A origem de Bauru sob a perspectiva da luta indígena e do resgate histórico ancestral, e os desafios encontrados por comunidades da região nos dias de hoje

João Rodrigues, Léa Secchi e Vincenzo Zandoná

Fundada em 1896, Bauru é uma cidade com mais de 370 mil habitantes, situada no interior do estado de São Paulo. A “Cidade Lanche” ou “Cidade Sem Limites”, como é chamada carinhosamente por seus moradores, se destaca não só pela sua industrialização e contribuição econômica ao estado, mas também por ser um importante centro cultural da região. Ela nasceu como incentivo ao progresso econômico baseado na cafeicultura, impulsionado pelo Governo Vargas para a ocupação de áreas centrais do país, e com a chegada da ferrovia e do investimento para que se tornasse um centro comercial, teve um crescimento exponencial até se tornar o que é hoje. Contudo, antes disso, já existia gente aqui.

A fundação histórica da cidade, na verdade, se deu por meio da ocupação do território. Assim como o que aconteceu em todo o resto do país, não houve pedido de permissão ou conversa. A “terra de ninguém” na verdade tinha dono. O solo onde Bauru se tornou fértil, foi regado a genocídio.

Estação ferroviária de Bauru, atualmente abandonada | Foto: Léa Secchi

“Os primeiros bauruenses eram indígenas. Povos que desapareceram dos registros oficiais e das histórias contadas nas escolas.” Em entrevista à TV Tem, principal canal televisivo de Bauru, Fábio Grossi dos Santos, arqueólogo e pesquisador, aponta sobre como na nossa história regional herdamos um olhar etnocêntrico. “O olhar do branco narra a origem de Bauru de uma forma romantizada e heroica, que cita a presença indígena de uma forma minimizada”.

Fábio ainda cita que os registros históricos da época mostram que os conflitos antes da ocupação rural eram pontuais, mas com a queimada das florestas para o cultivo do café e construção de fazendas, e com a chegada da ferrovia, as disputas por território se tornam sistemáticas. “O progresso da Noroeste é carregado de sangue. O ferro dos trilhos é forjado em cima do genocídio de milhares de indígenas.”  

Um encontro de Culturas e Conflitos

A história de Bauru, como muitas outras cidades brasileiras, se escreveu pautada no encontro de diversas culturas, especialmente no confronto e na interação entre povos indígenas, colonizadores e trabalhadores escravizados. A ocupação do território foi marcada pelo medo, pela dor, e pelo roubo, da vida, do corpo, da casa. Os traços indígenas da cidade, com o tempo, foram sendo esquecidos.

A chegada da Ferrovia Noroeste do Brasil, que começou a ser construída no início do século XX, foi um marco importante que alterou profundamente as dinâmicas sociais e econômicas na região, trazendo grandes impactos para as comunidades indígenas que habitavam as áreas ao redor.

As comunidades indígenas eram muitas vezes empregadas nas lavouras dos fazendeiros locais, e os povos nativos, como os Kaingang, enfrentaram grandes dificuldades ao verem seus territórios sendo invadidos por colonizadores e trabalhadores em busca de terras para a agricultura e para a construção da ferrovia. Para eles, a terra não era apenas um espaço físico, mas estava ligada à sua identidade, espiritualidade e modos de vida. Ao perderem-na, muitas famílias indígenas se viam forçadas a viver nas margens da sociedade, em condições precárias e sem recursos suficientes.

“Eles viviam para lá e para cá, vivendo da caridade das pessoas, e sofrendo as consequências daquele encontro: alcoolismo, prostituição… Temos relatos de mulheres Guarani trabalhando como prostitutas em Bauru.”

Segundo o Prof. Dr. em história, Edson Fernandes, formado pela Universidade do Sagrado Coração (USC), a chegada da ferrovia intensificou esses conflitos. Os fazendeiros, muitas vezes ligados aos “bugreiros”, formavam expedições armadas para expulsar os povos indígenas de suas terras. Esses grupos organizados, com dezenas de pessoas armadas, se infiltravam nos territórios indígenas, ocasionando confrontos, como o ataque aos Kaingang, que tentavam defender suas terras, o que levou à morte de indígenas e bugreiros. 

O processo de pacificação acontece de forma a apaziguar tais combates. Edson expõe que o “pacificado” dá a impressão, inclusive, de algo selvagem, que precisa ser civilizado. Quando, diante da tomada da vida e da terra, precisava-se pacificar o branco. 

O Governo Federal, então, buscando controlar a situação, criou o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), sob a liderança do Marechal Rondon, figura fundamental na história da interação com os povos originários. Rondon visava a integração pacífica e tentava estabelecer um contato mais respeitoso, ao invés de resolver o conflito através da violência, como era comum na época. O professor comenta: “Para a época isso foi um avanço, porque antes era feito na base da bala”.

No entanto, a implementação dessa política não foi suficiente para evitar os danos causados pela invasão de seus territórios. Muitos indígenas, especialmente aqueles com alguma ligação com a cultura guarani ou que foram capturados ainda crianças, acabaram aprendendo novas línguas e se tornando intérpretes ou até mesmo mão de obra escravizada nas fazendas da região. Um exemplo é a figura de Vanuíre, uma indígena guarani que, após ser capturada ainda criança, passou a trabalhar como escravizada em uma fazenda local, sendo obrigada a aprender a língua portuguesa para se comunicar com seus opressores.                      

Foto: Divulgação/Museu Histórico e Pedagógico Índia Vanuíre

A formação de Bauru também está marcada pela contribuição de outros grupos, como os africanos, que foram trazidos como mão de obra escravizada para trabalhar nas fazendas. A mistura dessas culturas – indígenas, africanas e europeias – formou o que muitos historiadores chamam de “caldeirão cultural e étnico” da cidade, cujos reflexos ainda são percebidos na toponímia local e nas tradições que sobreviveram ao tempo.

As heranças indígenas da cidade estão também no nome. Existem várias versões que especulam sobre a origem da palavra, apontando que ela teria surgido da língua tupi, derivada de mbai-yurú (queda de água), de ybá-uru (cesta de frutas), Uba’Uru (Uba, sendo uma vegetação típica da região e Uru uma ave que se escondia nessa vegetação) ou ainda do nome dado aos índios que habitavam as margens do rio Batalha, conhecidos como “bauruz”.

A história de Bauru e dos povos indígenas que habitaram e ainda habitam a região mostra que a terra, para os indígenas, não pertence ao homem, mas sim o homem à terra – um conceito que, embora antigo, ainda é central na luta pela demarcação de territórios e pelo reconhecimento da identidade desses povos.

Esse legado de resistência, sofrimento e luta pela terra continuam a fazer parte da história de Bauru, e a memória dessas comunidades ainda ecoa nas margens da cidade.

“Ei nós, que viemos De outras terras, de outro mar Temos pólvora, chumbo e bala Nós queremos é guerrear” | Milton Nascimento – Peixinhos do Mar

       

Cacique Chicão

Edenilson Sebastião, conhecido como Chicão Terena, cacique da aldeia Kopenoty, é formado pela Universidade do Sagrado Coração (USC) de Bauru/SP, em Geografia, e é professor na Escola Estadual Indígena da Aldeia Kopenoti e também Presidente do Instituto de defesa do Meio Ambiente Indígena – IDMAI, organização não governamental que atua na área da reserva ambiental.

A cultura Terena passou por muitas modificações, principalmente com relação à questão da vestimenta, símbolo de expressão indígena até os dias de hoje. Ele relata a dificuldade na produção das peças.  “Nós não temos mais materiais para fazer uma roupa tradicional do povo terena, as saias utilizadas nas apresentações culturais da comunidade são feitas com a pluma da ema, e como esse não é um animal que se encontra em qualquer local, fomos obrigados a criar roupas de capim”. 

As modificações do modo de vida também ocorrem em outras áreas. Na aldeia, por exemplo, a casa do Cacique é feita de alvenaria. Chicão reforça que essas mudanças não o torna menos indígena, e que as adaptações não limitam a cultura do seu povo. “A gente vive numa sociedade que segue padrões. E esse padrão de vida, de convívio, faz com que nós, enquanto indígenas, tenhamos que nos adequar, mas não significa que deixamos nossos costumes de lado”

Os povos originários têm se adaptado. Hoje na aldeia as inovações tecnológicas fazem parte do cotidiano. “Temos carros, celulares, internet, mas nossas crianças ainda aprendem desde novas o idioma e as nossas danças”. Chicão ainda afirma: “Se nós não melhorarmos a qualidade de vida do nosso povo, estaríamos contribuindo também com o extermínio dele.”

“A nossa luta hoje é para manter a nossa tradição, o idioma, e a comida tradicional, e a gente tem trabalhado isso dentro da sala de aula. As escolas nas aldeias só tem professores indígenas, e eles atuam dentro da sala de aula com um papel importante na valorização da cultura e da tradição”.

Existe uma preocupação com o preparo dos jovens indígenas para a vida fora da comunidade. “Existia uma visão que nos prendia na aldeia, como se fôssemos pessoas diferentes. De fato somos, pela cultura, pela tradição, mas nós também somos seres humanos”. 

Os recém-formados no ensino médio têm sido incentivados a ingressar na universidade, atualmente existe um programa em parceria com a Uni Sagrado (USC) de incentivo ao ingresso no ensino superior, que possibilita o compartilhamento de experiências para o crescimento conjunto além da aldeia. O Cacique ainda trata sobre a discriminação e como o isolamento pode contribuir para isso. “Podemos contribuir com a sociedade, essa troca de experiências se faz necessária”. 

Chicão aborda também sobre a presença dos povos originários na política. Ele acredita que eles têm buscado conquistar esse espaço, mas como são minoria, acabam por possuir pouca representatividade. 

“Quantos vereadores indígenas existem nos municípios do estado de São Paulo? Quantos prefeitos existem? Nós temos três vereadores municipais que são indígenas, mas nenhum a nível estadual.” Ele se refere aos vereadores Tito Terena, na cidade de Avaí, Ká da aldeia, em Arco-íris, e Daniel Munduruku, em Lorena. 

O professor cita a importância de se discutir a questão climática, relacionada com a falta de água e com as secas dos rios, que serviam de pesca e abastecimento para as aldeias. “Se você não se preocupa, se eu não me preocupo, se as crianças que estão vindo não se preocuparem, a gente vai contribuir com o extermínio de nosso povo e com a população do mundo” ele apela.

Ele entende que isso advém da produção de energia elétrica e que se faz ainda mais necessário a busca por outras fontes de energia renovável. “Para adiar os efeitos das mudanças climáticas nós temos que fazer algo e para isso você tem que mexer nos grandes empreendimentos que querem destruir o nosso planeta em função do lucro, isso envolve grandes interesses e não é algo fácil”

Para promover a cidadania, o Cacique busca promover um bom diálogo com os municípios, envolvendo o CRAS para efetuar o cadastro das famílias indígenas e garantir o acesso para com programas sociais. 

Existe também incentivo à lavoura de subsistência no território e a prefeitura pode oferecer auxílio nesse aspecto. “Temos ali na prefeitura alguns cursos de capacitação e eles possuem incentivo de cesta básica. A ideia é integrar com a prefeitura para promover incentivos e ofertar cursos técnicos de agronomia e pecuária”. Ele explica que assim, os jovens têm a possibilidade de trazer esse conhecimento para dentro da aldeia. 

Aldeias em Avaí: A Reserva Araribá

A cidade de Avaí, localizada a 40 quilômetros de Bauru, no interior paulista, é o município com o maior percentual de indígenas em relação à população total, segundo os dados do Censo 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). São 677 indígenas em uma população de 4.483 pessoas. Seus moradores relatam que um dos seus traços mais marcantes da cidade é a preservação das tradições e culturas dos povos originários.

Gráfico de comparação de moradores indígenas na cidade de Bauru e Avaí | Fonte: Censo IBGE 2022

Declarada reserva indígena antes mesmo da chegada dos Terenas, em 28 de abril de 1913, após um decreto do Governo de São Paulo, Araribá abriga quatro aldeias. São elas: 

  • Aldeia Kopenoty, onde vivem indígenas das etnias Terena e Kaingang 
  • Aldeia Ekeruá, onde vivem indígenas Terena 
  • Aldeia Nimeundaju, onde vivem indígenas da etnia Guarani 
  • Aldeia Tereguá, onde vivem indígenas das etnias Terena e Guarani 

No povoado existe, além da escola, uma Unidade Básica de Saúde, responsável pelos atendimentos médicos aos moradores da comunidade e são falados três idiomas: o Terena, o Tupi-guarani e o Kaingang.

Na terra indígena, a valorização das línguas maternas ganha um significado especial, quando os três idiomas falados na comunidade deixam de ser apenas ensinados entre gerações, para se tornar matéria do ensino regular municipal.

“Nessa terra tudo dá, terra de índio. Nessa terra tudo dá, não para o índio.” | Djavan – Cara de Índio 

Projetos em Bauru

A Araci (Associação Renascer o Apoio à Cultura Indígena) é uma instituição que promove a difusão e o fortalecimento da cultura e do conhecimento indígena, reintroduzindo histórias e mostrando as tradições das tribos ainda existentes. Ela procura viabilizar políticas de afirmação e garantia de direitos dos povos, aldeias e reservas existentes na região de Bauru e de Avaí, cidade próxima a Bauru no interior paulista. 

Fundada pelo professor e artista indígena Irineu Nje’a Terena em 2003, a Araci atua na valorização e preservação da cultura indígena. Entre as principais iniciativas da associação, está a “Semana Indígena”, um evento que trabalha a ideia de reeducação para com o tratamento do indígena, a fim de levar para escolas, universidades e outros campos, o conhecimento específico sobre a origem e cultura dos povos que vivem na região, destruindo os estereótipos criados pela sociedade urbana.

Reprodução: Facebook / Araci

A Semana Municipal da Cultura Indígena passou a integrar o Calendário Oficial de Eventos da cidade em 2016 e é realizada anualmente, durante o mês de abril. A 5ª edição do projeto aconteceu durante os dias 11 e 12 de abril, e contou com atividades como apresentação cultural de danças tradicionais, feiras de arte e artesanato indígenas, além de palestras sobre a história e cultura dos povos originários para alunos e professores.

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