Isabela Dalaqua, Luísa Motta, Lucas Amaral e Sophia Picchi

A cidade de Bauru desenvolveu-se junto ao curso do Córrego das Flores, hoje coberto pelo asfalto da Nações Unidas. A principal avenida dá acesso a diversos pontos da cidade, o que fez com que muitos comércios e empresas se instalassem nos seus arredores.

A paisagem onde antes corria água, agora é pavimentada por asfalto e sem vegetação, o que transformou Bauru em palco de repetidos desastres ambientais e enchentes constantes.

(Montagem: Social Bauru)

Nos dias de chuva, quem paga a conta é a população. “Todo mundo reclama e não tem solução, então tem que partir da gente”, relatou um funcionário que optou por não ser identificado, da Alemão Acessórios, loja de peças automotivas que está há mais de 30 anos na quadra 7 da avenida – região próxima à linha férrea, que enfrenta cheias em dias de chuva. 

O prejuízo é mais que financeiro, já que a rotina cansativa ao lidar com as chuvas é normal para quem mora e trabalha em regiões de risco.

A loja teve que ser totalmente remodelada após diversos danos à parte de fiação, computadores, materiais e estoque. Conforme relembrou o funcionário, não houve nenhum parecer ou apoio por parte da prefeitura municipal nestes eventos.

Atualmente, grande parte da estrutura se concentra na parte mais alta da propriedade, que ainda sim tem sua entrada ao nível da rua, onde se realizam os serviços nos carros de clientes, totalmente prejudicada durante esses não raros eventos.

Os empregados também relatam dificuldades para chegar ao local de trabalho: problemas para estacionar e linhas de ônibus paradas ou com atraso já são certezas quando o tempo fecha. “Se a chuva acontece por volta de meio-dia, ali praticamente encerra nosso expediente. Não tem como trabalhar”, conta outro trabalhador do mesmo estabelecimento. 

Precauções como o uso de comportas e prateleiras altas são vistas em diversas das lojas presentes na via, devido ao alto nível que a água pode chegar. Bueiros transbordam com cheiro desagradável, semáforos que não funcionam, poças de água e acidentes no trânsito também já são parte comum do cenário, que por muitas vezes deixa pessoas ilhadas por horas. 

Placa de alerta na quadra 6 da avenida (Foto: Agência Trilhos)

O pós-chuva

O problema não dura apenas nas poucas horas de chuva, que são suficientes para deixar a avenida embaixo d’água. Quem depende do fluxo de clientes, relata que leva alguns dias para que a situação se estabilize.

Daiane Cardoso, de 38 anos, trabalha em um dos comércios da quadra 8 da Nações Unidas e diz que a época de maior queda nas vendas é a de chuvas: “Choveu, ninguém fica nas Nações. O prejuízo não é só da chuva, é de não ter cliente quando chove”.

A equipe da Alemão Acessórios já se prepara para perder uma hora de vendas no dia seguinte à uma noite chuvosa, período em que os funcionários ficam ocupados com a limpeza da lama e lixo arrastados pela enxurrada. “Às vezes, a prefeitura faz a lavagem da avenida. Quando não fazem, fica aquela poeira e barro. A gente sofre com o pós, é cansativo”, comenta o entrevistado. 

Após o escoamento da água, a lama é o maior problema (foto: Bruno Freitas/JCNet)

Além disso, a rua é constantemente interditada para reparos, o que dificulta ainda mais o acesso aos estabelecimentos. As poças que restam devido aos desníveis no asfalto molham clientes e funcionários que passam a pé pelo local. 

A força da água impressiona: 
“Você vê de tudo passando pela água. Uma moto já foi arrastada e dava pra ver ela batendo no asfalto, a água fazia ondas. Dava dó de ver o estado depois”, conta Daiane.

A Prefeitura

Ao ser questionada sobre a atuação do poder público nas enchentes, a vendedora Gabriela Cardoso, filha de Daiane, se queixa: “A prefeita vem com salto, desfila como se estivesse fazendo mil maravilhas para a cidade. Mas na realidade não está fazendo nada, porque a gente que está aqui, vivenciando o que está acontecendo.”

As reclamações são constantes, e o que é feito são reparos no asfalto, que, segundo os entrevistados, em uma próxima chuva já necessitam ser refeitos. Essas obras acarretam outras consequências, como cortes de energia e o trânsito congestionado no acesso a diversos bairros, devido a relevância da Avenida Nações Unidas para o fluxo na cidade.

(Foto: Joabe Guaranha/Prefeitura de Bauru)

O Departamento de Água e Esgoto de Bauru (DAE) realizou a limpeza de um dos bueiros próximo às lojas após diversos pedidos, que só foram atendidos, segundo relatos, após vereadores da cidade visitarem a região. 

Esse problema atravessa todos os governos que passam por Bauru, e os cidadãos continuam a receber desculpas, e não soluções, enquanto pagam a conta da falta de planejamento e interesse público. 

→ Assista ao Reels com depoimentos dos lojistas da Avenida Nações Unidas

Eventos recentes

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Em 15 de março de 2025, uma tempestade com ventos de 60 km/h e 40 mm de chuva em apenas 20 minutos transformou a Avenida Nações Unidas em um rio. O episódio registrou 150 ocorrências pela Defesa Civil. Meses antes, em 23 de janeiro, outra chuva de 77 mm alagou a mesma avenida e outros pontos da cidade, o que interditou o tráfego e interrompeu uma partida do Noroeste no Alfredão.

Explore o mapa completo das áreas de risco de Bauru

A Avenida Nações Unidas, uma das vias principais de trânsito de Bauru, tornou-se símbolo da crise. Suas galerias subdimensionadas e bueiros entupidos não suportam chuvas intensas, paralisando o trânsito e inundando comércios.

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Ainda no dia 15, a queda de uma torre de transmissão na Granja Santa Cecília deixou parte da cidade no escuro. Os efeitos sociais são igualmente graves: famílias da Vila Zillo perderam suas casas, e ações de combate à dengue foram canceladas devido às chuvas.

Estrutura urbana não comporta chuvas, diz estudo

Os registros e relatos mostram a recorrência de eventos climáticos extremos em Bauru. Estes são reforçados por estudos técnicos, que revelam um cenário ainda mais complexo. As chuvas que castigaram a cidade em 2025 não foram apenas eventos isolados, mas parte de um ciclo histórico de alagamentos agravado por falhas estruturais e ocupação desordenada.

Obras para canalização do córrego da Nações Unidas começaram no fim da década de 1950. (Foto: Museu Ferroviário de Bauru)

Entre 2005 e 2015, segundo estudo da Revista DAE (2022) com base no Banco de Dados de Desastres Naturais do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPmet/Unesp), Bauru registrou 191 desastres hidrológicos, concentrados em 71 dias diferentes, que inclui: inundações, enxurradas e alagamentos. O centro urbano, com áreas marcadas por alta densidade populacional e solo impermeabilizado, concentrou a maior parte dos eventos.

Confira aqui o estudo completo da Revista DAE

O episódio mais crítico do período estudado ocorreu em 15 de março de 2012, quando uma chuva com período de ocorrência de 101 anos trouxe granizo e danos graves, com veículos destruídos e pessoas arrastadas pela correnteza. Segundo notícia publicada no G1 no mesmo dia, a Defesa Civil fez sete resgates na enchente.

A informação mais alarmante, porém, é que 70% desses desastres foram desencadeados por chuvas consideradas moderadas, com período de retorno de menos de 2 anos. Isso envidencia que a infraestrutura da cidade colapsa mesmo sob pressão mínima.

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Dados Climáticos

Bauru, assim como grande parte do Brasil, possui duas estações de chuvas definidas: Janeiro, o mês mais chuvoso, que tem média de 208mm, enquanto Julho, o mais seco, com 28mm. Mas em 2025, até o mês de abril, o acumulado pluviométrico foi disperso.

Fevereiro, por exemplo, teve 70,1 mm de chuva, o que é 33% abaixo da média, segundo dados do IPMet. O mês teve picos intensos, como os 22,9 mm concentrados em 18 de fevereiro.

Apesar disso, a infraestrutura da cidade falha até em eventos moderados: 70% dos alagamentos são causados por chuvas com período de retorno de menos de 2 anos, segundo estudo da Revista DAE (2022).

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Projetos da prefeitura existem, mas têm execução lenta

Pérola Mota Zanotto, Secretária de Obras da cidade de Bauru, explica o que tem sido feito e planos futuros para conter os alagamentos. Em entrevista exclusiva, ela detalha projetos, limitações orçamentárias e a complexidade de resolver um problema de décadas em gestação.

A gestora afirma que pontos problemáticos da cidade, como o Córrego das Flores — que corre sob a Avenida Nações Unidas —, são um legado problemático. “Há 30 ou 40 anos, córregos como o Ribeirão Bauru e o Córrego da Grama foram canalizados, mas a impermeabilização do solo ao redor criou pontos críticos”, explica.

Como contrapartida, a prefeitura tem atuado em duas frentes: a limpeza de calhas no centro e a ampliação da rede de drenagem nas periferias.

Uma das obras citadas é a construção da barragem no Córrego do Sobrado, que é capaz de reter a água equivalente a 20 minutos de chuvas intensas. “Ela segura o volume calculado para tempestades curtas, evitando picos repentinos nos córregos”, diz Costa.

A obra, porém, é exceção: das seis barragens previstas no Plano Diretor, apenas uma foi finalizada. “Cada uma custa R$25 milhões, sem contar desapropriações. Estamos na caça de recursos”, admite.

Obras de construção da barragem do Córrego Água do Sobrado, que foi inaugurada em agosto de 2014 e custou R$3,7 milhões. Os recursos foram liberados pelo Governo Federal. (Foto: Ricardo Ursulino)

Planos Ambiciosos

O maior plano em discussão é o Sistema Integrado da Bacia do Córrego das Flores, orçado em R$500 milhões. A proposta inclui cinco piscinões, reconstrução da canalização do córrego e modernização da rede de drenagem. “É uma solução estrutural, mas depende de verbas federais e parcerias”, afirma a secretária.

Enquanto isso, obras menores avançam: no Jardim Imperial, um novo sistema permite que a água da chuva se infiltre no solo, que alivia a carga sobre os córregos.

Localização da bacia hidrográfica do Córrego das Flores. (Foto: Google Earth adaptado por Richard Takeo Takehara e Erich Kellner, 2019)

As propostas do Plano Diretor

Questionada sobre a implementação das outras oito obras de drenagem previstos no Plano Diretor, Costa é direta: “A maioria não saiu do papel por falta de recursos”. Para a secretária, o caminho é claro — porém lento.

A curto prazo, a secretaria recomenda apenas que a população evite as áreas “já sinalizadas” durante a chuva e espere que as equipes da prefeitura libere livre trânsito nas vias. 

A Defesa Civil

Enquanto a Secretaria de Obras busca soluções estruturais, Marcelo Ryal, coordenador da Defesa Civil de Bauru, revela como o poder municipal age nos momentos críticos. Em entrevista, ele detalha operações de resgate, sistemas de alerta e os desafios de proteger vidas sob chuva forte.

(Foto: Agência Trilhos)

Ryal explica que o protocolo varia conforme o aviso. Quando as nuvens se formam localmente, porém, a resposta é emergencial. “Em menos de 5 minutos eles estão na área, o que é o tempo habitual para fazer um desvio. Muitas vezes o trânsito está num horário complicado, muito carregado e ocorrem alguns acidentes, já que as pessoas ultrapassam as balizas que são colocadas”, relata.

O risco é alto, e o profissional aponta que é necessário que haja bom senso dos cidadãos para que não tentem atravessar as enxurradas, principalmente quando as águas atingem níveis mais altos. “As pessoas são surpreendidas e arrastadas para aquela região. Não é uma coisa comum, mas acontece de 2 a 3 vezes por ano um evento desse tipo, de ter que fazer um resgate”, comenta.

Apoio à população

Hoje, a Defesa Civil usa múltiplos canais para avisar a população: panfletos, redes sociais, SMS e parcerias com veículos da imprensa local. Ainda assim, há risco de moradores não serem informados.

O coordenador explica que, para isso, existem tecnologias em teste, como alertas por geolocalização que disparam mensagens automáticas, sem necessidade de cadastro prévio, nos smartphones da população.

Além dos resgates, a Defesa Civil monitora danos tardios. “Recebemos chamados de casas trincadas semanas após as tempestades. Avaliamos se é risco iminente ou um problema antigo”, diz Ryal.

Famílias em vulnerabilidade financeira são encaminhadas ao aluguel social — um auxílio de 90 a 180 dias, pago pela prefeitura, para apoio no processo de recuperação dos danos.

Se interessou pelo assunto? Confira a entrevista completa no canal da Agência Trilhos

Conscientização e Planejamento são parte da solução

São anos lidando com a falta de estrutura e planejamento em uma cidade construída sob um rio, e a sensação é de que os problemas se acumulam junto à água.

Em estudo desenvolvido pela arquiteta Fernanda Moço Foloni, é possível entender os meios técnicos que levaram a esta situação e as estratégias que podem ser tomadas para melhorá-la a longo prazo, trazendo qualidade de vida ao bauruense e não soluções temporárias que necessitam ser refeitas em pouco tempo.

Em “Rios sobre o asfalto: conhecendo a paisagem para entender as enchentes”, a arquiteta apresenta pontos como a precária quantidade de áreas verdes dentro da malha urbana de uma cidade que é impermeabilizada pela pavimentação.

A princípio, uma “cidade verde” pode parecer impossível ou até mesmo utópica, mas, segundo Fernanda, um dos pontos mais importantes para alcançar uma paisagem mais sustentável além dos projetos de orçamento público é a participação ativa da população

É necessário inserir projetos de preservação e reflorestamento no cotidiano dos moradores, ações efetivas dentro da comunidade que mostram a importância da revitalização do Córrego das Flores e de medidas ambientais gerais.

Projeto Viva Batalha planta mudas em áreas desmatadas no curso do Rio Batalha, em Bauru (Foto: 96FM)

O conflito entre rio e cidade relaciona-se com a história, a construção social e o modo de perceber em que Bauru cresceu, e o primeiro passo para transformar essa relação é tornar a natureza parte da vida de seu povo, novamente.  

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