Sistema que exige identificação prévia para retirada de opção vegetariana gera discussões sobre insegurança alimentar no campus

Eshiley Lislaine Sousa

O Restaurante Universitário (RU) do campus de Bauru serve, atualmente, cerca de 1.500 refeições por dia — sendo 800 no almoço e 700 no jantar. Esse número é insuficiente para atender à demanda da universidade, que conta com mais de 6.000 estudantes matriculados. Menos de 25% da comunidade estudantil tem acesso diário às refeições oferecidas pelo RU. Apesar do custo da refeição ser de apenas R$ 2,50, seu acesso acaba sendo restrito devido ao sistema de distribuição adotado.

Desde o dia nove de junho, o novo sistema determina que apenas estudantes previamente identificados como vegetarianos ou veganos — e cujos nomes estejam em uma lista — podem retirar a refeição vegetariana. Para isso, é necessário pegar um papel específico em uma fila separada, antes de entrar na fila principal do bandejão. Caso o estudante não tenha esse papel em mãos, mesmo tendo adquirido a refeição via transferência ou agendamento, pode ser impedido de se alimentar.

De acordo com a nutricionista Gabriela, houve comunicação: “Até ontem, havia um papel ali – no mural externo do restaurante – informando que vegetarianos deveriam passar no caixa para poder pegar a fichinha.” No entanto, foi realizada uma averiguação e, até o momento da apuração da matéria, o comunicado não estava mais fixado.

O questionário Fala, Povo, divulgado à comunidade universitária, obteve 31 respostas. Dentre elas, 77,4% afirmaram que faltou comunicação; 32,3% disseram ter ficado sabendo por terceiros; e 3,2% descobriram a mudança por meio do formulário.

A medida teria sido adotada após reclamações registradas nas fichas de feedback disponibilizadas no local, nas quais estudantes relataram ter ficado sem a refeição vegetariana, mesmo tendo feito a reserva corretamente.

Ainda de acordo com a funcionária: “Ninguém foi barrado de pegar a refeição, todo mundo foi liberado. No entanto, alertamos que é necessário que a pessoa compre ou transfira de outra pessoa vegetariana.”

O formulário divulgado nos grupos do restaurante aponta que:

Gráfico de respostas do Formulários Google. Título da pergunta: Você já foi impedido(a) de receber uma refeição vegetariana por não estar na lista ou por não ter o papel?  . Número de respostas: 31 respostas.

Créditos: Eshiley Lislaine

A mudança tem sido discutida por estudantes em grupos de WhatsApp destinados à troca de refeições e em espaços de debate do movimento estudantil. Muitos relatam constrangimento e receio de que o novo sistema agrave questões de insegurança alimentar.

No entanto, as funcionárias do restaurante afirmaram que não houve reclamações diretas a elas ou por meio da ficha de feedback. “É bem raro as pessoas reclamarem diretamente com a gente. Geralmente, vocês reclamam entre vocês, e a gente nem fica sabendo dos problemas”, acrescenta a nutricionista.

Anthony de Oliveira Corrêa, estudante de Arquitetura e Urbanismo, comenta: “Não sabia que precisava pegar a ficha antes de entrar na fila. Cheguei para pegar minha refeição e tive que deixar minha bandeja com comida e voltar lá no início para pegar a ficha e retornar.”

De acordo com o Fala,povo os estudantes compreendem a necessidade da ficha, mas afirmam que poderia ser melhor implementado

Gráfico de respostas do Formulários Google. Título da pergunta:   O que você acha da exigência do papel para acessar a fila vegetariana?  . Número de respostas: 31 respostas.

Créditos: Eshiley Lislaine

“O sistema poderia ser melhorado. Não é prático sair da fila para pegar o papel — e antes era um pouco anti-higiênico. Além disso, é injusto e acaba gerando o receio de não podermos consumir a opção vegetariana caso a refeição seja transferida”, comenta Monique Lorrana de Andrade, estudante de Engenharia Mecânica.

A nutricionista responsável pela dinâmica do novo sistema explica: “Não é algo novo; o modelo anterior já contava com a ficha. Ela é necessária porque as refeições vegetarianas são incertas, variam muito de um dia para o outro. Às vezes, a pessoa é onívora, mas prefere a opção vegetariana. E aí ela pegava o papel de vegetariano, ocupando o lugar de alguém que realmente segue essa dieta, e acabava a refeição.”

Protesto contra o sistema de refeições do Restaurante Universitário (Foto: Eshiley Lislaine Souza)

Para dar continuidade ao debate, o movimento estudantil decidiu incluir essa mudança como pauta da assembleia que ocorrerá no dia 24 (terça-feira), às 9h da manhã, em local ainda indefinido.

Os funcionários do restaurante afirmam: “A gente está sempre aberto a sugestões. Se vocês tiverem ideias de melhoria, o sistema pode ser modificado. Por ora, essa foi a solução encontrada.”

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