Moderno, conectado, diverso e acessível, o agronegócio se apresenta como setor na economia, no mercado de trabalho e, agora, nas redes sociais

Ingrid Khiara Moraes Martins

‘Bom dia, povo do agro’. É assim que a influenciadora e agrônoma Lorena Macedo começa sua rotina de trabalho, que concilia o agronegócio e as redes sociais. Criadora de conteúdo digital desde novembro de 2021, começou a fazer vídeos na época em que estava tendo aulas online pela pandemia de COVID-19 para compartilhar seu cotidiano como uma estudante de Agronomia.

Arquivo Pessoal

Quase 4 anos depois, formada e com mais de 75 mil seguidores, ela continua a traduzir os termos técnicos para uma linguagem mais simples, com exemplos práticos, comparações e com conteúdos mais leves, nos quais ela mostra sua ”agro rotina”, “agro looks” e produz “agro vlogs” para mostrar como é a realidade por trás das telas e dentro do mundo de uma agrônoma.

Muito além do campo e dos tratores, uma geração de agro influenciadores está levando o setor primário para o feed dos brasileiros. Com postagens que mostram os bastidores do cotidiano rural, eles reconfiguram a imagem de um dos ramos mais estratégicos da economia brasileira ao criarem conteúdos que conectam o público urbano à realidade rural.

“Muitas vezes quem está de fora do campo tem uma visão distante ou até mesmo distorcida dessa nossa realidade. Então, por meio das redes, a gente consegue mostrar a inovação, a sustentabilidade e, também, o lado humano no agro: que tem famílias por trás de tudo isso quebrando esse preconceito e aproximando as pessoas dessa cadeia que impacta diretamente a vida de todo mundo”, ressalta Lorena.

Este impacto pode ser notado a partir de dados do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, em parceria com a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil). Em uma perspectiva geral sobre a economia brasileira até o momento, o PIB do agronegócio representou 29,4% do PIB do Brasil em 2025.

O Cepea baseia seus cálculos no PIB-renda do agronegócio, com os preços reais tanto de produtos quanto de insumos em cada segmento do agronegócio (insumos, agropecuária, agrosserviços e agroindústria).

Além destes resultados, em relação ao mercado de trabalho, o agronegócio brasileiro empregou 28,2 milhões de pessoas no segundo trimestre de 2025, segundo o Cepea/CNA. Este número retrata um aumento de aproximadamente 244 mil pessoas no mesmo período de 2024.

Entre os trabalhadores envolvidos no agronegócio, alguns alinham sua formação técnica e acadêmica com a ascensão das redes sociais e se tornam influenciadores do agro. Publicada em 2025, uma pesquisa desenvolvida por alunos da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) buscou analisar estes perfis digitais a fim de aprofundar o entendimento sobre o papel destes influencers na percepção pública sobre o agro.

Para os seguidores, os fatores necessários para valorização dos influenciadores neste ramo eram, do maior para o menor grau de importância: o conhecimento técnico sobre o setor, comunicação clara e acessível, experiência prática como agricultor e a transparência em relação a patrocínios e parcerias.

Em relação à formação técnica, entre os influenciadores do agro pesquisados, todos têm ensino superior, sendo: 60% formados em Agronomia, 20% representavam engenheiros mecânicos e, os outros 20%, engenheiros civis. 

“Foco na Agronomia”

A influenciadora e agrônoma Vivian Kaufert (@viviankaufert) promete, em sua ‘bio’ do Instagram, ensinar sobre fertilidade de solo e cultivo de grãos. “Procuro transmitir conhecimento agro de forma didática e simplificada, mas mantendo o contexto técnico nos conteúdos porque muitos manejos na agricultura deixam de ser realizados por falta da compreensão do que de fato são e qual a importância e ganhos que vou ter”, afirma em entrevista. Ela reforça que, para pessoas ‘de fora’ do setor, a única tarefa do agricultor e do produtor rural seria explorar a área de cultivo; em razão disso, os influenciadores têm a função de auxiliar na ‘quebra’ de mitos dentro do agro, visto a possibilidade de expansão de público.

Paranaense, Vivian iniciou sua criação de conteúdo em 2020, na primeira semana de isolamento social em razão da Covid-19. Na época, ela acreditava que as publicações nas redes sociais seriam apenas um hobbie ou um incentivo para estudar para as matérias do curso de Agronomia, da UFPR. A princípio, seu perfil chamava @foconagronomia, no qual ela não aparecia, apenas gravava conteúdos e produzia por meio de postagens estáticas, como o carrossel. Com o passar do tempo e do trabalho no meio digital, ela se interessou pela área de Marketing e se matriculou em um curso de ensino à distância em 2022, ano em que ela assumiu o nome @viviankaufert nas redes sociais, que, hoje, soma quase 60 mil seguidores.

Sua organização se baseia em um cronograma de postagens, definido mensalmente.

“Em um dia da semana, crio os conteúdos em carrossel para a semana toda, assim como os roteiros: faço-os em um dia e separo outro dia para ir à campo e realizar as gravações”. Ela ainda pontua que as edições dos materiais, muitas vezes, acontecem no dia do post e destaca que todo este processo criativo e de produção é feito somente por ela.

Arquivo Pessoal

Ela ainda pontua que as edições dos materiais, muitas vezes, acontecem no dia do post e destaca que todo este processo criativo e de produção é feito somente por ela.

Com o lema ‘juntas somos mais fortes’, ela faz parte da 1ª comunidade de criadoras de conteúdo, o Elas Além do Agro (@elas.alemdoagro). O grupo reúne 5 influenciadoras do agro, distribuídas por diferentes estados do Brasil: @viviankaufert do Paraná, @ilaneAgro do Goiás, @silviane.mrocha do Pará, @maju.pelleissone de São Paulo e @amandabaquero_ de Minas Gerais. Desde 2023, a rede de apoio busca promover um espaço de troca de experiências e consolidar um movimento de valorização do agro.

“O que não é visto não é lembrado”

Isso é o que Vinícius Wandoski (@vinicius_wandoski) defende. Com o objetivo de construir “autoridade” e mostrar seu conhecimento, o estudante de Agronomia começou a criar e publicar seu conteúdo em julho de 2025. No perfil, ele mostra seu dia a dia, dá dicas e, principalmente, comenta sobre o manejo biológico. Ele explica que os biológicos são ferramentas para melhorar a saúde das pessoas, para somar junto com a agricultura e, cada vez mais, diminuir as ferramentas químicas.

O jovem influenciador considera que o maior desafio da comunicação nas redes sociais é transmitir uma informação sem ser “palestrinha”, isto é, só falar e não fazer, ou ainda, prometer muito e não entregar nada. “Quando você começa a entregar um conteúdo mais técnico ou você quer ser mais referência, vão te colocar dentro da prateleira do ‘palestrinha’”. A partir desta classificação, os comentários negativos – ou hates– aparecem.  Mas Vinícius reforça que, neste momento, é necessário saber qual é o seu propósito e continuar trabalhando para se tornar referência no futuro.

“A gente tem um diferencial: o casal”

O que dois engenheiros agrônomos podem fazer na internet? Para descobrir, basta seguir o perfil da Gizele e do Lucas, o @casaldo.agro. Com 15 anos de casados, a dupla se conheceu pelo agro, quando trabalhavam em uma usina: ela no escritório e ele no setor agrícola. Ele se formou em 2008 e ela, em 2024.

O companheirismo da vida real foi transmitido para as redes sociais sem pretensão. Em um dia de praia, Gizele fez um vídeo sobre “ser esposa de agrônomo”: mesmo de férias, Lucas não parava de trabalhar. E viralizou. “Agrônomo não tem horário. A rotina da roça cobra muito das pessoas que trabalham no campo. É um produto que deu errado, uma máquina que quebrou, uma chuva inesperada”.

Com tom bem-humorado, eles começaram a postar mais conteúdos e foram alcançando cada vez mais pessoas. “Chegou o momento que eu olhei para o Lucas e falei ‘e agora? o que a gente vai fazer a partir de agora?’. A gente teve que sentar e ver se a gente continuava, se deixava do jeito que tava ou se olhava de forma profissional.”, relembra Gizele. Com um perfil voltado de maneira direta a pessoas que vivem no agro e com a maioria dos seguidores inseridos no setor, em maio de 2025, seu público somava 10 mil; já em outubro, mais de 78 mil perfis consumiam diariamente suas publicações. No TikTok, eles têm mais de 10 mil seguidores.

No começo, o @casaldo.agro não seguiu uma organização para alavancar o perfil. As configurações do Instagram foram um desafio. Responder e acompanhar as mensagens que recebiam era complicado em alguns momentos e o processo de criação de conteúdo era fluido. “As ideias, às vezes, vêm”, ela explica.

A partir do momento que decidiram investir na vida virtual, eles estabeleceram um cronograma de postagens diárias e, com a observação sobre o engajamento das publicações, buscam aperfeiçoar a atuação como agro influenciadores. Ainda com conteúdos bem-humorados, o próximo passo é agregar conhecimento de forma orgânica e introduzir um conteúdo mais técnico.

E o que vem por aí?

Com o uso das redes para a disseminação de fake news, o agro tem que responder, muitas vezes, de maneira “reativa” e é a partir disso que Luciana Florêncio de Almeida, membro do Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio (ABMRA), pontua a importância do trabalho dos agro influenciadores uma vez que eles têm disseminado o que acontece no campo e no agro em geral, de forma a aderir o que acontece “antes e depois da porteira”.

Os pilares básicos para um influenciador envolvem a produção de um conteúdo diferenciado, que se destaque em relação aos outros perfis do mesmo nicho. Com autenticidade, o criador de conteúdo deve ser genuíno em seu objetivo: educar, entreter, promover produtos e/ou valores, sempre a fim de agregar algo de qualidade à realidade de seus seguidores.

Foto: Freepik

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