Enquanto o uso de aplicativos de namoro cai entre os jovens, projetos como o ‘Cartório do Amor’ mostram que o interesse por vínculos menos baseados na aparência está crescendo

Julia Moura

O aplicativo de relacionamentos online Tinder foi criado em 2012, e viveu seu auge na última década, ganhando destaque como a principal plataforma de encontros entre universitários. A Match Group, dona do app e similares, só em 2019, obteve uma receita de cerca de US$1,2 bilhão, segundo o relatório da empresa. 

Assim como o Facebook em 2004, o Tinder não foi o aplicativo pioneiro a juntar casais, mas foi o responsável por iniciar uma nova onda no meio: Hinge (2012), Bumble (2014) e Happn (2014), sucessores do app, passaram da noite para o dia a dominar as formas de encontrar um parceiro. Em uma pesquisa de 2017, realizada pelo sociólogo de Stanford Michael Rosenfeld, foi constatado que quase 40% dos casais heterossexuais norte-americanos conheceram seu parceiro online, em comparação com 22% em 2009.

Gráfico - Formas de Encontro entre Casais Heterossexuais (1940–2017)
Evolução das formas como casais heterossexuais nos Estados Unidos se conheceram, com base em dados de 2009 e 2017. Fonte: Revista PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences)

Em contrapartida, no dia 11 de junho, estudantes do quinto período de Rádio, Televisão e Internet, da Unesp de Bauru, lançaram o programa de TV ao vivo “Cartório do Amor”. Com duração de aproximadamente uma hora e meia, o projeto assume se aproximar de produções como Casamento às Cegas, em que os participantes vão em busca do seu par ideal sem conhecer a aparência dos pretendes. 

Com mais de 1.200 visualizações, a produção revela um questionamento já monitorado por pesquisadores: a forma como a Geração Z — ou seja, nascidos entre 1995 e 2009 — se relaciona é diferente da dos Millennials (de 1984 a 1995)?

De acordo com a própria Match Group, o número de assinantes do Tinder caiu 8% em 2023 — equivalente a pouco menos de 10 milhões — e o número de downloads diminuiu 16% em relação ao seu auge na pandemia. Já em outra pesquisa, realizada pelo DatingAdvice.com, foi constatado que 90,24% dos entrevistados da Geração Z, com idades entre 18 e 27 anos, preferem se encontrar pessoalmente para conhecer um potencial parceiro. Além disso, menos de 16% dos entrevistados ainda preferem aplicativos de namoro para marcar encontros.

Afinal, o que mudou?

Segundo Fernanda Costantino, doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Mídia e Cotidiano pela Universidade Federal Fluminense (UFF), que tem como objeto de estudo questões identitárias nos apps de relacionamento, para entender esse fenômeno, é preciso compreender o porquê do seu sucesso inicial.

A autora destaca que a proposta de buscar um parceiro em ambiente digital não é uma novidade. Quando comparado à década de 1990, outras interações online já apresentavam funcionalidades semelhantes às do Tinder: criação de perfil, lista de exigências que um parceiro precisa ter, troca de mensagens e troca de aceites. O seu diferencial, no entanto, pode estar na certeza de que os outros ali também estão na mesma busca e na facilidade de encontrá-los.

“Se todos estão no Tinder, se posso acessar o Tinder de qualquer lugar e se facilmente posso iniciar e quebrar laços, por que não aproveitar toda essa facilidade para o processo de conhecer novas pessoas?”.

Por outro lado, com o avanço da tecnologia e das redes sociais, o celular — e a frequência com que o utilizamos — reconfigurou o nosso cotidiano. A busca incessante pelo parceiro ideal, agora facilitada por esses apps, torna-se comum e exaustiva. O dating burnout, termo criado para descrever essa saturação, é um reflexo dos sentimentos de frustração, tristeza e ansiedade, causados por expectativas não atendidas, conversas rasas e conexões superficiais. Assim como questiona Fernanda, “em um mundo hipermidiatizado, onde podemos nos resguardar e vivenciar mais experiências offline?”.

Além desses fatores, a pesquisadora enfatiza que a disputa geracional entre aquilo que é próprio de cada geração não pode ser descartado da análise. Há um conflito entre os símbolos que marcam esses grupos, e a negação de um por outro também é uma forma de afirmação identitária

“É uma geração nova que já passa a questionar o uso nocivo de redes sociais por exemplo: o quanto apps como o Tinder, que trabalham constantemente a exibição de si e aprovação do outro, também influenciam na nossa ansiedade e podem fazer mal para nossa autoestima?”.

Esse cenário dialoga com iniciativas da própria Geração Z para encontrar novas formas de se relacionar. Segundo Bernardo Bravo, aluno da Unesp e um dos idealizadores do Cartório do Amor, a ideia principal do projeto, para além de juntar casais, seria mostrar diferentes tipos de relacionamentos na atualidade.

A dinâmica de ocultar a aparência dos pretendentes atua como um contraponto aos aplicativos de encontros, em que nenhuma informação prévia dos envolvidos é compartilhada com os envolvidos —  nem aparência física, nem personalidade. 

“A ideia da dinâmica às cegas é tentar trazer essa interação diferente. ‘Como eu puxo conversa com alguém que eu não consigo nem ver, literalmente?’. É uma coisa meio sem julgamento. Eu só estou conversando com alguém. Eu não sei se essa pessoa é gorda, se ela é magra, se ela é alta, se ela é baixa… Eu não sei nada. Só sei que colocaram ela aqui e eu tenho que conversar com ela”

Confira a gravação do programa:

Alinhado com a premissa do projeto, um estudo do próprio Tinder, intitulado Future of Dating 2023, revela que uma das novas tendências de relacionamento entre os jovens é a autenticidade. Os valores priorizados entre os entrevistados em um relacionamento são lealdade (79%), respeito (78%) e mentalidade aberta (61%), ao invés de aparência (56%)

Seria esse o fim da era dos aplicativos de relacionamento?

Apesar do cenário descrito, ainda não se pode decretar o fim dos aplicativos de namoro. Tinder e outros apps têm estabelecido estratégias para driblar a queda no número de assinantes. Dentre as mudanças, a mais recente possibilita marcar encontros duplos com amigos e pares que conheceram online. De acordo com a empresa, 90% das pessoas que utilizam a nova função têm menos de 29 anos.

Além disso, outras iniciativas voltadas para a segurança do usuário estão sendo implementadas. Em maio deste ano, o Tinder firmou uma parceria com a Organização Não Governamental (ONG) Justiceiras, lançando o Guia de Segurança em Dates — com orientações sobre recursos já disponíveis dentro do app — e uma linha direta de ajuda. 

Para Fernanda Constantino, não é possível determinar tal contexto como o fim desses apps, mas sim como o início de uma nova fase:

Eu não acho que é uma forma de se relacionar que vá sumir ou se perder por completo, mas talvez a dinâmica de ‘arraste para o lado’ ou dos matchs pode sim saturar e daí surgir outra forma de mediação de encontros amorosos”.

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