Como redes sociais e plataformas digitais contribuem para a popularização da criação de conteúdo +18 no Brasil
Karina Ribeiro e Matheus Venâncio
A nudez sempre foi tema de debate no Brasil, das rodas de conversa sobre revistas nas bancas aos dilemas morais enfrentados durante a Ditadura Militar. Em 1969, a revista Ela e Ele exibia mulheres anônimas em biquínis discretos e poses sensuais, mas não foi a única a investir nesse tipo de entretenimento.
No mesmo ano, surgiu a revista Status, que logo foi embargada pela censura. Para driblar a fiscalização rígida, a publicação adotava estratégias como cobrir um dos mamilos com frases ou borrar trechos que poderiam ser reprimidos pelos censores. Tais normas buscavam controlar o conteúdo artístico e cultural com base em valores morais e religiosos.
Com os avanços dos movimentos sociais e o fortalecimento da democracia, a censura foi gradualmente enfraquecida. Em 1975, a revista norte-americana Playboy chegou ao Brasil, trazendo uma nova abordagem da nudez como forma de entretenimento.
Classificada como revista masculina, seu conteúdo mesclava fotos de mulheres nuas ou seminuas com matérias sobre esportes, economia e política. Hugh Hefner (1926–2017), criador da publicação, afirmou em diversas entrevistas que a nudez tinha como objetivo principal fidelizar os leitores.
No entanto, com o avanço da tecnologia e o surgimento de plataformas digitais que facilitaram o acesso a conteúdos eróticos, as vendas da revista que chegaram a 1,1 milhão de exemplares por edição despencaram para cerca de 50 mil em 2016, levando ao fim da versão impressa no ano seguinte.
A ascensão das plataformas digitais
Com o crescimento da internet, novas formas de comunicação se popularizaram, como redes sociais e blogs. No entanto, plataformas como Instagram, Facebook e TikTok possuem diretrizes rígidas quanto à exibição de nudez explícita. Isso abriu espaço para que criadores de conteúdo buscassem alternativas para se expressar de forma mais livre e, ao mesmo tempo, monetizar sua produção.
Fundada em 2016, a plataforma OnlyFans surgiu inicialmente como um espaço para artistas e influenciadores oferecerem conteúdo exclusivo para seus seguidores. Porém, a ausência de restrições rígidas quanto ao tipo de material publicado atraiu criadores que não se encaixavam nas diretrizes das redes sociais convencionais.
Com o aumento da busca por entretenimento durante o isolamento social causado pela pandemia de COVID-19, a plataforma cresceu rapidamente. Em novembro de 2023, já contava com cerca de 4,1 milhões de criadores. A inscrição é gratuita, e os valores pagos pelos assinantes são liberados para saque após atingirem o mínimo de 100 dólares. O OnlyFans retém 20% do valor como taxa, repassando os outros 80% aos criadores.
Com a popularização dessas plataformas, a criação de conteúdo adulto passou a ser tratada de forma mais aberta na mídia, presente em podcasts, programas de TV e até em músicas como sinônimo de vida luxuosa e liberdade financeira. A promessa de fama, dinheiro e autonomia atraiu milhares de jovens brasileiros.
A promessa de liberdade
Seguindo a tendência iniciada pelo OnlyFans, surgiu em 2020 a Privacy, uma plataforma nacional que também permite a monetização de conteúdo adulto. Atualmente, conta com mais de 2 milhões de inscritos. Em sua página principal, há até um simulador que estima os ganhos com base na quantidade de assinantes.
Com o slogan “monetize com a sua liberdade”, a plataforma vem se consolidando como uma das principais fontes de renda para muitos criadores. Ao se inscrever, o usuário é incentivado por uma enxurrada de publicações motivacionais, que reforçam a ideia de um trabalho fácil, divertido e possível de ser feito de qualquer lugar do mundo. No entanto, essa narrativa também contribui para a romantização da profissão, ignorando desafios como exposição pública, julgamento social, insegurança financeira e ausência de regulamentação legal.
Depoimento de uma criadora
Mas, por trás da promessa de liberdade financeira, existem histórias que revelam nuances mais complexas. Julia Marques, 24, estudante de Relações Públicas e criadora de conteúdo digital, compartilha sua experiência:
“Eu tenho três plataformas, mas a que mais me dá retorno é a Privacy. Comecei no OnlyFans porque era mais conhecido e pagava em dólar. Mas muitas pessoas pediam formas de pagamento mais acessíveis, e a Privacy permite isso: aceita cartão internacional, Pix e até boleto.”
Criada em Itapevi (SP), Julia conta que, desde os 15 anos, ouvia comentários que a incentivavam a expor seu corpo nas redes sociais:
“As pessoas falavam que eu era perfeita para mostrar meu corpo nas redes sociais. De alguma forma, sempre estive inserida nesse cenário.”
Em 2021, iniciou sua produção de conteúdo adulto, buscando um olhar mais artístico:
“Passei a ver o conteúdo adulto como forma de expressão artística. No começo, demorei a ganhar dinheiro. Quando me mudei para Bauru, levei a atividade mais a sério para conseguir me manter. Foi quando comecei a tirar meus R$ 1.200 por mês o famoso salário-mínimo.”
A ideia de ganhos fáceis com altos valores, embora comum nas propagandas, é refutada por quem vive da produção de conteúdo: para alcançar lucros elevados, a exposição é maior e o sucesso, incerto.
Visibilidade e julgamento social
A criação de conteúdo exige exposição constante especialmente em redes sociais abertas, que impulsionam a visibilidade nas plataformas pagas. No entanto, essa mesma exposição pode gerar julgamentos e impactar outras esferas da vida
“Acho que, para quem produz conteúdo, é preciso decidir que imagem quer construir. Tem pessoas que fazem disso um estilo de vida. Um exemplo é a Andressa Urach: ela criou um personagem ligado à produção de conteúdo adulto, e essa é sua principal identidade”, comenta Julia.
No caso dela, a escolha foi por manter vidas separadas:
“Eu escolhi dividir essas versões de mim. Existe a Júlia estudante, trabalhadora, que gosta de maquiagem e de sair com amigos. E existe a Júlia que produz conteúdo. Não são a mesma pessoa.”
A decisão se baseia em um desejo futuro:
“Em algum momento, pretendo deixar de produzir conteúdo e exercer minha profissão. Se minha imagem estiver 100% atrelada à criação de conteúdo adulto, vai ser difícil me inserir no mercado.”
Consumidores: entre o julgamento e o desejo
O aumento da busca por entretenimento adulto também expôs uma contradição: críticos do conteúdo muitas vezes são os mesmos que o consomem. J., 24, é assinante de plataformas como OnlyFans e Privacy e explica o apelo:
“O que me chama atenção é a proximidade com o criador. Dá a sensação de que a pessoa está mais próxima de você, o que torna o desejo mais ‘possível’ diferente de assistir a um vídeo com alguém de outro país, por exemplo.”
A substituição da pornografia tradicional pelas plataformas exclusivas trouxe um novo discurso: agora, o produto vendido não é só o corpo, mas a sensação de intimidade e exclusividade.
A psicóloga Ana Luiza Morais comenta sobre o impacto do consumo desse tipo de conteúdo:
“É difícil estimar quando se cruza a linha entre consumo ordinário e vício. Mesmo o consumo baixo ou moderado pode gerar prejuízos — principalmente quando envolve expressões violentas, degradantes ou padrões estéticos irreais.”
O debate sobre criação e consumo de conteúdo adulto vai além da liberdade ou da moral. Envolve saúde mental, relações interpessoais e a forma como lidamos com prazer e intimidade na era digital.
O que ampara os criadores?
A exposição necessária para crescer nas plataformas muitas vezes resulta em violações de direitos, como o vazamento de conteúdo exclusivo. Julia relata um episódio:
“O que me abalaria seria se alguém gravasse minhas telas e vendesse o conteúdo como se fosse eu. Já aconteceu algo parecido: pegaram uma foto minha do Instagram pessoal e criaram um perfil falso dizendo que procuravam pessoas para sexo em Tapevi, onde moro. Um assinante me mandou o link perguntando se era eu. Fiquei chocada. Fiz a denúncia e pedi aos seguidores que também denunciassem até a página ser derrubada.”
Casos como o de Júlia não são incomuns, e apesar da crescente presença de criadores de conteúdo adulto, há pouca legislação específica que os proteja.
A chamada Lei Carolina Dieckmann (12.737/2012) criminaliza invasões e vazamentos digitais e artigos da Lei nº 10.695 que trata de crimes contra a propriedade intelectual, especialmente violação de direito de autor e conexos, porém não cobrem diversas situações que acometem os criadores de conteúdo adulto.
- Art. 184. Violar direitos de autor e os que lhe são conexos: Pena — detenção, de 3
- (três) meses a 1 (um) ano, ou multa.
- §1º Se a violação consistir em reprodução total ou parcial, com intuito de lucro direto
- ou indireto, por qualquer meio ou processo, de obra intelectual, interpretação,
- execução ou fonograma, sem autorização expressa do autor, do artista intérprete ou
- executante, do produtor, conforme o caso, ou de quem os represente: Pena – reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multas
A carência de leis que protejam a imagem de produtores de conteúdo, expõem a exploração feita por plataformas, nas quais não oferecem proteção aos criadores que escolhem utilizar seu site. O crescimento da criação de conteúdo adulto no Brasil acompanha tendências globais impulsionadas por plataformas digitais, transformações culturais e a busca por novas formas de sustento. Apesar da aparente liberdade que o modelo oferece, os desafios enfrentados por criadores — como a exposição pública, o julgamento social e a falta de regulamentação — mostram que o setor ainda caminha entre oportunidades e incertezas.





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