Veja as causas e as consequências do aumento de mais de 300% no número de incêndios na região
João Pedro Amaral, Pedro Vogt e Pedro Freire
“Ocorreram várias queimadas dentro do território indígena e próximo dos territórios indígenas. As nossas comunidades vivem fechadas dentro do território e não temos uma proteção adequada para lidar com essa questão das queimadas. Nesse sentido, muitos territórios tiveram problemas de queimadas e fumaça, aumentando o número de indígenas com problemas respiratórios ”, afirma Chicão Terena.
O depoimento do Cacique da Aldeia indígena de Kopenoti revela alguns impactos da intensificação das queimadas em 2024, especialmente no Cerrado do Centro-Oeste Paulista. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), de 1º de janeiro até dia 30 de outubro de 2024, foram registrados 243.225 focos de queimadas em todo o país, o que representa um aumento de 61% em comparação ao ano anterior.
Em relação ao estado de São Paulo, o número é ainda mais alarmante. Houve, neste ano, um total de 8.646 focos de queimadas, o que simboliza um aumento de 459% quando comparado aos dados do ano passado.
E quando se pensa nas cidades em que esse índice de queimadas cresceu de maneira significativa, Bauru é uma das principais afetadas. Na cidade do Centro-Oeste Paulista, os casos de queimadas mais que triplicaram desde o ano passado, segundo os satélites do Inpe. Foram 139 focos de queimadas em 2023 e 476 até outubro deste ano, o que totaliza um crescimento de 342%.
Quantidade de focos de queimadas no estado de São Paulo
Nesse sentido, a intensificação dos incêndios não é apenas em relação aos números, mas também às suas escalas. Fabiana Aparecida Figueiredo, Chefe de Fiscalização do Departamento de Ações e Recursos Ambientais da Secretaria do Meio Ambiente (Semma), relata sobre a vez que foi investigar um incêndio em uma fazenda em Bauru e acabou se assustando com a intensidade do fogo.
“Houve uma denúncia em uma fazenda e assim, eu não sabia nem por onde começar. A gente fala, “nossa, tá tendo uma queimada”, é uma coisa, mas quando você tá lá dentro, é outra. Você tá com o abafador e você não sabe por onde começar, porque você tá apagando e atrás tem mais fogo vindo”, afirma. “Você corre vários riscos também de morte. Pode ser pego ali, o fogo pode te fechar, pode tá vindo pro teu lado, atrás de você”, argumenta Fabiana.
Outro relato que demonstra a força das queimadas é em relação à aldeia indígena de Kopenoti, localizada na Terra Indígena Araribá, pertencente ao município de Avaí, que fica a 39 quilômetros da cidade de Bauru.
Chicão Terena, cacique da aldeia, relata que, em razão da falta de proteção ao redor das aldeias, a vastidão do fogo nos incêndios tem causado problemas respiratórios, que afetam, em maior parte, crianças e os anciãos, e também a devastação do habitat de animais que se refugiam nas matas nativas e ciliares do território.
O cacique ainda exemplifica o poder das queimadas por meio do exemplo da Aldeia de Icatu, localizada na cidade de Braúna, no estado de São Paulo, que foi devastada por um grave incêndio no dia 4 de setembro. O fogo, que veio de fora da aldeia, destruiu uma área de cerca de 160 hectares.
Chicão cita que um dos principais problemas enfrentados, tanto em sua terra quanto em outras regiões, é o desaparecimento de rios e lagos. Com o aumento de queimadas, são gerados impactos nas redes fluviais, como a diminuição da capacidade de infiltração de água da chuva no solo e, consequentemente, a recarga de águas subterrâneas. É por meio desses e outros fatores que surge, assim, uma crise hídrica.
O Cacique ainda relata que o Rio Araribá, habitado e utilizado pelos indígenas da Aldeia de Kopenoti durante anos, tem sofrido, em decorrência do aumento de casos de queimadas, uma redução de volume de água, o que preocupa as comunidades indígenas do Território de Araribá.
“A gente nadava no Rio Araribá e agora, 20 anos depois, vemos ele acabando. A gente fica imaginando, como liderança indígena, o que nós vamos apresentar para nossos filhos e netos. Vamos contar uma história de que isso aqui era um rio? Não temos mais o rio, ele secou”.
Números
Segundo os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em Bauru ocorreram 37 queimadas visíveis aos satélites nos últimos 5 anos, o que representa um aumento de mais de 60% em comparação ao período anterior. Enquanto 27% dos casos ocorreram em Áreas de Proteção Ambiental, 18,9% ocorreram em propriedades rurais e os outros tipos de local são indefinidos.
Quanto aos casos de desmatamento na cidade, os satélites indicam que nos últimos 5 anos houve o desmatamento de uma área de 22 hectares em uma propriedade rural.
Degradação da propriedade Rural ao longo do tempo
Áreas desmatadas no Cerrado
Cada ponto marrom representa uma área de desmatamento
A área total degradada no Cerrado, durante os últimos 61 meses (aproximadamente 5 anos), é de 28.495 quilômetros quadrados, área semelhante a de países como a Bélgica, que possui 30.519 quilômetros quadrados. Levando em consideração os últimos 10 anos, torna-se evidente que 39.466 quilômetros quadrados foram degradados, área comparável a países como Suíça, que possui 41.285 km².
Quanto aos focos de incêndio no bioma pode ser visto que 307.248 queimadas ocorreram nos últimos 5 anos. Um aumento de aproximadamente 47% em comparação aos 208.707 focos do período anterior. É importante destacar que 55,3% das queimadas ocorreram em Cadastro Ambiental Rural (CAR); 20,1% em categorias fundiárias indefinidas; 12,4% ocorreram em terra indígena; 4,15% em unidade de conservação, 3,92% em assentamentos; 3,77% em áreas de preservação ambiental e menos de 1% em florestas públicas não destinadas (FPND).
Focos de Queimada no Cerrado
Cada ponto amarelo representa um foco de queimadas
Biomas brasileiros com o maior número de queimadas

Seguindo a tendência de maus resultados, o país lidera os focos de queimada na América do Sul.
Países sul-americanos com maior número de queimadas
A visão científica sobre o impacto das queimadas: “Não existe combustão espontânea na Natureza”
Para a compreensão acerca do aumento das queimadas em 2024 na cidade de Bauru, torna-se crucial uma análise técnica e científica sobre diferentes aspectos dessas catástrofes ambientais, tais como: a natureza dos incêndios (se estão ligados a causas naturais ou humanas), por que e como ocorrem, estratégias de mitigação, etc.
Nesse sentido, José Carlos Figueiredo, meteorologista do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (Ipmet) da Unesp, esclarece que as queimadas, ocorridas neste ano em Bauru, não são anormais de um ponto de vista meteorológico. Assim, o cientista afirma que o aumento drástico nos focos de incêndio está relacionado à ação humana.
“Não existe combustão espontânea na natureza, para pegar fogo é necessário material que vai queimar, que no caso é a vegetação. O fogo também precisa de combustível, que no caso é oxigênio, que tem à vontade, está faltando o quê? Alguém riscar uma centelha, um fóssil, o que for”, afirma Figueiredo. “Infelizmente, existe muita gente fazendo isso. Do ponto de vista meteorológico, nós não temos nada a acrescentar, nós estamos em plena estação seca e é de se esperar que a vegetação também fique seca, o solo também”, explica o meteorologista.
Sob essa ótica, o especialista esclarece que as queimadas, de natureza criminosa, ainda podem acarretar a degradação do meio ambiente e, consequentemente, uma distorção do ciclo da natureza. José Figueiredo afirma que o maior desastre está ligado à alteração das cadeias alimentares, que, após serem afetadas pelas queimadas, podem levar ao desequilíbrio dos biomas.
“Existem na vegetação alguns seres quase invisíveis aos nossos olhos, que se alimentam de outros menorzinhos. E tem animais que se alimentam desses maiorzinhos e assim é a cadeia de vida em uma mata. Quando você queima, você mata esse monte de seres que eram vivos, e que não vão fazer o papel que eles deveriam fazer na vegetação”, inicia José Figueiredo. “Isso tem um preço: a gente detona tanto a vegetação nativa que começa a haver secas prolongadas, com enchentes de grandes proporções, porque nós estamos desequilibrando o planeta”, conclui o cientista.
Figueiredo aborda como as queimadas podem surgir devido a pequenas ações humanas, muitas vezes realizadas inocentemente. Moradores em Bauru costumam queimar, em pequenas quantidades, folhas secas para limparem seus quintais. Apesar da ação não constituir como criminosa, o meteorologista afirma que em razão do vento constante, característica atual da época do ano, a ventania “levanta aquilo chamado de carvãozinho, que é a folha queimada, mas no meio dela tem uma centelha e, como há oxigênio no ar, ela vai se alimentando. Lá na frente ela cai, no lugar seco, e começa um grande incêndio”.
A bióloga Alessandra Custodio explica que o vento no Cerrado permite que o fogo, ao se alastrar em um capim seco, atinja até as árvores com uma certa quantidade de umidade, o que impacta os seres vegetativos.
A cientista ainda afirma que, junto com essas condições climáticas de Bauru, parte das queimadas criminosas realizadas estão atreladas à consciência e à cultura ambiental dos cidadãos. “Eu vejo que aqui em Bauru, não houve só queimada criminosa, no sentido de que um proprietário rural mandou queimar, houve queimadas de pessoas que entraram no bonde, como “Ah, tão colocando fogo ali, eu também vou ali colocar”, explica Alessandra. “A pessoa não foi mandada colocar fogo, só bateu na cabeça dela que é legal colocar fogo”, cita a bióloga.
Sob tais óticas, surge a necessidade de soluções e estratégias de mitigação, bem como as dificuldades em colocar em prática tais ideias.
Políticas Públicas em Bauru
Inicialmente, quando perguntada sobre a implementação de políticas públicas acerca do meio ambiente, especialmente sobre a realização das queimadas, Alessandra Custodio afirma que há uma dificuldade em colocar em prática tais medidas. O desafio está atrelado, principalmente, à ausência de uma educação ambiental, ainda restrita a classes mais privilegiadas.
“Quando a gente pensa em meio ambiente, pra quem tem um certo privilégio (e um acesso à informação) é meio óbvio que o meio ambiente tem que ser preservado, que ele é de todo mundo e que todos têm que cuidar dele. Mas quando a gente sai um pouco da nossa bolha, percebemos que não faz parte do dia a dia, as pessoas não conseguem pensar sobre isso, porque tem outras demandas mais urgentes para pensar”, explica a cientista.
Ela ainda argumenta que “as pessoas, no geral, não conseguem, por falta de informação e por falta de recursos financeiros, poder pensar nessa questão ambiental e de como chegar no governo e fazer uma cobrança”. Custodio explica que, muitas vezes, criar uma política pública em Bauru que promova a realização de denúncias não é eficaz, justamente pela falta de conscientização dos indivíduos acerca de que tais práticas são ilegais. Não somente isso, mas em alguns casos, as pessoas ainda possuem medo em realizar tais denúncias, uma vez que conhecem os agentes das queimadas.
Outra dificuldade abordada por Alessandra se relaciona com o universo do agronegócio, presente na região do Centro-Oeste Paulista. A cientista afirma que esse setor, por estar presente nas altas instâncias políticas do país e da região, dificulta a eficácia e a implementação das políticas públicas.
“A bancada rural sempre foi bem forte no nosso governo federal, até mesmo aqui em Bauru. No geral, o governo está muito na mão dessas pessoas que são donas de terras e negócios, que usam a terra para comércio”, explica Alessandra. “Eu acho que não estar tendo tantas ações que vão remediar as queimadas vem de um caso pensado. Quem é que está ali tomando decisões já são os próprios proprietários rurais, então não é do interesse deles que existam fiscalizações ali. É [um processo] bem dificultoso, já que eles estão ali dentro e têm poder”, discorre a bióloga.
Logo, a bióloga sugere algumas medidas de incentivo a políticas públicas: “Eu acho que, na questão da política pública, está faltando educação ambiental e também eu acho que uma certa, não sei, um benefício material, talvez, um incentivo”, explica a cientista. “Se você denunciar, você ganha isso aqui em troca. Acho que poderia pensar numa moeda de troca também, para incentivar e também proteger quem faz essa denúncia, ter uma proteção de volta”, conclui Alessandra.
Vale a pena mencionar que as altas temperaturas, somadas ao baixo índice de umidade relativa do ar, ambos fatores agravados pelas queimadas, contribuem para o desequilíbrio do volume de rios. Isso é ainda mais evidente na cidade de Bauru, que tem um histórico de problemas com falta de água e que foram agravados com o tempo de seca.
Mesmo com a maior parte da água que chega nas casas dos bauruenses ter origem nos aquíferos subterrâneos, cerca de um terço do abastecimento em Bauru é dependente do Rio Batalha, que cruza a cidade. Em setembro de 2024, no meio do período de secas, o nível da lagoa de captação foi o menor em dez anos. Isso levou o Departamento de Água e Esgoto de Bauru (DAE) a adotar uma política de racionamento que durou seis meses. A alta quantidade de fumaça diminui a qualidade do ar e faz os períodos de seca se prolongarem, o que afeta a hidrografia da cidade e prejudica, assim, o abastecimento da população.
José Figueiredo explica que as chuvas têm uma função de renovação no ciclo da água, “Se você olhar para o céu, ele volta a ser azul de novo. É como se ela [a chuva] estivesse lavando mesmo o céu”. Ele ainda compara a limpeza que as pessoas observam durante os períodos de chuva com os fenômenos meteorológicos: “Nos telhados das casas, depois das primeiras chuvas, você vai ver muita coisa escura e sujeira no chão, nas calçadas. A mesma coisa acontece com a atmosfera com os elementos poluidores, como a fuligem, que sobe”.
Dentre as linhas finas
Qual é o papel das instituições responsáveis por fiscalizar queimadas e a degradação do meio ambiente? E até mesmo quais são as leis que julgam estes crimes? O que as autoridades podem fazer?
A fiscalização a respeito de degradação ambiental ocorre em 3 diferentes instâncias: a federal, a estadual e a municipal, sendo que observações feitas por uma instância podem ser repassadas às demais para o estabelecimento de um trabalho conjunto no combate às queimadas e ao desmatamento.
As instâncias federal e estadual dependem mais de dados de satélite. Esses dados, mesmo que importantes, não são os mais precisos nem os mais rápidos. O tempo para que os dados sejam obtidos e comunicados às autoridades é muito longo, o que dificulta a tomada de ações a respeito dos focos de incêndio. Outra questão é a precisão acerca deles: os focos de incêndio tendem a ser menores em áreas urbanas e frequentemente não são captados pelos satélites.
O monitoramento em nível municipal usa diferentes ferramentas. Ele também usa satélites e drones, fiscalizações em locus por agentes da prefeitura e conta com as denúncias associadas ao departamento de bombeiros. É importante ressaltar que as denúncias são um elemento chave para o bom funcionamento de toda a cadeia de fiscalização.
As denúncias são feitas pelo número do corpo de bombeiros, 193. Eles são os primeiros a responderem às emergências e, ao depender do nível do incêndio, forças auxiliares são fornecidas por equipes organizadas pela SEMMA (Secretaria do Meio Ambiente de Bauru). Uma vez extinguidos, os incêndios são analisados sob diferentes elementos relativos ao terreno, como o dano, o tipo de flora e fauna que estavam presentes no local, se já houve incêndios no mesmo lugar do ano passado e outras questões para que a prefeitura possa punir os responsáveis pelo espaço. Nota-se que com a atual legislação, as multas variam de poucos milhares de reais até multas que ultrapassam cem mil reais, e em casos extraordinários os valores podem aumentar ainda mais exponencialmente.
Nota-se que a punição é relativa ao dono do terreno e não obrigatoriamente ao culpado, parte porque muitas vezes este culpado não pode ser apontado, parte porque quem responde legalmente pelo dano à natureza é o dono do terreno (responsável pela manutenção do espaço e daquele pedaço da natureza). Dono ou proprietário, até mesmo responsável. Estas são palavras relevantes para uma outra parte do debate a respeito da batalha judicial em prol da preservação ambiental. Mas antes é preciso entender quais são as leis que regulam a preservação do cerrado em Bauru.
A primeira medida em prol da preservação do meio ambiente ocorre em âmbito nacional com a promulgação da Constituição Federal de 1988. O artigo 225° do VI capítulo da Constituição Federal de 1988 prevê que “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. O documento, mesmo que importante, não estabelece medidas específicas para o combate à depredação do meio ambiente. Nesse sentido, o principal papel do texto é servir como ferramenta de jurisprudência para a determinação de leis e o desenvolvimento de ADIs (ações diretas de inconstitucionalidade).
A primeira lei que segue o precedente estabelecido pela Constituição é a lei municipal n° 4362, de 12 de janeiro de 1999. Esta delimita o uso do espaço, sua regulamentação e aspectos de sua fiscalização. É notável que, no período que precede a lei, houve um aumento no desmatamento em Bauru que cessou com a promulgação da lei.
Outra medida legal e de maior relevância para o debate é a lei estadual n° 13.550 de 2 de junho de 2009, mais conhecida como lei de proteção do cerrado. Esta, com embasamento em extensa pesquisa, define uma metodologia para o processo de preservação ambiental. Articula-se, assim, a demarcação de APAs (áreas de proteção ambiental), parques lineares e áreas de proteção para a preservação de nascentes, de matas ciliares, da flora, fauna e hidrografia como um todo. Através desse aparato, o estado de São Paulo e seus municípios puderam punir a depredação do meio ambiente.
Em 9 de setembro de 2015, foi estabelecido em Bauru o Plano Municipal de Conservação e Recuperação da Mata Atlântica e do Cerrado. Nele, foram estipuladas medidas práticas a serem tomadas pelas autoridades locais. O documento, que acompanha padrões atuais, reúne estudos aprofundados sobre diversos aspectos biológicos, geográficos e hidrológicos para a definição de ações. Outras medidas, como o decreto Nº 60.521, de junho de 2014, e a lei N°12.651, de 25 de maio de 2012, contribuem para o preenchimento de vácuos legislativos e conseguem tratar, por exemplo, a poda de árvores e meios para preservação de matas ciliares.
Mesmo com os avanços legislativos, ainda há um grande problema com a atual legislação referente ao meio ambiente. Com a criação das leis, não foi estabelecido que impostos relativos à propriedade deveriam deixar de ser obrigatórios. Assim, uma brecha na lei foi deixada. Com o pagamento de impostos, como o IPR (imposto sobre propriedade territorial rural) e o IPTU (imposto predital territorial urbano), o dono do terreno tem embasamento jurídico para que possa fazer o uso do espaço como lhe interessa, incluindo a poda ilegal de árvores.
Esta questão promove batalhas judiciais em que detentores de terra usam liminares para poderem desmatar terrenos. Como relata Sidnei Rodrigues, chefe do Departamento de Ações e Recursos Ambientais da Secretaria de Meio Ambiente de Bauru (Semma), muitos destes ruralistas, ao obterem o aval jurídico, começam seus trabalhos, executando-os noite adentro para que, assim, o município não tenha tempo hábil de protestar a ação judicial.
Para explicar o que motiva esses indivíduos, Sidnei argumenta: “Em Bauru, a gente sofre porque hoje a legislação atual de parcelamento de uso e solo obriga que se você for empreender, você tem que entregar a infraestrutura”. O chefe de departamento no Semma ainda explica que, frequentemente, os terrenos degradados são grandes e que os empreendimentos que seriam feitos nas áreas demandariam um alto valor. Assim, estes proprietários alavancam os preços de seus terrenos, o que contribui para a questão urgente de especulação imobiliária em Bauru.
Com o alto valor da terra, outro setor que toma participação no debate civil é o setor imobiliário. No passado, esse setor conseguiu restabelecer o PDP, o plano diretor participativo da cidade, a fim de flexibilizar a lei de proteção do cerrado. Com as mudanças sugeridas, pequenos resquícios urbanos de cerrado espalhados pela cidade poderiam, por meio do novo PDP, ser desmatados em decorrência da flexibilização do uso dessas áreas, tornando, assim, a construção de condomínios de alto padrão (e outros investimentos) mais viáveis. A mudança ocorreu por meio do estabelecimento de ZICs (zonas de indústria, comércio e serviços), áreas para desenvolvimento de diferentes atividades econômicas que, em teoria, facilitariam o empreendimento, mas que não solucionam o real problema da especulação imobiliária, o que faz com que existam muitos apartamentos vazios e terrenos baldios.
Na entrevista, Sidnei Rodriguez relata outra questão relevante ao debate público. Com a eleição de Suellen Rossim em 2020, a prefeita trouxe uma nova equipe técnica que falhou em estabelecer demandas orçamentárias. Para explicar essa questão, o diretor afirma que a falha trazida pelo gabinete de Suellen foi o estabelecimento de um PPA (plano plurianual, que estabelece como será dividido o orçamento do município) conciso. “O secretário que ela escolheu de cada, deveria, junto com o secretário de finanças, definir: você vai ter 10% do orçamento e ali o secretário falaria em quais frentes ele deveria fazer os investimentos. E o PPA da Sema foi fraco. Então eles não fizeram um planejamento”.
Ele ainda exemplifica os principais impactos dessas falhas na gestão atual: “Por exemplo, até hoje a gente ainda tem dificuldade com os veículos. Estamos comprando, essa semana, mais de 11 carros para o Semma. Entende? Pessoal, não tem carro pra ir, mas por quê? Não foi planejado compra de carro lá atrás, você tem que contar com o superávit”.
Em sua explicação, é exposto como a secretaria tem de lidar com as falhas de planejamento acerca da expectativa do superávit fiscal. Apesar disso, essa situação pode não representar a realidade e pode, em última instância, afetar a capacidade do município de fazer um planejamento conciso a longo prazo. A cada LDO (lei de diretrizes orçamentárias) são feitas solicitações na expectativa de que as necessidades do órgão sejam atendidas.
Saúde, denúncia e conclusão
Além dos riscos de queimaduras e ferimentos físicos, também é necessário se atentar a outros fatores que afetam a segurança da população. De acordo com Sidnei e Adriana, ambos do Semma, um dos maiores problemas que vêm com o fogo são os problemas respiratórios decorrentes das fumaças, principalmente para aqueles que já sofrem de doenças respiratórias, como bronquite ou asma. Outros grupos que também merecem um cuidado especial são os idosos e as crianças, que estão entre os que mais sofrem com a baixa qualidade do ar.
Isso se torna ainda mais grave nas queimadas do meio urbano, onde uma grande quantidade de lixo plástico está presente no meio da combustão, o que lança ainda mais poluição no ar. Sidnei explica: “Hoje, os nossos maiores problemas não são a queima da vegetação, que a gente produz, no caso o carbono. Junto com essas queimadas nós temos sacolas plásticas, embalagens de detergente, outras substâncias químicas (…) Tudo que vem ali no meio do lixo, você não consegue mensurar a quantidade de substâncias tóxicas que a gente pode estar respirando”.
De acordo com o Corpo de Bombeiros de Bauru, além dos problemas de saúde, existem outros riscos à segurança pessoal dos civis, como o comprometimento da visibilidade. Já os danos infraestruturais podem incluir interrupções nos sistemas de energia elétrica e comunicações. Outro problema muito comum durante os incêndios florestais e urbanos é o bloqueio de ruas e auto estradas, o que pode causar riscos no trânsito e interromper o fluxo de pessoas.
Lembrando que qualquer pessoa pode fazer uma denúncia ao presenciar um incêndio. A maneira recomendada pelo Corpo de Bombeiros é pelo número de emergência 193. O atendente da ligação irá coletar informações, como a localização do ocorrido, ter uma dimensão aproximada do incêndio e se existem pessoas, animais ou propriedades em risco, para facilitar o combate ao incêndio. De acordo com o Sargento Ricardo Nunes de Carvalho, auxiliar de assuntos civis da polícia militar de Bauru, a maioria das queimadas é informada, mas ainda existem registros de alarmes falsos ou trotes, o que dificulta o trabalho das equipes de emergência.
Como foi abordado anteriormente, muitos incidentes são causados por simples ações humanas, logo, torna-se necessário um diálogo maior sobre esse assunto com a população. O Diretor de Departamento Sidnei Rodrigues conta como a conscientização ambiental está diretamente ligada ao desenvolvimento socioeconômico da população. Ao usar o termo “sensibilização ambiental” para dizer como o abandono de certos hábitos prejudiciais é mais fácil se o indivíduo exagerar o seu meio de forma diferente.
Sidnei afirma que: “Todos nós sabemos o que fazer. Só precisamos nos sensibilizar de que pela quantidade de gente que existe no planeta, e quantidade de recursos naturais, se a gente não fizer a nossa parte, isso é um prejuízo pro meio ambiente. É preciso ter essa consciência de que cada um tem o seu papel”.
Pode-se entender, então, que a questão das queimadas não se restringe ao fogo e à fumaça, mas também abrange o seu combate, a punição aos seus responsáveis e aos danos que se estendem para além da vista. Com a degradação do cerrado e das áreas de preservação ambiental de Bauru, por exemplo, rios como o Batalha têm suas nascentes afetadas e, assim, correm risco de terem sua vida ameaçada. Afetando a qualidade de vida da população em diferentes áreas.













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