Em um país marcado pela influência do catolicismo, a participação da fé no cenário político traz à tona desafios éticos que moldam a política e a sociedade
Isadora Lombardi e Mariana Capibaribe
No Brasil, a diversidade religiosa é visível em um cenário em que o catolicismo e o protestantismo evangélico ocupam posições predominantes, com 60% da população católica e cerca de 30% de evangélicos, segundo o censo de 2010, que foi o último que realizou o cálculo demográfico a partir da religião. Apesar de ser um Estado Laico, a religião exerce grande influência no país, refletindo-se na política e no calendário nacional, dominado por feriados católicos.
Estado Laico
Um estado laico é aquele que não possui uma religião oficial e se compromete a garantir a liberdade religiosa para todas as pessoas, promovendo a separação entre religião e governo. Nesse modelo, o estado busca tratar igualmente todas as crenças, incluindo o direito de não professar nenhuma, assegurando que as decisões políticas e administrativas não sejam influenciadas por dogmas religiosos específicos.
“A interação entre religião e política no Brasil é um fenômeno complexo que transcende a esfera espiritual e se reflete em práticas sociais e políticas que impactam a estrutura do Estado”, explica o doutor em geografia humana pela USP e professor no Instituto de Geografia da UERJ, Alberto Pereira dos Santos. O pesquisador aborda essa relação de maneira incisiva em seu livro Geopolítica das Igrejas e Anarquia Religiosa no Brasil, em que destaca a natureza paradoxal do comportamento de líderes religiosos que atuam na política.

Ao abordar as últimas eleições municipais, Alberto dos Santos observou o fenômeno comum de candidatos que utilizam a fé como ferramenta de campanha. “A estratégia vai além de expressar crenças pessoais”, diz o doutor, ao explicar que se torna uma forma de conexão direta com o eleitorado religioso. “Normalmente, eles não agem sozinhos, eles agem em nome de uma moral religiosa”, complementa o doutor.
A relação entre religião e política no Brasil expõe contradições, como aponta Alberto dos Santos. Ele destaca a incompatibilidade entre certos discursos religiosos e a prática de líderes que, por vezes, priorizam apenas membros de suas próprias denominações. “Há uma contradição entre o que um pastor ou um religioso defende e depois com a sua prática”, reflete.
A ascensão de lideranças religiosas nas Câmaras Municipais
Essa relação entre moral religiosa e política, muitas vezes carregada de contradições, reforça a importância de compreender como diferentes lideranças religiosas lidam com esses desafios. É o caso do Pastor Ubiratan Cássio Sanches, conhecido como Pastor Bira.

O pastor evangélico e vereador foi reeleito neste ano para o segundo mandato com 1.936 votos, 820 votos a mais que em sua última candidatura. Bira diz ter ganhado um voto de confiança nas eleições de 2020, e nos últimos quatro anos trabalhou para o manter. “Busco uma atuação pública que reflita os valores da cidadania e do cuidado com a diversidade, buscando equilibrar a fé com as demandas da sociedade”, conta.
Pastor Bira não é o único candidato que apostou em usar sua identidade religiosa em sua candidatura. O crescimento no número de candidaturas religiosas, que aumentou 225% em 24 anos, revela uma mudança significativa no cenário político brasileiro. De acordo com um levantamento do Instituto de Pesquisa e Reputação de Imagem (IPRI), mais líderes religiosos têm apostado em suas identidades de fé como parte central de suas campanhas.

O aumento expressivo de candidatos que utilizam identidades religiosas em suas campanhas reforça a proximidade entre política e religião no Brasil. Para o Pastor Bira, essa relação não é apenas uma questão de estratégia eleitoral, mas reflete um entendimento profundo sobre a essência da espiritualidade e sua conexão com a vida pública. Ele aponta que “a Bíblia é um livro político”, destaca, ao explicar que nela estão presentes conceitos fundamentais de governo, leis, direitos e deveres. Essa perspectiva fundamenta sua visão de que a atuação religiosa pode e deve contribuir para a construção de uma sociedade mais justa.
“O que sou na minha casa, sou na igreja, sou aqui, sou na Câmara, sou na tribuna”
Segundo o pastor, a espiritualidade é um direito constitucional, assegurado pela laicidade do Estado, e pode atuar como uma ferramenta de libertação e conscientização. “Eu entendo o pastorado como uma ferramenta de conscientização tanto na política quanto de cidadania”, afirma. Assim, para Bira, a inserção de líderes religiosos na política é uma oportunidade de usar a fé como meio de promover a cidadania e os valores sociais, enquanto busca equilibrar demandas espirituais e sociais dentro do debate político.
Como foi seu último mandato?
Em seu último mandato, o Pastor Bira destacou-se pelo apoio a iniciativas que ultrapassam as fronteiras religiosas. Entre as políticas defendidas, ele cita ações voltadas ao público autista, que incluíram o apoio a projetos de instituições como a APAE e a ONG Sorri. “E aí não tem religião, aí é todo mundo, somos todos nós”, reforça a importância de um olhar amplo na atuação política.
Outra proposta que marcou sua legislatura foi a isenção do IPTU para templos religiosos, de acordo com o Decreto Municipal 16.420/2022. Uma medida pensada para beneficiar comunidades de diferentes crenças. Bira ressalta que o benefício não é limitado a templos evangélicos ou católicos, mas abrange toda vertente religiosa que cumpra os requisitos legais. “Eu tive o cuidado de colocar templos religiosos, porque os templos religiosos não são somente evangélicos, não são só católicos. É de toda a vertente religiosa”, explicou.
Contudo, o vereador destacou a necessidade de contrapartidas para que a isenção gere impacto positivo na sociedade. Ele defende que os templos contemplados devem oferecer algo em troca, como creches, escolas ou trabalhos sociais voltados ao público vulnerável. “A nossa preocupação era que os templos isentados no IPTU devolvessem algo para o município para não ficar somente retirando o recurso e não repondo”, justificou, evidenciando um esforço para equilibrar os benefícios fiscais com o retorno à comunidade local.
Durante seu mandato, Pastor Bira se distanciou da ideia de representar exclusivamente sua igreja ou um único grupo religioso. Embora tenha tentado obter o apoio formal de sua liderança para sua candidatura à reeleição, ele não foi o candidato escolhido pela igreja, o que reflete um cenário político em que seu eleitorado vai além da sua comunidade religiosa. “No primeiro mandato eu saí sem o apoio formal da igreja específica que eu represento. E no segundo mandato nós tentamos o processo de ser aceito, mas a liderança também não escolheu minha proposta”, afirmou Bira sobre a relação com sua igreja.
Apesar disso, ele ressalta que seu eleitorado não se limita aos evangélicos, mas abrange pessoas de diferentes classes sociais e crenças. “O meu público não é essencialmente evangélico. Ele permeia várias classes sociais e várias linhas de pensamento”, explica o vereador. Para Bira, a atuação política deve ser inclusiva e buscar atender a sociedade como um todo, sem restringir sua atuação à sua própria fé ou a um único grupo de pessoas.
Embora a candidatura de Pastor Bira e outros candidatos com uma forte identidade religiosa mostre que a política está se tornando cada vez mais plural em termos de respeito e inclusão com outras crenças, a história religiosa do Brasil ainda é amplamente marcada pela presença da Igreja Católica. O país, que foi oficialmente católico por mais de 300 anos, continua refletindo essa herança, mesmo com o Estado laico, estabelecido oficialmente em 1889. Essa dominância católica, como aponta o professor Alberto dos Santos, ainda é visível em vários aspectos da sociedade brasileira, incluindo o número significativo de feriados nacionais de origem católica.
Diversidade religiosa em Bauru
Dados do Censo Demográfico de 2022 revelam que em Bauru, há mais estabelecimentos religiosos do que instituições de saúde ou educação, com destaque para igrejas, terreiros, templos e centros espíritas. Além disso, no calendário nacional, sete dos dez feriados são de origem católica, incluindo celebrações como o Dia de Nossa Senhora Aparecida, a Paixão de Cristo e o Natal. Isso demonstra como a Igreja Católica ainda mantém uma presença forte, mesmo com o crescimento de outras religiões.
A diversidade religiosa em Bauru vai além das estatísticas, refletindo-se nas experiências individuais dos praticantes de diferentes tradições de fé. Ághata Alves, de 19 anos e estudante em Bauru, faz parte da Umbanda, e conta que seguir tantas tradições católicas, especialmente por conta dos feriados oficiais, é um lembrete constante de como algumas crenças são privilegiadas em detrimento de outras. “Eu respeito muito as tradições de outras religiões, mas não me sinto bem quando percebo que os dias especiais para a Umbanda não têm a mesma importância”, explica. Ela destaca que muitas vezes essas datas passam despercebidas ou sequer são conhecidas pela maioria das pessoas, o que, segundo ela, reforça a invisibilidade de sua fé.
“É como se a nossa cultura fosse apagada”, comenta. Aghata lembra que datas como o Dia de Iemanjá ou o Dia de São Jorge (sincretizado como Ogum na Umbanda) têm um significado profundo, mas raramente recebem atenção além dos círculos de adeptos.
“Eu gostaria que nossa religião tivesse o mesmo espaço para ser celebrada e respeitada, porque a diversidade religiosa só existe de verdade quando todas as tradições são valorizadas.”
Ághata se mudou para Bauru no início deste ano e sentiu dificuldade para se conectar com sua espiritualidade no novo ambiente. “Foi um desafio encontrar um terreiro para frequentar. Eu me sentia deslocada, como se faltasse uma parte importante de mim“, explica. Após meses de busca, ela finalmente encontrou um terreiro e, desde então, não deixou de ir. “Quando chego lá, é como se eu estivesse em casa. É um espaço onde posso me conectar com minha fé, com os orixás, e com pessoas que compartilham dos mesmos valores que eu. É um alívio e uma alegria.”
Além do terreiro, Ághata encontrou na Casa 7 Linhas, uma loja de artigos religiosos de Bauru, outro espaço de acolhimento. “Ver os elementos da minha fé à venda, acessíveis, me dá uma sensação de pertencimento que eu não sentia antes. É como se existisse, finalmente, um reconhecimento”, comenta. Para ela, a existência de espaços como o terreiro e a loja são fundamentais não apenas para fortalecer sua prática religiosa, mas também para resistir à invisibilidade que muitas vezes cerca as religiões de matriz africana.

A estudante exemplifica como a espiritualidade pode influenciar a escolha de representantes políticos. A jovem conta que acredita que os valores e os princípios da Umbanda acabam tendo um impacto direto em sua atuação política, “quando a gente vai votar, a gente sempre está na busca de um candidato com ideais que se alinhem com os nossos ideais”, afirma. Para Ághata, a busca é por candidatos que promovam igualdade de direitos, inclusão social e religiosa.
Apesar de sua relevância cultural e social, as religiões de matriz africana, como a Umbanda e o Candomblé, frequentemente enfrentam desafios que limitam sua visibilidade e representação política. “Religiões de matriz africana sempre foram associadas a estereótipos negativos. Então é difícil ocupar uma posição de poder”. A estudante diz observar que os candidatos preferem não destacar publicamente a religiosidade nesse caso, para evitar exclusão e discriminação.
Ághata acredita que o preconceito é uma barreira constante, não apenas para praticantes de religiões de matriz africana, mas também para outros grupos minoritários. Ela aponta que a política brasileira, historicamente dominada por grupos conservadores, muitas vezes reforça a intolerância religiosa.
“Por mais que o Brasil seja um estado laico, a política sempre foi representada por grupos conservadores, que além de não se mobilizarem a favor da diversidade, acabam tendo atitudes e falas que reforçam ainda mais a intolerância religiosa”
A perspectiva de Ághata reforça a necessidade de um debate mais amplo sobre inclusão e respeito no cenário político, destacando a importância de uma representação que reflita a pluralidade religiosa da sociedade brasileira.
Alberto, no entanto, destaca a importância de um Estado que respeite as diferentes religiões, incluindo aqueles que não professam nenhuma fé. “Mesmo que a pessoa seja ateia, ela merece respeito”, afirma, enfatizando que o papel do Estado é garantir esse equilíbrio e proteger todos os cidadãos, independentemente de suas crenças ou falta delas.





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