Entenda como a gastronomia vai para além do prato
Carlos Staff, Carolina Bordin, Julia Ferreira e Sofia Azenha
Você tem alguma comida que te marcou de maneira especial? A Agência Trilhos esteve presente na última edição do “Bença de Rua”, festival gastronômico de Bauru promovido pelo restaurante Bença Parrilla, com a intenção de, além de cobrir o evento, descobrir como é a relação afetiva das pessoas com os alimentos.
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No dicionário da Língua Portuguesa, a palavra comer é definida como “o ato de ingerir um alimento, levando a boca e engolindo”, mas a ação vai muito além deste significado concreto. Com o desenvolvimento da nossa sociedade, a alimentação foi evoluindo para uma forma de expressão cultural e também como uma maneira das pessoas se conectarem entre si. Sentar-se à mesa para comer com a família, amigos ou até mesmo desconhecidos é motivo mais do que suficiente para que as pessoas possam se reunir e, provavelmente, todos têm uma memória especial de algo que estava comendo enquanto estava em boa companhia.
Vitor de Lima Fantin, professor de Psicologia, aponta que a memória que construímos dos pratos tem elementos desde o sabor até o aroma. A atividade em conjunto também entra nessa equação, podendo trazer uma dimensão afetiva ainda mais marcante do que a própria comida em si. “Às vezes, não é tanto o sabor, mas o ato de cozinhar junto e compartilhar”, comentou o professor.
Nossa percepção sobre determinadas comidas também pode mudar com o passar do tempo, ou até mesmo se acentuar. O coentro, por exemplo, gera uma diversidade de opiniões entre as pessoas. Enquanto alguns gostam da erva, para outros possui cheiro e sabor que lembram sabão. O fator nostalgia também entra em ação quando falamos de mudanças ao longo do tempo.
Alguns alimentos vendidos nas prateleiras do mercado, por exemplo, passaram por mudanças em suas receitas ao longo dos últimos anos e os consumidores não têm recebido muito bem essas alterações, como em barras de chocolate e bolachas recheadas. Receitas caseiras também passam por adaptações e podem gerar um certo estranhamento. A busca por algo marcante que se tornou especial por toda a vida é uma clara demonstração do quão poderosa é uma memória afetiva.
“Se as próprias relações mudam, o sujeito muda, a sociedade muda ou até mesmo o próprio alimento muda, a experiência subjetiva que a gente tem sobre ele acompanha essas mudanças e pode até gerar um estranhamento. Não é fixo essa memória inicial que a gente cria, ela não necessariamente vai se manter a mesma até o fim da vida e pode sim se transformar”, disse Vitor.
Apesar da memória ser algo em grande parte particular e pessoal, a estrutura da sociedade também tem impacto na construção dos níveis de afetividade. Segundo relatório do Índice de Desperdício de Alimentos da ONU, 783 milhões de pessoas foram afetadas pela fome em 2022 e um terço da humanidade enfrentou insegurança alimentar durante o período. O Brasil, um dos maiores produtores de alimentos no mundo, aparece no Mapa da Fome desde 2021.
Mesmo o planeta tendo capacidade suficiente de produzir comida para todos, também comprovada pela ONU, a realidade, no entanto, não condiz com este fator e a desigualdade segue elevada por todos os cantos. Aqui, entra a questão de sobrevivência.
As diferenças econômicas influenciam no acesso a qualidade e variedade de alimentos. Por um lado, algumas pessoas comem para sobreviver, enquanto outras para o prazer. No modelo de sociedade atual, a comida tornou-se uma mercadoria e consequentemente um marcador social e de status. Há pesos diferentes quando se vai a um bistrô ou a um restaurante com estrela Michelin (símbolo de reconhecimento da excelência culinária) e quando se vai às redes de fast-food ou ao bom-prato (programa do Governo do Estado de São Paulo que oferece refeições de alta qualidade e a preços acessíveis à população de baixa renda e em situação de vulnerabilidade social).
Segundo Vitor, “O ser humano tem fome de algo, mas de algo específico, algo ligado às memórias, ao afeto (…). Mas a gente vê que muitas pessoas não têm acesso a esse algo, eles precisam comer o que está disponível. Isso é algo que falamos na psicologia histórico-cultural, que é um processo de desumanização. Se a humanidade desenvolveu um conjunto amplo de teorias e técnicas, características da alimentação humana, na medida em que a pessoa não tem acesso a esse desenvolvimento cultural histórico, ela se desumaniza e volta para uma relação com a alimentação que ainda é muito precarizada no âmbito da sobrevivência e da subsistência. Então, acho que pensar a relação afetiva com a comida é desigual de acordo com a classe social que a pessoa ocupa, pensando nas classes mais vulneráveis. Quais afetos são possíveis? São afetos positivos, afetos negativos?”.
A desumanização está ligada à falta de acesso e à fome; algo iminente para a sobrevivência do indivíduo, que é comida, é ceifada de seu prato, de seu estômago. “Quem inventou a fome são os que comem”, afirmou a escritora e poetisa brasileira Carolina Maria de Jesus. A afetividade com a comida e a identidade cultural se fundem nesse processo na busca de pertencimento e resgate de suas raízes, principalmente no momento de saída de seu país natal e na busca por entender este local novo de inserção.
Para além das fronteiras
Como visto, para o dicionário, comida é o que é próprio para comer; já para a antropologia, é um fenômeno social e cultural; e para o mercado, é lucro. Mas, para o indivíduo, é algo pessoal em que cada um possui uma relação única com a comida. Estes aspectos interferem no impacto da comida na identidade social? Qual comida remete à sua infância e que te reconforta? Quais são os afetos possíveis de serem despertados com ela?
Aqui, Vitor Fantin novamente explica que o que acontece a partir do desenvolvimento cultural e histórico da humanidade é que a produção de alimentos vai se descolando do aspecto de sobrevivência e da área biológica, e acaba se desenvolvendo para um caminho social e de sentimentos. “Acho que uma coisa importante é pensar que o ser humano não tem só fome. Ele tem fome de, você tem desejos, vontades. Você quer comer a lasanha que a sua mãe fazia quando você era criança, você quer comer um lanche e não apenas acabar com sua fome”.
De acordo com o artigo “Comida e antropologia: uma breve revisão”, destaca que “os hábitos alimentares podem mudar inteiramente quando crescemos, mas a memória e o peso do primeiro aprendizado alimentar e algumas formas sociais aprendidas através dele permanecem para sempre em nossa consciência”. Dessa forma, o ato de comer é um marco social e identitário, pois influencia desde a maneira como são escolhidos os alimentos até a forma de servir e de consumo.
Amador Echevarría, chef de cozinha e dono do restaurante Perú Tradicion, localizado em Bauru, comenta que o alimento desempenha um papel fundamental na construção da identidade cultural de seus filhos e de sua família. “A comida fala de comunidade, de união familiar, porque só a comida permite que você tenha toda a família junta”. O ato de comer não é apenas algo a ser consumido, mas uma forma de unir e conectar as gerações e os clientes com suas raízes culturais.
Amador ainda conta do tradicional método de preparo da comida no Peru, chamado de pachamanca. Nesse contexto, “pacha” é um termo na língua Quéchua, idioma andino, que significa “terra”, e “manca” se refere a panela. Essa celebração envolve toda a comunidade na construção de um “iglu” de pedras quentes e no preparo de pratos para todos os membros. “Cada vizinho chega com um produto e na hora, quando o forno está quente, abrem tudo, sacam a pedra quente, vão colocando a batata do vizinho, a carne do outro, vão colocando pedra quente e a pamonha”, e no final todos comem juntos em comunidade, entregando uma experiência completa.
A partir do momento em que se está em outro país, alguns hábitos e tradições podem passar por adaptações, pois o encontro e o choque intercultural é presente na vida dos imigrantes. Isso ocorre pela existência de uma bagagem cultural anterior e, ao serem expostos no país novo, precisam negociar com a cultura local e balancear o novo com o antigo. O processo de “misturar” e se influenciar resulta em novas formas de expressão cultural, o que o antropólogo Néstor García Canclini nomeou como cultura híbrida.
Para os chefs de cozinha estrangeiros, a adaptação da cultura híbrida é notória, pois precisam negociar os sabores que querem introduzir e adaptar ao paladar da nova sociedade com os ingredientes disponíveis no país, tentando não alterar a essência da receita. Amador cita que, para preparar ceviche, prato tradicional da cozinha peruana, foi necessário fazer algumas modificações, como tirar o coentro e diminuir a ardência do prato. “No Peru, um ceviche que não leva coentro, não é ceviche, um ceviche que não é ardido, não é ceviche. Entende? Mas aqui, fazemos como você quiser. Sem muita pimenta, sem cebola, sem coentro”.

Para Suleidys Aurora Barcelo, dona do food truck “Bienmesabe a Venezuela” há 7 anos em Bauru, este também foi um desafio. Embora no começo os brasileiros não tenham sido muito abertos a experimentar sua comida, com persistência, conseguiu adaptar a receita aos temperos e preparos para ficar de acordo com o paladar brasileiro.
“Eu peguei os molhos que vocês gostavam mais, tudo aquilo, e misturei minhas massas com os seus tipos de recheios. Por exemplo, empanada a gente geralmente usa carne picada, não carne moída (…). É carne picada, com uva passa, com pedaços de pimentão, pedaços de cebola”. Hoje em dia, ela conta que sua empanada preferida é a criação abrasileirada, chamada de Bauru, com inspiração no lanche da cidade. Nessa versão, a empanada leva rosbife, muçarela, tomate, picles e orégano.

Outro aspecto que a chef expõe é o de que os sabores dos alimentos não são iguais. “Eu acho que é pelo pH da nossa terra que é diferente do pH daqui, a nossa pimenta doce tem outro formato, tem outro sabor, tem mais acidez. O tomate também tem mais acidez. Então, por mais que eu queira que a comida fique igualzinha a minha, não vai ser igual”.
Alguns fatores do solo, do cultivo e da colheita também podem impactar diretamente no sabor do alimento, de acordo com estudos da EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). De maneira geral, solos com teores mais altos de matéria orgânica apresentam melhor estrutura, com maior porosidade, o que facilita aeração, infiltração de água e desenvolvimento de raízes, favorecendo a exploração do solo pelas raízes e a obtenção de água e nutrientes.
Soy e sou latino americano
Atualmente, Bauru é a maior cidade da região do centro-oeste paulista, com a presença de diversas universidades públicas, privadas e institutos médicos, como o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, da Universidade de São Paulo (USP). Por conta destas instituições, a “Cidade Sem Limites” tornou-se um polo de referência médica, atraindo um fluxo de emigrantes e imigrantes à procura de tratamentos específicos, além da oferta de intercâmbios por meio das universidades.
A ONG “Apoio para Recomeçar”, que compila dados da Polícia Federal, compartilha em seu site que, em agosto de 2023 havia, em média, 2.637 pessoas de outros países estabelecidas na cidade. Em pesquisa para a reportagem, contudo, não foi possível obter dados mais recentes sobre estrangeiros em Bauru.
Para a venezuelana Suleidys Aurora, o fator principal que a fez escolher Bauru como moradia foram as possibilidades econômicas que a região disponibiliza. Antes de pisar em solos bauruenses, morava em Meninos do Tietê, cidade com pouco mais de 11 mil habitantes e localizada a 188 km a leste de Bauru. Desde que chegou, Aurora se sentiu acolhida pelas pessoas e destaca as diferenças culturais, especialmente na culinária. Em Bauru há 7 anos, ela percebe o aumento de imigrantes latinos no interior paulista.
“O nosso salgado tradicional a gente vende só no [parque] Vitória Régia, que é arepa e cachapa. Mas lá sai mais por conta de que tem muito latino que conhece a nossa culinária, pelo fato da gente [venezuelanos] ter imigrado em muitos países latinos. E quando eles vêm aqui para o Brasil, a comida de vocês não é parecida com a nossa comida, na verdade, é muito, muito diferente. E eu acho que o jeito deles se sentirem mais em casa, é indo lá”.
Já para o chef Amador, a impressão de viver em Bauru e no Brasil envolve sentimentos de desafio e adaptação. Ele fala que, ao chegar ao Brasil, sentia-se em uma aventura, pois veio com o objetivo de montar o restaurante mesmo sem dominar o português. A presença da cunhada, médica e que mora no Brasil há mais de 30 anos, foi um suporte importante em sua adaptação e apoio na criação do restaurante.
Em Bauru, as trocas culturais têm se intensificado, especialmente com eventos como a Copa América, onde várias nacionalidades se reuniram em seu estabelecimento para acompanhar os jogos, além de ser um local de encontro de médicos residentes e estudantes latinos.
“Uma coisa é que eu acho que somos o único restaurante peruano na região de Ribeirão Preto, Araraquara, Botucatu, Marília. Por isso, chegam pessoas de todas essas regiões, eles pesquisam, acham e chegam aqui com saudade da comida, principalmente peruanos”.
Ambos os entrevistados mencionaram a falta de conhecimento, por parte dos brasileiros, sobre a comida dos países latinos. E você, caro leitor, conhece bem a culinária dos nossos vizinhos? Venha testar seus conhecimentos no quiz “Você conhece a culinária latina?”. Para acessar basta clicar na imagem abaixo, fazer login com sua conta Google, selecionar “jogar solo” e se divertir!

Bauru: o lanche que carrega o peso de uma cidade inteira
Quem veio primeiro: o sanduíche ou a cidade? A resposta para a pergunta que inicia o trecho pode parecer óbvia – a cidade surgiu antes. Contudo, não se engane, pois a diferença de idade entre os dois não é tão grande assim. Fundada em 1° de agosto de 1896, em 2025, Bauru completará 129 anos de existência. O prato, por sua vez, foi feito em 1937, chegando ainda nesta temporada ao auge de seus 88 anos. Mas os laços entre a cidade e a iguaria vão muito além de compartilharem somente o mesmo nome, percorrendo caminhos pelo carinho dos chefs de cozinha e consumidores com a memória e tradição, mantidas ao longo dos anos desde a chegada da receita à cidade em 1973.
A criação culinária tem como berço a cidade de São Paulo, carregando em sua história o nome do restaurante Ponto Chic, tradicional da capital paulista, localizado até hoje no Largo do Paiçandu. Apesar de ter sua origem na “selva de pedra”, o Bauru recebeu essa denominação por conta de seu autor, o bauruense Casimiro Pinto Neto, que na época era um estudante de Direito pela metrópole.
Em vida, o criador falava abertamente sobre o processo da invenção, com detalhes do momento e seu raciocínio até chegar em todos os ingredientes que compõem o sanduíche, com particularidades que até hoje são contadas de boca em boca, no desejo de manter sempre vivo o enredo original da autoria.
“Eu quero o sanduíche igual ao do Bauru”

— Era um dia em que eu estava com muita fome. Cheguei para o sanduicheiro Carlos e falei para abrir um pão francês, tirar o miolo e botar um pouco de queijo derretido dentro. Depois disso o Carlos já ia fechando o pão eu falei: “Calma, falta um pouco de albumina e proteína nisso”. Eu tinha lido em um opúsculo livreto de alimentação para crianças, da Secretaria de Educação e Saúde, escrito pelo ex-prefeito Wladimir de Toledo Pisa, também frequentador do Ponto Chic, que a carne era rica nesses dois elementos. Então falei para botar umas fatias de rosbife junto com o queijo. E já ia fechando de novo quando eu tornei a falar: “Falta vitamina, bota aí umas fatias de tomate”. Este é o verdadeiro Bauru. Quando eu estava comendo o segundo sanduíche chegou o Quico – Antonio Boccini Jr., que era muito guloso e pegou um pedaço do meu sanduíche e gostou. Aí ele gritou para o garçom, que era um russo chamado Alex: “Me vê um desses do Bauru!”. Os amigos foram experimentando e o nome foi ficando. (Casimiro, em relato)
Em entrevista ao G1 em 2012, o ex-dono do Ponto Chic, José Carlos de Souza, explicou o fenômeno em que o lanche se tornou, assumindo o papel de carro-chefe do restaurante em pouco tempo e conquistando uma gama de clientes, além de como sua influência não ficou limitada à capital, pois “a divulgação do nome Bauru teve reflexos colaterais também na situação econômica da região noroeste do estado de São Paulo, principalmente para o município de Bauru”.
No interior, não há como não mencionar o Skinão, primeira lanchonete a vender o sanduíche na cidade bauruense, comandada por anos pelo amigo de Pinto Neto e responsável por trazer a receita até Bauru, José Francisco Júnior. “Zé do Skinão” tornou-se de forma rápida seu apelido, e, mesmo após seu falecimento em 2002, a tradição é mantida até os dias de hoje com sua família no comando das vendas. Porém, em uma viagem no tempo ao início dos anos 2000, o cenário de vendas esteve nas mãos da lanchonete Bauru Chic.
O point do Bauru nos anos 2000

Sob os cuidados do ex-professor da Unesp José Egberto Cavariani, hoje aposentado com 78 anos, a lanchonete cultivou ao longo de seus seis anos de funcionamento – de 2004 a 2010 – carinho e fidelidade com os clientes e com a história do prato mais famoso da região. Seu slogan ficou conhecido como “sanduíche com história” e sua logo carregou o rosto de Casimiro Pinto Neto, à la KFC, como contou Egberto a respeito da inspiração para a identidade visual.
A fundação do restaurante se deu em meio ao seu desejo de trazer para Bauru uma vocação para o lazer, com o pensamento inicial de que “Bauru tem o sanduíche Bauru ‘né’? Vamos ver como é que anda o sanduíche”. Entre visitas ao Ponto Chic na capital e a outros estabelecimentos reconhecidos por venderem o lanche original, a Bauru Chic foi inaugurada em um dos principais pontos da cidade, na região entre o Sam’s Club e o Bauru Shopping.
“Eu comia no Ponto Chic, mas esse daqui é muito melhor”
(reproduziu José Egberto, em entrevista, a fala de um de seus clientes, Américo, ex-gerente geral do Bauru Shopping)
O ambiente não demorou a ser bem frequentado, além de ser indicado nas portas de hotéis quando visitantes chegavam à cidade, e logo se tornou um espaço cultural, instigando seus clientes a devorarem a trajetória do Bauru original, seja pelas toalhas de mesa personalizadas que detalhavam em quatro idiomas (português, inglês, espanhol e alemão) a história de sua criação, seja pelo ambiente decorado com fotografias, seja pelo próprio consumo da receita original em um pão francês de 19 centímetros cortado ao meio. Havia ainda uma coletânea, selecionada a dedo, de fotografias e biografias de figuras conhecidas da cidade, como Casimiro, Pelé, Mônica Sousa, Edson Celulari, Eny Cezarino, Marcos Pontes e Mauro Rasi.
Para garantir que a história não se perca, a receita original já foi reconhecida pela Câmara de Bauru por meio da lei municipal n°4314, de 24 de junho de 1998, onde é detalhada sua composição: pão francês, rosbife, tomate em rodelas, picles de pepino em rodelas, queijo derretido em banho-maria (muçarela), orégano e sal.
Aqui, o queijo é representado por somente um tipo, embora, na década de 30, Casimiro tenha combinado quatro tipos – prato, estepe, emmental e provolone, o último em menores quantidades devido a seu sabor forte característico. A adaptação, segundo Cavariani, deve-se principalmente ao fato do segundo e terceiro tipos, respectivamente, serem queijos de primeira linha, encarecendo o valor final do produto. Além disso, o ex-professor credita a fundição dos queijos no preparo do lanche às raízes italianas do Ponto Chic e de um de seus fundadores, Odílio Cecchini.
O documento ainda traz o passo a passo correto para a montagem do lanche, disponível a seguir:
1. Corta-se o pão francês ao meio e retira-se o miolo da parte superior, como se fosse uma pequena canoa;
2. Na metade inferior, colocam-se as fatias frias do rosbife e sal a gosto;
3. Por cima, distribuem-se algumas rodelas de tomate e pepino, polvilhando com orégano a gosto;
4. À parte, coloca-se um pouco de água numa frigideira. Quando ferver, coloca-se a mussarela a ser derretida;
5. Retira-se a mussarela da água e coloca na metade da canoa da metade superior do pão, unindo-se as duas partes. O calor da mussarela vai aquecer os ingredientes da outra metade.
Confira a seguir nossa visita exclusiva à cozinha do Skinão para acompanhar a montagem de um Bauru:
Além disso, a influência do verdadeiro Bauru na culinária paulista é verificada em sua oficialização como patrimônio imaterial do Estado de São Paulo desde 2018, mediante a lei n° 16.914/2018, publicada no Diário Oficial do Estado no dia 28 de dezembro e sancionada pelo ex-governador Márcio França.
Além da participação dos próprios habitantes e consumidores em continuar a história, o Conselho Municipal de Turismo de Bauru (COMTUR), em parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedecon), realiza um papel importante na comercialização do lanche, pois é por intermédio destes órgãos que estabelecimentos e eventos podem garantir o selo de Certificação do Sanduíche Bauru.
De acordo com o site oficial do Conselho, “O selo destina-se a salvaguardar a tradição, preservar a identidade e valorizar a iniciativa dos empresários do setor que buscam a qualidade na prestação de serviços e o comprometimento com a municipalidade”. O órgão municipal ainda é responsável por monitorar os estabelecimentos cadastrados e renovar o certificado – procedimento feito a cada dois anos.
O recebimento do certificado somente é previsto para estabelecimentos que seguem a receita e modos de preparo tradicionais. O processo de obtenção segue algumas etapas, dividido em cadastro, apresentação de documentação do estabelecimento, análise da documentação, visita técnica para avaliação, aprovação e, por fim, entrega da certificação, publicada no Diário Oficial do Município. Ainda, o solicitante assume compromisso com princípios pré-estabelecidos pelo COMTUR, detalhados abaixo:
- Garantir a tradição da receita, aproximando-se no máximo possível à receita tradicional que foi objeto de pedido de registro no IPHAN como patrimônio imaterial;
- Contribuir com o Conselho, no que lhe for proposto, no sentido de resgatar o sanduíche como patrimônio imaterial;
- Garantir a qualidade do produto, tanto na questão dos ingredientes como na forma de atendimento aos clientes;Participar das atividades para divulgação do produto, incentivando seu consumo;
- Colaborar com o COMTUR na criação de um sistema que venha transformar o sanduíche em um produto do turismo no município;
- Estabelecer canais permanentes de comunicação com partes interessadas, para o sucesso das políticas de certificação.
De fato, a influência do lanche vai além dos pratos e paladar do povo, permanecendo na história de pessoas, livros e notícias que circulam a décadas, e que promovem, assim, uma integração entre o sabor e o carinho. Passar por Bauru é, de certa forma, torcer para conseguir provar o autêntico Bauru, mais do que um lanche, uma memória, um equilíbrio de ingredientes, um patrimônio.
Deu para conhecer tudo sobre a história do lanche mais famoso da cidade? Que tal confirmar isso em mais um jogo de perguntas e respostas? Para acessar, novamente basta clicar na imagem a seguir, fazer login com sua conta Google, selecionar “jogar solo” e em seguida “aprender”. Bom jogo!

Festivais culinários em cena
A culinária em Bauru merece reconhecimento e isso não é uma opinião impopular: existem, hoje, algumas iniciativas que procuram prestigiar a riqueza gastronômica desenvolvida na cidade do lanche. Eventos como o Bença de Rua, realizado pelo restaurante Bença Parrilla, e o Prêmio Impera de Gastronomia, promovido pelo Social Bauru, são alguns dos responsáveis por movimentar o cenário culinário e garantir não somente destaque aos demais restaurantes, mas também um espaço acessível para que a população bauruense desfrute de comida de qualidade.
Bença vezes três: Quintal Gourmet, Parrilla e de rua
O “Bença Parrilla”, antes “Bença Quintal Gourmet”, foi inaugurado em 2019 e é considerado um dos melhores restaurantes de Bauru. Liderado por Amanda Gaspar e Rodrigo Peters, o estabelecimento surgiu em 2014, com uma proposta do casal de experimentar e arriscar uma culinária pouco explorada, como hambúrgueres totalmente artesanais, e um estilo inabitual de restaurante – eram necessárias reservas para poder degustar os lanches do Bença.
Amanda e Rodrigo já estavam inseridos no cenário gastronômico antes mesmo do restaurante. Nas redes sociais, o casal conta que já gostava de cozinhar quando se conheceram, e essa paixão se intensificou com o relacionamento. Após viajarem ao exterior e tomarem conhecimento de novas culturas, os dois apostaram na primeira versão do Bença: um lugar fechado, reservado e aconchegante.
O restaurante de quintal contava com um cardápio simples, mas foi o suficiente para conquistar o paladar dos bauruenses. “Quando a gente viu, a gente já tava recebendo 200 pessoas em casa numa tarde de domingo”, contou Amanda.
Tudo que é bom merece ser compartilhado, e o quintal se tornou pequeno demais para comportar o crescente público. Com o sucesso, o casal decidiu atender aos desejos do público e não só expandiram o espaço, como passaram também por um rebranding e renasceram como o Bença Parrilla que conhecemos.
O Bença de Rua aconteceu pela primeira vez em 2022 e foi organizado em comemoração ao aniversário do restaurante. Além da festividade, o evento procura celebrar a culinária local e oferecer um ambiente que misture música, gastronomia e cultura, bem como reforçar a importância de uma culinária afetiva.
A primeira edição foi realizada após a pandemia da Covid-19, e com a suspensão das restrições, o Bença de Rua surgiu como um alívio. A pioneira contou com apenas quatro restaurantes – Burga BBQ, Pátio do Chopp, Empanadaria e Bongo Tex-Mex –, mas reuniu pessoas de todas as idades e regiões de Bauru, gerando bons resultados e garantindo a continuidade da celebração nos anos que viriam.
Já a edição de 2025 evidenciou ainda mais a influência do acontecimento e do próprio restaurante na cidade. A comida foi responsabilidade de Dona Joana, Perú Tradicion, Restaurante Cubo, Quero Brigadeiro, Empanadaria, Pátio do Chopp, Cerveja Opera e do próprio Bença.
Além da parte gastronômica, a feira também contou com stands de roupas, acessórios, artigos de decoração e exposições de arte. O lugar também ofereceu muita música com a banda Eclipse Oculto e o projeto Um Brinde à Música Boa. Realizado na Galeria Pátio da Oficina, o público varia entre pessoas que conhecem e acompanham o restaurante e aqueles que são atraídos pelo que o evento tem a oferecer.
Os organizadores se empenham em fortalecer a relação com os cliente, o que se reflete na escolha de restaurantes múltiplos que exploram culinárias do exterior, como o Peru Tradición ou o Bongo Tex-Mex, e na valorização das raízes da cidade, demonstrada pela presença dos artistas e estabelecimentos locais.
“Vocês aquecem nossa cidade com gastronomia, cultura, arte e apoiando a cena local!” – Casa Autoral
Além da comida de qualidade e inovadora, o que conquistou o bauruense foi o cuidado que Rodrigo e Amanda sempre tiveram, não só com os lanches – e com a parrilla –, mas também com o público. Bença de Rua é apenas uma dentre diversas feiras gastronômicas que acontecem – e que dão certo – em Bauru e que traduzem a importância da culinária para os moradores da cidade.
“Temos raízes de todos os lugares mas não temos fronteiras” – Rodrigo Peters
Premiar, reconhecer e compartilhar
Motivado pela vontade inovadora de compartilhar, em um só lugar, tudo que há de bom na cidade de Bauru, Vinicius Fernandes criou o primeiro projeto do Social Bauru ainda em 2013. Formado em Publicidade e Propaganda, o diretor sempre teve contato com a comunicação, desde jornais independentes na infância até blogs durante a faculdade. Nesse meio tempo, desenvolveu a primeira ideia do que viria a ser o Social, quando realizava coberturas fotográficas de pequenos eventos pela cidade.
Com a evolução do projeto, o trabalho da equipe também cresceu. “Aos poucos a gente foi colocando jornalistas, trabalhando com comportamento, agenda, cinema, entretenimento, daí negócios, cultura, e não ficou só na cobertura fotográfica. E daí isso foi aumentando”, comenta Vinicius. A partir desse momento, a estrutura da marca começou a se expandir, dando espaço para o formato de site, textos, colunas e, mais tarde, os vídeos, que garantiram ao Social o título de maior veículo de comunicação da cidade do lanche.
A agência passou a incluir diversas editorias e se tornou referência em diversos setores na cidade, caminhando, aos poucos, para a realização de celebrações importantes no interior, como o Prêmio Royal de Jornalismo e o próprio Prêmio Impera de Gastronomia.
Idealizado por Vinicius, o Prêmio Impera de Gastronomia carrega, atualmente, o título de maior projeto gastronômico do interior de São Paulo. A premiação soma quatro edições (os preparativos para a quinta já começaram) e tem como maior objetivo reconhecer os melhores restaurantes do centro-oeste paulista, com base na criatividade e capacidade de inovação dos chefs, e fomentar a cultura gastronômica bauruense para além das fronteiras.
O evento acontece desde 2019 e se tornou um influente acontecimento no universo culinário da região. Abrangendo não somente Bauru, mas também outras cidades do interior paulista, o prêmio consiste em uma série de etapas que vão resultar em um vencedor para cada categoria definida e divulgada previamente.
A iniciativa se destaca pelos requisitos de participação – que consistem, principalmente, na criação de receitas originais e exclusivas –, pelo circuito gastronômico que integra o consumidor aos restaurantes e permite que o público também deguste os pratos submetidos e, por fim, pela cerimônia de gala.
Como um bom amante do cinema, Vinicius sempre sonhou em fazer uma premiação semelhante ao Oscar, desde as categorias até as estatuetas. Porém, qualificar um único indivíduo como o “melhor” não parecia tão interessante quando adaptado para o mundo gastronômico, e com esse pensamento, o publicitário começou a desenvolver quais etapas, características e requisitos integrariam o projeto:
“Aqui em Bauru tem algumas premiações, mas eles são um pouco mais voltados para a parte de empreendedorismo, de negócios, das empresas de Bauru. Normalmente eles fazem uma venda dessa premiação, não é uma coisa que é eleita mesmo, pensando em critérios e tudo mais. Então, primeiro de tudo, eu queria fazer algo com critérios. Então, eleger mesmo quem é quem é digno de receber o prêmio. […] Então, primeiro de tudo: critérios, eu pensei. A segunda coisa que eu pensei em fazer também empresarial inicialmente, pegar as empresas. Então, categorias, supermercado, sei lá, advocacia, né, pensar nessa coisa. Só que não existe uma variável. Todo ano ia ganhar o confiança ou o Tauste.”
Nesse contexto, Vinicius reforça a importância de uma premiação mais justa e que levasse em consideração mais do que apenas o nome do restaurante, separando as categorias em “Prato Principal”, “Drinks”, “Comida de Boteco”, “Pizza”, “Burguer”, “Sanduíche” e “Sobremesa”. Dessa forma, cada participante tem chances iguais de conquistar o prêmio.
Apesar da grande cerimônia ser privada, o Prêmio Impera promove uma movimentação na culinária bauruense com a etapa do Circuito Gastronômico, realizado durante os meses de julho e agosto. Nesse período, os pratos submetidos à avaliação ficam disponíveis para que a cidade também possa desfrutar das iguarias por um preço fixo para cada uma das categorias e de forma mais acessível, o que atrai tanto o público local quanto pessoas das cidades vizinhas – um dos objetivos do Prêmio é, incentivar o turismo, o que funciona devido à divulgação e participação de restaurantes de outras regiões.
A edição de 2024 também marcou um novo recorde para o Impera, não só socialmente como financeiramente. Com 82 estabelecimentos concorrendo ao prêmio e inscrevendo suas receitas, o evento arrecadou 1.052.691 durante os 35 dias de circuito, o que gerou um lucro além do previsto para os concorrentes e valorizou seus restaurantes ainda mais.
“Fora isso, muitas pessoas acabam conhecendo, né? A gente sempre pede para eles enviarem quantidade de vendas só dos pratos inscritos durante os 35 dias, eles enviam para gente. Ano passado passou de 1 milhão de vendas sem faturamento para esses restaurantes, tá? Então, os restaurantes venderam mais de 1 milhão de reais. […] Então, assim, é uma conta de diferença, que eles gostam bastante”.
Faturamento anual
São os circuitos gastronômicos, festivais e demais eventos culinários que ajudam o público a se lembrar que a comida vai além de um produto. Ela é memória, história, afetividade, identidade, pertencimento, conexão, e deveria ser, principalmente, acessível. Em Bauru, é extensa a lista de feiras que proporcionam tais vivências aos moradores e incentivam a valorização da culinária local, além de humanizarem a profissão e garantirem o reconhecimento merecido de cada restaurante.
O sucesso desses festivais enfatiza a importância não somente da culinária em si, mas da valorização dela como componente fundamental na formação de uma cultura, que é marcada, por exemplo, por um “simples” lanche – que apesar de possuir diversas receitas ao redor do país, continua sendo o nosso tão memorável Bauru.
Ficou com vontade de conhecer e experimentar alguns desses pratos? Aqui temos uma lista de todos os restaurantes mencionados para explorar! Bom apetite!













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