A realização de dois eventos culturais abertos ao público no mês de junho chama a atenção para o relacionamento da população com a arte e a literatura

| Pedro Henrique Vogt

Sala de exposições na Feira do Livro de Bauru (Divulgação: Thayna Polin/Prefeitura de Bauru)

No último mês de Junho, a prefeitura de Bauru promoveu dois eventos culturais gratuitos e abertos para o público. O primeiro deles foi a 22ª Feira do Livro de Bauru, que ocorreu entre os dias 2 e 7, e contou com uma programação de peças de teatro, apresentações musicais, e diálogos com autores. O evento, já tradicional da cidade, ocorreu no Centro Cultural “Carlos Fernandes de Paiva”, e teve como enfoque o incentivo à leitura

Uma semana depois, outro evento aconteceu no mesmo local, nos dias 14 e 15 de junho, a 9ª edição do Comic Fan Fest, que se diferencia por ter como seu foco principal na chamada “cultura nerd”. E englobou todo o universo dos quadrinhos, games, jogos de tabuleiro, animes, cosplay e kpop. Apesar de ter um caráter mais descontraído e voltado para o entretenimento, o evento também teve seus momentos de aprendizado, por meio de Palestras e Oficinas com autores do meio e a presença de coletivos voltados à democratização da cultura pop.

O fato de ambas as feiras terem propósito de popularizar a literatura, levanta o debate sobre como esses eventos podem impactar a população e ampliar o número de leitores. Para o escritor Felipe Castilho, palestrante da Comic Fan Fest, eventos com entrada gratuita contribuem para a diversificação do público: 

 “Assim você sempre tem o curioso, a criança que simplesmente vê a capa do seu livro ali na mesa, entra na palestra e vem conversar contigo, e isso não tem preço. É a mesma coisa quando a gente leva palestras e oficinas para escolas, ensino público, institutos técnicos federais. A gente desperta  a fagulha do interesse de muita gente de um jeito que os eventos pagos não vão fazer, simplesmente pela natureza deles ,mas a gente tem que ir mais além e democratizar a informação.”

Além disso, Felipe também comentou sobre a importância da literatura para ajudar a compreender diferentes realidades: 

A literatura nos ensina a ter discernimento. A não cair no papo de qualquer um. E a entender melhor o nosso mundo também. A literatura é feita por pessoas como nós, os quadrinhos, a arte, a música. São outras realidades, outras pessoas contando a versão delas do que é o mundo. Só assim para a gente funcionar como sociedade, sabendo a realidade do outro. Cada um tem que buscar outras partes do mundo, outras narrativas e vivências para não cair em papo, saber respeitar o próximo, sentir a dor do outro, ter empatia. A sociedade não é cada um no seu canto com máximas e regras fechadas. A gente tá aqui para entender o próximo. E a literatura ajuda a gente a se conectar.”

Os incentivos à literatura são essenciais em um país como o Brasil, onde os dados em relação à leitura mostram um cenário preocupante. De acordo com a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada em 2024, 53% dos entrevistados não haviam lido nem parte de uma obra nos três meses que antecederam o levantamento. 

Além disso, a mesma pesquisa revelou uma desigualdade no público leitor ao colocar fatores sociais e econômicos em consideração. Enquanto 60% dos entrevistados pertencentes à classe B são leitores, nas classes D e E, essa porcentagem é de apenas 35%. Isso demonstra como o universo da literatura no Brasil ainda não é totalmente acessível, e também legitima a necessidade de uma maior valorização dos produtos culturais produzidos pela população periférica. 

Nesse contexto, eventos e organizações que se utilizam da cultura para promover uma transformação social se fazem presentes. Um exemplo disso é a Gibiteca Balão, coletivo da zona leste de São Paulo, que esteve presente na Comic Fan Fest, e tem como objetivo trabalhar a cultura nerd com a periferia de uma forma acessível. Juliana Ferreira, colaboradora da Gibiteca Balão, explica como a divulgação e consumo de obras produzidas por pessoas dessas comunidades impactam a população na prática:

“Traz uma outra visão. Acho que mostrando isso já inspira outros periféricos, sabe? Então se ele vê que existe uma produção local ali, ele pode se inspirar. É o que a gente pretende fazer quando a gente leva artistas para nossa biblioteca, ter esse espelhamento, sabe? Essa inspiração… Uma criança tá ali vendo que que tem uma artista no local, vinda da periferia,  ela tem uma uma produção artística, e consegue viver disso. Isso já causa uma uma transformação ali.

Taiguara, que também é membro do coletivo, complementou a fala da colega: 

“Isso transforma tanto na parte de formação de público, que vai ter mais gente interessada em consumir esses produtos por serem periféricos, quanto na formação e  criação de produtores, quem vai desenhar ou escrever as próximas obras. E aí a é esses quadrinhos dessas produções vão atuar para que mais artistas apareçam. Enfim, a ideia da arte é transformar, não tem como falar como ela faz isso, porque é impossível falar como a arte não transformaria.”


Se quiser saber mais sobre como foi  a 9ª edição da Comic Fan Fest confira a cobertura da Agência Trilhos, disponível nos destaques do nosso perfil no Instagram!

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