Entenda por que o sistema de coleta e tratamento de resíduos da cidade ainda necessita de melhorias
Isabela Giro, Jhennyfer Lima, Lara Fagundes e Lívia Ruela
Acesse essa reportagem em áudio neste link!

A reciclagem é um dos principais pilares para a preservação do meio ambiente e a construção de um futuro sustentável. Seu papel é essencial para redução de resíduos, pois reintroduz os materiais na cadeia produtiva, sem necessidade de extrair a matéria prima novamente e afetar a natureza. Além de contribuir para a manutenção do espaço público, hoje, ela é responsável por fomentar a própria cadeia econômica.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) é a lei brasileira responsável por organizar a forma como o país lida com os descartes desses materiais. Ela tem o objetivo de reduzir a geração de resíduos e incentivar o desenvolvimento sustentável. Nela é determinado que apenas o que não pode ser reutilizado deve ser encaminhado aos aterros sanitários, a fim de evitar a lotação desses espaços.
Decretada em 2022, a lei propõe diretrizes e estratégias para se atingir o ideal de descarte. Entre suas metas está a eliminação total dos lixões em todo o território brasileiro até o final de 2024 e, em até 20 anos, a recuperação de 50% dos resíduos gerados. Hoje, contudo, segundo a Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais) cerca de 40% dos resíduos ainda são direcionados a lixões. Enquanto das mais de 80 milhões de toneladas de lixo geradas anualmente, apenas 4% são destinadas à reciclagem. Além disso, nem todo o material direcionado à reciclagem consegue ser devidamente aproveitado.
Os dados no Brasil sobre reciclagem são incertos e desatualizados, principalmente em função da ausência de uma análise aprofundada sobre o assunto, da subnotificação da coleta informal e pontos cegos, na maior parte das vezes periféricos ou zonas rurais no vasto território brasileiro. Por isso, os números que se tem sobre o tema são estimativas e projeções realizadas por instituições ambientais.

O que são ecopontos?
Os ecopontos são espaços criados para o descarte voluntário de recicláveis ou itens como sofás velhos, vidros quebrados ou restos de materiais de construção. O abandono desses objetos na rua dificulta o trabalho dos responsáveis pela limpeza pública e aumenta o risco de enchentes. Atualmente, a cidade possui 9 ecopontos criados e mantidos pela prefeitura bauruense, espalhados pela cidade. Porém, existem restrições do que pode ser levado aos ecopontos, lixo hospitalar e baterias, por exemplo, não são aceitos.

O lixo hospitalar de Bauru, por sua vez, deve ser encaminhado para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) mais próxima, onde será levado para a Emdurb (Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural) que transporta a empresas especializadas para serem incinerados.
A ASCAM (Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Bauru e Região), encarregada pela gestão dos Ecopontos, é uma organização sem fins lucrativos que representa os catadores de materiais recicláveis de Bauru, São Paulo. O objetivo da prefeitura ao escalar a instituição como representante é unir os Ecopontos e as Coletas Seletivas para, desta forma, organizar, em um só contrato, o gerenciamento do meio ambiente na cidade.
Embora não oficialmente, a organização era responsável pelos ecopontos até 2021, quando a Emdurb passou a gerir os pontos de coleta. A responsabilidade só voltou a ser da ASCAM, oficialmente, em setembro deste ano. Guilherme Coletti, gestor ambiental e engenheiro químico associado, relatou mais de 430 toneladas, equivalente ao peso de 107 elefantes, de material reciclável coletado nos dois primeiros meses de comando.
Segundo Rosinete Tavares, uma das responsáveis pela gestão do ecoponto do Redentor, os resíduos mais comuns a serem entregues são plásticos, como garrafas pet e papeis, desde papelão à sulfite.
“Um desafio é que o pessoal às vezes reclama porque querem trazer lixo orgânico”, afirmou a associada. Por ser papel, algumas pessoas insistem que os ecopontos devam aceitar o lixo sanitário, porém, por conter resíduos, é considerado resíduo orgânico. Apesar de ser possível reciclar papeis sujos, engordurados ou com resíduos alimentares, já que a trituração do papel é feita com água e a contaminação pode ser diluída, isso acarreta em um processo mais trabalhoso e a sujeira prejudica o tratamento do esgoto nas recicladoras.
Rosinete relatou que, quando alguma das caçambas atinge lotação máxima, os materiais são enviados para outro ecoponto em que há espaço disponível. A comunicação é feita por um grupo do WhatsApp composto pelos funcionários dos 9 ecopontos de Bauru. Assim, a falta de capacidade até que o órgão responsável colete os materiais dificilmente se torna um empecilho para a equipe.

O trabalho dos catadores é fundamental para a preservação do meio ambiente e a redução de resíduos em aterros sanitários. O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) estima que quase 90% dos materiais reciclados no Brasil são provenientes da ação de catadores informais.
De acordo com a Semma (Secretaria do Meio Ambiente), em 2019, a cidade de Bauru contava com 1.000 catadores informais. De modo geral, eles vendem os materiais coletados para pequenos comércios de recicláveis como sucateiros e ferro-velhos.
Lana Maria, uma dessas catadoras, adverte sobre a falta de cuidado no descarte de lixo e comenta sobre os desafios enfrentados pelos trabalhadores informais. “Tem muita gente ainda que tem preconceito com tudo isso, e é daqui que eu tenho trabalhado (…) É sobre até você abrir um saco já tem um preconceito, porque tem muitos que não gosta (sic) que mexam no lixo deles”.
“É sobre até você abrir um saco já tem um preconceito, porque tem muitos que não gosta (sic) que mexam no lixo deles”.
– Lana Maria, catadora. Confira o vídeo da entrevista aqui.
Sabe onde ficam os Ecopontos da cidade? Encontre todos nesse mapa!
Os Ecopontos são eficientes?
“Reconhecemos o valor dos ecopontos, que oferecem acessibilidade a moradores de diversas regiões e contribuem para a geração de renda através da coleta e venda de recicláveis”, pontua Alessandra Custodio, fundadora do Ostara Ambiental, empresa de consultoria ambiental.
Entretanto, ela esclarece que ainda há muitos desafios a serem vistos pela prefeitura e a organização para que os Ecopontos possam crescer como uma iniciativa ambiental realmente efetiva. A principal dificuldade, segundo a consultora, estaria no engajamento e conhecimento da população.
“A conscientização pública é uma peça-chave, e a inclusão de educação ambiental em espaços como escolas e centros comunitários é fundamental para sustentar esse processo, garantindo que todos compreendam a importância da reciclagem e da destinação correta dos resíduos”, explica Alessandra.
A Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA), em parceria com o PwC, desenvolveu o Índice de Sustentabilidade da Limpeza Urbana (ISLU) como uma ferramenta estatística que avalia a gestão dos serviços de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos sob quatro critérios: o engajamento do município, a sustentabilidade financeira, a recuperação de recursos coletados e o impacto ambiental.
Segundo os dados do ISLU, Bauru se mantém com uma nota de 0,502 desde 2020, sendo colocada como uma cidade de baixo nível.

Para onde vai o lixo de Bauru?
Segundo Vivian Angelucci, engenheira ambiental, há pontos positivos acerca do descarte de resíduos em Bauru, entre eles a extensão do sistema de coleta seletiva, que abrange uma parte considerável da população. Além disso, ela pontua que o acesso às informações de datas e horários de coleta é facilitado por meio do site da Prefeitura Municipal de Bauru.
Contudo, ela salienta que a divulgação ainda é insuficiente para que a população saiba como descartar corretamente o lixo. Dessa forma, muitos moradores de Bauru são prejudicados pela ignorância sob as ações municipais. “Eu vejo que, não só na questão de recicláveis, mas na questão ambiental de uma forma geral, não existe uma atuação muito efetiva na cidade de Bauru, vejo ela acontecendo de uma forma mais superficial”, completa.
Seja pela falta de infraestrutura ou destinação de recursos, diversas cidades não possuem um sistema próprio de coleta e reciclagem. Em 2020, dos 5.570 municípios brasileiros apenas 1.438 realizavam coleta seletiva por meio do poder público ou em parceria com o privado. Em 2024, estima-se que esse número tenha subido de 25% para menos de 30%.
Ainda que Bauru possua um sistema de coleta seletiva avançado em relação a outras cidades brasileiras, falta comunicação e ações educacionais que salientem a importância do descarte apropriado de resíduos. Não há divulgação de dados relacionados à coleta de lixo e tampouco existe uma movimentação para que a coleta seletiva chegue nos quase 200 bairros que ainda não são atendidos em um município com cerca de 350 bairros.
A parte da população que não é contemplada com os serviços públicos para descarte de lixo muitas vezes destina seus resíduos para a coleta informal. O que ocorre é que esses coletores não possuem conhecimento sobre o despojamento adequado desses resíduos e concentram seu interesse no lucro da venda desses recicláveis. Assim, quando determinado material encontrado não está com os valores em alta para comercialização, os coletores o descartam de forma desapropriada, o que causa sérios malefícios ao meio ambiente.

Atuando na Quimea, empresa de consultoria ambiental, Angelucci destaca que as empresas também são responsáveis pelo impacto causado pelo despojo inapropriado de resíduos. “Eu vejo que o impacto delas (empresas) é muito significativo, principalmente pensando na parte de resíduos, então elas também têm a sua parcela de responsabilidade na questão de gestão. Existe até um documento que as empresas são obrigadas a elaborar que é uma PGRS, plano de gerenciamento de resíduos sólidos. E tem o PGRSS, plano de gerenciamento de resíduos de serviços de saúde”.
É necessário que tanto a prefeitura de Bauru, responsável pela regulação dos planos de descarte residual de empresas, quanto a CETESB, Companhia Ambiental do Estado de São Paulo, que atua para minimizar os danos ambientais gerados na eliminação do lixo, sejam mais incisivos no regulamento de descarte das empresas. “Com certeza sem isso, sem essa cobrança, infelizmente não existe, nem existirá, essa atuação”, completou a engenheira.

Qual é a diferença entre lixão e aterro sanitário?
Lixões são espaços a céu aberto utilizados para o descarte irregular de lixo. São prejudiciais ao meio ambiente, pois contaminam o solo e reservas de água subterrâneas com a produção de chorume – líquido viscoso e de forte odor que resulta da decomposição da matéria orgânica.
Além disso, são locais de perigo à saúde humana, devido à proliferação de transmissores de doenças (ratos, baratas, mosquitos) e agentes causadores (bactérias, fungos, vermes).

Enquanto isso, os aterros sanitários são espaços planejados e monitorados para comportar o descarte desses resíduos de forma a minimizar os impactos na natureza. A operação consiste em compactar o lixo e enterrá-lo entre camadas de um material impermeável, com sistemas de drenagem de líquidos e coleta de produção de gases poluentes, como o metano.
De acordo com o Inventário Estadual de Resíduos Sólidos Urbanos no Estado de São Paulo de 2023, o estado possui 302 aterros. O aterro sanitário de Bauru encontra-se numa zona rural, a 15km da região central da cidade e atualmente encontra-se desativado devido ao preenchimento de sua capacidade total. Por isso, anexo a ele, existe uma área de transbordo de resíduos orgânicos que são encaminhados para o aterro de Piratininga.
Áreas de transbordo de resíduos são estações que recebem o armazenamento temporário de lixo e realizam triagem dos materiais enquanto não possuem destino adequado. São comumente utilizados quando o aterro local sofre lotação ou quando não há aterro próprio da cidade. Somente em 2023, 137 municípios paulistas utilizaram áreas de transbordo, o que corresponde a 21,2% dos 645 municípios do estado de São Paulo.
Embora não seja a melhor opção em termos de preservação do meio ambiente, os aterros sanitários são os destinos regularizados mais comuns no Brasil. Isso se deve ao menor custo de manutenção, principalmente considerando a larga escala de produção de lixo no território.

Segundo a Secretária de Infraestrutura, Meio Ambiente e Logística (Semil) do Estado de São Paulo, os mais de 45 milhões de paulistas produzem cerca de 40 mil toneladas de resíduos diariamente. Isso é o suficiente para lotar mais de 13 mil caminhões de transporte de lixo urbano. Em Bauru, essa produção diária encontra-se em torno de 330 toneladas, o mesmo de cerca de 110 caminhões cheios de lixo.

Quais são os impactos ambientais?
As enchentes são um problema recorrente na cidade de Bauru, e são ocasionadas em parte pelo acúmulo de lixo, que obstrui os sistemas de drenagem. Com a conscientização sobre a importância da reciclagem e a colaboração com os Ecopontos, a população pode contribuir para um ambiente urbano mais sustentável.
A conscientização sobre a utilização dos Ecopontos ainda não avançou como poderia, Alessandra Custódio acredita que, na prática, os pontos ambientais permanecem estagnados. “Embora o tema ganhe destaque durante campanhas políticas, esse foco raramente se traduz em ações concretas que engajem a população. Uma mudança real exigiria investimento contínuo em campanhas de educação e o fortalecimento de políticas que incentivem o uso dos ecopontos”, enfatiza.
A educação ambiental desempenha um papel fundamental na preservação do meio ambiente, uma vez que sensibiliza a comunidade a participar diretamente na sua defesa. Além disso, a Constituição Brasileira estabelece na Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, a importância de capacitar a educação ambiental de todos os níveis de ensino.

Quais são as alternativas?
A eficiência em uma organização pública consiste em uma legislação que atenda às necessidades da população, além da fiscalização adequada dessas normas. Para ampliar o sistema de reciclagem bauruense, a atenção da Prefeitura pode fazer grande diferença, tanto no investimento, quanto na conscientização dos moradores da cidade.
“Seria fundamental expandir o trabalho de base em educação ambiental, incentivando a reciclagem como prática diária e promovendo parcerias entre o setor público, privado e a sociedade civil”, sugeriu Alessandra. O impacto das ações ambientais que recebem a atenção, a colaboração e o investimento necessário podem se tornar muito mais duradouras e significativas.
É necessário que a sustentabilidade seja incentivada primeiro dentro de casa. Por isso, o conceito dos 5Rs (Repensar, Reduzir, Reutilizar, Reciclar e Recusar), foi desenvolvido como uma prática sustentável com o objetivo de reduzir o acúmulo de resíduos.

Confira suas habilidades de reciclagem por esse quiz!
Além da reciclagem, outras práticas como compostagem, incineração ou a produção de biogás a partir desses materiais também são viáveis para lidar com o problema de acúmulo de lixo, porém demandam tecnologias mais avançadas e infraestrutura mais cara.
A compostagem consiste em controlar a decomposição da matéria orgânica com o intuito de torná-la um composto nutritivo para ser utilizado como fertilizante na jardinagem e agricultura.

A técnica de incineração utiliza o calor proveniente da queima dos resíduos para a transformação de energia elétrica, contendo a emissão de gases provenientes da combustão.

Já a produção de biogás a partir da decomposição controlada dos materiais orgânicos é uma boa opção de energia renovável para substituir os combustíveis fósseis.

Qual a importância de mudar os padrões de consumo?
Além disso, é preciso refletir acerca do consumo que gera esses resíduos. O lixo descartado pela população vai para aterros sanitários, que não são a melhor opção quando se trata de descarte ideal. Porém, esses processos são muito mais caros e demandam um investimento muito maior do Estado.
“Antes de pensar em reciclagem, a gente tem que pensar em não gerar esse lixo”
– Vivian Angelucci, Engenheira Ambiental
É importante lembrar que não existe “jogar fora” quando se trata de descartar o lixo produzido. Todo resíduo gerado permanece no planeta e, por isso, é preciso ponderar a necessidade de consumo, de forma a evitar o desperdício e o acúmulo de resíduos no meio ambiente.
Dados do relatório Global Waste Management Outlook 2024 (GWMO 2024), apresentado na Assembleia das Nações Unidas em fevereiro deste ano, estimam que, caso não haja mudança nos padrões de produção e descarte, o acúmulo de resíduos domiciliares deve crescer cerca de 80% entre 2020 e 2050, chegando a 3,8 bilhões de toneladas por ano. Esse número equivale a cerca de 140 mil caminhões de lixo cheios.
Dessa forma, os impactos gerados pelo acúmulo de lixo não estão só no descarte, mas também no consumo. Quando bens e produtos são adquiridos sem que seja refletido sobre sua necessidade, se cria uma cadeia de produção que extrai, transforma e descarta materiais em larga escala. A reciclagem e a reutilização, embora importantes, não conseguem lidar com o volume atual de lixo produzido, o que torna fundamental a população repensar os hábitos de consumo.
Compreender a dimensão do impacto causado pelo descarte de lixo contribui não apenas para mudanças individuais, mas também para a luta por uma fiscalização adequada e ações efetivas do Estado para conter esses danos. Assim, o papel do cidadão na preservação do meio ambiente é de suma importância para mudanças significativas e começa pelo descarte ideal dos resíduos nas casas, nos bairros e nas cidades.
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Fotos: Jhennyfer Lima





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