Com mais de 94 mil votos, a sul-mato-grossense consolida-se a primeira mulher reeleita para liderar Bauru, maior cidade do centro-oeste paulista

Lívia Ghirardello, Lucas Bersi e Mário Neto

Foto: Joabe Guaranha | Prefeitura de Bauru

Nascida em Dourados, Mato Grosso do Sul, no dia 7 de julho de 1988, Suéllen Rosim mudou-se ainda jovem para Birigui, no interior de São Paulo, onde formou-se em Comunicação Social e Jornalismo, em 2010, pelo Unitoledo – Araçatuba.

Iniciou sua carreira na comunicação atuando como repórter e produtora na TV TEM de Sorocaba/SP, filiada à Rede Globo, onde permaneceu entre janeiro e março de 2011. Ainda neste ano, foi transferida para a TV TEM de Araçatuba e Itapetininga, onde seguiu como repórter e apresentadora por dois anos, até ser transferida, mais uma vez, para a emissora de Bauru, tornando-se figura familiar nas casas dos moradores da região.

Transição à política

Em 2018, a sul-mato-grossense decidiu trilhar novos caminhos. Após desligar-se da TV TEM, candidatou-se como deputada estadual pelo Patriota, partido político brasileiro conservador e religioso de direita à extrema-direita. Obteve 35.049 votos, garantindo a suplência do partido, com mais de 44% dos votos provenientes de Bauru. Embora não tenha sido eleita, sua expressiva votação evidenciou seu potencial na política.

No ano seguinte, assumiu a presidência do partido em Bauru e da ala feminina estadual do Patriota. Reconhecida por seu posicionamento conservador e evangélico, Suéllen fortaleceu sua presença política ao se aproximar de eleitores que compartilham desses valores, enquanto consolidava sua trajetória como cantora gospel.

Esse alinhamento com seu público foi fundamental para que, dois anos após sua estreia na política, Suéllen se tornasse a candidata mais votada no primeiro turno das eleições para a Prefeitura de Bauru, com 57.884 votos. No segundo turno, superou seu principal adversário, o médico Dr. Raul (DEM), com 55,98% dos votos, consolidando-se a primeira mulher a assumir o cargo na história da cidade.

Coligações e relações estabelecidas

Durante sua gestão, Suéllen deixou o Patriota e migrou para o Partido Social Cristão (PSC), filiando-se posteriormente ao Partido Social Democrático (PSD), liderado por Gilberto Kassab. A prefeita também estabeleceu relações com o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, alinhando-se a ambos devido aos valores conservadores que compartilham e fortalecendo sua imagem junto ao eleitorado conservador. Essas alianças refletiram não apenas sua afinidade ideológica, mas também a busca por apoio em níveis estadual e federal para projetos de sua administração.

Ataques, polêmicas e violência política

Os primeiros quatro anos de Suéllen Rosim à frente da prefeitura de Bauru foram marcados por uma série de desafios, incluindo ataques racistas e episódios de violência política. Como a primeira mulher negra eleita prefeita da cidade, Suéllen enfrentou uma hostilidade que se manifestou logo no início de seu mandato. Mensagens com ofensas racistas foram disseminadas em grupos de WhatsApp e demais redes sociais, chegando até a própria prefeita por meio de pessoas próximas, o que a levou a registrar o caso na polícia. Inicialmente investigado como injúria racial, o episódio foi reclassificado posteriormente  como racismo.

Mensagens com conteúdo racistas contra a prefeita eleita de Bauru foram divulgadas no WhatsApp — Foto: WhatsApp/ Reprodução

O autor das ofensas, Luiz Henrique do Nascimento, homem negro e morador de Bauru, confessou sua autoria. No entanto, o mesmo alegou que sua intenção não era atacar Suéllen, mas sim promover uma reflexão sobre o racismo velado presente na sociedade. Em 25 de agosto de 2023, Luiz foi condenado a três anos e 22 dias de prisão pela 1ª Vara Criminal de Bauru e também foi multado em 12 dias-multa, no valor de 1/30 do salário-mínimo nacional vigente na época dos fatos.

Um dia após registrar o boletim de ocorrência contra os ataques racistas, Suéllen Rosim foi novamente alvo de ofensas, dessa vez por meio de um e-mail onde é chamada de ‘macaca’ e ameaçada de morte. Esses episódios revelaram o ambiente hostil ao qual Suéllen foi exposta, algo que foi amplamente repercutido na imprensa, gerando discussões sobre racismo na política brasileira e a necessidade de combater a intolerância racial, especialmente em contextos de campanhas políticas​

Fonte: Reprodução G1

Além dos ataques pessoais, a pandemia como teste de liderança

O início do primeiro mandato de Suéllen Rosim também foi marcado pela crise sanitária da pandemia de COVID-19, que trouxe desafios sem precedentes para a gestão pública. A prefeita, que assumiu o cargo em janeiro de 2021, optou por uma abordagem que priorizava a manutenção da atividade econômica da cidade, postura contrária às diretrizes estaduais e nacionais.

No ápice da crise, com Bauru enfrentando 98% de ocupação dos leitos de Unidades de Tratamento Intensivo (UTI’s) e classificada na fase vermelha do plano de contenção ao vírus em São Paulo, Suéllen anunciou a reabertura parcial do comércio. A medida permitiu que atividades não essenciais operassem de segunda a sábado, até as 20h, com a justificativa de equilibrar saúde pública e economia.

“A prefeitura quer preservar a vida de todos e também manter de forma responsável as atividades econômicas e os empregos. A população deve estar consciente do momento que vivemos. Além disso, estamos ampliando a fiscalização, e seguimos lutando por mais leitos hospitalares públicos para o nosso município”, declarou a prefeita em comunicado oficial.

Apesar da tentativa, cinco dias após o decreto municipal, o Tribunal da Justiça de São Paulo determinou, por meio de uma liminar, o fechamento imediato das atividades não essenciais. Além disso, a postura da prefeita resultou em um embate público com o então governador João Doria, que a acusou de negacionismo e a colocou no centro de debates sobre a autonomia de prefeitos durante a pandemia. 

Em resposta às acusações, Suéllen defendeu sua posição com veemência: “eu não sou negacionista, sou realista. Jamais neguei a situação. Temos um problema agravado no município [pandemia] e com isso vamos ter outros problemas. Tudo cai no que é público, quem não tem condições de pagar um plano de saúde vai usufruir da saúde pública. Sempre tivemos problemas com vagas e internação. Que o governo do estado comece a investir em Bauru à altura”, disparou em entrevista exclusiva ao portal de notícias Metrópoles.

Em entrevista com a Agência Trilhos, a saúde municipal foi avaliada de forma crítica por Alexandre Colim, radialista e jornalista com mais de 20 anos de carreira, que destacou a continuidade de problemas graves no setor, como falhas no atendimento e falta de articulação entre os entes federativos.

Ele reconhece que a responsabilidade é compartilhada, mas aponta para o papel fundamental da cidade nesse contexto: “Vamos pegar saúde, as pessoas continuam morrendo. […] O município faz parte de um pacto federativo. […] Bauru fez parte de uma cadeia que não deu certo.”

Caso hacker

Nos últimos anos, a relação entre a prefeita de Bauru e setores da imprensa local tem sido marcada por dificuldades de acesso à executiva e episódios de tensão, que trouxeram à tona debates sobre os limites da liberdade de imprensa e o papel do poder público na mediação dessas questões. Um episódio emblemático dessa relação conflituosa envolveu acusações de perseguição e ataque direcionados a um jornalista e uma vereadora da cidade, amplamente repercutidas na mídia e nas redes sociais.

O caso ganhou destaque em novembro de 2023, quando veio à tona a acusação de que Walmir Henrique Vitorelli Braga, ex-assessor do deputado estadual Paulo Corrêa Júnior (PSD) e cunhado da prefeita Suéllen Rosim, teria contratado o hacker Patrick César da Silva Brito para monitorar, entre outros, o jornalista Nelson Itaberá, proprietário do site ‘Contraponto’, e a vereadora Estela Almagro (PT).

Em seu depoimento à Polícia Civil, Patrick relatou que conheceu Walmir por acaso, em meio a um trabalho informal ligado a invasões de dispositivos eletrônicos. Segundo o hacker, um policial envolvido no esquema, Felipe Garcia Pimenta — filho do padrasto de Vitorelli — teria apresentado o contato do mesmo , que se mostrou interessado no serviço. O hacker ainda revelou que o telefone de Walmir estava registrado em nome de uma pessoa jurídica vinculada ao CNPJ do PSC (partido político que a família Rosim comandava antes de migrar para o PSD).

Patrick confirmou as invasões das redes sociais de Nelson Itaberá e da vereadora Estela Almagro durante uma sessão da Comissão Temporária (CT) na Câmara Municipal, em dezembro de 2023. 

“Walmir entrou em contato comigo e explicou que era cunhado da prefeita e que ele havia mostrado o material que enviei para ela, e ela tinha gostado muito. Ele pediu para que eu hackeasse a Estela”, relatou Patrick no depoimento.

Hacker confirma invasão de redes sociais da vereadora a mando de Walmir Braga. Foto: Reprodução/TV Tem

Nelson Itaberá, em resposta ao caso, declarou que recebeu a notícia “com tristeza”, e fez um apelo ao governo municipal para esclarecer a situação. “É um ataque não apenas a mim, mas à sociedade de modo geral e especialmente à imprensa”, afirmou o jornalista, ressaltando a gravidade do incidente.

Ainda, por meio de entrevista à Agência Trilhos, o jornalista citou a hipocrisia por parte da prefeita: “Deus condena, né? Eles vão à igreja e se reúnem todo domingo. Não estou sendo irônico, é só um contrassenso. E, considerando o discurso messiânico que ela adota no âmbito político, fica claro que não deveria haver espaço para práticas erradas como essa.”

Reeleição

Em 2024, Suéllen disputou a reeleição e foi reconduzida ao cargo com 94.314 votos (53,73%), vencendo ainda no primeiro turno e superando outros sete candidatos. Entre seus adversários estavam Chiara Ranieri (União), que ficou em segundo lugar com 17,7% dos votos, e o médico Dr. Raul (Podemos), que obteve 15,85%.

Nas eleições municipais de Bauru em 2024, a cidade registrou 85.913 abstenções, o que corresponde a 30,45% dos 282.816 eleitores aptos a votar. Isso significa que quase um terço dos eleitores não compareceu às urnas. Apesar disso, 196.273 pessoas votaram, dos quais 175.541 votos foram considerados válidos após a exclusão de brancos e nulos. Essa taxa de abstenção foi ligeiramente inferior à média nacional, mas ainda reflete um desinteresse significativo na política local.

Segundo dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o primeiro turno das eleições municipais  no Brasil registrou uma taxa de abstenção de 21,68%, a segunda maior desde o ano 2000. O recorde permanece com as eleições de 2020, que tiveram uma taxa de 23,25%. Dos 155,9 milhões de eleitores aptos a votar em 2024, 33,8 milhões deixaram de comparecer às urnas.

Nelson Itaberá, jornalista especializado em gestão pública e alvo do caso hacker, apontou por meio de entrevista à Agência Trilhos que a reeleição de Suéllen Rosim foi favorecida por fatores como a divisão de votos no mesmo nicho político entre Dr. Raul e Chiara Ranieri, a ausência de uma oposição de esquerda competitiva e seu apoio sólido de segmentos religiosos e conservadores.

“Matematicamente, quem venceu a eleição foram os ausentes. Isso não é só simbólico, mas também reflete a fragmentação do cenário político bauruense, onde um grande público não quis votar, enquanto os outros fatores complementaram o resultado”, destaca.

Segundo o jornalista e radialista Alexandre Colim, a reeleição de Suéllen Rosim à prefeitura de Bauru em 2024 pode ser explicada pela força de sua campanha, que ofuscou os adversários, mesmo aqueles com perfis mais qualificados.

“O problema é que eles [oposição] tentaram competir fazendo ou realizando a mesma estratégia, e não dava. A potência da Suéllen, a equipe, a estrutura e esse diferencial dela que é exatamente fazer a própria campanha. Tudo isso junto desidratou as outras candidaturas com quadros muito melhores do que a prefeita”, destacando o impacto de sua abordagem direta e autônoma na disputa eleitoral.

O que há de novo em relação aos últimos quatro anos?

Em 2020, o foco e missão do governo Suéllen voltava-se ao resgate da confiança, na melhoria imediata da qualidade de vida e do engajamento da população, com uma visão mais ética. Agora, em 2024, a missão faz uma forte ênfase no legado para as futuras gerações, em um governo mais organizado e propositivo, com mais foco na estruturação e execução de políticas públicas de forma eficiente, e propósito em entregas de resultado.

Com base na tabela que analisa as propostas do plano de governo, percebe-se que muitas promessas ficaram pelo caminho, ampliando críticas à sua gestão. Nelson sintetiza essa percepção ao comentar: “não teve água, mas teve asfalto. Não teve tratamento de esgoto (a gente paga e não tem), mas teve asfalto. Não teve médico no plantão, fila gigantesca de saúde, mas teve asfalto. Então, entre o ruim e o pior, o povo escoheu àquele que mais agradou. […] Não tem muita opção”.

Pesquisa de opinião

Em 2023, penúltimo ano do primeiro mandato de Suéllen Rosim, uma pesquisa de opinião realizada pelo jornal bauruense JCNET revelou que mais de 40% dos moradores da cidade desaprovavam sua administração. A maioria dos entrevistados classificou seu governo como “regular”. O levantamento foi conduzido entre os dias 5 e 8 de julho de 2023, com 450 pessoas, e apresentou uma margem de erro de 4,6 pontos percentuais para mais ou para menos.

O levantamento foi conduzido com a participação de 450 pessoas e traz uma análise direta da opinião pública sobre a gestão municipal em 2023, refletindo aprovações, reprovações e indecisões. Esses dados são fundamentais para entender como a população enxerga as ações do governo e os desafios da administração.

O segmento com a avaliação mais positiva do governo Suéllen concentra-se em homens e mulheres de 35 a 44 anos, com ensino médio completo. Este perfil coincide, em parte, com o público que a liderou nas intenções de voto durante a eleição anterior.

No quesito de aprovação por faixa etária, Suéllen registra índices relativamente elevados entre os mais jovens. Seu governo é aprovado por mais de 50% dos entrevistados nas faixas de 16 a 44 anos. Contudo, os números caem para 43,75% entre aqueles de 45 a 59 anos e para 45,28% entre pessoas com 60 anos ou mais.

Quanto à escolaridade, a maior aprovação é encontrada entre aqueles com ensino médio completo, com 53,62% de avaliação positiva. Por outro lado, o índice mais alto de reprovação vem de bauruenses com ensino fundamental completo, dos quais 46% rejeitam sua administração.

Já na avaliação de desempenho geral — considerando as categorias “ótimo”, “bom”, “regular”, “ruim” e “péssimo” — observa-se uma variação interessante por faixa etária. Entre os que consideram o governo “ótimo”, 8,33% têm entre 16 e 24 anos. Esse percentual cresce para 25,93% na categoria “bom” e alcança 38,1% na classificação “regular”.

Os dados revelam uma qualificação diversificada do governo municipal, destacando que a maioria dos entrevistados classificou o governo como “regular”, indicando uma percepção predominantemente neutra e indiferente da população de Bauru.

A falta de diálogo com a imprensa e os desafios de um mandato turbulento

Apesar de sua formação como jornalista, Suéllen Rosim foi amplamente criticada por sua postura de difícil acesso à imprensa e a outros setores que buscavam diálogo. Ao longo de seu mandato, veículos de comunicação locais relataram dificuldades em obter informações e agendar entrevistas com a prefeita, algo que contrasta com sua experiência profissional anterior.

Segundo Nelson, “nós temos um governo típico de uma prefeita jornalista que é estreante na vida pública (por várias razões), mas, contraditoriamente, ela é o governo que menos conversa com jornalistas na cidade.”

“Quando ela saiu da figura de jornalista e foi para a figura de agente pública, ela visivelmente utilizou o que aprendeu do jornalismo para dificultar ao máximo o acesso e o diálogo para poder “se proteger um pouco”, finaliza.

Alexandre Colim não poupou críticas à primeira gestão da prefeita à frente da prefeitura de Bauru, avaliando de forma crítica o desempenho administrativo da prefeita.

“Eu não sou otimista para os próximos quatro anos. […] A primeira administração da Suéllen, sob todos os ângulos que você possa imaginar, foi uma tragédia. Para a educação ela não fez absolutamente nada, na saúde, as pessoas continuam morrendo nas filas do UPA. […]”, afirmou Colim, destacando as principais políticas públicas que deixaram a desejar em seu primeiro mandato.

Reeleita com ampla margem de votos, Suéllen inicia seu segundo mandato sob expectativas mistas, com parte da população reconhecendo avanços em sua liderança e outra exigindo maior eficiência e transparência em temas centrais. O novo ciclo será crucial para definir o legado de sua atuação política e a relação com os diferentes setores da sociedade bauruense.

Deixe um comentário

Tendência