Segundo a pesquisa PWC, o país lidera a indústria latinoamericana de games com 47,4% da receita total

| João Pedro Ferreira

“O Brasil é um dos maiores mercados emergentes de jogos do mundo e um território vital para qualquer um que queira ter sucesso na América Latina.”

James Batchelor

“O Brasil é um país conhecido pelo futebol, cultura, arte, música e belas paisagens. Mas, além de tudo isso, é também um país apaixonado por videogames (…)”


Eduardo Ariedo

Os comentários de jornalistas e especialistas da área dos games revelam o crescimento e o destaque que o Brasil vem atingindo no mercado emergente dos jogos eletrônicos.

Não é novidade que a indústria dos videogames domina cada vez mais o mercado do entretenimento. Segundo o relatório “State of Gaming”, lançado em 2024 pela empresa Dentsu, o valor do setor dos games é maior do que o da música e do cinema juntos – os jogos têm um valor de mercado de US$ 184 bilhões, enquanto a bilheteria global e a indústria da música valem US$ 33,9 bilhões e US$ 28,6 bilhões, respectivamente.

E não é apenas mundo afora que os games representam um fenômeno global de massas. De acordo com uma pesquisa realizada pela Pesquisa Game Brasil (PGB) 2025, 82,8% dos brasileiros afirmam consumir jogos digitais, sendo o maior número registrado na pesquisa até hoje, com 8,9 pontos acima do valor registrado no ano passado. Além disso, a pesquisa afirma que 88,8% dos entrevistados consideram os jogos digitais uma de suas principais formas de entretenimento, sendo que 80,1% consideram os games a principal maneira de se divertirem.

Conheça mais sobre as preferências do gamer brasileiro

Além disso, os games também se consolidam como importante expoente da economia criativa. Segundo o Governo Federal, as atividades de economia criativa são:

“Dinâmicas culturais, sociais e econômicas construídas a partir do ciclo de criação, produção, distribuição/circulação/difusão e consumo/fruição de bens e serviços oriundos dos setores criativos são aqueles cujas atividades produtivas têm como processo principal um ato criativo gerador de um produto, bem ou serviço, cuja dimensão simbólica é determinante do seu valor, resultando em produção de riqueza cultural, econômica e social.”

Inseridos no campo do audiovisual e mídias interativas, os jogos eletrônicos configuram-se como um dos principais representantes desse setor. De acordo com dados da Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Jogos Digitais (Abragames), em dez anos, a indústria de jogos ficou sete vezes maior no Brasil. Em 2014, existiam 150 estúdios desenvolvedores de games no país, já no ano de 2024 chegou-se a 1.042 estúdios, uma elevação de 695%. 

Qual o Perfil do Mercado Brasileiro de Games?

Quando se analisa o mercado nacional de games, observa-se diversas características singulares acerca do desenvolvimento nesse mercado. Segundo João Custódio, especialista em Marketing com foco na indústria de games e esportes eletrônicos, o mercado nacional de videogames é protagonizado pelo crescimento dos jogos independentes, comumente apelidos de jogos indie. 

Os jogos “indies” são aqueles desenvolvidos por estúdios independentes, compostos por uma equipe reduzida ou até mesmo por um único desenvolvedor. Uma das principais características desses jogos é a liberdade criativa e inovadora na abordagem da narrativa, em que os desenvolvedores se permitem testar e explorar novas ideias. 

Segundo o especialista, o movimento “indie” é responsável por impulsionar uma parcela significativa do crescimento do cenário brasileiro, tanto em termos de audiência global quanto em investimentos de grandes empresas.

“Eu estou muito em contato realmente com o cenário indie daqui. E eu vejo como hoje, se a gente pega alguns jogos, até como o Arida: Backland’s Awakenin” e o “Mullet Madjack”, vemos que eles não têm nada de problemático quando a gente faz comparação com jogos indies de fora. Se a gente pega o cenário de fora, não há nada que faça a gente sentir inveja ou sentir que o Brasil é inferior. Acompanhando esse cenário brasileiro, eu vejo que o mercado indie está crescendo bastante, está crescendo de uma forma super saudável e natural, conseguindo apoio e mais recursos.”

Mullet MadJack é um jogo indie FPS (tiro em primeira pessoa) criado pelo estúdio Hammer95, composto por três desenvolvedores brasileiros. O jogo, lançado em maio de 2024, é um dos games brasileiros mais prestigiados na Steam, plataforma popular de jogos online.

Custódio ainda afirma que o “sucesso” dos jogos indie brasileiros está associado principalmente a dois fatores: a diversidade cultural e a criatividade. Estúdios independentes são conhecidos por inovarem e reformularem estilos de games já consolidados no mercado, aprimorando aspectos como narrativa, ambientação e cenários, gêneros de produção, formato de animação, etc. Além disso, diversos estúdios se preocupam em abordar, em suas produções, a diversidade regional e cultural como pautas centrais.

A gente tem uma diversidade cultural muito expressiva e eu vejo que os desenvolvedores têm interesse em falar sobre essa diversidade nos jogos daqui. Isso serve para fomentar essa cultura de diversidade dentro dos jogos. A gente vê jogos muito legais que estão crescendo e implementando também a questão de diversidade regional. Você só vê isso no Brasil, não tem outro país no mundo inteiro que tenha essa diversidade como o nosso país. É um negócio que realmente vale ouro.

Política e Iniciativas Públicas

Quando perguntado sobre as iniciativas públicas realizadas no setor nacional dos jogos eletrônicos, João Custódio revela que o cenário ainda não é totalmente positivo. 

“Acho que a uns 7, 8 anos atrás eu sentia muita falta de iniciativas públicas relacionadas a jogos, particularmente eu ainda sinto. Eu sinto falta de estar assistindo a uma propaganda eleitoral e ver aquele político que quer fazer iniciativas para desenvolvimento de jogo e que quer fomentar a cultura de jogos dentro da sociedade ou do seu estado. Eu sinto falta disso. A política, como um todo, carece de representatividade no que diz respeito às pessoas que defendem isso.”

Apesar disso, o especialista afirma existirem políticas que estão gradativamente potencializando o mercado. Uma das principais medidas públicas acerca dos jogos eletrônicos é o Marco Legal dos Jogos eletrônicos (Lei 14.852), sancionado no dia 3 de maio de 2024 pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. 

A lei, que teve origem no PL 2.796/2021, do deputado federal Kim Kataguiri (União-SP), “libera a fabricação, a importação, a comercialização, o desenvolvimento e o uso comercial de jogos eletrônicos em todo o país, observados a soberania nacional e a ordem econômica e financeira previstas na Constituição e outras leis”. Em resumo, a lei procura estimular o ambiente de negócios e aumentar a oferta de capital para investimentos no setor criativo dos jogos eletrônicos.

Principais medidas e objetivos do Marco Legal dos Jogos Eletrônicos

Reconhecimento do empreendedorismo inovador em jogos eletrônicos como vetor de desenvolvimento econômico, social, ambiental e cultural;
Fomento ao empreendedorismo inovador como meio de promoção da produtividade e da competitividade da economia brasileira e de geração de postos de trabalho qualificados;
Promoção da diversidade cultural e das fontes de informação, produção e programação;
Respeito aos direitos fundamentais e aos valores democráticos;
Defesa do consumidor e educação e informação de fornecedores e consumidores quanto aos seus direitos e deveres;

Proteção integral da criança e do adolescente, ou seja, garantia de que nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão;
Preservação da privacidade, proteção de dados pessoais e autodeterminação informativa, nos termos da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei 13.709, de 2018).
Informações retiradas da Agência Senado

Vale destacar que, segundo o Senado Federal:

“A lei não abrange e não poderá ser usada para beneficiar máquinas caça-níqueis, jogos de azar, promoções comerciais, modalidad es lotéricas, ou qualquer tipo de jogo que ofereça algum tipo de aposta, com prêmios em ativos reais ou virtuais, ou que envolva resultado aleatório ou de prognóstico.”

Além do Marco Legal, outras medidas e investimentos são realizados no setor público. Destaca-se, por exemplo, a criação da Coordenação de Games e e-Sports na Prefeitura do Rio de Janeiro em 2022. O órgão é a primeira unidade administrativa dedicada ao setor dos jogos eletrônicos no país.

Segundo o jornalista Gabriel Melo, a coordenadoria do Rio de Janeiro afirma que o principal objetivo do projeto é desenvolver e executar políticas públicas envolvendo todo o cenário de games, desde projetos sociais, eventos, palestras, competições, com foco também na inclusão de pessoas com deficiências para dentro deste universo”.

Percebe-se, com esses exemplos, uma mudança significativa na percepção pública nacional com relação ao setor criativo dos games. Custódio conclui que:

“Hoje a gente vê que as lideranças entendem a importância que o setor de jogos e de esportes eletrônicos têm na formação, até mesmo de crianças e adolescentes. A percepção pública está muito melhor, mas a gente precisa de mais iniciativas, principalmente do governo. Eu gostaria muito de ver aqui no Brasil fundos de investimentos voltados para jogos. Há muitas coisas que dá para a gente fazer, mas estamos engatinhando já para uma vida melhor nesse meio.”

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