Atual gestão se assemelha a governos anteriores e desagrada movimentos populares
Marco Oliveira, Breno Batista e Gabriel Alves
Em 1º de janeiro de 2021, Suéllen Rosim tomou posse como prefeita de Bauru, tornando-se a primeira mulher negra a ocupar o cargo na cidade. A eleição foi significativa pela representatividade que a candidata carregava. Aos 32 anos e filiada ao Patriota – partido pouco expressivo no cenário político nacional, – Suéllen contava com apenas 14 segundos de propaganda eleitoral na televisão, mas obteve uma vitória significativa. No primeiro turno, conquistou 36,49% dos votos válidos, e, no segundo, foi eleita com 55,98% dos votos válidos.
Antes de ser eleita prefeita, Suéllen havia concorrido às eleições de 2018 para deputada estadual, também pelo Patriota, e obteve mais de 15 mil votos – sendo a terceira candidata mais votada na cidade. A estreia na política foi compensada pela fama no município por ter sido apresentadora e repórter da TV TEM BAURU, emissora afiliada à Rede Globo.
Representando diferentes grupos (e intersecções) sociais como mulher, negra, evangélica e conservadora, Suéllen personificava tanto a luta pela inclusão quanto os valores tradicionais em uma cidade com base religiosa forte – A cidade possui mais de 700 estabelecimentos religiosos, sendo mais de 80% cristãos, segundo o Censo Demográfico do INEP. Com a notabilidade da nova prefeita negra, houve também ataques racistas logo no início do mandato por moradores e até servidores públicos. “Estamos em um tempo que isso não é mais permitido, faço isso por mim e por tantas pessoas que enfrentam esse tipo de situação”, declarou Rosim após boletim de ocorrência.
Já na campanha eleitoral deste ano, a prefeita foi à polícia registrar um boletim de ocorrência após ser vítima de manipulação digital feita com inteligência artificial, uma foto manipulada circulou por aplicativos de mensagens usando a técnica deep fake, e a retratava nua. Fato que poderia ser danoso para sua corrida eleitoral. O advogado André Faustino, especialista em Direito Digital e Fake News, comenta sobre casos assim e como a manipulação ou desinformação é usada no contexto político.
Suéllen definiu o ocorrido como “uma atitude criminosa e repugnante, coisa de gente mau caráter. Tomarei as medidas necessárias para que os criminosos sejam punidos”.
(ENTREVISTA COM ANDRÉ FAUSTINO)
Apesar do ataque que recebeu e disputa com Partidos da oposição durante a campanha, Suellen foi reeleita no primeiro turno com 53,73% dos votos válidos. Apesar de suas falas de combate aos ataques racistas e se mostrar disposta a lutar contra casos de desinformação, a primeira gestão foi considerada insuficiente pela oposição de esquerda para promover políticas efetivas de inclusão e combate ao racismo. Para Hilton Nunes, militante antirracista, socialista e candidato a vice-prefeito nas eleições municipais de 2024 pelo PSOL, a prefeita não representa os interesses do povo negro de Bauru. “Suéllen defende os interesses da classe dominante. Não nos representa.”, afirma, apontando que a gestão prioriza alianças com setores empresariais e grupos conservadores, enquanto questões raciais e sociais ficaram em segundo plano.
A crítica de Hilton ressoa entre outros militantes, que destacam a falta de políticas públicas direcionadas à população pobre e negra da cidade. De acordo com dados do IBGE, Bauru possui uma população significativa de pessoas negras e pardas, seguindo a média estadual de cerca de 40% dos residentes, mas enfrenta desafios históricos de desigualdade, desde o acesso à moradia e ao emprego até a inclusão em espaços de poder.
O histórico de partidos de eleitos nos últimos 41 anos revela uma tradição com viés de direita e centro. Pautas de políticas públicas – inclusão social, combate ao racismo estrutural e direito das mulheres, não estavam como prioridades desses planos de governos.
Fonte: Prefeitura de Bauru – bauru.sp.gov.br
Nas eleições deste ano em Bauru, Estela Almagro (PT) foi a única mulher eleita entre os 21 parlamentares, sendo uma exceção em ambiente que predomina os homens. A cada ciclo eleitoral, o cenário político em Bauru apresenta poucas mudanças, mesmo com a exigência legal de que pelo menos 30% das candidaturas sejam femininas – uma regra que possui brechas para manipulação. Este ano, a cidade registrou uma maioria de eleitores mulheres, com 54% do eleitorado sendo composto por mulheres, o que contrasta com a baixa representatividade feminina nos cargos políticos do município.
Governos anteriores
A prefeitura de Bauru passou por 53 administrações diferentes. Historicamente com perfil conservador e filiado a partidos de direita ou centro-direita:
Nilson Costa (PSDB, 2001–2003): Representando o tradicionalismo tucano, Nilson buscou fortalecer a economia local por meio de políticas de incentivo ao setor empresarial com políticas liberais. Seu governo enfrentou desafios relacionados à modernização da cidade e à gestão do transporte público, áreas que demandam investimentos mais substanciais. Durante o mandato, devido à cassação titular, o seu vice-prefeito assumiu o cargo.
Clodoaldo Gazzetta (PV, 2017–2020): Sua gestão priorizou questões de urbanismo e infraestrutura, com esforços para resolver problemas estruturais de longa data, como enchentes e a modernização do transporte público. Entretanto, enfrentou críticas em relação à saúde pública, especialmente durante a pandemia de COVID-19, que expôs fragilidades no sistema de atendimento da cidade. Seu alinhamento com pautas ambientalistas foi ofuscado por decisões administrativas vistas como conservadoras liberais, incluindo o foco em parcerias público-privadas.
Rodrigo Agostinho (PSB, 2009–2016): Governou Bauru por dois mandatos consecutivos, destacando-se como um dos prefeitos mais conhecidos da cidade devido ao seu enfoque em pautas ambientais e urbanas. Representando o PSB, sua administração promoveu um modelo de gestão voltado para o desenvolvimento sustentável e a modernização da infraestrutura urbana. Durante seus mandatos, Agostinho priorizou a ampliação de áreas verdes, promovendo o reflorestamento e ações de preservação ambiental, alinhando-se a seu histórico como ambientalista. Ele também buscou modernizar o sistema de transporte público e a mobilidade urbana, com investimentos em ciclovias e melhorias viárias.
No entanto, o setor de saúde pública, historicamente problemático na cidade, continuou sendo um dos maiores desafios de sua gestão, recebendo críticas devido a longas filas e dificuldades no atendimento. A gestão de Rodrigo também foi marcada por esforços em aumentar a transparência administrativa e aproximar a população das decisões políticas por meio de audiências públicas. Mas também manteve políticas públicas conservadoras.
Governo Suéllen X Governos anteriores
A gestão de Suéllen Rosim, apesar de histórica por marcar a primeira vez que uma mulher negra assumiu a prefeitura de Bauru, manteve padrões administrativos semelhantes aos governos anteriores no que diz respeito à prioridade dada a alianças políticas conservadoras, como infraestrutura e parcerias com o setor privado.
Enquanto Clodoaldo Gazzetta e Rodrigo Agostinho se destacaram por buscar melhorias urbanas e ambientais, respectivamente, a gestão Rosim seguiu uma abordagem mais alinhada ao fortalecimento de alianças com grupos conservadores e empresariais, sem implementar mudanças significativas nas áreas de inclusão social e combate às desigualdades estruturais.
Isso perpetuou uma dinâmica que já era criticada nos mandatos anteriores: a marginalização de pautas sociais, especialmente à população negra, feminina e de baixa renda da cidade. Além disso, como em governos anteriores, o setor de saúde pública continuou sendo um desafio crítico para a administração Rosim – como saúde, saneamento básico, contenção de gastos públicos e mobilidade urbana.
O sindicalismo está em constantes manobras e possui reivindicações que dependem necessariamente da interlocução com a administração. Jorge Moura, advogado do Sindicado dos Metalúrgicos de Bauru e Região, não vê a atual prefeita como disponível para comunicação “A Suéllen não considera o diálogo com os trabalhadores organizados”, o advogado acredita que isso vem de uma histórica burguesa.
“Eles (a direita) desprezam o movimento dos trabalhadores organizados. Ela (Suellen) é uma mulher muito inteligente, mas é criada e formada pelo aspecto de que sindicalista é vagabundo, e não trabalha. Criada sob uma linha de que a sociedade só é representada pela aristocracia comercial industriaria da cidade ou das famílias tradicionais. Como que vai pensar em criar um governo coletivo com um órgão que ela considera insignificante? Diálogo com ela não existe. A burguesia não está disposta a diminuir a desigualdade social”. Em contraponto, Jorge afirma que o governo de Rodrigo Agostinho (2009-2017) tinha uma relação melhor com os trabalhadores e com o sindicato.
Os próximos 4 anos
A trajetória de Suéllen Rosim como prefeita de Bauru reflete um marco histórico de representatividade, mas seu governo evidencia uma carência em transformar essa conquista simbólica em avanços concretos para a inclusão social e o combate às desigualdades estruturais – não apenas uma exceção à regra.
Sua gestão, alinhada a uma tradição política conservadora, seguiu priorizando parcerias empresariais e pragmatismo administrativo, enquanto pautas sociais permaneceram secundárias.
As críticas vindas de movimentos sociais e sindicatos revelam a insatisfação de setores que esperavam um governo mais próximo das demandas populares e coletivas. Esse cenário reflete os desafios mais amplos da política brasileira, em que conquistas de representatividade ainda esbarram em estruturas de poder históricas.
Suéllen Rosim terá um mandato inteiro a partir do próximo ano, e terá oportunidade de fazer as pazes com grupos sociais que reivindicam tanto por melhores condições e inclusão na cidade.





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