneficiado pelas características topográficas das regiões costeiras e centrais do Brasil, o cultivo de cana logo se tornou a principal atividade agrícola do país, devido à competitividade e à alta demanda na Europa.
Hoje, o Brasil é reconhecido mundialmente pela liderança na produção de açúcar, com mais de 35,2 milhões de toneladas exportadas em 2024, conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O cultivo da cana não representa apenas um produto agrícola, mas também uma fonte para o desenvolvimento de energia limpa e renovável, contribuindo para a geração de eletricidade.
TRANSFORMAÇÃO DO BAGAÇO EM ENERGIA
Além do açúcar, o processo de moagem da cana também gera subprodutos como vinhaça, levedura e bagaço. Este último, composto por palha, folhas e outras partes vegetativas, era há muito tempo descartado pelas usinas sucroenergéticas, mas hoje é valorizado como uma importante fonte de bioenergia, isto é, aquela proveniente de matéria orgânica.
Ricardo Cheche, engenheiro agrônomo e ambiental da Usina São Manoel, no interior de São Paulo, explica que a conversão do bagaço em energia ocorre por meio da queima em caldeiras a altas temperaturas. “O vapor resultante desse processo aciona turbinas ligadas a geradores, produzindo, além de açúcar e etanol, calor para a geração de energia elétrica. A eletricidade gerada é suficiente para suprir as necessidades das próprias usinas, e o excedente pode ser comercializado para a matriz energética do país”, completa.
POTENCIAL DA BIOENERGIA NO BRASIL
Regiões como Sudeste, Centro-Oeste, Sul e Nordeste, principais produtoras de cana-de-açúcar, têm potencial para intensificar a cogeração de energia a partir dessa biomassa. Ao reduzir a dependência de combustíveis fósseis, como carvão e petróleo, essa fonte de energia também diminui a necessidade do uso de água, principal recurso para a geração de energia no Brasil.
O Estado de São Paulo, maior produtor de cana-de-açúcar do país, pode contribuir com a geração de eletricidade, pois a safra coincide com os períodos de estiagem das represas que abastecem as hidrelétricas, entre abril e novembro, como afirma Zilmar José de Souza, gerente em bioeletricidade da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA).
Segundo ele, no ano passado, os quase 21 mil gigawatts-hora (GWh) oferecidos à rede pelo setor sucroenergético representaram uma economia de 14% na capacidade total de energia armazenada nos reservatórios das hidrelétricas do submercado Sudeste/Centro-Oeste.
Outra vantagem do uso da bioenergia, de acordo com Ricardo Cheche, é a capacidade de gerar eletricidade de forma contínua, ao contrário de outras fontes, como a fotovoltaica, que dependem da irradiação solar, produzida apenas durante algumas horas do dia.
PRINCIPAIS DESAFIOS
Os principais desafios que inviabilizam a cogeração de energia proveniente da biomassa na matriz energética brasileira estão relacionados à redução dos preços na comercialização do excedente gerado pelas usinas. O excedente é vendido no mercado nacional com base no Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), que, atualmente, está baixo devido ao bom nível dos reservatórios das hidrelétricas, diminuindo o incentivo à oferta no mercado de curto prazo.
Além disso, o gerente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia destaca a importância de estabelecer uma política setorial estimulante e de longo prazo para a bioeletricidade e o biogás, a fim de incentivar investimentos e maximizar o aproveitamento do potencial da bioenergia.
Giuliana Aparecida Santini Pigatto, professora do Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Tupã, enfatiza que a implementação de mais monoculturas de cana-de-açúcar em áreas de florestas nativas pode causar impactos ambientais. “O uso da vinhaça como fertilizante nas plantações de cana, por exemplo, é rico em nitrogênio, que em excesso favorece o crescimento de algas, prejudicando os ecossistemas aquáticos”, afirma.
A professora também chama a atenção para a umidade presente no processo de transformação da biomassa em energia. “A presença excessiva de água pode dificultar a geração de calor, tornando a eficiência do sistema menor. Para contornar essa questão, é necessário implementar controles de umidade, como fornos para desidratação, o que também representa um custo adicional”, explica Pigatto.
Texto: Matheus Santos / Orientadora: Aline Camargo / Universidade Estadual Paulista (Unesp – Bauru)




Deixe um comentário