De acordo com o IBGE, Brasil tem mais de 2 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA
Julia Ferreira
Criada em 2005 pela organização ‘Aspies For Freedom’, nos EUA, a data busca reforçar a luta pela conscientização e pelos direitos humanos de pessoas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA), sendo marcada pela celebração da neurodiversidade. O dia foi escolhido pelo interesse das pessoas autistas de protagonizar o movimento inclusivo, o que não acontecia no mês da conscientização sobre o autismo, em abril.
No âmbito nacional, o Movimento Orgulho Autista Brasil – entidade sem fins lucrativos – foi responsável pela elaboração da lei federal 12.764/12 (Lei Berenice Piana), que busca a criação e a execução de políticas públicas para essa comunidade. Em 2015 também foi instituída a lei 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência), que garante inclusão plena e aprendizado ao longo de toda a vida.
De acordo com o Censo Demográfico oficial do IBGE sobre o autismo, divulgado em maio de 2025, o Brasil registra hoje mais de 2 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA, o equivalente a 1,2% da população e, apenas em São Paulo, 548 mil pessoas são autistas.
O Censo TEA do IBGE também mostra que o maior grupo de diagnosticados é composto por crianças nos primeiros anos de vida até os 9 anos de idade. E, de acordo com o Censo Escolar 2024, divulgado em abril, 884.403 estudantes possuíam diagnóstico de autismo em 2023, um aumento de mais de 1000% quando comparado ao número de matrículas em 2015, que somavam pouco mais de 40 mil. O dado evidencia uma evolução no acesso à informação na última década.
Paloma Carvalho é professora e mãe de Murilo, de 8 anos, que está no espectro autista, e compartilha que o diagnóstico foi essencial para compreender os comportamentos do filho: “Muitas vezes achávamos que ele estava apenas fazendo birra ou que era uma criança “malcriada”, mas não era isso — era o autismo se manifestando. Hoje lidamos com muito mais tranquilidade e compreensão. Mas, naquela época, por não conhecermos bem o transtorno, foi bastante desafiador”.
Para mães atípicas, a chegada de um filho autista é um momento sensível e delicado. Por exigirem mais cuidados, as mães passam por adaptações que, muitas vezes, alteram todas as vivências no dia a dia, desde a rotina em casa até o emprego. Paloma conta que encarou diversas mudanças desde o diagnóstico do filho:
“Sempre fui uma pessoa de rotina, mas precisei torná-la ainda mais rígida. Aprendi que, para o Murilo, era essencial ter horários bem definidos — para brincar, para comer, para dormir. E precisei ensiná-lo, com calma e repetição, que cada coisa tem seu momento. Crianças autistas, assim como todas as crianças, aprendem pela repetição — mas, no caso delas, isso se intensifica. Muitas vezes é cansativo, porque é preciso repetir inúmeras vezes, explicar de novo e de novo, e nem sempre a compreensão vem de imediato. Foi — e ainda é — um processo difícil.”
A professora conta que precisou abrir mão de oportunidades de trabalho para priorizar a saúde e bem estar de Murilo, que também nasceu prematuro.
Ela compartilha os questionamentos que teve, não somente sobre a condição do filho, mas também de si mesma como mãe: “Eu me frustrava por ele não responder quando alguém falava com ele, por não querer abraçar, por limpar o rosto quando recebia um beijo. Eu achava que ele era malcriado, que estava fazendo birra. A família também tinha essa impressão, e isso me fez sentir muito julgada. Por um tempo, acreditei que eu não era uma boa mãe, que falhei na educação dele.”
Os estigmas enfrentados por pessoas autistas
“É algo muito difícil de explicar. Muitas vezes, quando vamos a algum lugar, ouvimos comentários como: “Nossa, ele não parece ser autista.” Mas o autismo não tem rosto, não tem uma aparência específica. Cada pessoa autista é única, com características próprias. E acho que esse é um dos maiores desafios: a invisibilidade.”
Apesar do aumento nos diagnósticos precoces e conscientização, o Brasil enfrenta também uma onda de desinformação constante acerca do transtorno. De acordo com estudo realizado em maio deste ano pelo Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV), em conjunto com a Associação Autistas Brasil, o país teve um aumento de 15.000% na taxa de desinformação num período de 5 anos (2019-2024). A pesquisa analisou mais de 60 milhões de mensagens em 19 países em grupos abertos do Telegram, e identificou 300 falsas causas e falsas curas para o autismo, desde salgadinhos industrializados até dióxido de cloro e terapias degradantes, além de teorias conspiratórias.
“Hoje em dia, o autismo é mais falado e visível. Em muitos lugares já vemos placas informativas, filas preferenciais e o símbolo do quebra-cabeça colorido, que representa o autismo. Mesmo assim, percebo que ainda há muita dificuldade por parte das pessoas em compreender o que isso realmente significa”, diz Paloma.
A diversidade do TEA
O autismo é, hoje, reconhecido como uma deficiência, mas ainda é alvo de julgamentos e questionamentos. De acordo com o Autismo e Realidade, do Instituto PENSI, o Transtorno do Espectro Autista é classificado em 3 níveis de suporte, que variam de acordo com a possibilidade de autonomia.
Nível 1 de suporte: pessoas com dificuldade para se comunicar desde a infância, comportamentos inflexíveis e complicações para seguir normas sociais. Pode ser mais difícil de diagnosticar devido ao “masking”, uma estratégia adotada para evitar bullying, sofrimento psicológico e estresse.
Nível 2 de suporte: pessoas nesse nível de suporte apresentam comportamento social atípico, rigidez cognitiva, dificuldades de lidar com mudanças e hiperfoco (interesse intenso por determinados objetos, pessoas ou temas),
Nível 3 de suporte: nestes casos, os indivíduos têm dificuldades graves no seu cotidiano e déficit severo de comunicação, com uma resposta mínima a interações com outras pessoas e a iniciativa própria de conversar muito limitada. Também podem adotar comportamentos repetitivos, como bater o corpo contra uma superfície ou girar, e apresentarem grande estresse ao serem solicitados a mudarem de tarefa.
Apesar da divisão, cada pessoa com TEA se manifesta de forma múltipla e individual, o que é ignorado pelos estereótipos enfrentados no dia a dia. A professora conta que já precisou lidar com questionamentos acerca do autismo de Murilo:
“Recentemente, passamos por uma situação em uma loja. Estávamos na fila preferencial quando uma funcionária nos chamou para sermos atendidos. Uma mulher que estava na fila comum foi chamada em outro caixa e, ao perceber nossa presença na fila preferencial, comentou com a atendente: “Criança grande também tem direito à fila preferencial?” Aquilo me machucou muito. Não consegui ficar em silêncio. Como nem sempre usamos o cordão — às vezes porque o Murilo se sente desconfortável com ele —, mostrei a carteirinha de autismo dele para a atendente e expliquei: “Estamos na fila preferencial porque meu filho é autista.” A mulher ouviu, ficou visivelmente incomodada, mas percebeu que ela havia julgado sem saber.”
Ela comenta ainda sobre a necessidade do uso do cordão ou carteirinha para que o filho seja respeitado, denunciando a exposição que podem sofrer pela desinformação propagada por outras pessoas. “O autismo, sendo uma deficiência invisível, faz com que a gente seja frequentemente alvo de olhares julgadores”, diz Paloma.
Apesar das complicações, mães atípicas se movimentam e criam seus próprios espaços de apoio e acolhimento entre si. Paloma aproveita o conhecimento que adquiriu – e segue adquirindo – na jornada com Murilo e compartilha com outras mães quando tem oportunidade. Ela conta que tenta se colocar no lugar do outro por entender as dificuldades enfrentadas por essas família, e que hoje, entende e lida melhor com o assunto: “o diagnóstico trouxe clareza. Percebi que sim, sou uma boa mãe. Hoje, minha família compreende muito melhor. Eles sabem que ele tem o jeitinho dele, e passaram a respeitar isso. Ainda enfrentamos desafios, mas com mais compreensão, tudo fica um pouco menos pesado.”





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