Relembre nomes que passaram por clubes do país

(Foto: Fernando Torres/CBF)

| Gustavo Bastos

O Brasil tem histórico de contar com treinadores estrangeiros no comando de clubes de futebol. Durante décadas, porém, era mais frequente a procura por opções técnicas mais próximas em países vizinhos como Argentina, Uruguai, Colômbia, entre outras nações da América do Sul. 

A partir de 2019, houve um aumento na procura por treinadores europeus, principalmente após a passagem vitoriosa de Jorge Jesus no Flamengo. O  português chegou no Brasil e conquistou 5 títulos em um ano de trabalho, entre eles a Libertadores e o Campeonato Brasileiro. 

“De fato, o que iniciou essa nova onda foi o sucesso do Jorge Jesus no Flamengo, em 2019. Acho que isso é quase inegável. A maneira avassaladora, como ele chegou conquistando títulos, poucas derrotas. E a forma como o time jogou, que encantou todo mundo, a intensidade do time, foi o que fez a diferença.”, fala Fernando Beagá, jornalista editor do Canhota 10.

Alguns outros treinadores que vieram para o Brasil enfrentaram dificuldades de adaptação no futebol nacional e foram forçados a encerrar os seus trabalhos mais cedo, sem conseguir implementar as suas táticas e ideias de jogo. 

Atualmente, quem ocupa o cargo de treinador da Seleção Brasileira é um europeu, Carlo Ancelotti, após trabalhos vitoriosos por clubes gigantes no Velho Continente como Milan, Bayern de Munique e Real Madrid. O italiano tem como principal desafio trazer novamente o título para uma nação pentacampeã que não vê a sua seleção levantar esse troféu a mais de 20 anos.      

Trabalhos marcantes de estrangeiros no Brasil 

Veja alguns profissionais estrangeiros que deixaram sua marca em clubes brasileiros: 

Abel Ferreira – Palmeiras 

Abel Ferreira comemora a conquista da Libertadores de 2020 (Getty Images)

O português chegou no Palmeiras em outubro de 2020, após a demissão por maus resultados de Vanderlei Luxemburgo, Abel vinha de uma passagem pelo PAOK da Grécia. Na sua temporada de estreia no Brasil ele conquistou a Libertadores, contra o Santos, e a Copa do Brasil contra o Grêmio. 

Ao longo dos 5 anos de sua passagem a frente do Verdão Abel conquistou a idolatria da torcida e 10 títulos ao todo com conquistas como as  Libertadores de 2020 e 2021

Juan Pablo Vojvoda – Fortaleza

(Foto: Mateus Lotif/FEC)

O argentino é mais uma contratação recente no país, Vojvoda chegou em maio de 2021, em meio a disputa do Campeonato Cearense, Copa do Brasil e Brasileirão. O argentino foi campeão do estadual na final que foi disputada contra o rival Ceará e no mesmo ano comandou um dos maiores feitos da história do Leão do Pici, a classificação inédita para a Libertadores. Ao todo são 5 títulos pelo clube cearense

Jorge Jesus – Flamengo

 Jorge Jesus passando instruções para Diego (Foto: Buda Mendes/Getty Images)

A passagem de Jorge Jesus pelo rubro-negro começou em junho de 2019 com contrato de um ano de duração, nesse periodo o clube teve mais titúlos (5) que derrotas (4) pelo. Entre as glórias de JJ pelo Flamengo está a vitória sobre o River Plate na final da Libertadores de 2019 disputada em Lima, na ocasião Gabigol fez dois gols em três minutos e garantiu o título para o Flamengo.     

Artur Jorge – Botafogo

Artur Jorge comemorando o título da Libertadores pelo Botafogo (Foto: Luis ROBAYO / AFP)

O treinador português chegou no Rio de Janeiro em abril de 2024 e com uma missão clara, recuperar o time na fase de grupos da Libertadores, o Glorioso estava na última colocação do grupo. Na sua estreia foi derrotado para a LDU por 1×0 em Quito, mas depois disso emplacou uma arrancada na competição avançando para a fase de mata-mata e eliminando dois tricampeões do torneio, Palmeiras e São Paulo, e na final conquistou o título inédito jogando com um menos desde o começo do jogo o Botafogo venceu o Atlético Mineiro por 3×1. 

Além da conquista continental, o Botafogo faturou o Campeonato Brasileiro após um ano depois de perder o título nas últimas rodadas para o Palmeiras.  

Béla Guttmann – São Paulo  

Béla Guttmann comanda treino do São Paulo em um Morumbi ainda em construção (Acervo UH/Folhapress)

O húngaro desembarcou no Brasil na década de 50 para treinar o time do Morumbi e aos poucos começou a implementar o estilo de jogo com troca de passes rápidos, jogo coletivo e definição rápida de jogadas. Com o técnico o São Paulo conquistou o título paulista, Guttman deixou o país com uma temporada.

Menções honrosas: 

Ventura Cambón (Uruguai) – Palmeiras 
Filpo Núñez (Argentina) –  Corinthians, Palmeiras, Cruzeiro, Vasco, Bahia e outros.
Carlos Volante (Argentina) – Internacional, Vitória e Bahia. 
Charlie Williams (Inglaterra) – Fluminense.

Carlo Ancelotti na Seleção

Ancelotti, novo técnico da Seleção Brasileira (@rafaelribeirorio I CBF)

Após o fim Era Tite na Seleção Brasileira que durou de 2016 a 2022 e dois ciclos de Copa do Mundo o cargo de treinador da seleção canarinho passou por constantes trocas de comando. Depois de Tite, o Brasil teve dois técnicos interinos Ramon Menezes e Fernando Diniz, enquanto a Confederação Brasileira de Futebol negociava com outros nomes para a posição, Menezes vinha da conquista do Sulamericano Sub-20 pela seleção de base do Brasil, porém sua passagem na seleção principal foi curta e durou apenas três jogos, duas derrotas e uma vitória. 

Com o mau desempenho da equipe sob o comando de Ramon e a indefinição do treinador, a segunda escolha para assumir de maneira interina foi Fernando Diniz, na época atual campeão da Libertadores com o Fluminense, mas também teve um curto trabalho com a canarinho, com duas vitórias, um empate e três derrotas. 

As passagens de interinos pela seleção aconteceu pela escolha de Ednaldo Rodrigues, na época presidente da CBF, de esperar o fim da “novela Carlo Ancelotti” que começou em 2023, a oportunidade de contratar o italiano no comando ao fim da temporada 22/23 com fim do contrato com Real Madrid, entretanto, o treinador foi convencido a prolongar o vínculo com o clube merengue. 

Em janeiro de 2024, Dorival Júnior assumiu o comando da equipe. Após resultados irregulares, incluindo eliminação na Copa América e derrotas nas Eliminatórias, Dorival foi desligado, a última partida do treinador foi derrota de 4×1 para a Argentina.

As tratativas com Ancelotti continuavam e o acordo foi fechado pouco antes do fim da atual temporada europeia. Até o momento o novo treinador fez apenas duas partidas à frente da seleção, um empate em 0x0 contra o Equador e uma vitória de 1×0 em cima do Paraguai com gol marcado por Vinicius Junior, antigo conhecido da sua última passagem em Madrid, o triunfo garantiu o país na próxima Copa do Mundo.  

E a recepção do italiano foi boa, é o que apontam dados do DataFolha, em pesquisa feita pelo instituto feita sobre a seleção canarinho ser comandada por um treinador estrangeiro é primeira vez a aprovação (52%) superou a rejeição (32%), as pessoas consultados estavam cientes que o atual não é brasileiro já que o nome de Ancelotti é citado no enunciado da questão. 

O próprio torcedor brasileiro não admitia que a seleção não fosse treinada por um não brasileiro, era até uma coisa meio patriótica, de representatividade. A chegada do Ancelotti mudou um pouco, até porque o currículo dele é, enfim, incontestável. E, diante dos últimos trabalhos do Dorival e do Diniz, olhando para o horizonte e vendo que não tinha um outro nome que a gente imaginasse que fosse mudar o cenário”, comenta Beagá sobre a mudança de visão da torcida brasileira.

Futuro do futebol brasileiro  

Ministro do Esporte fala durante abertura de evento: (Fotos:Caique Coufal/MEsp)

A crescente chegada de técnicos estrangeiros aumentou debate sobre o desenvolvimento do treinadores brasileiros. Para ampliar a capacitação, em 2016, a CBF criou a CBF Academy que oferece diversos cursos e programas para treinadores, gestores, especialistas e outros profissionais que atuam ou desejam atuar na indústria do futebol. Fernando Beagá comentou sobre como a cultura do imediatismo atrapalha o desenvolvimento de novos profissionais no Brasil:  

Essa cultura do resultado acabou por formar treinadores muito preocupados em manter o emprego antes de vencer. Então, a gente acabou tendo uma safra de treinadores, mesmo jovens, que não tinham ideias frescas, vamos dizer assim. Tinham ideias de evitar derrotas, evitar gols, mas que não tinham futebol, que não tinham uma estratégia de jogo, que tinham alternativas”, diz Fernando.

Fernando Diniz é citado por Beagá como um exemplo de como a cultura do futebol nacional age sobre os treinadores que possuem ideologias de jogo diferentes e tentam aplicá-las no Brasil. 

“O próprio Fernando Diniz teve que lutar muitos anos para chegar no auge de vencer a Libertadores com o Fluminense, mas por muito tempo foi alvo até de muita gente que exaltava, mas muita gente que fazia piada da insistência dele de um jogo diferente, de uma ideia diferente. Ainda com todos, reconhecendo que ele tem uma cabeça fresca com o futebol e ainda luta para ser reconhecido como um grande treinador.”

Diniz completa um mês de no comando do Vasco da Gama (Foto: André Durão)

O Brasil, historicamente, importa mais treinadores do que exporta, entretanto aconteceram trabalhos de técnicos brasileiros fora do país como Luxemburgo no Real Madrid em 2004, Felipão na Seleção Portuguesa de 2003 a 2008, Zico no Japão e mais recentemente André Jardine que vem tendo um bom desempenho no América do México que em dois anos de trabalho colocou seu nome na história do clube conquistando a liga Mexicana. 

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