O mês do orgulho reacende o debate sobre inclusão e diversidade no ensino público e escancara as dificuldades enfrentadas pela comunidade no Brasil
Léa Secchi
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O mês de junho, conhecido por danças de quadrilha, comidas típicas, fogueiras e bandeirinhas coloridas – celebrações tradicionais juninas – não é só época de Arraiá ou São João, mas também de manifestações LGBTQIA+ com uma bandeira diferente: a do arco-íris. O símbolo da comunidade representa a diversidade e a luta por direitos civis igualitários.
Parada LGBTQIA+ em Nova York com as bandeiras da comunidade | Foto: LazarCatt
O Mês Internacional do Orgulho é dedicado a combater o preconceito sofrido por pessoas gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, queers, intersexuais, assexuais, pansexuais, não-binárias, entre outras identidades.
Significado da sigla LGBTQIAP+ | Foto: Jornal da USP
O marco existente há décadas teve origem no dia 28 de junho de 1969, nos Estados Unidos, com um incidente no bar Stonewall Inn, localizado em Nova York. A Rebelião de Stonewall, como ficou conhecida, seria então a revolta que mudaria o curso da busca por direitos da comunidade e marcaria esse dia como uma data comemorativa mundialmente. Assim, desde o ano seguinte, com a Primeira Parada Gay, todas as edições do evento ocorrem no mesmo mês ao redor do mundo.
Acesse a reportagem completa sobre a história do mês do orgulho aqui!
LGBTfobia no Brasil
Mais do que as celebrações de orgulho, ganham destaque também manifestações e debates acerca da luta diária contra a violência, preconceito e as desigualdades enfrentadas por esta população. A LGBTfobia, ou homofobia como é também conhecida, é o termo referente ao ódio ou opressão à população LGBTQIA+.
Desde 2019, os ataques homofóbicos são criminalizados no Brasil. A determinação está atrelada à Lei de Racismo nº 7.716/89, que prevê crimes de discriminação ou preconceito por “raça, cor, etnia, religião e procedência nacional” e contempla atos de “discriminação por orientação sexual e identidade de gênero”.
Manifestação LGBTQIA+ mostrando a frase “Pela criminalização da LGBTFobia!” | Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas
De acordo com a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) e o estudo realizado por pesquisadores da Unesp e da USP, publicado em 2022 na revista científica Nature Scientific Reports, o percentual de brasileiros adultos que se declaram parte da comunidade LGBTQIA+ é de 10% a 12% da população, ou seja, cerca de 20 milhões de pessoas, levando em conta os dados populacionais do IBGE.
A pesquisa “Violência contra LGBT+ no contexto eleitoral e pós-eleitoral”, produzida pela Gênero e Número, demonstra como os ataques à população muitas vezes decorrem de um contexto político cercado pela intolerância. Dentre os entrevistados, 51% relataram sofrer pelo menos uma agressão durante o segundo semestre de 2018 e 87% relatam terem tomado conhecimento de violências cometidas contra outros membros da comunidade no mesmo período.
Diante disso, o levantamento de informações sobre a realidade da população ajuda não só a promover visibilidade à causa e a entender o contexto de pessoas LGBTQIA+ no Brasil, mas também na apuração de números precisos sobre casos de violência. Frente a um cenário de escassez de dados, porém, a falta de estatísticas oficiais e pesquisas que ofereçam análises atualizadas inviabilizam esse processo, dificultando o combate às opressões e tornando necessário recorrer ao trabalho de organizações não-governamentais para obter dados concretos sobre a LGBTfobia no Brasil.
Manifestação LGTQIA+ com a faixa “Não vem com cura que não tô doente” | Foto: Nelson Almeida/AFP
Dados do último relatório anual da Organização Grupo Gay da Bahia (GGB), a mais antiga organização não-governamental (ONG) LGBTQIA+ da América Latina, apontaram que só no ano passado o país registrou quase 300 mortes violentas por LGBTfobia. De acordo com o documento, o Brasil segue como líder desse tipo de crime: foram 291 mortes, representando um aumento de mais de 8% em relação a 2023.
A organização alerta, no entanto, que os resultados podem estar subnotificados, em razão da falta de estatísticas oficiais sobre crimes de ódio contra essa população em território nacional.
A população trans, notoriamente marginalizada, também está amplamente inserida nesse contexto de invisibilidade, fazendo parte de uma estatística drástica, como mostra o dossiê produzido pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).
Pessoa com pintura corporal em defesa dos direitos trans, lê-se: “Sou trans e (r)existo” | Foto: Giorgia Prates
Segundo a pesquisa, o Brasil continua sendo o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. Em 2024 foram 122 mortes registradas, e apesar da redução de 16% em relação ao ano anterior, o país lidera, pelo 16º ano consecutivo, os índices globais de assassinatos contra esse grupo.
A maioria das vítimas são mulheres trans jovens, negras, pobres e nordestinas, com crimes marcados por extrema violência. A pesquisa apontou ainda que a expectativa de vida dessas mulheres é de até 35 anos.
Cotas e acesso à universidade
Quando falamos de educação, outros problemas podem ser vistos. Um estudo da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) revelou que pessoas trans e travestis representam somente 0,2% dos estudantes em instituições públicas de ensino superior. A investigação evidencia que além do baixo acesso a espaços de ensino, a tentativa de permanência nas universidades é muitas vezes dificultada por outros fatores.
Além de serem alvos recorrentes de transfobia e homofobia, 33% das pessoas trans, travestis e não binárias que acessam universidades dependem de programas e bolsas que auxiliem sua permanência. Foi o que mostrou a pesquisa do Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ações Afirmativas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Gemaa). O levantamento também apontou que 58% desses estudantes são negros e 76% têm renda per capita menor que 1,5 salário mínimo.
Ainda que a lei de cotas do Governo Federal reserve vagas para alunos negros, indígenas, pessoas com deficiência e de baixa renda nas universidades públicas, as discussões para que pessoas trans e travestis sejam incluídas na maioria delas não avançou o suficiente. Hoje, é a minoria das universidades públicas que adotam a política em cursos de graduação, como mostra o mapa abaixo:
O mapa representa como apenas uma pequena parcela das universidades públicas dispõe de colas trans, e como estão distribuídas pelos estados do Brasil | Acesse no Flourish!
A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), primeira mulher trans eleita na Câmara dos Deputados, apresentou ao Congresso, dois projetos de lei sobre o tema, um deles – Projeto de Lei 3109/23 – propõe a reserva de 5% das vagas nas universidades federais para pessoas trans e travestis, como iniciativa que visa incluir essa população, por meio da educação e do trabalho digno, ajudando a resgatar a cidadania historicamente negada à comunidade. A Câmara dos Deputados segue em análise sobre a proposta.
Invisibilidade LGBTQIA+ na educação
A luta para não somente ocupar espaços públicos de ensino, mas também pertencer, é antiga. O caminho até o ensino superior é repleto de obstáculos e preconceitos, que se fazem presentes desde o início da formação educacional da população LGBTQIA+.
Ação pelos direitos LGBTQIA+ no Congresso Nacional, em Brasília | Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado
Uma pesquisa do último ano, elaborada pela Aliança Nacional LGBTI+ e conduzida pelo Plano CDE com apoio do Instituto Unibanco, revelou que 86% dos estudantes LGBTQIA+ se sentem inseguros dentro da escola devido à orientação sexual, aparência ou identidade de gênero, e que cerca de 90% dos alunos relataram terem sofrido algum tipo de agressão verbal e 34%, violência física.
A LGBTfobia pode provocar consequências graves. Informações do último relatório do projeto americano “The Trevor Project”, entidade responsável pela Pesquisa Nacional sobre Saúde Mental de Jovens LGBTQ, revelaram que 39% dos jovens LGBTQIA+ consideraram seriamente tentar suicídio no ano passado – incluindo 46% dos jovens transgêneros e não binários.
Ainda de acordo com o estudo, mais de 1 em cada 10 jovens LGBTQIA+ americanos tentou suicídio em 2024. Aqueles que relataram viver em comunidades muito receptivas fazem parte de um percentual correspondente a menos da metade da taxa daqueles que relataram viver em comunidades intolerantes à sua orientação sexual ou identidade de gênero.
Sem apoio familiar ou institucional, a violência promovida por ódio, abandono real ou simbólico da família e a dificuldade do acesso à educação e trabalho, produzem ainda mais sofrimento para as pessoas LGBT. As opressões e ataques muitas vezes são motivo para que jovens abandonem os estudos, desenvolvam transtornos psicológicos, ou cometam atos drásticos como tirar a própria vida, como em um caso ocorrido no ano passado, em São Paulo.
Mesmo na vida adulta e já dentro das universidades, os problemas continuam: estigmatização, humilhação, discriminação em ambientes de serviço público e uma menor taxa de empregabilidade em relação a pessoas cis-heterossexuais, o que evidencia o quanto a permanência e a inclusão ainda são desafios para essa população e como espaços de ensino se mantém reprodutores e mantenedores de uma visão cis-heteronormativa e binária das relações sociais, independente de seu caráter público ou privado.
Inclusão e acolhimento na Universidade Estadual Paulista
Apesar de acolhedora, a Universidade Estadual Paulista (UNESP) também apresenta problemas sistêmicos e não disponibiliza reserva de vagas para pessoas trans e travestis como uma das modalidades da Política de Ações Afirmativas. Em âmbito nacional, cerca de quinze universidades do país optam por adotar a medida. Entretanto, a nova reitoria da universidade já discute cotas para pessoas com deficiência (PCD) e transexuais, como ferramenta de inclusão e diversidade.
Logo da UNESP com as cores da bandeira LGBTQIA+ | Foto: Jornal da Unesp
Em entrevista ao Estadão, Maysa Furlan, atual reitora da UNESP, prevê a implementação de cotas para pessoas trans e com deficiência como prioridade da nova gestão. Ela explica que a pró-reitoria estuda incrementar estratégias de inclusão e permanência estudantil tanto na graduação, quanto na pós. Ela relata também que a discussão já teve início e está avançando, mas que o processo para o vestibular de 2026 depende dos colegiados, e que, mesmo que a implementação ocorra em 2027, isso ainda será a curto prazo.
Diante das reivindicações, a universidade possui um Grupo de Trabalho (GT) chamado Frente por Cotas Trans da Unesp. Criado em novembro de 2024, durante o XXI Congresso Estudantil, ele tem se mobilizado pela demanda de implementação das cotas, para atrair o apoio dos estudantes e da comunidade externa, e para promover a conscientização sobre a marginalização dessa população não só no ambiente acadêmico, mas em toda a sociedade.
Vivências LGBTQIA+ na universidade
Davi Marcelgo Ramos, de 21 anos, é estudante do curso de Jornalismo da Universidade Estadual Paulista (UNESP), em Bauru, e faz parte da comunidade LGBTQIA+. Ele começou a se entender como uma pessoa pansexual ainda na adolescência e compartilha como sua identidade impacta sua vivência dentro do ambiente acadêmico.
Ele relata que não teve problemas atrelados à sua expressão de gênero por ser um homem cis-normativo e aponta também sobre o papel desse espaço como reprodutor de violências simbólicas e estruturais.
“Os desafios enfrentados pela comunidade no meio acadêmico são os mesmos que ela enfrenta no dia a dia”
“A gente precisa se provar como merecedores de alguma coisa. É um caminho muito mais tortuoso em comparação a pessoas héteros, homens héteros especificamente. A violência está muito presente na linguagem, dentro e fora da universidade. A gente percebe a forma como as pessoas se dirigem a pessoas LGBTs, a gente ouve piadas, mas nunca é para a pessoa, sempre é para um amigo”, afirma ele.
“Não tem graça, nós não somos piadas”
Davi cita que na sua realidade, não ocorrem violências diretas contra um indivíduo LGBT. “É sempre de uma forma velada, oculta, mais sutil. Olhares, pequenas falas”, ediz ele.
O graduando afirma que ainda existem muitos episódios de zombaria contra LGBTs e cita um caso específico que experienciou no projeto de extensão de jornalismo cultural do qual faz parte, o Persona. “O Cineclube do Persona estava divulgando a exibição de um filme em comemoração ao Orgulho LGBT+ e pelo menos dois cartazes foram arrancados das paredes onde estavam colados. Para mim soou muito estranho que só esses foram retirados e os outros não. Havia outros muito antigos ainda colados. O cartaz em 3 dias já tinha sido jogado fora. Ecoou muito na minha cabeça como homofobia.”
Grupo de estudantes LGBTQIA+ | Foto: Brett Sayles/Pexels
Apesar desse cenário, a universidade pode ser também um espaço de vínculos, acolhimento e aceitação. Davi explica que o espaço que mais se sente seguro para ser quem é com os amigos, e que a universidade tem espaços de partilha e organização de estudantes, como as entidades estudantis Afronte e Correnteza, o Coletivo Lésbico Zami, o Coletivo Tátil e o Grupo de Estudos e Pesquisas em Sexualidade, Educação e Cultura (GEPESEC).
O estudante aponta também que dentre as faltas da universidade, além das políticas públicas para pessoas trans, é escassa a presença de pessoas LGBTs em cargos de liderança e poder, como professores, servidores, coordenadores, entre outras instâncias. E que ações sociais podem incentivar o respeito e a informação sobre a comunidade, agindo em conjunto a medidas para mitigar os preconceitos e ao diálogo nesse espaço.
Ele cita a importância da organização coletiva para a criação de ambientes de pertencimento nos espaços de ensino. “Se politize! É muito importante a existência desses espaços, coletivos, grupos de estudos etc. É muito importante que nós, enquanto pessoas LGBTs, nos organizemos politicamente, entendendo quais são as políticas públicas que nos afetam para que a gente enfrente essas barreiras”, afirma.
Membros da UNE em Assembléia | Foto: União Nacional dos Estudantes (UNE)
Davi conclui com uma mensagem para estudantes LGBTs que acabaram de entrar nesses espaços:
“Encontre os seus”.
“Principalmente se você está saindo da sua cidade natal e indo para uma cidade nova, é o momento de você fazer amizades com pessoas que você se identifique, que sejam LGBTs, que tenham vivências parecidas com as suas, que vão te acolher e te entender. Não se feche numa bolha heteronormativa. Acho que a universidade é o momento de quebrar esse movimento e estar aberto a essas relações. É o espaço para você ter sua expressão de gênero, sua sexualidade, viver a sua vida como ela realmente é”.
“Principalmente, seja você mesmo!”, finaliza.
Para Vitor de Lima Fantin, pós-graduando em psicologia e professor na UNESP de Bauru, pensar em pessoas LGBTs na faculdade é um tema fundamental para se discutir. “O que eu vejo, pela minha experiência como homem gay na universidade e na docência, é que dentro da universidade a gente reproduz de certa forma essa contradição social, de um campo mais progressista e de um campo mais conservador”, compartilha.
“Dentro principalmente das ciências humanas temos um potencial de acolhimento muito grande na diversidade, de receber as diferentes orientações sexuais, as diferentes identidades de gênero e ter até um olhar mais teórico sobre isso”. O docente relata que as discussões acerca da diversidade ficam a critério dos núcleos de convivência e dos professores, à medida que os alunos demandam, e que nas ementas e disciplinas dos cursos a temática, assim como os estudos raciais, não é implementada.
Vitor comenta sobre a discussão para inclusão de cotas para pessoas trans e travestis na UNESP, e diz que a iniciativa em conjunto com as políticas de permanência é de “extrema relevância” para a população que enfrenta barreiras para acessar o ensino superior.
“A universidade tem um potencial de acolhimento muito grande, mas que ainda não se reflete em políticas públicas”, afirma ele.
A vivência universitária de estudantes LGBTQIA+ vai muito além da sala de aula. A identidade de gênero e a orientação sexual impactam diretamente no bem-estar e na saúde mental desses alunos, exigindo que as universidades os enxerguem para além do aspecto cognitivo. “Temos que pensar no nosso aluno concreto, multideterminado”, declara o professor. “A universidade precisa atender às suas necessidades concretas, ao conhecimento que se reflete na vida desse sujeito”.
Salas de Aula | Foto: Reprodução/Faac-UNESP
A transição do ensino médio para o ensino superior é um momento crucial. É nesse período que se evidencia a importância de criar espaços na universidade para discutir gênero e sexualidade de forma teórica e crítica. O estudante que chega do ensino médio traz vivências que precisam ser acolhidas, mas também teorizadas. Coletivos e disciplinas com revisão bibliográfica, pesquisas e um olhar científico tornam-se ferramentas fundamentais nesse processo.
“Isso é fundamental para a saúde mental, porque instrumentaliza as pessoas para o enfrentamento das violências, da opressão e das desigualdades cotidianas”.
Entre os principais desafios enfrentados por essa população na universidade, estão a permanência e a formação com dignidade. Em cursos mais tradicionais, como os de Engenharia, muitos estudantes LGBTQIA+ não se reconhecem nesses espaços, nem nas ementas das disciplinas, que muitas vezes ignoram suas vivências e identidades.
Além disso, há dificuldades básicas, como o respeito ao nome social, e a desvalorização dos estudos sobre gênero e orientação sexual, o que somado ao atravessamento de classe social torna ainda mais difícil a permanência da população LGBTQIA+ nas universidades públicas.
“A população LGBTQIA+ da periferia, mais pobre, tem menos condições de se manter no curso. As políticas afirmativas, mesmo sem esse recorte específico de identidade de gênero e orientação sexual, ainda estão muito aquém do necessário.”
Para mudar esse cenário, seria necessário revisar grades curriculares, incluir discussões sobre gênero e sexualidade nas disciplinas e reforçar o combate à opressão e à exclusão. Ambientes de acolhimento e políticas públicas efetivas são fundamentais para que essas pessoas sintam orgulho e pertencimento à comunidade universitária.
“Esses ambientes de acolhimento é o que faz as pessoas sentirem orgulho e se sentirem pertencentes à uma comunidade. Ter esse olhar teórico, técnico e legislativo também é um marcador fundamental de necessidades no campo da inclusão.”
Manter a identidade durante toda a trajetória universitária também exige resistência. E o caminho para isso, segundo Vitor, começa na organização coletiva. “O primeiro passo é ter um coletivo forte e ativo, que traga essas demandas, estudos teóricos, críticos e políticos. Um espaço de escuta, acolhimento e discussão conjunta, onde você vê que não está sozinho, que outras pessoas enfrentam os mesmos desafios e estão buscando estratégias coletivas”.
O avanço, segundo ele, não vem de cima para baixo. “É uma demanda populacional. Sobre reconhecer as necessidades e exigir que a universidade se atualize, promova conscientização, que enfrente o preconceito e discuta isso dentro das disciplinas”.
Embora não exista um núcleo psicológico específico para a população LGBTQIAPN+ em muitos campi, há iniciativas como o Coletivo Tátil, do Núcleo Técnico de Atenção Psicossocial (NTAPS), programa de Assistência à Saúde Mental da UNESP, que realiza acolhimentos e promove discussões sobre identidades dissidentes. No entanto, a sobrecarga é um problema, já que o núcleo atende todos os campi da UNESP.
A ausência de discussões sistemáticas e obrigatórias sobre diversidade sexual e de gênero nas grades curriculares dos cursos universitários deixa uma lacuna na formação inicial dos profissionais. O docente reitera então: “Seria necessário um movimento para complementar essas discussões na formação continuada, mas isso ainda não acontece de forma sistemática e ampla na UNESP”.
Ainda assim, há otimismo. “Desde que entrei na faculdade, percebo que essa pauta tem ganhado mais espaço. Não só na Unesp, mas na sociedade em geral. Ao mesmo tempo em que o setor conservador também cresce, há também uma resistência mais progressista que se fortalece. E isso me deixa esperançoso. Acredito que, no futuro, esse debate será mais forte e terá mais ênfase dentro da universidade, podendo resultar em políticas públicas mais eficazes e ações afirmativas para o ingresso e a permanência”.
“Embora o conservadorismo também se intensifique, acho que a luta de resistência também vai se tornando cada vez mais forte”, finaliza Vitor.
Coletivos e Grupos de Pesquisa: refúgio e resistência na luta contra o preconceito
No contexto de omissões institucionais, os espaços que a comunidade LGBTQIA+ encontra dentro do ambiente acadêmico, não apenas como forma de reivindicação e resistência, mas também de apoio, afeto e troca de conhecimento, são os coletivos – grupos de pessoas que compartilham uma causa em comum – e os grupos de pesquisa.
Muito além da atuação estudantil, essas iniciativas surgem como pilares de suporte para vivências dissidentes, incentivando o enfrentamento à LGBTfobia.
O Coletivo Lésbico Zami, por exemplo, foi fundado em 2024 por um grupo de mulheres lésbicas em Bauru. Apesar de não ter vínculo institucional, sua origem está diretamente ligada à vivência universitária. “Foi após um episódio de violência física contra uma colega lésbica que sentimos a urgência de criar um espaço próprio, onde não seríamos silenciadas ou invalidadas“, relata Ana Clara Cegatti, estudante do quarto ano de Rádio, TV e Internet (RTVI) na Unesp e coordenadora do movimento.
Manifestação Lésbica | Foto: Frame/FolhaPress
Com rodas de conversa, cinedebates, oficinas e feiras culturais, o coletivo propõe um trabalho de curadoria independente e antissistêmico que coloca a lesbianidade no centro das discussões. “A gente parte da lesbianidade como ponto epistemológico. Não faria sentido pautar nosso repertório, seja acadêmico ou cultural, somente em referências (autores, filósofos etc) que não contemplam nossas vivências”, explica Ana Clara.
Para ela, a formação acadêmica tradicional é marcada pela exclusão de autoras lésbicas, negras e periféricas, e o coletivo surge como alternativa para preencher essa lacuna.
“Acabou sendo uma experiência solitária entrar na universidade e encontrar unicamente bibliografias e filmografias ultrapassadas e heteronormativas. É muito raro encontrar em qualquer curso da faculdade uma interseccionalidade de temas e um panorama histórico que aborda a presença de outros grupos, para além de homens, na construção de conhecimento”, conta a estudante.
A atuação do Zami ultrapassa os muros da universidade, mas abrange diretamente seus estudantes. Entre as demandas do coletivo estão: a reformulação de bibliografias, o fortalecimento da produção científica de mulheres lésbicas, a criação de espaços de escuta, ações efetivas por parte da Proade-Unesp (Pró-Reitoria de Ações Afirmativas, Diversidade e Equidade) e maior rigidez por parte da universidade mediante a casos de assédio e violência.
O impacto da existência do coletivo é direto na trajetória das integrantes. “O coletivo foi um dos principais responsáveis por devolver meu prazer de estar na faculdade“, afirma Ana Clara. “Ele se tornou um refúgio para várias meninas que compartilham do medo de ficarem sozinhas ou serem esquecidas. É um depósito de memórias.“
Apesar dos avanços, a representante do movimento é crítica à superficialidade institucional: “Falta um desprendimento com o tokenismo. A universidade precisa ir além de campanhas rasas que incluem simbolicamente algum grupo minoritário somente para preencher cota“. E conclui reforçando o papel dos coletivos como instância vital:
“Não vale a pena ficar em silêncio ou esperando que as suas insatisfações passem com o tempo. Quando você se expõe, minimamente, você encontra pessoas que estão tão insatisfeitas quanto você”.
Além dos coletivos, grupos de pesquisa dedicados às temáticas de gênero e sexualidade também têm sido espaços importantes de resistência e produção de conhecimento. Eles legitimam o debate acadêmico, possibilitam metodologias mais democráticas e fortalecem o reconhecimento da memória e da identidade LGBTQIAPN+ na construção da universidade pública.
É o caso do Grupo de Estudos e Pesquisa em Sexualidade, Educação e Cultura (GEPESEC), que há 19 anos atua na UNESP de Bauru como um espaço horizontal de troca, escuta e produção de conhecimento a partir das múltiplas vivências em torno da sexualidade.
Grupo de estudantes LGBTQIA+ | Foto: Universidade Federal de Viçosa
Coordenado pela professora Ana Cláudia Bortolozzi e vinculado ao curso de Psicologia, o grupo realiza encontros semanais abertos, onde se discutem textos, livros e pesquisas voltadas a temas como educação sexual, racialidade, deficiência, não-monogamia e população LGBTQIAPN+, sempre a partir da interface com a sexualidade.
Além disso, o GEPESEC organiza cinedebates, recebe pesquisadoras convidadas, como uma travesti que abordou a não-binariedade sob a ótica da psicanálise, e promove ações externas no município por meio de estágios curriculares em Psicologia, levando a temática para escolas públicas, universidades e, recentemente, um lar de idosos.
Para Carolina Villela, de 25 anos, estudante do quarto ano de Psicologia e integrante do grupo, esse espaço tem sido determinante em sua formação.
“É um espaço muito rico nas trocas. Temos pessoas em diversos níveis de formação e de diferentes cursos. Há pessoas com as mais diversas identidades. Isso sempre permite uma análise crítica dos textos e troca de experiências e de conhecimentos”, relata.
Apesar das competências do projeto, ela reconhece que o impacto de grupos como o GEPESEC ainda é limitado diante da estrutura da universidade pública. “O alcance é muito pequeno se considerarmos o tamanho da universidade”, pontua.
Ela aponta a necessidade de que o debate sobre inclusão e diversidade LGBTQIA+ seja efetivado institucionalmente, com “mudanças estruturais”, como cotas para pessoas trans, banheiros universais por política institucional, e formação contínua de docentes e técnicos. “Tudo isso vai exigir muita luta, mas espero que nossa comunidade possa se organizar para reivindicar tudo isso”.
A coragem de ser quem se é
Em meio às adversidades estruturais, à negligência institucional e às violências simbólicas ainda presentes no cotidiano dos ambientes de ensino, encontrar e cultivar espaços seguros é, por si só, um ato de resistência. Seja por meio de coletivos independentes, como o Zami, ou de grupos acadêmicos como o GEPESEC, construir redes de apoio e visibilidade tem se mostrado essencial para a permanência, saúde mental e para a afirmação identitária de estudantes LGBTQIA+.
A universidade, ainda que reprodutora de silenciamentos e exclusões, pode se transformar em um território de encontros, afeto e construção coletiva, que incluem, empoderam e dão visibilidade a sujeitos historicamente marginalizados. As entidades estudantis cumprem um papel que vai além da militância: são pontes entre a universidade e a vida, permitindo que os estudantes se sintam, enfim, pertencentes a um espaço que, muitas das vezes, não foi pensado para eles.
Bandeira LGBTQIA+ balançando ao vento | Foto: Raphael Renter
“Busque redes de apoio, lugares, grupos, coletivos, pessoas que te entendam e te acolham”, é o recado que a estudante deixa para estudantes LGBTQIA+ que estão iniciando ou já estão na universidade.
“Não é fácil lidar com as barreiras, mas lidar em comunidade tem mais potência e não te desanima”.
Em ambientes ainda repletos de obstáculos e fronteiras que separam, ser e estar em comunidade é o que sustenta a caminhada de jovens marginalizados. No fim, a coragem de ser quem se é, também é um gesto político de resistência, que cria caminhos entre pessoas, e vai de um existir para um outro existir.





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