A cidade registrou salto de 8 para 14 mortes decorrentes de intervenção policial; jovens negros são as principais vítimas

Ilustração por Pedro Freire

Pedro Freire

Bauru registrou um aumento de 75% nas mortes decorrentes de intervenção policial em 2024, saltando de 8 para 14 casos em comparação com 2023. O perfil mais comum das vítimas permanece sendo jovens negros de 18 anos. Já a idade média das vítimas é de 25 anos. Do total de mortos, 64% eram negros e 36% brancos, proporção que espelha a média estadual, mas expõe grave perfilação racial considerando que a população negra bauruense representa apenas 34,5% dos habitantes.

Alinhamento com Políticas Estaduais

O crescimento da letalidade policial coincide com a implementação das políticas de segurança da gestão Tarcísio de Freitas, caracterizadas pelo endurecimento das ações policiais. A administração municipal, alinhada ao espectro conservador e próxima às diretrizes do governador, tem adotado discursos favoráveis ao “policiamento ostensivo” e à tolerância zero com a criminalidade, o que corrobora o armamento da Guarda Civil Metropolitana da cidade.

Violência Sem Justificativa Criminal

Dados da Secretaria de Segurança Pública mostram que os índices de criminalidade em Bauru permaneceram estáveis entre 2023 e 2024. Não houve aumento significativo em roubos, furtos ou homicídios que justifique a intensificação das ações policiais letais.

Seletividade Racial Acentuada

Os números bauruenses também expõem uma face da violência policial: sua seletividade racial. Com 64% das vítimas sendo negras, os dados locais reproduzem o padrão nacional de genocídio da juventude negra, fenômeno que tem na ação policial um de seus principais vetores e que encontra respaldo nos dados do Atlas da Violência de 2025, que aponta que a população negra ainda é a maior vítima de crimes violentos no Brasil.

Esta proporção ganha contornos ainda mais dramáticos quando confrontada com a composição demográfica de Bauru. Segundo dados do IBGE, a população negra representa aproximadamente 34,5% do total de habitantes do município, o que torna a sobrerrepresentação de jovens negros entre as vítimas de violência policial estatisticamente ainda mais significativa. Essa disparidade é particularmente alarmante quando comparada com a capital paulista: enquanto São Paulo possui uma população com maior proporção de negros, Bauru – com menor percentual de população negra – apresenta uma seletividade racial ainda mais acentuada na violência policial, evidenciando um padrão de discriminação que supera até mesmo os índices metropolitanos.

A proporção de jovens negros mortos pela polícia em Bauru reflete não apenas um problema local, mas uma política de Estado que tem na população negra seu alvo preferencial. Esse recorte racial da violência policial não pode ser compreendido como mera coincidência estatística, mas como resultado de práticas institucionais que reproduzem e amplificam o racismo estrutural da sociedade brasileira.

Pesquisas realizadas pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública demonstram que negros tem quase quatro vezes mais chances de serem mortos pela policia do que brancos no Brasil. Em Bauru, essa disparidade se manifesta de forma ainda mais acentuada, com a polícia local apresentando um padrão de seletividade racial que supera até mesmo a média nacional e revela uma situação paradoxal: um município com menor proporção de população negra em relação à capital, mas com maior perfilação racial na violência policial.

Esse dado expõe uma realidade perversa da discriminação racial no interior paulista, onde a menor presença proporcional de negros na população não se traduz em menor vitimização, mas sim em uma concentração ainda maior da violência estatal sobre esse grupo. O fenômeno sugere que, em contextos onde a população negra é minoritária, os mecanismos de estigmatização e criminalização se intensificam, tornando cada jovem negro um alvo ainda mais provável da violência policial.

A análise dos locais onde ocorreram as mortes por intervenção policial em Bauru revela outro padrão preocupante: a concentração desses eventos em bairros periféricos com maior população negra. Essa distribuição geográfica da violência policial expõe como as desigualdades urbanas se entrelaçam com a questão racial, criando territórios onde a vida de jovens negros é sistematicamente desvalorizada.

Perspectivas

O cenário demanda revisão urgente dos protocolos policiais e implementação de mecanismos de controle e responsabilização. A continuidade dessa trajetória compromete não apenas a segurança pública genuína, mas aprofunda dinâmicas sociais que alimentam a violência sistêmica contra a periferia e a população negra.

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