Entenda as origens indígenas de Bauru, os impactos da expansão ferroviária e o crescimento urbano marcado por desigualdade e apagamentos históricos
Brida Correia, Marina Merli, Tiago Trombini, Raíra Tiengo e Vivian Ferreira
Antes de Bahurú – A terra dos Indígenas Kaingangs
Ao pesquisar nos sites oficiais sobre a fundação de Bauru, nos deparamos com o documento postado pela Câmara, chamado “Primeiros Tempos da Nossa Bauru”. São 5 capítulos, totalizando 19 páginas, que reforçam os desafios, as dificuldades e as conquistas dos pioneiros que chegaram nas terras que hoje é a cidade. No documento, é citado o termo “índios” apenas duas vezes, não tendo mais referências sobre os povos originários.
A história de Bauru envolve muito mais que duas citações sobre os indígenas. Aqui, os habitantes que predominavam eram os Kaingangs, mas também haviam os Guaranis e os Xavantes. Eram eles os moradores das terras, antes da chegada dos tais pioneiros conquistadores.
Os Kaingangs, Caingangs ou Coroados, assim chamados, estão distribuídos por 4 estados: São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Pode-se encontrar citações sobre esses habitantes com os mesmos termos a partir de 1882.
De acordo com a citação encontrada na revista A Anthropologia do Estado de São Paulo, escrita pelo Professor Doutor Hermann von Ihering em 1907, “Os Caingangs vivem em pequenas aldeias, compostas de simples choupanas, cobertas com folhas de palmeira, destinadas ás différentes famílias. De dia e de noute fica acceso no meio da cabana um fogo, deitando-se os moradores sobre pedaços de casca de arvore, com os pés virados contra o fogo. Os homens andam nus, usando porém na estação fria de pannos grossos, feiíos das fibras da ortiga brava.”
Porém, o texto de Hermann também informava que “a cultura dos Caingangs ou «Coroados» de S. Paulo é nos quasi inteiramente desconhecida, mesmo por serem elles absolutamente refractários a qualquer relação amistosa cora a população brazileira, ainda quando estes estejam em companhia de indigenas que falem a sua lingua.”
O conhecimento que temos hoje dos Kaingangs paulistas envolve conflitos e guerra entre aqueles que tentavam dominar suas terras. Mesmo antes do início da construção da ferrovia, as citações da época revelam sobre o quão “selvagens” eram.
Em expedições, os homens eram recebidos com flechas, e quando mortos eram dilacerados. Em uma cópia de uma carta escrita em 6 de novembro de 1852, retirada do acervo do Museu Histórico Ferroviário de Bauru, há uma descrição sobre as aldeias da região.
Há também tentativas enviadas por cartas de João da Silva Machado, barão de Antonina, de catequizar os povos que aqui viviam.

Os novos moradores de Bauru relatavam ao governo provincial as dificuldades que passavam, já que incêndios, invasões, assaltos e ameaças causadas pelos indígenas eram frequentemente vivenciadas, de acordo com documento escrito pelo Professor Doutor Edson Fernandes, “KAINGANG – Resistência e declínio dos últimos guerreiros do sertão paulista”.
Além da constante falta de segurança dos moradores, houve também o assassinato do Padre Claro Monteiro do Amaral, causada pelos Kaingangs em 1901 enquanto estava em uma missão de catequese. “A morte do padre repercutiu imensamente na capital do Estado. Discutia-se na imprensa medidas para por fim às constantes investidas dos indígenas nos sertões paulistas”, como citado no texto de Edson.
Trilhos nos territórios Kaingangs
A Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, iniciada a construção em 1906, desmatou e destruiu vidas. Sem dúvidas, foi um avanço e um grande estímulo para o crescimento da cidade. Mas, como citado no documento de Fernandes, “para que os trilhos avançassem, era necessário remover o “obstáculo”, ou seja, os indígenas, tarefa subempreitada para tropas de bugreiros, “trabalhadores” cujas ferramentas eram as armas.”
Em resposta à destruição, os indígenas atacavam, armavam emboscadas e assassinavam os operários que trabalhavam nos trilhos. Jornais noticiavam as violências causadas pelos Kaingangs, que se tornaram os verdadeiros inimigos ao “avanço à modernidade”.
Citado na própria revista de Hermann, “os actuaes indios do Estado de São Paulo não representam um elemento de trabalho e de progresso. Como também nos outros Estados do Brazil, não se pode esperar trabalho sério e continuado dos índios civilizados e como os Caingangs selvagens são um empecilho para a colonização das regiões do sertão que habitam, parece que não há outro meio, dessa possibilidade de prestar assistência aos indígenas do Brasil e estabelecer centros agrícolas, constituídos pelos chamados trabalhadores nacionais. a lançar mão, senão o seu extermínio.”
Foi criado então o Serviço de Proteção aos Índios e Localização dos Trabalhadores Nacionais (SPILTN), em junho de 1910. Este visava, de forma pacífica, reunir os indígenas e prestar-lhes assistência para que pudessem se tornar trabalhadores nacionais. Assim, um grupo de militares, comandado pelo Tenente Manoel Rabello, avançaram na mata, montaram acampamentos a fim de realizar o plano de pacificação.
Depois dos militares seguirem cerca de 20km além do Rio Feio, em 1912, o chefe da aldeia Kaingang Vauvin se aproxima para uma conciliação. Após isso, fazem visitas a outras aldeias, pacificam os povos e os trazem para os acampamentos.
Entretanto, devido ao alto número de doenças, provindas da mata e/ ou espalhadas pelos contatos com os brancos, as tribos pereceram. Em entrevista com Fábio Pallota, professor, historiador e pesquisador, descobrimos que o desastre foi mais que na perda dos indígenas. “A gente perdeu 15% em 4 anos de toda cobertura vegetal da Mata Atlântica de São Paulo. Uma tragédia médico-sanitária. Porque você vai mexendo na floresta, o que acontece? As zoonoses que estavam lá na floresta começam a morder os ferroviários. Mais de 15 mil pessoas foram contaminadas pela leishmaniose, tanto é que se chama Úlcera de Bauru”, diz Fábio.
Passeando pela história vemos que Bauru surge com conflitos, com a perda de povos originários e com a falta de uma infraestrutura para os próprios habitantes. Bauru nasceu, mas a que custo?
Os três poderes: a formação política e religiosa de Bauru
A origem de Bauru, como de muitas cidades brasileiras, está ligada à construção de uma capela. Segundo o pesquisador Edson Fernandes, havia regras específicas para isso, registradas nas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, de 1707.
Essas normas determinavam, por exemplo, que a capela fosse construída longe dos rios. Isso visava evitar enchentes, mosquitos e doenças. Também era exigida uma área externa para procissões, o que explica por que muitas igrejas estão cercadas por grandes praças.
Em Bauru, a primeira capela ficava no que hoje é mais ou menos o centro da Praça Rui Barbosa, como diz Edson. Esse espaço vazio ao redor do templo, além de ter uma função religiosa, também “acabou protegendo da especulação imobiliária”, completa o pesquisador.
No início, não havia a figura do prefeito. Quem administrava a cidade era a Câmara Municipal, que acumulava funções do legislativo e do executivo. “Se eu for aprovado, a câmara permite que eu abra uma escola”, comenta Fernandes, um exemplo de como tudo passava por esse órgão.
Além disso, o poder religioso tinha grande influência. A Igreja administrava, inclusive, os cemitérios: “e aí a igreja ganhava com o sepultamento e tal. Quando há proclamação, em muitas cidades houve um conflito para ver quem ia administrar o cemitério”, diz o pesquisador. Isso só começou a mudar com a Proclamação da República, quando o Brasil passou pelo processo de laicização do Estado.
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Marcha a oeste: as estradas de ferro no interior de São Paulo
No começo do século XX, o fluxo de capital do café se voltou à expansão para o interior do estado de São Paulo, rico em terras agricultáveis. Segundo o historiador e pesquisador Fábio Pallota, “a ferrovia veio para se apossar e colonizar o interior de São Paulo, as terras estavam sendo ocupadas, Campinas já era uma região muito rica, Jundiaí, toda aquela proximidade”, afirmou.
Em 1905, desembarcaram cerca de 3 mil operários na cidade de Bauru para a construção de sua primeira estrada de ferro, gerando um grande aumento populacional. Os trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana chegaram à cidade, ligando-a à cidade de São Paulo e iniciando seu desenvolvimento.
Já no ano seguinte, a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), finalizada em 1914, chegou à cidade em direção ao Mato Grosso A terceira linha ferroviária é inaugurada em 1910 pela Companhia Paulista de Estrada Ferro, transformando Bauru no maior entroncamento ferroviário do Brasil.
Projetada em 1935 e inaugurada em 1939, a Estação Central de Bauru, que acomodava todos os escritórios da NOB e centralizava o embarque e desembarque das três ferrovias presentes, acelerou ainda mais o progresso da cidade com a atração de imigrantes.
Além disso, o avanço do desmatamento e a exploração das florestas na região contribuíram para a proliferação de doenças transmitidas por animais silvestres. Com a construção da ferrovia e a chegada de trabalhadores às áreas antes pouco habitadas, agentes infecciosos presentes em animais como tatus e macacos passaram a circular entre humanos. Esse processo intensificou a incidência de zoonoses em áreas urbanas emergentes, como Bauru, nas primeiras décadas do século XX.
Em 1908, a cidade teve uma epidemia de leishmaniose, que ficou conhecida como “úlcera de Bauru” por sua agressividade. “E pela primeira vez em toda a América, em todo o Ocidente, quando começamos a cortar a mata atlântica, o mosquitinho-palha mordia o operário e além de dar as pústulas na pele, ficava o protozoário na faringe, na boca e no nariz”, comentou o pesquisador. Mais de 15 mil pessoas foram contaminadas com a doença nesse período.
No início da década de 1950, a Estrada de Ferro de Bauru foi incorporada à RFFSA (Rede Ferroviária Federal S.A.), que contava com 1.764 km de linhas. A mudança foi bem recebida, já que a Rede era o maior empregador da cidade e da região.
No entanto, ainda naquela década, a criação das fábricas de automóveis e o incentivo ao transporte rodoviário pelo governo de Juscelino Kubitschek iniciaram o declínio das ferrovias no Brasil.
Nos anos 70, o setor ferroviário de Bauru foi perdendo espaço e importância, tendo uma queda significativa em suas atividades econômicas, financeiras e políticas. O Calçadão da Batista de Carvalho inaugurado em agosto de 1992, foi uma tentativa não sucedida de revitalizar a área central da cidade e a parte mais antiga próxima a estação, mas que marcou a força do comércio na cidade.
Mais tarde na década de 90 o Governo Federal concedeu ao Noroeste as linhas da RFFSA/Bauru como tentativa de reconquistar suas atividades, mas sem sucesso. Hoje, a Estação Central de Bauru e toda sua malha ferroviária, além de imóveis próximos, encontram-se abandonadas e degradadas pelo clima e ações humanas.
O projeto “Ferrovia para Todos”, porém, é um dos únicos que ainda afasta o abandono total da região ferroviária. Num passeio curto, de cerca de 1 quilômetro, excursões e passeios são oferecidos na “Maria Fumaça” entre a Estação Central e a Estação Paulista.
De Paris a Bauru: a origem francesa do sistema de quadras que organiza a cidade até hoje
Poucas cidades brasileiras têm uma identidade urbana tão particular quanto Bauru, onde as ruas são divididas em quadras numeradas — um hábito enraizado no cotidiano local e na forma de se referir a endereços. O que muitos bauruenses talvez não saibam é que esse sistema tem raízes europeias.
No início do século XX, durante a expansão provocada pela chegada da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, engenheiros franceses como Charles Pittet e Sylvio Saint Martin participaram ativamente do planejamento urbano da cidade. Inspirados em modelos europeus de urbanismo, propuseram um traçado geométrico e racionalizado para facilitar a organização da malha viária e dos serviços públicos.
Mais de um século depois, a divisão em quadras permanece não apenas funcional, mas também como um traço cultural que distingue Bauru no cenário urbano brasileiro.

Expansão urbana de Bauru: o papel da ferrovia, da migração e da legislação no crescimento da cidade
O crescimento urbano de Bauru, no interior de São Paulo, é um reflexo das transformações econômicas e sociais do Brasil a partir do final do século XIX. A cidade, fundada oficialmente em 1896, teve sua organização territorial moldada por fatores como a chegada da ferrovia, a migração de trabalhadores e o surgimento de loteamentos particulares, muitas vezes sem planejamento adequado.
O marco principal da expansão urbana de Bauru foi a implantação da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (E.F.N.O.B.), em 1905. A construção da ferrovia atraiu comércios, trabalhadores e famílias para o entorno da estação, formando os primeiros bairros da cidade, como o Centro, Vila Falcão e Vila Cardia. Esses núcleos iniciais foram desenvolvidos por proprietários de terras que lotearam suas fazendas para vender pequenas porções a novos moradores, sem grande interferência do poder público.
Com o passar das décadas, especialmente entre os anos 1930 e 1950, a cidade recebeu fluxos significativos de imigrantes italianos, portugueses, espanhois e japoneses, além de migrantes nordestinos. Esses grupos procuravam trabalho e moradia e, muitas vezes, passaram a ocupar áreas urbanas sem infraestrutura, dando origem a bairros como Mary Dota, Núcleo Gasparini e Fortunato Rocha Lima. Em geral, a prefeitura não distribuía terrenos diretamente, mas regularizava ocupações espontâneas após sua consolidação.
Até 1979, o parcelamento do solo urbano era pouco regulamentado. A ausência de uma legislação específica permitia que loteamentos fossem abertos sem garantias mínimas de saneamento básico, energia elétrica ou pavimentação. Isso resultou em diversos problemas urbanísticos, especialmente nas regiões periféricas. A situação começou a mudar com a aprovação da Lei Federal nº 6.766/79, que passou a exigir que loteadores oferecessem infraestrutura básica antes da comercialização dos terrenos.
A partir da década de 1980, a Prefeitura de Bauru passou a ter papel mais ativo na organização do espaço urbano, desenvolvendo seu Plano Diretor e buscando maior controle sobre os novos empreendimentos. Empresas loteadoras privadas passaram a ter forte influência na expansão da cidade, com destaque para bairros planejados como o Bauru 2000 e o Nova Bauru, desenvolvidos por construtoras como a Pacaembu e a Rodobens.
Atualmente, o município é dividido em zonas residenciais, comerciais e industriais, conforme orientações do Plano Diretor previsto em 2020. A Prefeitura também desenvolve políticas de regularização fundiária, especialmente em áreas que cresceram de forma informal ao longo do século XX.
Vila Falcão e Bela Vista: os bairros operários que moldaram o início de Bauru
Embora hoje façam parte do tecido urbano de Bauru, os bairros Vila Falcão e Bela Vista têm origens ligadas diretamente à formação da cidade e à presença marcante das ferrovias no interior paulista. Ambos foram ocupados majoritariamente por operários e carregam até hoje uma identidade cultural própria.
A Vila Falcão, surgida por volta de 1906, é considerada o bairro mais antigo de Bauru. Foi formada por trabalhadores da ferrovia e por quem atuava nas lavouras de café. O nome vem da antiga proprietária das terras, Maria Falcão Machado.
O historiador Fábio Pallotta destaca a relação direta entre a criação desses bairros e a exclusão dos operários do núcleo central. “O que os operários da Noroeste faziam, que trabalhavam aqui nas oficinas, eles fundaram dois bairros: a Bela Vista e a Vila Falcão. Esses são os bairros mais antigos”, afirma.
Segundo ele, os terrenos do centro da cidade estavam nas mãos da Igreja Católica, o que tornava a habitação cara para os trabalhadores. “Você tinha que pagar uma mensalidade, que é o aforamento para a Igreja Católica, porque os fazendeiros deram de presente para a Igreja Católica as terras para fundar um novo povoado.”
A importância das ferrovias para o desenvolvimento de Bauru também é central. “Você tem aqui as três principais ferrovias do estado de São Paulo: a Estrada de Ferro Sorocabana, que ia até o Paraná; a Estrada de Ferro Paulista, que vinha de São Paulo até Bauru; e a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que saía de Bauru e ia para o Mato Grosso”, explica Pallotta.
Ele ainda ressalta que a Noroeste foi pensada por razões geopolíticas, após a Guerra do Paraguai (1864–1870). “A gente ganhou a guerra, mas se a gente tivesse perdido, a gente perdia o Mato Grosso.”
A Vila Falcão passou a integrar o perímetro urbano de Bauru em 1918. Ao longo do tempo, foi se desenvolvendo a ponto de ser considerado por moradores mais antigos como “um mundo à parte”.
O bairro abriga comércios variados, escolas de samba tradicionais, a CPFL, a ITE (Instituição Toledo de Ensino) e o estádio Alfredo de Castilho.
Já o Bela Vista começou a ser ocupado por operários na década de 1920, embora só tenha sido oficialmente reconhecido em 1958. Alguns de seus marcos históricos são o Hospital Salles Gomes, o Cine Bela Vista e a RPG-8, ou Bauru Rádio Clube — a primeira emissora da cidade.
A região também foi casa de personalidades marcantes, como João Simonetti, responsável pela emissora de rádio e pela concessão do canal 2, transformando Bauru na primeira cidade do interior da América Latina a ter uma estação de TV. A Bela Vista também é o berço da dupla Cascatinha & Inhana, autores de clássicos como “Meu Primeiro Amor” e “Colcha de Retalhos”.
Um divisor físico entre o centro e a Bela Vista era a represa que deu lugar à atual Avenida Nuno de Assis. Outro marco simbólico é a Paróquia Santo Antônio, inaugurada em 1940, que até hoje se destaca na paisagem local. O Fórum da Comarca de Bauru também se localiza no bairro, o que reforça sua importância no cenário institucional da cidade.
Para Pallotta, esses bairros operários são parte do núcleo que deu origem à cidade. “São três bairros: o centro da cidade, a Vila Falcão e a Vila Bela Vista”, afirma.





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