Jovens atletas enfrentam abusos físicos, psicológicos e sexuais em clubes que priorizam resultados em detrimento do bem-estar. Falta de fiscalização e apoio institucional agrava a vulnerabilidade desses adolescentes

Augusto Angeli, Giovane Papa, João Felipe, Miguel Alves e Pedro Lélis 

Criança em estádio de futebol. Fonte: Freepik

Todos os anos, campeonatos esportivos que abrangem atletas da base até o profissional são realizados ao redor do mundo. Competições nacionais e internacionais atraem espectadores e recebem audiência de diversos veículos de notícias. No Brasil, o torneio amador que mais recebe audiência é a Copa São Paulo de Futebol JR, popularmente conhecida como Copinha, um campeonato composto por atletas da categoria de base de todo o Brasil, com idade mínima de 15 e máxima de 21. 

No entanto, quando a competição acaba e os times voltam às suas respectivas rotinas e saem do radar da mídia, milhares de jovens estão expostos a agressores, que podem estar escondidos no perfil de um técnico, dirigente, comissão técnica ou em qualquer posto de um clube que permita que se proteja através de uma relação de poder. 

Debater sobre e conscientizar os clubes é uma tarefa fundamental na prevenção de casos, que por muitas vezes acabam por não se encerrar uma carreira, mas também a vida pessoal da vítima, gerando traumas e sintomas. Casos de assédio e violação sexual podem ser encontrados tanto em categorias femininas como masculinas, e não se restringe a apenas atletas de base. 

Em 2023 um caso que gerou indignação e repercussão foi o da jogadora espanhola Jenni Hermoso, que recebeu um beijo sem consentimento do presidente da federação espanhola de futebol, Luis Rubiales. O caso ocorreu durante a entrega da taça da final da Copa do Mundo Feminina e reacendeu o debate sobre assédio no esporte e como se revela dentro do mundo esportivo, afetando jovens e adultos que querem ascender na carreira de atleta.

É importante para os atletas e suas famílias não terem o sonho de se tornar um atleta impossibilitado por casos de assédio moral ou sexual. Dar a devida importância e tratar com humanidade e seriedade é fundamental para que não se tenha uma vida perdida em função de transgressores. É necessário saber como prevenir potenciais casos de assédio e prestar apoio às vítimas quando forem transgredidas, a formação esportiva no Brasil oculta um estigma, uma face oculta que afeta todo o desenvolvimento do atleta.

Embora os casos nas categorias de base revelem com clareza a vulnerabilidade de crianças e adolescentes no ambiente esportivo, o assédio sexual ultrapassa essa fase de formação e se manifesta em diferentes níveis e modalidades. Atletas adultos, mulheres e profissionais do esporte também enfrentam situações de abuso, muitas vezes silenciadas por medo, pressão institucional ou ausência de canais seguros de denúncia. Quando se observa o cenário esportivo como um todo, os dados expõem uma realidade alarmante — que atinge especialmente o futebol feminino, onde a desigualdade de gênero e a falta de visibilidade agravam ainda mais o problema.

Durante seu mestrado, a ex-nadadora brasileira Joanna Maranhão realizou uma pesquisa que revelou um dado alarmante: 93% dos atletas brasileiros afirmaram já ter sofrido algum tipo de assédio — seja físico, sexual ou psicológico. O estudo ouviu 1.043 atletas e reforça a gravidade do problema no ambiente esportivo. Atualmente, Joanna integra a Comissão de Ética do Comitê Olímpico do Brasil (COB).

Dados da pesquisa de Joanna Maranhão — Foto: Reprodução

Futebol Feminino

No futebol feminino, o cenário é ainda mais delicado. Além dos desafios estruturais e da desigualdade de gênero já enfrentados pelas atletas, o assédio surge como mais uma barreira invisível, mas constante, na trajetória profissional de muitas jogadoras. A combinação entre hierarquias rígidas, falta de visibilidade e ausência de políticas de proteção efetivas cria um ambiente vulnerável, onde denúncias são raras, mas os abusos persistem. Levantamentos recentes e relatos de atletas revelam que o assédio no futebol feminino brasileiro é mais comum do que se imagina — e muitas vezes silenciado dentro e fora de campo.

Realizado em 2024, o levantamento inédito apresentado a seguir ouviu 209 atletas mulheres de clubes de todas as regiões do país, que disputam as três divisões do Campeonato Brasileiro Feminino — A1, A2 e A3.

Mais da metade das jogadoras entrevistadas — 52,1% das 209 ouvidas — relataram já ter sido vítimas de algum tipo de assédio no futebol, seja de cunho sexual ou moral. As atletas foram contatadas individualmente e aceitaram participar da pesquisa sob condição de anonimato, respondendo a um questionário com 18 perguntas sobre violência e discriminação no ambiente esportivo.

Levantamento realizado por Camila Alves com atletas das Séries A1, A2 e A3 do Brasileiro Feminino.

O papel do treinador

Mais do que treinar fundamentos táticos e físicos, o treinador exerce um papel fundamental na formação dos jovens atletas como cidadãos. Nas categorias de base, essa figura se torna um ponto de apoio crucial em um período da vida marcado por descobertas, vulnerabilidades e desafios. 

É nesse contexto que o combate ao assédio ganha força e visibilidade, exigindo profissionais preparados não apenas tecnicamente, mas também humanamente. O treinador, quando consciente de sua responsabilidade, pode ser agente de transformação, oferecendo orientação, proteção e suporte emocional aos atletas — dentro e fora do campo.

O ambiente esportivo pode ser, ao mesmo tempo, inspirador e desafiador para crianças e adolescentes que sonham em seguir carreira no futebol. Por isso, a presença de um treinador consciente de sua responsabilidade social é determinante. Muito além de vitórias e derrotas, ele tem o dever de observar, orientar e acolher, sendo capaz de identificar sinais de sofrimento ou abuso que muitas vezes passam despercebidos.

Quando bem preparado, o treinador atua como um elo entre o esporte, a educação e o desenvolvimento pessoal, ajudando a construir não só atletas melhores, mas seres humanos mais conscientes, protegidos e preparados para a vida.

Victor Barreto, de 29 anos, é formado em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e possui a Licença C da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), um curso de formação para treinadores que atuam ou desejam atuar em escolas de futebol ou nas categorias de base, do Sub-11 ao Sub-14.

Victor é treinador da categoria Sub-15 das categorias de base do Rio Branco Esporte Clube, de Americana.

Assim como muitos jovens, ele sonhava em ser atleta profissional desde a infância e começou a praticar futebol bem cedo. Aos 11 anos, já atuava nas categorias de base, onde permaneceu até o Sub-17.

Após esse período nos gramados, decidiu migrar para o futsal, modalidade na qual se destacou e se profissionalizou ainda jovem. No entanto, aos 18 anos, seus planos mudaram completamente: decidiu deixar a vida de atleta de lado e prestar vestibular para a universidade.

Desde que começou a graduação em Educação Física na universidade, Victor conta que já estava decidido a seguir carreira no futebol — desta vez, a área técnica.

Ao falar sobre sua trajetória, o treinador relembra as dificuldades do início na profissão e comenta as evoluções nesse cenário nos dias atuais. Ele concluiu o curso da Licença C da CBF no ano de 2019. Naquele época, foram abertas apenas duas turmas de 40 alunos durante todo o ano, o que, segundo ele, mostra como o acesso à formação era muito mais restrito.

Victor Barreto durante treino no Rio Branco Esporte Clube. Fonte: Reprodução/Redes sociais.

Agora, em 2025, Victor irá concluir o curso da Licença B — obrigatória para a categoria Sub-15, onde atua. De acordo com o treinador, este ano haverá dez turmas. Ele destaca a importância dessa evolução e afirma: “O conhecimento tem que chegar.”

Ao falar sobre seus jogadores, Victor destaca a importância do papel do treinador não apenas na evolução das crianças como atletas, mas também na formação delas como seres humanos para a sociedade.

“A função de um treinador para esses jovens, nessa fase da vida, é fundamental. E, às vezes, ela é menosprezada por quem está fora do contexto. Quem está dentro do contexto poderia estar fazendo mais. Em alguns momentos, eu preciso ser o Victor treinador, mas a minha essência é ser o Victor professor. Minha essência é ajudá-los na formação — como pessoas, como indivíduos para a sociedade — e eu uso o esporte como uma ferramenta de transformação para eles.”

Ele ainda reafirma sua preocupação com o dia a dia dos atletas fora dos gramados. Preocupa-se não apenas com o desempenho em campo, mas também com o rendimento escolar. Como exemplo, conta que solicita aos jogadores que, ao final de cada bimestre, levem o boletim escolar para que ele possa conferir.

Victor busca criar uma relação forte e de confiança com seus atletas por meio do futebol e destaca como o ambiente esportivo pode, às vezes, ser difícil para crianças nessa faixa etária.

“Infelizmente, pouca gente quer saber se na escola está tudo certo, se está tudo bem em casa, se ele dormiu bem… As pessoas só querem saber do resultado, do que ele entregou.”

O treinador também aponta a importância do acompanhamento psicológico desses jovens. A equipe conta com um profissional da área que participa dos treinos e dos jogos, analisando e auxiliando Victor no trato com os atletas, além de acompanhar os garotos com sessões em grupo e individuais.

Para ele, sua função como professor é ainda mais importante do que a de treinador, já que está diretamente ligada à formação da criança como pessoa. Ele acredita que deixar esse papel de lado pode ser prejudicial ao desenvolvimento do jovem, pois pode levar a um excesso de cobrança, afetando-o psicologicamente.

“Quando eu identifico pessoas com a mentalidade de serem apenas treinadores, vejo que, embora possam influenciar positivamente, também entram em um campo muito perigoso, que é a questão da cobrança. Já vi meninos pararem de jogar com 13 anos porque ouviram um comentário do treinador que mexeu com o emocional da criança. Você pode acabar com um sonho.”

Para o combate a esse tipo de assédio, ele destaca a importância da formação acadêmica em Educação Física por parte dos profissionais. O treinador aponta que, durante a graduação, teve contato com diversas disciplinas que contribuíram para esse enfrentamento e critica a ausência do tema no curso preparatório da CBF. Para ele, um assunto tão relevante deveria ser mais debatido dentro da formação oferecida pela entidade.

Victor também ressalta o papel essencial dos responsáveis no combate ao assédio. Segundo ele, os pais ou responsáveis devem acompanhar de perto a rotina dos jovens e ensiná-los sobre o que é certo e errado, para que consigam identificar situações abusivas e buscar ajuda contra os agressores.

Ele observa que o ambiente em relação ao combate a essas práticas vêm melhorando com o passar dos anos, mas ainda precisa evoluir.

“De fato, esse cenário evoluiu. Evoluiu a consciência dessas crianças sobre o mundo, por conta do acesso à informação. Tivemos uma infância totalmente diferente da que essas crianças estão tendo.”

O treinador cita, como exemplo, um caso recente de assédio sexual nas categorias de base em Limeira, no qual a vítima, um menino de 13 anos, procurou a polícia por conta própria.

“Acho que nunca deve ter acontecido um caso em que um menino de 13 anos procurou a polícia. A informação traz essa permissão para ele, de saber o que é errado, e isso é muito valoroso para nós. Você cria uma preparação diferente para o mundo.”

Victor afirma que essa conscientização é extremamente importante e necessária, e deve ser transmitida à criança por meio dos pais, das escolas e de campanhas educativas.

Mesmo com o crescimento da conscientização nos últimos anos, a maioria dos atletas que sofrem assédio ainda não procura ajuda, principalmente por medo da autoridade do agressor. Em muitos casos, os jovens têm receio de serem dispensados da equipe em que atuam.

O treinador destaca a falta de um canal seguro para que esses atletas possam fazer denúncias de forma anônima, sendo, atualmente, a única alternativa a denúncia criminal diretamente em uma delegacia.

Ele finaliza apontando como a CBF poderia contribuir nesse combate, sugerindo, por exemplo, a criação de um canal específico para receber denúncias que preserve a identidade do denunciante. Segundo ele, isso ajudaria a criar um ambiente seguro e a combater a cultura do medo que ainda afeta tantas vítimas.

A psicologia esportiva no combate ao assédio

A psicóloga Camila Bicalha, doutora em Ciências do Esporte pela UFMG e professora na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), falou sobre a importância da conscientização dos jovens atletas e o papel dos treinadores e clubes para essa evolução.

Dra. Camila Bicalho representando a UEMG no XIX Congresso Brasileiro e XII Congresso Internacional de Psicologia do Esporte e do Exercício, em 2022. Fonte: Reprodução/Redes sociais.

No ambiente esportivo, especialmente nas categorias de base, crianças e adolescentes estão inseridos em relações marcadas por autoridade, confiança e dependência. Técnicos, empresários, patrocinadores e dirigentes muitas vezes ocupam posições de grande influência sobre os jovens atletas, o que pode ser explorado por assediadores. 

Com o uso de manipulação emocional, ameaças sutis, chantagens ou distorções da realidade, o agressor consegue confundir a vítima, fazendo com que ela se sinta responsável pelo ocorrido ou com medo de sofrer retaliações. Esse tipo de dinâmica afeta diretamente a autoestima, a estabilidade emocional e o desenvolvimento psicológico da criança, comprometendo sua confiança nos vínculos interpessoais e sua percepção de segurança no esporte.

O treinador exerce um papel fundamental não apenas na formação esportiva, mas também no desenvolvimento emocional e social de crianças que ingressam nas categorias de base. Em muitos casos, ele acaba assumindo uma função semelhante à de uma figura paterna, sendo alguém em quem o jovem atleta deposita confiança e admiração. 

A forma como esse profissional conduz os treinos, se comunica e oferece apoio influencia diretamente na construção da autoestima, da motivação e da capacidade de enfrentar desafios. Quando essa relação é positiva, cria-se um ambiente propício ao crescimento e à superação. No entanto, quando marcada por atitudes negativas — como críticas constantes, falta de acolhimento emocional ou abuso de autoridade —, os impactos podem ser profundos, gerando sentimentos de medo, ansiedade, insegurança e até levando ao abandono do esporte.

Camila explica que o contato do assediador com a vítima não está necessariamente no contexto do esporte: “Está relacionado com a criação de um vínculo de confiança e proximidade, muitas vezes chamado de “fase de aliciamento” (grooming). O assediador pode oferecer atenção especial, presentes ou promessas de oportunidades. Gradualmente, ultrapassa limites emocionais e físicos, dificultando que a vítima perceba ou denuncie a situação”, conta.

Os sinais de que uma criança ou adolescente pode estar sendo vítima de assédio sexual não se restringem ao ambiente esportivo, embora nele também sejam evidentes. Alterações repentinas de comportamento, queda no desempenho – seja nos treinos ou na escola -, isolamento social e sintomas de ansiedade, especialmente quando precisam estar no local onde o abuso ocorre, são alguns dos indícios mais comuns. Também é frequente a evasão dos treinos, a recusa em interagir com uma figura específica de autoridade e manifestações de desconforto ou medo. Em casos mais graves, a vítima pode apresentar sintomas físicos sem causa aparente, distúrbios alimentares, automutilação e problemas com o sono.

O medo de denunciar abusos no esporte ainda é uma barreira significativa, especialmente entre jovens atletas que dependem da aprovação de técnicos, dirigentes ou outros adultos em posição de poder. Muitos temem retaliações, não serem levados a sério ou até prejudicarem suas carreiras. Para romper esse silêncio, é essencial investir em educação desde as categorias de base, promovendo conversas abertas sobre abuso, consentimento e direitos. 

O fortalecimento da autoestima e o empoderamento dos jovens ajudam a reconhecer situações abusivas e a entender que não são culpados. Além disso, a presença de profissionais capacitados e ambientes seguros, com canais acessíveis de escuta e denúncia, aumenta a chance de que esses casos venham à tona. O assédio sexual é uma violação séria, que compromete a saúde mental, o desenvolvimento e os sonhos de crianças e adolescentes — e deve ser combatido com firmeza e responsabilidade.

Camila também fala como e para quem a vítima deve denunciar um caso de assédio.

“No caso do esporte, a denúncia do atleta ou treinador(a), vítima do assédio, pode fazer a denúncia aos profissionais de Psicologia ou Assistente social da equipe, autoridades esportivas (como federações e comissões de ética), conselhos tutelares e órgãos legais (delegacia especializada, Ministério Público). No Brasil temos o canal de denúncias, disque 100 no Brasil. Ter o apoio de psicólogos, assistentes sociais e advogados é fundamental nesse processo”.

O apoio psicológico é essencial para que atletas vítimas de assédio consigam elaborar o trauma vivido, recuperar sua autonomia e reconstruir sua autoestima, tanto em sua vida pessoal quanto na trajetória esportiva. Por meio de abordagens fundamentadas em evidências, como a Terapia Cognitivo-Comportamental, é possível trabalhar a ressignificação da experiência e a redução de sintomas como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático. O processo terapêutico também contribui para que o atleta volte a enxergar o esporte como um espaço de prazer e não de sofrimento. É importante lembrar: o silêncio favorece o agressor — falar, ser ouvido e acolhido é o que protege a vítima.

Treinadores, dirigentes e responsáveis têm um papel fundamental na proteção de crianças e adolescentes no esporte. Cabe a esses adultos não apenas ensinar e orientar, mas também garantir que os ambientes de treino e competição sejam seguros e acolhedores. Isso exige atenção constante aos sinais de alerta, disposição para ouvir os atletas e sensibilidade para acolher possíveis relatos de abuso. É essencial agir com responsabilidade e ética diante de qualquer suspeita, sempre priorizando o bem-estar da vítima. Não podemos mais ignorar ou minimizar situações de assédio. É preciso romper o silêncio, encorajar a denúncia e garantir que os responsáveis sejam devidamente punidos. O assédio sexual deixa marcas profundas, muitas vezes invisíveis — prevenir é uma forma de cuidar da saúde emocional e do futuro dessas crianças.

Proteger crianças e adolescentes do assédio no esporte exige compromisso, informação e ação contínua. Estruturar ambientes seguros nas categorias de base passa por estabelecer políticas claras de proteção, como códigos de conduta, canais acessíveis de denúncia e formação ética constante dos profissionais envolvidos.

A supervisão das relações interpessoais e a criação de espaços de escuta ativa fazem toda a diferença. Quando o diálogo é incentivado e os direitos das crianças são valorizados no cotidiano, o esporte se torna, de fato, um espaço de crescimento, confiança e proteção. Garantir isso é um dever coletivo — e essencial para que os sonhos desses jovens não sejam interrompidos pela violência.

O assédio sexual nas categorias de base é uma realidade muitas vezes silenciada por estruturas de poder, medo e despreparo das instituições esportivas. A psicóloga Camila Araújo, responsável pela supervisão de profissionais do Grupo Med+ nas escolas da rede estadual paulista, oferece reflexões essenciais sobre como esse processo se inicia, seus impactos e as estratégias para enfrentá-lo. A seguir, reunimos os principais pontos da entrevista, com respaldo de fontes especializadas e políticas públicas de proteção à infância.

Psicóloga Líder pela empresa Grupo Med+, responsável por orientar e monitorar um grupo de psicólogos que trabalham nas escolas da rede estadual de educação do estado de São Paulo. Fonte: Arquivo Pessoal

Como começa o assédio: manipulação afetiva e desequilíbrio de poder

Diferente do que muitos imaginam, o assédio sexual raramente começa com uma abordagem direta. “Geralmente, o assediador inicia o contato de forma sutil, criando uma falsa relação de confiança por meio de elogios, favores e atenção desproporcional”, explica Araújo. Esse comportamento tende a surgir em ambientes com forte desequilíbrio de poder — como clubes e centros de treinamento — onde o jovem atleta depende emocional e profissionalmente de figuras de autoridade.

A psicóloga reforça que o assédio é um processo contínuo de manipulação, e não um ato isolado. Essa visão é corroborada por estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Canal de Denúncias do Esporte Seguro, que identificam o esporte como um dos espaços onde o silêncio ainda prevalece diante do abuso.

Sinais de alerta: quando o corpo e o comportamento pedem socorro

Detectar o sofrimento de um jovem atleta exige atenção a sinais muitas vezes sutis. “Sinais como retraimento, queda de rendimento, alterações de humor, medo de treinadores ou resistência a ir aos treinos são indícios importantes”, afirma Camila. Ela ressalta que esses comportamentos não costumam aparecer isoladamente e que treinadores, pais e profissionais de saúde mental devem estar preparados para oferecer uma escuta empática, livre de julgamentos.

Pesquisas do Instituto Alana apontam a necessidade de capacitar os adultos para identificar sinais de sofrimento psíquico em crianças e adolescentes, sobretudo em ambientes esportivos, onde a rigidez disciplinar pode esconder traumas profundos.

Prevenção e escuta ativa: o papel da educação emocional

A prevenção precisa começar antes de qualquer denúncia. “Trabalhar autoestima, limites e educação emocional ajuda o jovem a reconhecer situações abusivas”, afirma a psicóloga. Segundo ela, espaços seguros de escuta, capacitação das equipes técnicas e protocolos institucionais bem definidos são fundamentais para garantir proteção.

Camila cita práticas essenciais como rodas de conversa, cartilhas educativas e canais protegidos de denúncia — medidas recomendadas por organizações como o UNICEF e o Instituto Sou da Paz, que defendem políticas de proteção integral nas instituições que atuam com crianças e adolescentes.

Os impactos do trauma: quando o abuso compromete o sonho

O trauma causado pelo abuso sexual pode afetar profundamente a vida de um jovem atleta. “A vítima pode desenvolver transtornos como depressão, ansiedade, automutilação e até ideação suicida. Além disso, muitos abandonam o esporte, perdem a confiança nos vínculos e passam a ter uma relação conflituosa com o próprio corpo”, destaca Camila.

Segundo o Relatório Global da OMS sobre Violência contra Crianças, vivências traumáticas na infância, como o abuso sexual, estão fortemente ligadas a dificuldades emocionais e de desenvolvimento ao longo da vida adulta.

Quebrar o silêncio: mudar a cultura do esporte é urgente

Para interromper o ciclo de silêncio e medo, é necessário transformar a cultura esportiva desde sua base. “Os clubes precisam instituir códigos de conduta claros, treinar suas equipes e envolver as famílias na construção de um ambiente ético e seguro”, afirma Camila. A criação de canais acessíveis de denúncia, a proteção das vítimas após o relato e o protagonismo dos atletas são medidas fundamentais.

“Precisamos falar sobre isso de forma clara, sem tabus, desde a base do esporte”, reforça a psicóloga. Essa abordagem está em sintonia com campanhas como a Esporte Seguro, do Governo Federal, que defende ambientes saudáveis e o direito à proteção integral.

O papel da família e dos psicólogos: rede de apoio contínua

A atuação conjunta entre família e psicólogos é decisiva tanto na prevenção quanto na superação dos danos causados. Camila defende que os pais devem orientar os filhos desde cedo sobre o corpo, os limites e o consentimento. “Educar é empoderar. As crianças precisam saber que podem dizer ‘não’ e que sempre serão ouvidas”, afirma.

Do ponto de vista clínico, o trabalho do psicólogo é essencial para resgatar a autonomia emocional do jovem. “Acolhemos com ética, ajudamos a ressignificar a dor e trabalhamos para que o trauma não defina sua trajetória”, conclui Camila.

Portanto, todos os envolvidos em uma situação de assédio têm um papel na trajetória do atleta. Sua formação básica é afetada por esse acontecimentos, principalmente tão cedo em sua vida, e no começo de sua carreira profissional.

Medidas para a proteção desses jogadores precisam ser tomadas a fim de conservar sua integridade física e mental. Principalmente quando se tratam se jovens atletas, os quais muitas vezes estão longe de sua família/guardiões e carecem se uma figura de autoridade e proteção familiar, e seus cuidados são passados para seus treinadores.

O assédio no esporte se mostra com muitas faces e meandros, o reconhecimento é o primeiro passo para a prevenção, e a supervisão e a vigilância são imprescindíveis na manutenção desse sistema que tem sido controlado e manipulado por agressores em seu próprio benefício.

A segurança e saúde dos atletas dentro de seus clubes/federações precisam ser consideradas prioridades, uma vez que sem esses dois fatores são determinantes para suas carreiras e vidas.

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