A cidade passou por várias transformações desde o fim da ditadura e ainda procura entender o que se passou para seguir para o futuro
Carlos Staff, Gustavo Bastos e Kauê Nunes

Há 60 anos, no dia 31 de março de 1964, era iniciado o golpe de estado protagonizado pelas forças armadas, retirando o presidente João Goulart do poder. A partir de então os militares assumiram de maneira autoritária o país e Bauru por 21 anos. A cidade e o país foram palco de embates entre apoiadores dos militares e movimentos contrários ao golpe.
Durante o período ditatorial cidadãos sofreram com as ações do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), responsável por repreender grupos subversivos vistos como inimigos pelos militares. Na época grupos de resistência e quaisquer sinais de apoio ao comunismo já eram suficientes para as ações de repressão.
Em Bauru não foi diferente, mas a cidade pouco rememora os acontecimentos que ocorreram e até mesmo não lembra das figuras que fizeram parte da resistência durante as duas décadas em que os militares estiveram no comando.
Partidos de esquerda e a clandestinidade bauruense
Havia diversos partidos políticos atuantes no período pré-golpe, apesar dos partidos de esquerda agirem quase que em sua totalidade de forma clandestina. O Partido Comunista Brasileiro (PCB), o popular Partidão, era o único que agia de maneira ativa na cidade de Bauru. Seus membros, que incluíam advogados e sindicalistas, foram fortemente perseguidos após a instauração da Ditadura Militar.
Apenas dois partidos se mantiveram ativos após o golpe: a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), que representava os apoiadores do golpe, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que se tornou o abrigo da oposição. Com a forte repressão política da época, os resistentes foram se ajustando em partidos clandestinos, criando organizações revolucionárias com a finalidade de restaurar a democracia no país.
Até o início dos anos 70, diversas organizações e movimentos de combate à ditadura surgiram em um patamar nacional, mas nada que alcançasse de fato a cidade de Bauru. Isso dura até a segunda metade da década de 70, quando o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8) passa a agir em solo bauruense até 1982.
Aos poucos, os movimentos clandestinos de esquerda deixavam de lado a luta armada em vista do foco na formação de opinião. Em Bauru, houve forte apelo do movimento “Diretas Já”, além de grande representação da Comissão Brasileira pela Anistia (CBA).
A partir de 1983, Bauru passa a ter um governo social e progressista graças a eleição de Édison Bastos Gasparini, advogado e militante, como prefeito da cidade. Posteriormente, a queda da ditadura gerou uma crescente no número de partidos comunistas legalizados.

Movimentos e campos de resistência
O movimento sindical ferroviário de Bauru teve forte participação no embate contra a Ditadura Militar. Por se localizar no centro geográfico de Bauru, as principais rodovias à época, Noroeste Sorocabana e Paulista, contavam com inúmeros trabalhadores, com a grande maioria vivendo na extrema pobreza. Em razão disso, os trabalhadores ferroviários possuíam um histórico de organização e de lutas políticas desde os anos 1940. A primeira forte repressão com direito a prisões políticas aconteceu em 1964 após uma assembleia de trabalhadores que buscavam resistir ao golpe.
Os movimentos estudantis também fizeram sua parte na luta contra o golpe militar. À época, Bauru já se destacava como um grande centro estudantil. Os estudantes se mobilizaram e se organizaram juntamente com representantes partidários e também religiosos, tendo resistido à repressão do início ao fim do regime militar, atuando junto a União Estadual dos Estudantes (UEE) e à União Nacional dos Estudantes (UNE), além da Federação Bauruense Estudantina (FBE), que teve sua sede destruída por membros da Frente Anticomunista de Bauru e Região (FAC).
Tratando-se do ambiente acadêmico, os professores foram fortemente afetados e reprimidos pela ditadura. A grade curricular era moldada de acordo com os interesses dos militares, e o pensamento crítico era coibido graças à censura e vigilância de membros da direção escolar e até mesmo de colegas de profissão, os quais muitos eram membros da Associação Diplomados Escola Superior Guerra (ADESG), que apoiava publicamente o regime militar.
Apesar da atuação individual em um primeiro momento, logo os professores começaram a se organizar coletivamente com foco na resistência à repressão, mais precisamente na segunda metade dos anos 1970. A principal organização se concentrava na Fundação Educacional de Bauru (FEB), que, em conjunto com os movimentos de resistência bauruenses, vieram a fundar a Associação dos Professores da FEB (APROFEB) e a Associação dos professores de Bauru (APROBAU), que em 1986 viria a se tornar o Sindicato dos professores de Bauru (SINPROBAU).
Em Bauru, o movimento artístico-cultural seguia na mesma linha crítica, no entanto, tinha sua atuação limitada devido à censura imposta pelos militares. A tônica só veio a mudar a partir de 1983, após a posse do comunista Édison Bastos Gasparini como prefeito da cidade.
Segundo o relatório da Comissão da Verdade de Bauru, não houve uma grande articulação religiosa em Bauru no que diz respeito à ditadura, no entanto, devido à grande influência da Igreja Católica, os fiéis acabaram sendo persuadidos de certa forma. O golpe de 64 foi apoiado pela ala conservadora da Igreja Católica, que contribuía desde os anos 1950 com a propaganda anticomunista e resultou na criação de movimentos ultraconservadores e paramilitares como a Frente Anticomunista (FAC). Por outro lado, a partir de 1968, por influência do Concílio Ecumênico Vaticano II, a Igreja passou aos poucos a dotar-se de visão política e social e que deram fundamentos políticos aos movimentos de pastorais de resistência democrática à ditadura.

Frente Anticomunista (FAC)
A Frente Anticomunista de Bauru e Região, ou FAC como era conhecida, foi fundada pelo promotor público Sílvio Marques Júnior em 1962. Inicialmente, o papel do movimento era o de difundir ideias de oposição ao governo de João Goulart e conceitos anticomunistas. Com o golpe militar de 64, a FAC passou a agir como um grupo paramilitar.
A FAC surge em um contexto de crescimento dos embates ideológicos e políticos no período pré-golpe, onde a propaganda anticomunista financiada pelo governo estadunidense e a grande mídia brasileira atingia seu ápice e já havia cooptado o apoio da classe média e da elite nacional.
Católico fervoroso, Sílvio iniciou com a propagação dos seus ideais anticomunistas enquanto dava aulas no curso de Direito da Instituição Toledo de Ensino (ITE). Em vista de reunir novos membros para a FAC, Sílvio comentava sempre da suposta ameaça comunista à comunicação oral e escrita, o que causaria a iminente destruição da família, da liberdade, da propriedade e da religião.
Os relatos dados à Comissão da Verdade de Bauru apontam que a FAC recebia apoio da imprensa conservadora, dos empresários, do comércio, da indústria, dos proprietários rurais, do clero e da igreja católica.
Com livre trânsito entre os órgãos da polícia, Sílvio detinha uma planilha com nome e endereço dos seus inimigos, os “esquerdistas” de Bauru, para serem presos após a realização do golpe militar. Essa informação, inicialmente dada pelo jornalista Barbosa, foi posteriormente confirmada pelo próprio Sílvio em uma entrevista para o Diário de Bauru em 1966, que também tratou de admitir a parceria da FAC com as forças armadas do estado de São Paulo.
Sílvio também era apontado como o responsável por fornecer treinamento político e militar para jovens que integravam a FAC, ensinando-os artes marciais e a manusear armas de fogo.
Um dos principais alvos da FAC foi o advogado trabalhista Edison Bastos Gasparini. Tendo um histórico de defesa diante da precarização do trabalhador, foi eleito vereador em 1959 e em 1963, essa segunda eleição sendo pelo Partido Socialista Brasileiro. Com a luta pelos direitos coletivos da população, Edison passou a ser visado e perseguido por apoiadores do golpe, como a FAC. Teve seu mandato cassado em 1964 por alegações de atividades “comunistas” e “subversivas”.
No entanto, Edison retorna ao cargo de vereador após confirmar a sentença de ganho de causa. É novamente eleito vereador em 1972 e em 1976. Em 1982 vem a ser eleito prefeito de Bauru com uma votação expressiva, mas não se mantém no cargo por muito tempo, vindo a falecer em 1983.
O declínio da FAC pode ser compreendido ao analisar o contexto político vivido pelo país naquele momento. O combate ao comunismo proposto pela FAC tornou-se menos útil com o tempo à medida que o golpe militar foi instaurado. Isso se deve ao fato de que o Estado já utilizava de toda a força bruta das Forças Armadas para reprimir agressivamente a oposição.
Com toda a violência e opressão vinda do Estado em direção àqueles que representavam a ameaça comunista, a FAC deixa de ter sua função relevante. A última manifestação por escrito de Sílvio data de 1969, alertando os jovens sobre o perigo do comunismo.

Luta antimanicomial e a Carta de Bauru
Uma das formas utilizadas pelos militares para silenciar inimigos políticos foi o uso dos hospitais psiquiátricos. Sem chances de passar por algum tipo de processo legal, alguns presos políticos eram encaminhados para os manicômios e eram classificados como loucos que precisariam de tratamento. Para além dessa forma de opressão a opositores, a abordagem adotada pelos hospitais era uma maneira de impor poder e intolerância principalmente às minorias.
Essa lógica promovida por esses ambientes derivou da Europa no final do século 19, onde saúde mental e temas relacionados eram enxergados de maneiras bastante diferentes e os tratamentos eram bastante desmoralizantes. Ari Maia, professor de psicologia na Unesp, comenta como a estrutura operacional dos hospitais era direcionada para o apagamento pessoal dos indivíduos que ali estavam:
“Ocorria uma longa série de arbitrariedades e até de assassinatos através de uma sistemática de maus tratos e negligência”, comentou o professor.
A história da luta antimanicomial no Brasil está diretamente ligada com Bauru. Em dezembro de 1987, profissionais de saúde mental, usuários e familiares se mobilizaram nas ruas da cidade pedindo o fim dos manicômios e uma modernização nas metodologias utilizadas. Durante o II Congresso Nacional dos Trabalhadores de Saúde Mental foi feita a carta que simbolizava esse movimento e que virou um marco histórico na reforma psiquiátrica do país:

Na cidade, também foi inaugurado um dos primeiros Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que fica localizado próximo ao Hospital de Base. Quem frequentava essa unidade do CAPS podia circular livremente e participar das reuniões da equipe, uma atmosfera completamente diferente dos manicômios. O professor Ari trabalhou como estagiário nesse centro e lembra como essa experiência foi marcante em sua vida, ampliando suas percepções sobre patologias e saúde mental:
“Eu tenho uma memória afetiva daquilo. De um ambiente de acolhimento, sério e também muito leve e interessante (…) A pessoa que tinha o diagnóstico de esquizofrenia estava ali fazendo aula de capoeira junto comigo, com as mesmas dificuldades. Não havia diferença”.

Apesar dos avanços alcançados após o fim da ditadura, ainda é preciso que todos os setores da sociedade estejam atentos e também se conscientizem sobre a importância de estudar o passado para não o repetir no futuro. Mesmo com esse ponto de atenção, ainda são poucos os esforços da esfera pública para que a história seja revivida.
Maia destaca a elaboração do Plano Nacional de Educação de Direitos Humanos (PNEDH) em 2003, como uma das poucas políticas públicas que tinha como objetivo contemplar a educação sobre questões relacionadas à justiça social e democracia:
“Um dos temas fundamentais sobre a educação de direitos humanos é a memória. É o famoso nunca mais. Há circunstâncias históricas que precisamos trabalhar para que elas nunca mais existam (…) porque dependendo de como você olha o passado, isso abre perspectivas de futuro distintas”, comentou o psicólogo.
Comissão da Verdade de Bauru
Seguindo a criação da Comissão Nacional da Verdade e a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo em 2011, Bauru também viu necessária a criação de uma comissão local para integrar ambas, apurar casos de tortura, desaparecidos, mortes e identificar envolvidos nos crimes praticados durante o período militar.
A ideia surgiu a partir da organização da II Jornada Direitos Humanos feita pelo Observatório de Educação em Direitos Humanos da Unesp. O evento contou com atividades acadêmicas, culturais e políticas. Com esse movimento tomando forma na cidade, o então vereador Roque Ferreira ajudou a montar o “Grupo Bauru, Memória e Verdade” formado por membros ligados à luta pelos direitos humanos.
A comissão então foi nomeada como Comissão da Verdade de Bauru “Irmãos Petit” em homenagem a Maria Lúcia Petit, Jaime Petit e Lúcio Petit, nomes de moradores da cidade que lutaram na Guerrilha do Araguaia e foram assassinados pelos militares.
Além de compreender o contexto da época na cidade, foi dedicado também um espaço para compreender o papel da FAC como grupo paramilitar. Outro compromisso estabelecido pela comissão foi promover atividades educacionais nas escolas bauruenses, para que houvesse um conhecimento mais aprofundado da história para professores e estudantes.
O trabalho da comissão teve início em junho de 2012 e término em dezembro de 2014, contando ao longo dos meses com depoimentos de pessoas que tiveram algum tipo de atuação na época. Havia um acordo estabelecido na época para que o relatório fosse disponibilizado no site da Câmara, mas isso não acabou acontecendo de fato e ele só foi lançado de maneira extraoficial somente em 2023 pelo Jornal Dois, veículo bauruense independente. Você pode ler o relatório clicando no link logo abaixo:
Relatório da Comissão da Verdade de Bauru

Cobertura da mídia
A mídia tem um papel fundamental para que não haja o esquecimento dos fatos que aconteceram e para que exista um olhar fiscalizador perante o cumprimento disso. Se no período da ditadura, os jornais bauruenses eram constantemente censurados pelos militares e quase nem se atreviam a tecer qualquer tipo de crítica, o cenário pós-regime continuou com pouquíssimas lembranças do que se passou.
O trabalho de memória na cidade é feito principalmente por jornalistas e mídias independentes, como foi o caso do Jornal Dois em 2023. O veículo bauruense publicou uma série de três reportagens especiais e um editorial feito por alunos de jornalismo da Unesp contando a história de sobreviventes, familiares de pessoas mortas e também sobre a Comissão da Verdade.
Michel Amâncio, editor do Jornal Dois e jornalista na Rádio Unesp, acredita que a memória da ditadura poderia ser melhor trabalhada, principalmente pela grande mídia:
“A mídia tradicional hegemônica de Bauru tem recursos para fazer algo melhor, para fazer algo de fôlego e que pudesse resgatar, de fato, essa memória do período ditatorial aqui em Bauru. Eu acho que, de um lado, de fato não há interesse por parte das oligarquias e da elite da cidade. As pessoas que controlam a mídia e outras empresas grandes do município não querem que isso seja realizado”, comentou o jornalista.
Caroline Campos foi uma das autoras das reportagens e realiza pesquisas sobre o período militar e a cobertura da mídia. Na sua visão, a falha de veículos tradicionais na memória da ditadura ressalta a importância das mídias alternativas, que cumprem o papel a rigor de ir atrás dos fatos:
“O jornalismo constrói narrativas e constrói sentidos. Eu acho que eles (mídia tradicional) não só põem na vitrine o fato como é, mas também da forma que eles querem […] para mim a alternativa é olhar para o jornalismo independente, porque enquanto a gente tem esse lado, eles estão fazendo conteúdos muito legais”, opinou a jornalista.
A TV Unesp também tem se empenhado ao longo dos últimos anos em realizar um trabalho de memória produzindo materiais para seus programas. Eles estão disponibilizados no YouTube e você pode acessá-los:
Produções culturais
Desde 2022 é realizada a mostra “Nise – A Revolução Pelo Fato” que conta sobre a vida e o trabalho da médica Nise da Silveira em favor da luta antimanicomial, além do uso da arte como abordagem terapêutica.
A exposição chegou ao Sesc Bauru em setembro de 2023 e ficou em exibição até março deste ano. Além de abordar o trabalho de Nise, a mostra na cidade também trouxe alguns recortes sobre a Carta de Bauru e a reforma psiquiátrica na cidade.
Filmes e séries também são uma forma de contar a história e nos últimos anos, algumas produções têm ganhado destaque. Em novembro, estreou nos cinemas o já aclamado “Ainda Estou Aqui”, que conta sobre o desaparecimento e o assasinato do deputado Rubens Paiva durante a ditadura pela perspectiva de sua família. O longa estrelado por Fernanda Torres e Selton Mello tem sido elogiado pelo público e em diversas premiações de cinema ao redor do mundo.
A música também era uma forma de protesto contra os militares. Durante a ditadura, diversos artistas foram censurados ou reprimidos à força como Gilberto Gil, Chico Buarque, Elis Regina e outros mais. Apesar disso, suas canções ainda faziam várias críticas aos militares e a Agência Trilhas montou uma playlist com algumas delas:




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