Entenda como a falta de acessibilidade compromete a qualidade de vida e os direitos fundamentais de pessoas com autismo e suas famílias

Gabriel Barbosa Queiroz, Ian Guimarães Teixeira, Livia Ruela Morais e Luísa Machado Tabchoury

Embora as questões sobre acessibilidade para pessoas autistas estejam progredindo no Brasil e no mundo, ainda há uma escassez em políticas públicas para acolhimento desse grupo. Em Bauru não é diferente, faltam locais públicos e privados com equipamentos, especialistas e atividades voltadas para esse público, em especial espaços culturais.

O direito à cultura é garantido pelo artigo 215 da constituição federal, que se compromete a democratizar o acesso aos bens culturais, porém,  se os espaços culturais não são equipados para recebê-los, neurodivergentes não podem usufruir desse direito.

O Transtorno de Espectro Autista (TEA) afeta, entre outros pontos, a sensibilidade dessas pessoas. Isso ocorre em diferentes níveis, por esse motivo a integração de um autista na sociedade deve ser feita com uma atenção especial, uma vez que estímulos considerados comuns para um neurotípico podem ser incômodos demais para pessoas com autismo.

O que é um local acessível para uma pessoa com autismo?

O autismo é um transtorno de espectro, isto é, ele se manifesta de diversas formas, com cada autista apresentando o autismo à sua maneira, ainda que estejam todos sob a mesma condição. Por conta disso, existem diversas iniciativas possíveis para auxiliar na inclusão deste público.

(Imagem: Livia Ruela)

A presença de uma equipe de funcionários capacitados para lidar com os neurodivergentes é fundamental na inclusão dessas pessoas. Sem o treinamento correto, mesmo um espaço acessível pode se tornar hostil para pessoas com autismo.

Em relação à estrutura do espaço, é possível reduzir a iluminação, sons e outros estímulos sensoriais e modificar a forma que o ambiente se comunica com o público, utilizando mensagens mais diretas. Abrir uma agenda de horários específicos para a visita desse público é uma forma de aplicar essas mudanças sem afetar os neurotípicos.

Existe também a possibilidade de, ao invés de modificar o espaço, personalizar a experiência do autista, fornecendo equipamentos para ajudá-lo a suportar os estímulos sensoriais.

Não são todos os lugares que tem, por exemplo, disponível um abafador de ruídos […] geralmente quando a gente fala de deficiência é sempre relacionado à motoras ou deficiências mais físicas”, relata o estudante de mestrado de Design da Unesp Bauru, Alex Cael Borges Bastos.

Qual a importância da acessibilidade em espaços culturais e de lazer?

A acessibilidade em espaços culturais é a principal forma de garantir que pessoas com TEA consigam exercer seu direito essencial à cultura e lazer. A falta dessas vivências pode ter consequências prejudiciais à saúde mental e ao desenvolvimento dos autistas. Driele Floriano, advogada e presidente do Lions Clube de Bauru, causa voltada para o autismo, fala sobre o impacto da falta de acessibilidade na cultura:

“O que acaba resultando é na exclusão mesmo, né? Essas pessoas ficam isoladas, só nos seus ambientes familiares, sem poder participar, se desenvolverem e atingirem os seus potenciais. São pessoas que, se elas tivessem tanto um tratamento adequado, como um acesso facilitado, poderiam se tornar líderes e desenvolver projetos, e que inclusive incluiriam outras pessoas. Então, eu acho que a principal consequência é essa mesmo, é a exclusão social.”

Essa exclusão, seja pela falta de espaços culturais acessíveis ou pelos preconceitos sofridos, gera malefícios sérios à saúde mental de pessoas autistas. A sensação constante de não pertencimento decorrente da carência de atividades sociais inclusivas gera um estado de alerta contínuo, o que eleva níveis de ansiedade e estresse.

Além disso, quadros de isolamento social podem acarretar em dificuldades na comunicação e nas relações interpessoais de pessoas neurodivergentes. Um estudo divulgado pela Verywell Family, um portal americano de notícias sobre saúde, revelou que crianças com autismo são duas vezes mais propensas a pensamentos suicidas do que as neurotípicas.

Dessa forma, a existência de locais com equipe preparada e estrutura inclusiva permite que pessoas autistas possam socializar de forma satisfatória, o que contribui para o desenvolvimento de suas relações sociais e o fortalecimento de sua saúde mental.

Quais são os espaços acessíveis de Bauru?

Em Bauru, poucos espaços culturais se propuseram a atender as necessidades do público autista.

“[Em Bauru], o cenário de cultura e lazer promovido pela iniciativa pública não existe”.

As únicas iniciativas contínuas de inclusão na cidade são feitas por locais privados, como o Boulevard Shopping, que oferece o Espaço Pétala, autodefinido como uma sala multissensorial para acolher e acalmar autistas e outros neurodivergentes.

Ocasionalmente, o Sesc Bauru realiza ações pedagógicas voltadas para o público autista, porém não existe uma agenda fixa de atividades. A respeito de acessibilidade no ginásio Paulo Skaf, o SESI Bauru, responsável pela gestão, respondeu que: “Além dos colaboradores estarem capacitados para recepcionar o público PCD, o Ginásio Paulo Skaf também conta com infraestrutura de acessibilidade (elevador, banheiros, rampas, estacionamento e assentos) visando o bem-estar das pessoas com deficiência no local”.

A Prefeitura de Bauru, o Estádio Alfredo de Castilho e o Ginásio Panela de Pressão não responderam às tentativas de contato acerca de iniciativas de acessibilidade. Além desses, não foram obtidas respostas do Bauru Shopping e da Alameda Rodoserv.

Além das organizações privadas, existem associações de suporte para pessoas com TEA que organizam eventos esporádicos de forma independente, como a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), a Associação dos Familiares e Amigos dos Pais de Autistas de Bauru (AFAPAB) e o Lions Clube de Bauru.

Para informações sobre o endereço de cada um dos locais com iniciativas de acessibilidade constatadas nessa reportagem, clique nas imagens destacadas no mapa abaixo.

Mapa de espaços com iniciativas de acessibilidade em Bauru. (Imagem: Gabriel queiroz)

Como a falta de locais acessíveis afeta os pais de crianças e jovens autistas?

A falta de espaços culturais acessíveis a pessoas no espectro não afeta apenas autistas, mas também seus familiares, que, muitas vezes deixam de frequentar locais de lazer por não atenderem às necessidades da família.

Em estudo realizado pela Genial Care, empresa de serviços psicológicos, com mais de 500 famílias brasileiras atípicas, foi apontado que uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos responsáveis por crianças e jovens com autismo é a falta de tempo para descanso e autocuidado, indicada por 48% dos participantes.

Ao contrário das neurotípicas, crianças e jovens autistas, a depender do grau de suporte, necessitam de supervisão constante, principalmente em ambientes com muitas pessoas, como espaços públicos de lazer. Assim, esses locais, ao disponibilizarem pontos com adaptações para não atingir a sensibilidade desses indivíduos, também propiciam um momento de maior tranquilidade aos seus responsáveis.

Segundo a psicóloga Deborah Fagundes, o cuidado da saúde mental dos pais de jovens atípicos é primordial para a gestão da dinâmica familiar. “O acompanhamento psicológico é fundamental, porque eles (pais e responsáveis) precisam ter uma válvula de escape. “A tendência da família é se desligar de si para cuidar da criança que precisa de mais atenção”, pontua.

Marina Gil, mãe de duas crianças autistas, conta como a rotina diária com as terapias e atividades dos filhos gerou uma sobrecarga. “Teve momentos em que eu vivi para eles, ou eu estava trabalhando ou estava levando-os em terapias ou estava fazendo material para levar para a escola (…) Tive que abrir mão realmente de seguir a minha caminhada profissional para poder dar o apoio para eles. Eu continuo trabalhando, mas abri mão de horários e de cargos por conta deles”.

(Marina Gil. Reprodução: arquivo pessoal)

Deborah enfatiza que o diagnóstico ajuda na compreensão dos comportamentos, mas não é uma solução para as crises. Dessa forma, quando os familiares entendem as razões por trás de acessos em locais com muito barulho ou com muita poluição visual, deixam de frequentá-los. O direito ao lazer é prejudicado pela falta de inclusão, uma vez que o entretenimento oferecido pelo Estado não é de fato acessível a toda população.

O cuidado com essas crianças exige paciência nas demandas diárias que podem ir das mais simples, como as responsabilidades comuns de cuidadores, às mais complicadas, como crises sensoriais e comunicação dificultosa que geram situações de estresse a todos os envolvidos.

Esses casos, se frequentes, podem comprometer a qualidade de vida não só de quem sofre, mas também de quem cuida. Episódios constantes de estresse podem levar a um quadro crônico e gerar sintomas físicos como dores musculares e insônia, além dos emocionais, como burnout parental, que compromete toda a dinâmica familiar.

A exaustão dos pais pode levar, mesmo que de forma indesejada, a reações de impaciência com o seu redor, o que inclui os filhos neuroatípicos. Em casos mais graves, o quadro pode evoluir para depressão. Um estudo científico realizado na Universidade Federal de Pelotas no ano de 2013 revelou, a partir de uma pesquisa quantitativa, que as mães de crianças autistas sofrem mais estresse do que a média brasileira.

Os dados foram colhidos com base na Escala de Percepção de Estresse (EPS-10) na qual o grau de estresse é medido entre 0 (menor nível de estresse) e 56 (nível máximo de estresse). Enquanto a média brasileira é de 15,13, variando de 5 à 33, a média entre as mães que responderam a pesquisa é de 25,26, com variação de 10 a 38 pontos nas respostas.

Nessa mesma pesquisa, foi revelado que as relações dos filhos com o ambiente é o ponto que as mães veem mais dificuldade. A partir da Medida Canadense de Desempenho Ocupacional (COPM), que se refere à capacidade de realizar tarefas cotidianas, foi possível verificar uma relação entre a satisfação na realização de atividades e a qualidade de vida das mães. Desse modo, quanto menos essas crianças e jovens conseguem participar de atividades cotidianas e de lazer, menor a qualidade de vida dos responsáveis.

Dentro dos pontos pautados na COPM, o lazer foi destacado como o mais difícil para pessoas com autismo. Isso se dá pela falta de locais acessíveis e também pela falta de preparo dos profissionais que atendem em espaços recreativos. Jaquelline Paterno, advogada e mãe de uma criança autista, relata os estigmas enfrentados com seu filho em locais movimentados.

“Eu acho que falta muito para a população a informação sobre o que é o autismo, porque a gente que é mãe, a gente carrega um estigma muito grande”.

Às vezes as pessoas veem nossos filhos tendo uma crise e elas acham que é uma criança mal educada que tá fazendo birra e não é bem assim. E eu acho que também os próprios locais precisam dar um treinamento para os funcionários para entenderem aquilo que está acontecendo”.

A mãe ressalta a importância de preparação das equipes para atender não somente as necessidades dos que estão no espectro autista, mas também seus responsáveis, “muito mais do que só é ver o que o autista precisa, é ver o que aquela pessoa que tá com o autista também precisa, porque a maioria das mães morrem de vergonha quando os filhos entram em crise, porque as pessoas não sabem o que é”.

Por conta da falta de conhecimento que grande parte da sociedade tem em relação ao autismo, comportamentos de crianças e jovens no espectro podem ser mal interpretados, gerando situações de desconforto geral. Isso gera outro fator de exclusão dessas pessoas de ambientes sociais. “A gente acaba deixando de levar nossos filhos para fazer uma atividade, alguma coisa, por conta da falta de preparo”, revelou a advogada.

Com mais locais aptos a receber pessoas com autismo, a incompreensão em torno do espectro autista tenderia a diminuir conforme esse grupo se fizesse mais presente em espaços de socialização. “Se a gente tivesse mais opções de lazer, as nossas crianças e adolescentes estariam convivendo mais, aí conforme eles saem para a rua e as pessoas os notam, a sociedade vai mudando”, defende Marina Gil. “Então, eu acho que é muito importante que eles estejam nos shoppings, nos restaurantes, nos bares, nos teatros, em qualquer ambiente”, completa.

“O autista tem que estar em todo lugar”, Marina Gil

A amplificação de locais acessíveis a neuroátipicos representa a melhora na qualidade de vida não apenas desses indivíduos, mas das famílias como um todo. A inclusão dessas pessoas na sociedade, além de um direito, é também uma questão de saúde pública.

Quais são os desafios enfrentados por crianças e jovens autistas no Brasil?

Pessoas com TEA possuem distúrbios neurológicos que podem alterar a forma de socialização e convivência. Festas são locais amplamente frequentados  que, enquanto muitos observam um ambiente agradável de se estar, para um autista pode ser barulhento demais, sendo preferível a presença em locais mais quietos e com poucas pessoas.

Ícaro San Mar, de 20 anos, estudante de Física pela Unesp Bauru, comentou sobre as dificuldades enfrentadas como autista: “Em ambientes bastante barulhentos, eu sempre mantenho uma certa distância dos focos onde possam haver muitas pessoas”. Ele cita que, nesses ambientes, tem que ficar em alerta ante esses gatilhos, “normalmente eu permaneço muito pouco tempo no ambiente para evitar ter crises sensoriais e evitar também de ter um certo cansaço e um desgaste pela exposição”, completa.

(Ícaro San Mar. Reprodução: arquivo pessoal)

Por conta da falta de acessibilidade em espaços culturais, pessoas com TEA acabam preferindo não frequentá-los, o que pode causar uma falta de interação social e desenvolvimentos de habilidades comunicativas. Além disso, esses locais servem para que qualquer pessoa passe um tempo de qualidade e de lazer,  que pode ser privado para as pessoas neurodivergentes caso não haja as devidas adequações de acessibilidade.

Alex Cael Borges Bastos, mestrando no programa de pós-graduação de Design da Unesp Bauru, comentou sobre as consequências da falta de acesso à cultura e ao lazer em Bauru: “Honestamente, aqui em Bauru tem poucas opções [de cultura acessíveis], o que é um pouco frustrante”.

Por conta da falta de acessibilidade, Cael contou uma situação que passou ao frequentar um show na cidade e, pela quantidade de estímulos, teve que se retirar do local: “Já aconteceu, por exemplo, de eu ir para ver algum show, mas eu não vou ficar muito tempo, porque foi no ginásio. A acústica lá não é muito boa, tinha muita gente, estava quente. Então, eu fiquei bem agoniado e acabou que eu fiquei mais na sala de leitura, que tinha no ar-condicionado e estava mais tranquilo”.

(Cael Borges. Reprodução: arquivo pessoal)

Devido à escassez de iniciativas públicas em Bauru, Ícaro e Cael conseguiram buscar acolhimento na universidade com o Coletivo Autista da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design (FAAC) da Unesp Bauru. O grupo tem como objetivo servir como uma rede de apoio para pessoas autistas de todas as faculdades do campus. Para mais informações sobre o coletivo, acesse o Instagram do projeto.

Cael comentou sobre como o coletivo o ajuda no dia a dia, principalmente em meio às atividades da vida acadêmica: “Quando eu tenho que passar o dia todo na faculdade, pode acontecer uma sobrecarga sensorial, que é quando dá aquelas crises que a gente acaba chorando ou não conseguindo se comunicar, eu acabo encontrando ali [no coletivo] uma rede de apoio”.

Além disso, o grupo possui uma rede no WhatsApp, em que certos dias na semana há um espaço para desabafos e compartilhamento de interesses pessoais: “A gente tem um grupo também no WhatsApp. Na terça-feira, a gente vai desabafar e falar algumas questões mais pessoais. Também é um espaço para caso tenha alguma coisa que eu sei que a maioria das pessoas não vão ligar, querer conversar sobre alguma coisa, eu sei que ali eu vou conseguir trocar uma ideia com o pessoal sem muitos julgamentos”.

O autismo precisa de tratamento?

Para compreender a importância da acessibilidade de espaços culturais e de lazer para pessoas autistas, é preciso entender o que é o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Essa é uma condição que traz distúrbios no neurodesenvolvimento de um indivíduo, ou seja, um conjunto de fatores neurológicos que afetam a comunicação, a interação social e o comportamento.

No Brasil, o diagnóstico do TEA pode ser feito por médicos e psicólogos, que fazem uma avaliação para identificação da existência dos quatros critérios do transtorno citados no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). A avaliação só pode ser concluída caso a pessoa apresente as quatro características seguintes:

  • Déficits persistentes na comunicação e interação social; 
  • Padrões repetitivos e restritivos no comportamento; 
  • Hiper ou hipo reatividade a estímulos sensoriais;
  • Os sintomas devem estar presentes precocemente no período do desenvolvimento. 

Além disso, o diagnóstico revela o nível de suporte desta pessoa, ou seja, o quanto é necessário o apoio a esse indivíduo de acordo com a gravidade dos seus distúrbios neurológicos. Nesse sentido, existem três níveis de suporte: nível 1 (autismo leve), nível 2 (autismo moderado) e nível 3 (autismo severo).

Enquanto que uma pessoa com nível de suporte 1 consegue falar, mas tem  dificuldades em fazer amigos ou manter uma conversa, um indivíduo com nível 3 pode não conseguir falar e ter comportamentos muito restritivos. Por isso, é preciso entender que, mesmo que o diagnóstico e o nível de suporte sejam os mesmos entre duas pessoas, cada uma manifestará o transtorno de formas diferentes.

Em maio, o Censo de 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou que existem 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo. A proporção em relação ao gênero foi maior entre homens (1,4 milhão) do que com as mulheres (1 milhão). Ao analisar o quesito de faixa etária, grande parte das pessoas têm entre 0 a 14 anos (45,8%).

Paralelamente, há distribuição de pessoas autistas entre as regiões brasileiras ao considerar a proporção de população, mas a região Sudeste tem a maior quantidade de pessoas diagnosticadas, com cerca de um milhão (43,3%). Em seguida, o Nordeste conta com 633 mil (26,3%), o Sul com 348,4 mil (14,5%), Norte com 202 mil (8,4%) e Centro-Oeste com 180 mil (7,5%).

Em março de 2023, a partir da Lei Estadual nº 17.651/23, o Governo do Estado de São Paulo passou a emitir a Carteira de Identificação da Pessoa com Espectro Autista (Ciptea). Esse serviço visa, segundo o site do Poupatempo, “facilitar a identificação da pessoa com TEA nos serviços públicos e privados em todo o Estado de São Paulo e auxiliar no acesso a filas e atendimentos preferenciais”.

Em agosto do mesmo ano, 23 municípios da região de Bauru emitiram mais de 200 carteirinhas. No mês de abril deste ano, o Governo Estadual alcançou a marca de 100 mil emissões do documento. O serviço é gratuito e não requer  documentação para realizar o pedido de emissão. Para mais informações, acesse o site do Poupatempo aqui.

Ademais, é possível afirmar que há uma crescente no número de diagnósticos ao longo dos anos. De acordo com Centers for Disease Control and Prevention (CDC), um centro de pesquisa norte-americano, em 2004 havia 1 criança autista para cada 166. Neste ano, após 11 anos do primeiro registro, a proporção cresceu de 1 a cada 31 crianças, um aumento de cerca de 437,5%.

Outro estudo realizado pelo Mapa do Autismo no Brasil revelou que, no Distrito Federal, dentre 1.699 respondentes, a maioria das pessoas receberam o diagnóstico de TEA em redes particulares de saúde (58,8%). Em segundo lugar aparece a rede pública com 21,37% e, por último, o plano de saúde com 18,6%. Essas informações são preocupantes ao demonstrar que o sistema de saúde público, que é a única opção para a maior parte dos brasileiros, não consegue realizar a avaliação necessária para o diagnóstico de TEA.

(Imagem: Livia Ruela)

Essa lacuna afeta tanto as pessoas autistas quanto suas famílias, que é o caso de Jaquelline Paterno. A advogada especialista em direitos das pessoas é mãe de uma criança autista de 4 anos, que está fazendo terapias para desenvolvimento de habilidades. Seu filho tem duas sessões de cada terapia – terapia ocupacional, fonoaudiologia, psicologia e fisioterapia – obtendo um total de 8 atendimentos por semana.

(Jaquelline Paterno e seu filho. Reprodução: arquivo pessoal)

As terapias realizadas pelo filho são feitas por meio do convênio de saúde, mas Jaquelline ainda tem que arcar com 30% dos custos. Nesse sentido, a advogada afirmou: “Não tem em Bauru um sistema de saúde público. Hoje, a fila [de espera] pelo SUS é de mais ou menos de dois anos”.

No Brasil, já existem recursos terapêuticos que auxiliam pessoas com TEA a se desenvolverem neurologicamente. Essas terapias podem ajudar a reduzir comportamentos maléficos para o indivíduo, como agressões e auto lesões, assim como ensinar habilidades sociais e motoras, como comunicação funcional, escrita e fala, para promover uma autonomia desse sujeito em meio às atividades da vida diária.

Dentre as terapias recomendadas, a análise do comportamento aplicada, conhecida também com pela sigla “ABA” – que significa Applied Behavior Analysis em inglês – é um dos encaminhamentos para pessoas com TEA. Essa terapia tem origem na ciência do Behaviorismo, que faz a observação, análise e explicação da relação do humano com o ambiente a partir do comportamento humano e da aprendizagem.

Nesse contexto, Bianca Rodrigues Santos, pedagoga e psicóloga especializada em ABA, explicou como a terapia é aplicada em crianças dentro de consultórios particulares. “Nós trabalhamos diretamente nos comportamentos da criança, o que influencia esses comportamentos e como a gente pode trabalhar para aquisição de novas habilidades. Também como a gente pode trabalhar em comportamentos que estejam prejudicando a criança”, disse.

(Bianca Rodrigues Santos. Reprodução: arquivo pessoal)

A cada nova criança que aparece no consultório, é feita uma avaliação individualizada para que, em um segundo momento, seja produzido um planejamento de tarefas a serem cumpridas. “Sempre que uma criança chega para nós, a gente faz um levantamento das habilidades que ela tem e das habilidades que a família ou que o neuropediatra querem que ela alcance. Com base nesse levantamento de habilidades, a gente monta um planejamento de ensino para ela, em que nós trabalhamos com alguns programas. Dentro desses programas, nós temos sempre um objetivo e tarefas para fazer com a criança chegue nesse objetivo”, detalhou a psicóloga.

Mesmo que essa análise esteja baseada em um seguimento de cronograma, o que pode ser visto erroneamente como uma terapia rígida, Bianca tem cuidado ao fazer sessões humanizadas. “Uma coisa que nós prezamos muito são os atendimentos naturalizados. A gente respeita muito o andar da criança, segue o que a criança quer e o que ela precisa naquele momento de terapia. Então, não é uma coisa mecânica, não é uma coisa rígida. As minhas sessões são bem abertas e leves. Eu tento fazer de uma forma que não se torne aversivo para os meus pacientes estar naquele lugar e fazer aquelas atividades”, contou.

Além da ABA, existem outros recursos terapêuticos, como o Tratamento e Educação para Autistas e Crianças com Déficits Relacionados à Comunicação (TEACCH), que tem como objetivos habilitar pessoas com TEA a terem comportamentos funcionais e atender familiares e pessoas que convivem com indivíduos autistas. O Sistema de Comunicação por Troca de Imagens (PECS) é uma terapia que busca a comunicação com autistas por meio de figuras e é utilizada para indivíduos que não possuem a fala.

Ademais, para além do desenvolvimento de habilidades cognitivas, recursos terapêuticos como o acompanhamento pedagógico, fisioterapia, musicoterapia e equoterapia, também podem auxiliar pessoas com TEA a se desenvolverem. No infográfico abaixo há uma breve descrição de cada recurso terapêutico:

(Imagem: Livia Ruela)

Nesse sentido, Bianca relata que recursos culturais, como a música, podem ter contribuições positivas para pessoas autistas. “São várias habilidades, principalmente relacionadas à coordenação, imitação, percepção, atenção, que a gente trabalha de forma separada na clínica, mas, dentro de uma aula de música, elas são trabalhadas juntas e estimulam muito mais a criança a praticá-las”, argumentou.

A psicóloga também trouxe relatos dos efeitos das terapias e recursos terapêuticos tanto para as crianças quanto para os familiares. Por meio dos registros necessários à aplicação da ABA, é possível observar de forma concreta a evolução das pessoas dentro da clínica. “Quanto mais tempo eles estão com a gente, mais evolução a gente percebe”, afirmou.

Dentre as evoluções, Bianca relatou casos de crianças que conseguiram reconhecer expressões faciais após a aplicação da ABA e começam a falar. “Eu acho que um dos feedbacks que a gente mais recebe, e com o qual as famílias mais se emocionam, é quando a criança começa a falar ou que ela começa a se comunicar de alguma forma”.

Outro resultado importante para a interação social das pessoas com TEA acontece quando elas conseguem ir a lugares com muitos estímulos sensoriais, como supermercados e shoppings. “Famílias que, no início, não conseguiam sair com a criança para lugar nenhum, não conseguiam levar ela para passear e brincar, porque ela não se interessava ou não queria sair. A gente trabalha a questão da sensibilidade e, depois de um tempo, os pais tiveram um resultado positivo com a criança. Já teve pais que foram dar feedback [e disseram]: ‘Olha, eu consegui ir no mercado com o meu filho, ele foi e ficou tudo bem’”, narrou.

O que pode ser feito para que mais locais se tornem acessíveis?

Em Bauru, o principal problema é a falta de acessibilidade em locais públicos. Por isso, é necessário que a população cobre da prefeitura mudanças nesse cenário. Espaços que possuem uma relação direta com a Prefeitura, como o Parque Zoológico Municipal, o Jardim Botânico e a Pinacoteca Municipal tem o dever de oferecer  iniciativas de acessibilidade para o público autista.

Também é importante acompanhar o trabalho de organizações voltadas para essa luta como o Lions Clube e a AFAPAB, já que esses movimentos dão voz para os autistas da cidade, realizam eventos e firmam parcerias com o objetivo de aumentar o número de espaços acessíveis em Bauru.

(Imagem: Livia Ruela)

Deixe um comentário

Tendência