Com a nova legislação federal, escolas se adaptam à restrição dos celulares e enfrentam desafios que vão da ansiedade adolescente ao papel dos pais
Breno Batista, João Marcelo Ferreira e Marco Oliveira
Em 2025, desde o início do ano letivo, os celulares estão proibidos nas salas de aula de escolas brasileiras. Sancionada em janeiro, a nova lei federal (Lei nº 15.100/2025) estabelece que os dispositivos só podem ser utilizados em contextos pedagógicos, intervalos ou emergências. A medida chega após anos de debates sobre o impacto dos celulares na aprendizagem e, ao mesmo tempo em que se consolidaram como ferramentas de acesso ao conhecimento, os dispositivos também se tornaram fontes constantes de distração, dificultando a concentração em sala e comprometendo a relação entre alunos e professores. O novo regulamento tenta reverter esse cenário, impondo uma barreira entre o uso para fins de aprendizagem e o uso pessoal.
No município de São Pedro (SP), as escolas têm passado por mudanças que alteram a rotina dos professores, estudantes e famílias, com a adoção de um ambiente menos conectado dentro das unidades de ensino. Na Escola Estadual Gustavo Teixeira, a diretora Angela Maria Bago relata que a implementação foi feita de forma gradual, com apoio da coordenação pedagógica e diálogo com a comunidade escolar. “No começo houve alguma resistência. Aluno tentando usar escondido, pais reclamando. Mas hoje já vemos um ambiente mais tranquilo e com menos distrações em sala”, afirma.

Foto: ETEC Gustavo Teixeira / Fonte: Centro Paula Souza
O uso de celulares foi, por muito tempo, tolerado de forma informal nas escolas, devido à ausência de uma regulamentação específica. Com a implementação de novas diretrizes, o desafio é construir uma cultura escolar voltada à retomada do foco nas atividades e ao fortalecimento da interação presencial entre alunos e professores. Os relatos das salas de aula indicam que essa transição já começou a surtir efeito.
A professora de história Maria Bezerra, com mais de 20 anos de experiência em sala de aula, afirma que a mudança trouxe uma “nova respiração” para o ensino. “A gente passava a aula tentando chamar atenção. Agora conseguimos desenvolver o conteúdo com mais facilidade. Dá pra perceber que os alunos estão mais presentes”, relata.
Ela reconhece, no entanto, que a tecnologia pode ser uma aliada, mas com cautela. “Eu ainda faço algumas atividades com o uso de tecnologia, mas de forma controlada, com foco totalmente no ensino. A diferença é que agora o celular não concorre o tempo todo com a aula.”
A opinião se alinha à da psicóloga Marta Goulart, que acompanha adolescentes em um consultório particular da cidade de Bauru, no interior paulista. Segundo ela, o uso excessivo dos dispositivos móveis pode, sim, ser caracterizado como vício, especialmente entre os mais jovens. “Há casos em que a pessoa sente abstinência ao ficar longe do aparelho. Isso interfere na socialização, no sono, na saúde mental e, é claro, no rendimento escolar”.
A questão também envolve o tempo livre e o divertimento. Segundo a psicóloga, o celular cumpre uma função de lazer importante para pessoas com poucos acessos, sobretudo por motivos financeiros. “Para muitos jovens, especialmente os de baixa renda, o celular é uma das poucas formas de entretenimento disponíveis no dia a dia. Retirar esse recurso sem oferecer alternativas pode gerar frustração e resistência”, explica Marta.
Os estudantes também sentiram os efeitos da nova legislação. A estudante Luísa Ribeiro, de 16 anos, confirma a dificuldade de adaptação. “Eu usava o celular o tempo todo, até pra copiar a lição da lousa. A gente fica meio ansioso, achando que está perdendo alguma coisa. Mas com o tempo acostuma”, conta. Segundo ela, o impacto na atenção durante as aulas foi perceptível “Agora eu escuto mais o que a professora fala e as minhas notas melhoraram.”
Pesquisas recentes já apontam efeitos positivos da medida. Segundo dados preliminares do Ministério da Educação, escolas que implementaram com rigor a nova lei registraram melhora na atenção dos alunos e redução de episódios de indisciplina. A Secretaria Municipal de Educação vem monitorando os resultados desde fevereiro.
Para a coordenadora pedagógica Regina Celestino, a mudança exige mais do que apenas fiscalização. “Nossa prioridade é o aprendizado. Se o celular atrapalha mais do que ajuda, então faz sentido restringir. Mas estamos atentos aos ajustes necessários. Isso não pode virar uma guerra de punições. Até porque pode ser uma ferramenta”, afirma. Ela também destaca a evolução da postura dos pais: “No começo, muitos reclamaram. Achavam que estávamos exagerando. Hoje, muitos agradecem. Dizem que os filhos voltaram a conversar mais em casa, ficaram menos irritados e as notas aumentaram.”
A participação familiar é considerada um pilar essencial para que a política funcione, já que o uso indiscriminado de celulares fora da escola pode acarretar problemas para dentro. A psicóloga Marta ainda ressalta que apenas proibir pode gerar ainda mais fascínio pelo celular. “É preciso educar para o uso responsável, não só punir. Se o celular vira moeda de troca, ele ganha ainda mais valor.”
O desafio é duplo, manter um equilíbrio entre o digital e o real. O pai de dois adolescentes, José Cláudio, já percebeu mudanças positivas. “Lá em casa, depois que cortaram o celular da escola, a gente também começou a limitar em casa. No começo foi difícil, mas agora até jogamos dominó juntos à noite e estão pegando gosto por exercícios. Parece besteira, mas muda tudo.”
Ainda é cedo para conclusões definitivas, mas os primeiros meses de vigência da nova lei sinalizam um processo de realinhamento entre educação e tecnologia. A experiência de São Pedro aponta para resultados promissores, sugerindo que, com o envolvimento das famílias e a construção coletiva de novos hábitos, é possível promover um ambiente escolar mais concentrado, colaborativo e compatível com os objetivos pedagógicos.











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