O Departamento de água e esgoto de Bauru explica de onde vem o abastecimento da cidade e como o rodízio é feito
João Felipe Reis Lima, Kaique Bernardo de Souza e Miguel Alves de Lima
HISTÓRICO DA CIDADE NOS ÚLTIMOS MESES
Nos últimos meses, várias regiões do município vêm sofrendo com a falta de abastecimento de água. Bairros mais centrais e da zona nobre da cidade passaram dias com o estoque reduzido. Por conta do tempo seco, o Rio Batalha, uma das fontes de abastecimento da cidade teve seu nível diminuído, o que resultou no Departamento de Água e Esgoto (DAE) de Bauru adotar a medida de rodízios de abastecimento nos bairros mais afetados.
Além disso, todo o estado de São Paulo sofreu com diversos casos de queimadas nos últimos meses, e a região de Bauru foi um dos principais focos. Por mais que as queimadas não sejam um motivo para a diminuição do abastecimento de água da cidade, elas são mais um sinal do tempo seco que impacta a escassez de água. Porém, elas podem causar danos nos equipamentos de captação de água, o que resultaria em um problema ainda maior.
Rafael Ramos, assessor de imprensa do DAE de Bauru, explica como funciona a captação de água da cidade e como as queimadas se relacionam com a seca. “A própria queimada é um sinal de que o clima está desregulado, que está seco demais com umidade baixa e temperatura elevada. Esses fatores influenciam na disponibilidade hídrica, principalmente do manancial superficial, que é o Rio Batalha, que abastece cerca de 25, 26% da população aqui de Bauru. Então ela, na verdade, não tem uma influência. A queimada não causa o desabastecimento ou não reduz a disponibilidade hídrica, mas ela é um indicativo de que a condição climática está desfavorável e que provavelmente a gente já chegou num ponto em que a disponibilidade hídrica está reduzida ou vai reduzir.”
“O que pode acontecer em muitos casos, e já aconteceu no DAE, inclusive, é que dependendo do local dessa queimada, como aconteceu em setembro, uma mata muito próxima da captação, onde passa a fiação que liga o Rio Batalha até a estação de tratamento de água, pegou fogo, ficando muito próxima da nossa tubulação. Toda água que sai do Rio Batalha e vai até a estação de tratamento de água passa por essa tubulação e com a queimada corre o risco dela ser prejudicada por conta do próprio material. A tubulação esquentou, se dilatou, mas nada aconteceu. O abastecimento seguiu normalmente. Outro risco que a gente tem com as queimadas é caso ela atinja um ponto de eletricidade. Isso poderia afetar a distribuição de água e o próprio tratamento, porque desligaria os equipamentos”. Complementa.
Rafael ainda diz que as queimadas foram um problema que ocorreu muito depois da falta de água, pois a seca na região vem de muito antes. “O abastecimento foi prejudicado antes, porque a seca já vem desde o segundo semestre do ano passado. E como a bacia do rio Batalha é pequena comparada com outras bacias, ela seca e enche muito rápido. Vocês podem ver a chuva. Um dia de muita chuva, 50 milímetros, por exemplo, já consegue tirar o rio Batalha de 1 metro e passar para 3,20 metros, que é o ideal para abastecimento. Então ela enche muito rápido e esvazia muito rápido. Por isso que a seca, nesse caso, veio depois. As queimadas vieram depois do problema da crise hídrica aqui em Bauru”. É possível ver o nível de abastecimento do Rio Batalha em tempo real no site do órgão.
PROCESSOS DE CAPTAÇÃO DE ÁGUA E ABASTECIMENTO

A captação de água do Rio Batalha é um processo de várias etapas e é responsável pelo abastecimento de partes da cidade. Os sistemas de captação de água do rio vão desde a sua nascente até as estações de tratamento de água, as chamadas ETAs. Esse processo envolve vários compostos químicos para a purificação da água, a fim de deixá-la própria para consumo. Cerca de 30% da população de Bauru tem suas casas abastecidas pelo Rio Batalha, pois nessas áreas a perfuração de poços, que é a maneira mais eficiente de captação, não é possível. O assessor de imprensa conta como é feito esse processo e a distribuição pela cidade. “O sistema de abastecimento do Rio Batalha é o primeiro e mais antigo da cidade, pois ele é um sistema de águas superficiais. Esse sistema faz a captação da água bruta, que é a sem tratamento, lá do rio Batalha e a transfere para uma ETA, uma estação de tratamento de água, onde tem todo o processo de tratamento. Esse processo da ETA de hoje é convencional, é um processo simplificado. A água entra, passa por um tratamento químico de cloro, flúor e outros componentes. Depois ela vai para um tanque de decantação, onde é jogado floculadores, que são químicos que reagem com a água e fazem essas partículas, esses sedimentos da água, descerem até o fundo do tanque. Vai de um tanque para o outro, cada vez ficando mais potável, até passar pelo filtro, na última etapa. Dessa etapa aqui, assim que é encerrada a filtragem, vai para os reservatórios que a gente tem espalhado pelas cidades. Esse sistema do rio Batalha, ele basicamente atende a região central, a região sul e parte da região noroeste da cidade, que dá em torno de 20% a 30% da população, porque nessa região não tem como se perfurar poços”. O processo de captação de água pode ser explicada nesse vídeo.
Além do abastecimento feito pelo rio Batalha, também há a captação de água de poços subterrâneos, feitas do Aquífero Guarani. “O outro sistema seria o de águas subterrâneas do DAE, que são baseados em poços profundos, que podem ser de 90 a 450 metros de profundidade. Esse sistema é composto por 42 poços que o DAE construiu ou contratou a empresa para construir. E essa água vem do aquífero Guarani, que é um dos maiores no mundo e que é de excelente qualidade. Tanto é que a água não precisa nem de uma ETA para ser tratada. Ela sai do poço ou do reservatório mais próximo e é enviada para o que chamamos de ‘casinha’. Lá dentro vai ter o equipamento para colocar cloro e flúor na água, que são os químicos que a legislação brasileira pede obrigatoriamente.
“Esse sistema abastece de 70% a 75% da população”. Segundo ele, as regiões norte, leste e oeste são abastecidas só por poços e atualmente, essa captação é que gera mais água potável para a população de Bauru,sendo mais importante do que o rio Batalha.
O assessor ainda explica as regiões em que o rodízio de água é possível, por conta das diferentes formas de captação na cidade. “Não teria como a gente fazer um rodízio das regiões que têm poços porque o Batalha não conseguiria suportar todo esse atendimento. Agora, o contrário foi possível. Em meio a essa crise hídrica, a gente teve muito redirecionamento dessa água de poços através de novas interligações, interligações entre reservatórios, para as regiões que são atendidas pelo Batalha. A gente conseguiu reduzir a dependência do rio Batalha fazendo essas interligações de poços. E a tendência daqui para frente, pelo menos a proposta desse governo, é de que cada vez menos a população dependa da água, do abastecimento superficial, que no final das contas seja tudo por poços profundos. Porque o Aquífero Guarani realmente tem uma quantidade praticamente infinita de água”.
AGRAVANTES DA FALTA DE ÁGUA NA CIDADE
Além do tempo seco e da falta de chuvas, existem outros fatores que impactam diretamente na falta de abastecimento de água no município. A gestão do recurso também é algo que afeta o direcionamento da água e a própria agricultura local atrapalha a chegada na cidade. Rafael explica como isso funciona. “Outro fator importante também é a questão da própria gestão dos recursos hídricos, não só em nível municipal, mas em nível estadual, nacional e até internacional. Gestão dos recursos hídricos que eu falo, como está a governança desse recurso? De quem é a água? Qual é a prioridade para utilizar essa água? Será que é do agricultor que usa para irrigar sua plantação ou é da população que precisa de abastecimento? Ou é da Bracel, por exemplo, que faz a retirada da água em meio à crise hídrica, para abastecer as indústrias ou para irrigar os eucaliptos? Então, é nesse sentido que eu falo de governança”.
Rafael complementa. “Você pode estipular quais são os usuários daquele recurso hídrico, desde animais nativos, até o gado. Cada árvore é um usuário também, porque ela consome a água desse rio Batalha, até a população, os agricultores. Quem são esses usuários, o quanto de água eles precisam e o quanto eles podem retirar daquele mesmo recurso”.
Rafael reforça que o rio Batalha não é suficiente para população de Bauru, ainda mais com seu recurso sendo utilizado pelas pessoas e também pela economia. A gente tem o rio Batalha, como eu falei, ele é pequeno. Ele não consegue abastecer todos os usuários de forma integral, 24 horas por dia. É claro que Bauru tem a prioridade, porque é a cidade que utiliza ele para abastecimento público. Mas se você for olhar desde a nascente, lá de Agudos, até onde a gente faz a captação, em torno de 20 quilômetros, é como se Bauru fosse a última a receber essa água. Então, todos os usuários já captaram a água necessária, já utilizaram essa água, e o que chega é o que sobra. Então, isso é muito difícil”.
PONTO DE VISTA DA POPULAÇÃO
Por conta da falta de abastecimento na cidade, o DAE adotou o sistema de rodízio a fim de estabilizar o Rio Batalha quando o seu nível está abaixo do ideal para captação. Porém, esse revezamento não é feito da forma adequada, o que afeta os moradores da cidade. O aluno de engenharia elétrica Jonatas Veras, que mora em uma república de estudantes na zona sul de Bauru diz como foi passar pelo rodízio.
“Foi bem difícil, porque aconteceu em um momento em que todos aqui de casa estavam voltando de suas cidades e acabamos ficando aproximadamente uma semana com falta de água todos os dias”. Ele complementa, “Ficamos aproximadamente um mês e meio, recebendo água apenas aos fins de semana. Apenas a partir do dia 20 de setembro as coisas voltaram ao normal”.
O DAE disponibiliza o serviço de caminhão pipa quando há casos de falta de água, porém Jonatas diz não ter tido um bom atendimento com o recurso. O sentimento que nós sentimos foi de indignação, pois nós moramos em muitas pessoas e pedimos diversas vezes um caminhão pipa só que nunca enviaram”.
Sem água, tarefas do cotidiano não puderam ser realizadas na casa do estudante, sendo a própria higiene básica. “Nós começamos a ter que comer fora por não ter condições de lavar a louça e sempre tomar banho em casas de amigos, acabamos perdendo muita louça e a casa acabou ficando muito suja”. Ele finaliza.





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