Em cidade dominada pelo setor de comércio e serviços, indústria bauruense se mantém entre incentivos e obstáculos
Beatriz Apolari, Ingrid Martins e Julia Moura
Afinal, o que é um Polo Industrial?
Antes de se iniciar a discussão sobre Bauru ser ou não ser um polo industrial, é preciso esclarecer esse conceito. Para Fred Aparecido Matano, economista e professor universitário da Unisagrado, – com pós-graduação em administração de empresas e mestrado em desenvolvimento econômico regional -, a definição de polo industrial vem de localidade.
“São os clusters industriais que todo mundo se auto-ajuda. Há uma espécie de ajuda em inovação, tecnologia, todo mundo cresce ajudando um o outro também”.
No entanto, é preciso compreender que polos industriais não são apenas cidades com indústrias que funcionam em harmonia e que contribuem para o crescimento mútuo. O que diferencia um polo de um distrito industrial é a matriz de cada uma dessas empresas. Os distritos apresentam empresas de setores diversos, enquanto polos se especificam em apenas um setor.

É possível tomar como exemplo a cidade-vizinha Jaú, considerada polo industrial do calçado feminino. Ainda em 2023, o sindicato do setor estimava que o município tinha cerca de 300 fábricas voltadas para essa produção. Birigui, por outro lado, reconhecida como a “Capital Brasileira do Calçado Infantil”, produz quase 60 milhões de pares de calçados por ano, segundo o site da prefeitura.
Bauru é composta por quatro distritos industriais, – conforme você pode conferir no Instagram da Agência Trilhos @trilhosjornalismo. Cada um deles apresenta empresas variadas, que vão desde o setor alimentício, até o metalúrgico. Por essa característica, Fred cita o conceito de “polo industrial misto”, em que, ao invés de se especializar em apenas um tipo de indústria, a cidade apresenta mais de uma frente produtiva fortalecida, além de se interligar com o setor de serviços.
Vale ressaltar que empresas de telecomunicações também desempenham papel fundamental na economia do município. Em entrevista para a rádio 96 FM em 2022, o CEO Eric Garmes afirmou que a Paschoalotto, destaque do setor no centro-oeste paulista, “responde por 6,8% do emprego formal” em Bauru, o que é equivalente a aproximadamente 9 mil funcionários. Já a Concilig, segundo o G1, emprega quase 5 mil colaboradores em Bauru, Lins e Pederneiras.
No entanto, é preciso compreender mais da história e do perfil produtivo da cidade para afirmar se Bauru pode ou não ser considerada um polo industrial, ainda que misto. Nesse sentido, vamos caminhar para uma análise mais aprofundada de tais nuances, perpassando pelo cenário industrial do país, pela construção e consolidação econômica do município, além de trazer outros especialistas para o centro do debate.
Para acessar a entrevista completa, confira o podcast da Agência Trilhos.
A industrialização bauruense
Bauru nasceu como um povoado pacato, transformado em município em 1896, com uma economia agrária pautada na cafeicultura. Entretanto, para o professor Célio Losnak, doutor em história pela USP, o cultivo agrícola bauruense era quase de subsistência: “Tudo indica que não havia uma produção significativa de café no município comparando a outros municípios da região […] a economia da cidade era muito pobre”, afirma.
Mas a construção das linhas ferroviárias mudou tudo. Durante a primeira década do século XX, chegaram a Estrada de Ferro Sorocabana e a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em 1905, além da Companhia Paulista de Estradas de Ferro em 1910. Bauru passou a atrair diversos visitantes, se consolidando como cidade obrigatória de parada. Segundo Losnak, há um razoável consenso de que esse momento foi decisivo para o desenvolvimento da cidade, já que integrou a “cidadezinha” a uma rede de transportes e comunicações.
Com as ferrovias, algumas fábricas de maquinários e acessórios ferroviários foram implantados na cidade. Talvez essa possa ser considerada a primeira atividade industrial da cidade, além de pequenas tecelagens, de acordo com o historiador. Mas o início de uma industrialização efetiva viria apenas na década de 60, diante da política de descentralização da indústria, que até então só era encontrada nos arredores da capital paulista. Em 1968, Bauru criava seu primeiro distrito industrial e assim passou a atrair algumas empresas. Entretanto, não conseguiu firmar seu espaço como centro industrial.
“O que eu acho que ocorreu em Bauru foi um movimento industrial tímido na esteira dessa tendência federal e estadual. É possível identificar que algumas cidades que já tinham uma economia mais estruturada e de ocupações mais antigas foram beneficiadas com esse processo, como Santos, Sorocaba, Campinas, São José dos Campos e Ribeirão Preto”.
A cidade é dominada por um potente setor terciário da economia, que seria o setor de comércio e serviços. A integração ferroviária e a criação de grandes centros universitários como o Centro de Estudos Unisagrado, Instituto Toledo de Ensino (ITE), a USP e a Unesp, fez com que Bauru fosse transformada em uma grande cidade de passagem. O ramo de alimentação e hotelaria, por exemplo, saíram fortalecidos.
Célio explica que os investimentos recebidos por Bauru ao longo do tempo corresponderam ao seu perfil forte diante do comércio e serviços, enquanto cidades que obtiveram mais sucesso durante sua industrialização, costumam atrair mais indústrias novas. Nesse sentido, Bauru seguiu o destino de ter uma economia inflada pela prestação de serviços. Ainda assim, a indústria permanece presente na cidade.
Confira aqui nossa entrevista completa com Célio Losnak no Youtube.
A realidade em números
Conforme dados do site de dados Caravela, o Produto Interno Bruto (PIB) de Bauru se aproximava de R$16,7 bilhões de reais em 2020, com o setor de serviços liderando a participação no valor adicionado em mais de 70%. A indústria aparecia em seguida com uma contribuição de 17%.
Quanto à geração de empregos, a atividade fabril de Bauru foi responsável por mais de 30 mil ocupações em 2022, número que representa um percentual de 24,7% do total de 140 mil registros. Os dados são da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2022.
Veja a relação completa de empregados por setor em Bauru:
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O levantamento da RAIS também especificou quais segmentos industriais bauruenses foram responsáveis pelo maior número de trabalhadores empregados. O destaque vai para as obras de infraestrutura, que somaram quase 30% dos empregos do setor. Confira quais segmentos fabris também obtiveram destaque:
É importante mencionar que os dados bauruenses não se distanciam das proporções nacionais. De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), em 2024 a atividade industrial representou 24,7% do PIB do Brasil. As informações mais recentes indicam ainda que o setor industrial foi responsável por empregar 11,5 milhões de trabalhadores com carteira assinada, o equivalente a 21% do total de empregos formais no país.
Veja a comparação da participação da indústria e dos demais setores no PIB brasileiro e bauruense no gráfico que segue:
Bauru trabalha a favor do fortalecimento da indústria?
A fim de buscar investidores para a cidade, além de apoiar iniciativas de âmbito privado e produtivo de Bauru e encontrar formas de estabelecer parcerias para a indústria, comércio, prestação de serviços e turismo, institui-se a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Renda (SEDECON). Dentre outras atividades, a SEDECON atua na administração dos distritos industriais e trabalha para impulsionar as atividades deste setor no município.
Segundo o diretor da Divisão do Desenvolvimento da Indústria, Comércio e Serviços, Gilberto Portugal, mesmo que serviços e comércio sejam áreas relevantes na economia bauruense, o setor industrial representa um “vetor fundamental para a diversificação econômica, geração de empregos qualificados e aumento da renda média da população” e se posiciona de forma estratégica para equilibrar a matriz econômica municipal. O diretor adiciona ainda que as indústrias impactam nas cadeias produtivas locais e regionais, aumentam o potencial de sustentabilidade dentro da cidade e estabelecem “sinergias” com outros setores econômicos.
O município de Bauru concentra a atividade do segundo setor dentro de quatro Distritos Industriais. De acordo com artigo 5º da Lei 7.578/2.022, nestas áreas são permitidas empresas com atividades industriais, de comércio atacadista e prestadoras de serviços, lojas de fábrica para venda ao consumidor anexas à empresa concessionária. A soma destes empreendimentos, a partir dos dados disponíveis no site da Secretaria, resulta na presença de 200 estabelecimentos espalhados entre as regiões industriais da cidade. Em comparação entre os distritos, 48% está no Distrito I, 27% no III, 17,5% no II e 7,5% no IV. Já em relação ao tipo de empresa, fábricas e indústrias disparam com 55% deste total.
Gilberto explica que, se aprovada, a instalação da empresa é formalizada a partir de uma concessão de direito real de uso, por um período de dez anos; após este prazo, em casos de cumprimento integral dos requisitos no contrato e na legislação, o imóvel é transferido definitivamente à empresa através de Lei de Doação Definitiva.
Além disso, ele pontua que a cidade adota a menor alíquota de ISSQN (Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza) permitida por lei, fixada em 2% para quase todas as atividades econômicas, e oferece suporte técnico, articulação institucional e acesso facilitado a programas de qualificação profissional. Assim, estes diferenciais quanto aos procedimentos envolvidos na instalação de empreendimentos no município são importantes fatores de competitividade analisados pelos investidores e tornam a política pública relacionada a esta temática “consistente” no ponto de vista do diretor.
Apesar disso, em 2018, a empresa Mondelez Internacional anunciou o fechamento da sua unidade em Bauru. A multinacional, na época, publicou em nota a justificativa de tal movimentação: “[a empresa] decidiu intensificar e otimizar seu modelo de produção com foco em fábricas multicategorias”. Com a fabricação de gomas de mascar e balas no Distrito Industrial I, a Mondelez empregava 800 funcionários diretos e se posicionava entre os maiores arrecadadores de ICMS para a cidade, com R$ 3,5 milhões anuais.
Em contrapartida, em janeiro de 2025, a Coca-Cola Femsa investiu R$ 94 milhões em um novo Centro de Distribuição, no Distrito Industrial I de Bauru. Em declaração dada ao site da prefeitura, a prefeita Suéllen Rosim defendeu que “o investimento da Coca-Cola Femsa Brasil é mais um indicativo do potencial de Bauru”, que dispõe de uma “uma economia diversificada”, com uma variedade de empresas de diferentes ramos. Após o término das obras, o empreendimento deve gerar 120 vagas de emprego.
Para além destas políticas de incentivos fiscais e de apoio, o diretor coloca que a localização e as oportunidades de ensino também se destacam dentre os benefícios em investir dentro da cidade. Bauru apresenta uma localização estratégica no centro-oeste do estado de São Paulo. Com acesso rápido a importantes rodovias duplicadas – como a Marechal Rondon e a Comandante João Ribeiro de Barros–, ela se torna um ponto de convergência entre diferentes regiões, como a capital paulista e os estados de Paraná, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, e facilita os trâmites na distribuição de produtos e serviços.
A mão de obra qualificada também atrai novos investidores visto que a cidade apresenta um grande número de instituições de ensino técnico e superior. Assim, costumam ocorrer parcerias entre as universidades e as empresas com a admissão de estudantes nas fábricas e indústrias, favorecendo a geração e a ocupação de vagas de emprego.
No entanto, Gilberto esclarece que entre os principais desafios identificados para o desenvolvimento e a atração de novas indústrias estão a “disponibilidade de áreas urbanizadas e prontas para ocupação industrial; a necessidade constante de atualização da legislação de incentivos e o fortalecimento da infraestrutura energética e de saneamento em áreas industriais”.
Sobre metas e futuras estratégias, a SEDECON almeja a expansão e modernização dos distritos industriais através da abertura de novos polos planejados e infraestrutura adequada. Em adição, para trabalhar em pró da consolidação de Bauru como um hub regional de desenvolvimento econômico, o diretor Gilberto afirmou que a Secretaria pretende:
- Revisar e ampliar a política de incentivos fiscais e territoriais;
- Atrair indústrias de base tecnológica e sustentável, que gerem alto valor agregado e empregos qualificados;
- Integrar com instituições de ensino técnico e superior para fomentar pesquisa, inovação e qualificação profissional;
- Desburocratizar processos, ampliar a oferta de crédito e incentivar a industrialização de setores como agronegócio, logística e manufatura avançada a fim de fortalecer relações na área de negócios.
Afinal, Bauru é um polo industrial?
Tendo em vista todo o panorama estabelecido ao longo desta reportagem, já é possível desenhar uma resposta para esse questionamento. O economista Reinaldo Cafeo não hesita em sua análise: “Não enxergo Bauru como polo industrial. Temos uma indústria pulverizada, com algum nível de concentração na indústria gráfica, alimentícia e de baterias automotivas”.
No entanto, é importante destacar que não ser um polo industrial não necessariamente prejudica Bauru. Ao mesmo tempo que a diversidade produtiva da cidade é o que a distancia do conceito de polo industrial, também pode ser o que a fortalece, do ponto de vista econômico. Para Cafeo, “quando o setor vocacionado não vai bem, a cidade perde como um todo. Se fossemos, por exemplo, um polo industrial de automóveis, se esse setor não for bem, há um grande impacto local”.
Em um estudo de 2024, feito pela Rede de Observatórios da Indústria, em parceria com o Observatório Nacional da Indústria, foram levantados 114 polos industriais com inserção internacional, 259 nacionais, 558 estaduais e 361 polos regionais, localizados no Brasil. Quando comparados com os 5.571 municípios do país, esses números não nos permitem afirmar que a maioria das cidades no Brasil seja um polo industrial especialista. Assim, Bauru entra para a estatística dos 76% dos municípios que não são polos industriais.
Tal como foi abordado no desenvolvimento desta reportagem, a indústria é um pilar econômico fundamental para Bauru, recebendo investimentos públicos e privados. Contudo, a pluralidade de setores que necessitam de verba exige que esse investimento seja redistribuído constantemente, de modo que uma área não desfalque a outra.
Mas o que poderia ser feito para transformar a cidade em um polo industrial? Cafeo explica que a infraestrutura da cidade conta muito para a atração de novas indústrias, como o estado do tratamento de água e esgoto da cidade, o funcionamento do transporte público e dos postos de saúde, entre outros. Depois, chega a hora de traçar um planejamento conjunto:
“O setor público fazendo sua parte, o passo seguinte é discutir entre entidades representativas dos setores da economia, qual caminho será trilhado, e montar uma força tarefa visando incentivar as empresas aqui se instalarem. Sem um planejamento claro, com etapas, com divisão de tarefas e principalmente oferecendo qualidade de vida aos colaboradores que aqui irão morar, não teremos resultados”, conclui.





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