Beatriz Palmeira, Gabriela Bita, Isabela Sanches e Malu Oliveira

Da organização social para as arquibancadas, o racismo acompanha os torcedores, atinge os jogadores e cria raízes nas instituições que constituem o corpus do esporte brasileiro. Se “o futebol é reflexo da sociedade”, segundo Marcelo Carvalho, diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, o que acontece no meio esportivo quando este reflete uma estrutura racista?

Luighi chorando ao denunciar racismo (Imagem: Goat/Reprodução)

Para além de Vini Jr. e Luighi, o futebol nacional apresenta uma extensa trajetória de casos de racismo cuja repercussão é notável. Em 2011, por exemplo, Roberto Carlos teve uma banana arremessada em sua direção. No vôlei, Fabiana Marcellino foi chamada de macaca durante um jogo da seleção, em 2015. O basquete também não fica de fora, Yago Mateus foi ofendido com a mesma palavra, por uma torcedora, em 2023.

Apesar das diferentes modalidades, os resultados observados foram os mesmos. Algumas notas de repúdio publicadas pelos times e confederações e nenhuma medida eficaz de combate ao racismo nas quadras. Enquanto as autoridades e a própria mídia falham no aprofundamento dos casos, principalmente com seus desdobramentos, como exposto por Carvalho, os esportistas utilizam a própria voz para ecoar a luta contra o racismo nas quadras, o que, infelizmente, pode ser prejudicial para o próprio atleta.

Vini Jr. sendo vítima de ofensas racistas, contra o Valência, em 2023 (Imagem: Jose Jordan | AFP)

Não é só sobre “likes”

Assim como Carvalho, Rafael Garcia, coordenador de ESG da Liga Nacional de Basquete (LNB), aborda a postura rasa das instituições e da cobertura midiática em relação aos casos de racismo no esporte brasileiro. Para o idealizador do Tratado Antirracista pela Diversidade da LNB, ainda que a sociedade brasileira tenha consciência da existência do racismo nos esportes, ela não está disposta a lutar, de forma efetiva, contra o crime. 

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Por isso, muitas vezes uma mera nota de repúdio parece ser suficiente para abordar o caso, quando, na verdade, de acordo com o diretor executivo do Observatório: “A gente precisa pensar [sobre] o que acontece com o desdobramento desses casos”.

As mídias especializadas, em especial os veículos jornalísticos pretos, segundo Garcia, podem ser o diferencial para a cobertura das situações. Thayná Santana, jornalista do Alma Preta, conta que o veículo possui uma linguagem cujo foco é a denúncia, com objetivo de “levar esses casos para além de só campanha de conscientização”. 

Para ela, a sensibilidade no tratamento dos dados, a retomada histórica e uma linguagem direta são práticas que fazem a imprensa esportiva ser um agente ativo na luta contra o preconceito racial.

“[…] a importância dos veículos jornalísticos pretos. Eles conseguem, nesse momento, dar um um outro enfoque à situação e trazer essa profundidade que o tema merece”

Rafael Garcia, LNB 

Tal como há “um histórico de racismo dentro do futebol”, segundo Thayná, Carvalho aponta a mídia esportiva como um espaço historicamente branco

Para ele, além da necessidade da imprensa em abordar o assunto com uma perspectiva que ultrapasse as perguntas básicas: “o que”, “como”, “quando” e “onde”, é preciso “dar espaço para que a diversidade também aconteça aqui [no jornalismo esportivo]” e notar que algo está errado quando a mesa redonda de um programa televisivo – seja ele sobre debate racial ou não – é formada apenas por homens brancos.

Para além das notas de repúdio

Não só a postura da mídia perante os casos de racismo é questionada, mas também as instituições e organizações esportivas nacionais são alvo de pressão quando o tópico são medidas efetivas de combate ao crime.

Apenas notas de repúdio e discussões pontuais não são suficientes. Por isso, como uma das principais referências para os projetos de combate ao racismo no esporte, o Observatório Racial publica, anualmente, um relatório da discriminação racial no futebol, com os principais desdobramentos dos casos.

 Seguindo a mesma mentalidade, Garcia desenvolveu para a LNB o Tratado Antirracista. O documento busca treinar os pilares da Liga (representantes, árbitros, treinadores, jogadores e outros) sobre como agir em casos de racismo e protocola ações de combate ao crime dentro de quadra. 

Além disso, o coordenador afirma que a proteção da vítima é a primeira preocupação do tratado, de forma que, são discorridos os procedimentos a serem feitos, desde o acolhimento até o encaminhamento da denúncia.

“Um tratado, ele é um organismo vivo, que tem a capacidade de se moldar e modificar o seu procedimento ao longo do tempo”, diz Garcia. Após um ano de sua criação – comemorado em 11 de abril de 2025 – o Tratado Antirracista para a Diversidade acumula ações de enfrentamento ao crime que o tornaram referência entre outras federações esportivas do país. O projeto Basquete Cidadão, por exemplo, busca expandir o treinamento de basquete e de arbitragem nas regiões periféricas do Brasil.

O letramento racial, também praticado pelo Observatório, é um ponto tido como essencial, tanto para Rafael Garcia quanto para Marcelo Carvalho. Na busca por atingir desde o quadro de funcionários às federações esportivas brasileiras, a ação praticada em ambos os trabalhos visa recuperar a cultura negra dentro do esporte e provocar o diálogo sobre o preconceito racial nas organizações. 

Segundo Carvalho, isso é uma tentativa de “pautar que o debate sobre racismo seja algo que esteja na programação mesmo quando não tenha casos de racismo”.

Punição não uniforme

Para além destes e outros projetos, as próprias confederações apresentam regulamentos e leis que dizem respeito à postura a ser tomada frente aos casos de racismo no esporte. Multas, perdas de pontos, fechamento de portões e paralisações de partidas são algumas das medidas previstas pela normas seguidas pelas Confederações Brasileiras de Futebol, de Vôlei e pela Liga Nacional de Basquete (CBF, CBV e LNB).

No entanto, segundo Danilo Ramos, doutorando da Universidade Federal de Minas Gerais, ainda que “exista uma crescente nas legislações”, não se percebe a diminuição do comportamento racista dentro de quadra. Para Ramos, apesar de importantes, os códigos de conduta, protocolos e acordos das instituições “em alguns momentos ainda não reverberam na realidade”. 

Como exemplo prático, basta pensar em quantas partidas de qualquer um destes esportes foi paralisada após um atleta ser vítima de racismo. Ou ainda, em quantas denúncias recebidas chegam ao tribunal sem “perder a força”. 

Em vídeo, jogadoras denunciam atos racistas e cobram posicionamento da CBV ( Reprodução/Twitter)

Um exemplo que ficou conhecido para o vôlei brasileiro, foi o episódio de racismo sofrido pelas atletas Dani Suco, Camilly Ornellas e Thaís Oliveira, do Tijuca Tênis Clube. As três denunciaram que ouviram ofensas e sons de macacos vindo da arquibancada. Apesar da gravidade da situação e da denúncia feita durante a partida, o jogo seguiu normalmente.

Providências só foram tomadas após as jogadoras relatarem o ocorrido em suas redes sociais. A Confederação alterou o regulamento oficial, agora o crime racial é considerado gravíssimo.

Na visão de Ramos, as punições não são aplicadas de forma uniforme pelas instituições. Atualmente, a FIFA apresenta como obrigatórias as legislações de combate ao racismo nas confederações, e estas, por sua vez, estipulam o mesmo para as federações brasileiras. No entanto, cada órgão possui autonomia para abordar e aplicar as leis conforme suas próprias concepções, o que acarreta em ações desuniformes entre as entidades.

No basquete essa disparidade é ainda mais visível. Com relações rompidas desde junho de 2023, a Liga Nacional apresenta protocolos, tratados e códigos que explicitam suas ações na luta contra o crime racial, enquanto a Confederação Brasileira de Basquete por vezes ainda permanece apenas nas notas de repúdio e não aponta com clareza em seus documentos uma conduta a ser tomada especificamente em casos de racismo dentro do esporte.

Arte: Isabela Sanches

Em abril deste ano, com intermédio da Federação Internacional de Basquete (FIBA), a LNB e a CBB colocaram fim no rompimento e consolidaram um novo alinhamento institucional. A medida, segundo nota emitida pela Confederação, visa fortalecer a estrutura e a governança da modalidade no território nacional. Para os dirigentes das instituições, o acordo marca uma iniciativa de mudança de cenário e um passo importante para o basquete nacional.

Entretanto, a não uniformidade entre as organizações não pode ser tratada como um fator individual. Ramos acrescenta que, em conjunto com a questão, falta uma garantia de que a punição será aplicada como prevista. 

Na concepção do pesquisador, somadas a uma construção educacional, “as legislações já seriam suficientes” para avançar o processo de conscientização acerca do racismo no esporte, desde que fosse possível visualizar a aplicação concreta do que se encontra no papel.

Leis da Constituição Federal e da Justiça Desportiva

Onde está a representatividade?

Para Marcelo Carvalho, um dos principais pontos a ser abordado na luta para tornar o combate ao racismo uma prioridade dentro do esporte como um todo, é olhar para a estrutura dos cargos de poder e contar quantas pessoas pretas os ocupam. “A gente costuma dizer que a maioria dos jogadores são negros. A maioria dos treinadores são ex-jogadores. Por que nós não temos essa representatividade nesse lugar? […] conselhos do clube de futebol, eles são compostos também por pessoas brancas”, diz.

Segundo Ramos, a concentração de pessoas brancas em tais cargos demonstra como o esporte “materializa a existência do racismo estrutural” e reflete o que é a própria sociedade brasileira. O pesquisador aponta também a necessidade de movimentos educativos de outras entidades sociais, como escolas, sindicatos e comunidades, na luta contra o racismo, afinal, os esportes não se desenvolvem de forma separada do meio social.

Seja com o aprimoramento das legislações, seja com a inclusão de um corpus maior e mais diverso, a batalha contra o racismo no esporte é constante e complexa. Dos apontamentos feitos tanto por quem atua na linha de frente, produzindo relatórios e tratados, quanto por quem serve como ponte para que a informação chegue ao público, a necessidade de mudança estrutural é algo a ser destacado.

Proporção de atletas negros no futebol – Gráfico por Beatriz Palmeira (Agência Trilhos); fonte: Jornal da USP, com dados da Confederação Brasileira de Futebol
Proporção de atletas negros no basquete – Gráfico por Beatriz Palmeira (Agência Trilhos); fonte: Rafael Garcia, com dados da Liga Nacional de Basquete
Proporção de atletas negros na Seleção Brasileira de Vôlei – Gráfico por Beatriz Palmeira (Agência Trilhos); fonte: Volley University, com dados da Seleção Brasileira de Vôlei. A Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) não fornece este dado ao público

O ambiente esportivo, é sim, um espaço cujos preconceitos enraizados no meio social são refletidos. Porém, ele também é, de acordo com Carvalho, “um caminho para ensinar a sociedade a novos costumes”, com potencial para provocar debates e ações efetivas que não dependam de datas comemorativas ou de casos racistas recorrentes.

O papel da formação antirracista na educação

Quando se fala em formação escolar, o esporte – muito recorrente dentro das aulas de educação física – faz a sua participação como um conteúdo curricular. Em muitos casos, a prática esportiva se expande para além da sala de aula e deixa de apenas formar alunos, criando também atletas. É bastante comum as competições de jogos escolares como os interclasses ou o famoso Jogos Escolares do Estado de São Paulo (Jeesp). 

Ainda que não sejam disputas de alto rendimento, o sentimento de cobrança, vitória e derrota, continuam presentes. Com eles, podem vir à tona comportamentos que nem sempre estão de acordo com os princípios educativos.

No entanto, quais são esses princípios? Eles realmente foram impostos ou ensinados por seus discentes? Para Andresa Ugaya, professora de educação física da Unesp Bauru, a escola não cumpre esse papel.

 “Acredito que a escola não tem feito um bom trabalho. São poucos os profissionais preocupados com essa formação social. Muitas vezes, o foco está no ensino da gestualidade do esporte — tática, técnica, reprodução de movimento — e não no papel da escola numa perspectiva ampliada, que envolve formação social e cultural”

Andresa Ugaya, professora de Educação Física

Tanto os jogadores, quanto os torcedores não se enxergam como adversários, mas sim como inimigos. Xingamentos, agressões, atos discriminatórios: tudo isso surge dentro das escolas quando não há espaço para reflexão. Por isso, o papel do educador vai além do ensino técnico do esporte, é necessário abrir espaço para o debate e reflexão.

Hall de atletas

Arte: Isabela Sanches

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