De drones a alterações no DNA das plantas, conheça o arsenal que cafeicultores têm usado para lidar com o clima extremo

Flávia Gracinda, Guilherme Dias Siqueira e Manuela Andretta Pupo

 

Adaptações no cultivo de café em tempos de crise climática.
(Foto: Reprodução/Freepick)

O Café faz parte da vida do brasileiro, de qualquer idade, qualquer classe social e a qualquer hora do dia: ele está na mesa da família pela manhã, no lanche da tarde das crianças nas escolas à parada do caminhoneiro durante a noite. Um estudo de mercado da JDE, empresa de café detentora das marcas Pilão e L’OR, mostrou que o café está presente em 98% dos lares brasileiros e que é consumido em média de 3 a 4 xícaras por dia.

Porém, no último ano, o brasileiro sentiu a mudança no próprio bolso. Consumindo do mais simples cafezinho ao mais elaborado cappuccino, foi notável a disparidade dos preços do café.

Em primeiro de janeiro de 2025, o preço do café era de US$3,20 dólares por libra, em março ele atingiu o valor mais alto deste ano, de US$4,33 dólares por libra, finalizando setembro um pouco abaixo disso, 4,20 USD/lb, com tendência de aumento nos próximos meses. Para o consumidor final, a alta no preço do café torrado e moído foi de 82,24% de agosto de 2024 até agosto de 2025, de acordo com os dados do IPCA (índice de Preços ao Consumidor Amplo).

Esse produto, que tem feito parte da história do Brasil desde os tempos do império, não é apenas paixão nacional, como também um grande motor da economia do país. O Brasil é o maior produtor de café, à frente do Vietnã e da Colômbia no ranking mundial. As exportações brasileiras chegaram a 45 milhões de sacas em 2024 e trouxeram para economia mais de 14 bilhões de dólares em receita cambial, segundo a Embrapa.

Quando o assunto é consumo interno, o café é um dos alimentos mais expressivos na mesa do brasileiro, sendo os estados de São Paulo e Minas Gerais os maiores consumidores. Segundo a ABIC (Associação Brasileira da Indústria de Café) as mais de 20 milhões de sacas de 60 quilos são divididas entre as regiões brasileiras com a Região Sudeste como campeã, com 41,7% do total nacional seguida da Região Nordeste (26,9%), Região Sul (14,6%), Região Norte (8,8%) e Região Centro-Oeste 8%.

Apenas no ano de 2024, o Brasil produziu mais de 54,2 milhões de sacas de café ao longo de mais de 1,8 milhão de hectares cultivados, uma produtividade de 29 sacas por hectare. Mesmo assim os altos preços refletem o aumento da demanda global e também à uma produção inferior ao redor do mundo em relação a anos anteriores devido a intempéries climáticas.

A relação entre as mudanças climáticas e a produção de café

Não é novidade que o planeta está vivenciando uma de suas maiores crises climáticas da história. As mudanças provocadas pelo aquecimento global geram eventos extremos como ondas de calor intensas, secas prolongadas, mudanças no regime de chuvas.

O agrônomo da Fundação Procafé, Marcelo Jordão da Silva Filho, explica que as chuvas que chegavam na região de São Paulo por volta de setembro e cessavam por volta de maio, hoje tem um padrão muito menos regular, começando em meados de outubro e com o período seco iniciando cada vez mais cedo, por volta de abril ou ainda mais antecipadamente, como no mês de março.

(Ilustração: Reprodução/Freepick)

Dentre os grãos mais afetados por essas alterações está o café. O café arábica, por exemplo, principal tipo cultivado no Brasil, é muito sensível às variações de temperatura e precipitações, se desenvolvendo bem em temperaturas entre 18 °C e 22 °C. Com a temperatura global passando de 1,5ºC, em 2024, maior marco desde os níveis pré-industriais, não apenas a quantidade de sacas ficaram comprometidas, como também a qualidade do grão pelo aumento da chance de proliferação de pragas.

“Se eu tenho um clima interferindo na redução de temperatura, essa redução de temperatura e aumento de umidade, por exemplo, teria maior ocorrência de doenças”, explica Marcelo, relacionando essas alterações a um aumento de custos relacionados a um maior uso de defensivos químicos como inseticidas.

Proliferação de pragas no cultivo, em climas extremos. (Foto: Reprodução/Freepick)

Nesse cenário, os produtores precisam investir em diferentes tipos de tecnologia para manter o cultivo, o que eleva o custo de produção, repassando esse valor do cultivo para os torrefadores e, então, para os consumidores.

Diante disso, os pequenos agricultores são uma parte dessa cadeia que mais é afetada, levando alguns até mesmo a desistir da cafeicultura, o que também afeta o mercado e os índices de desemprego. De acordo com dados da Conab de 2022, da produção cafeeira estimada em 50,38 milhões de sacas pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), as pequenas propriedades foram responsáveis por 48% desse total, além de criar cerca de 1,8 milhões de empregos.

O agrônomo Carlos Pasquali, formado pela Faculdade Dr. Francisco Maeda (FAFRAM) em Ituverava, e dono da produção “Café Pasquali” cultivada no Sítio Falcão do Alto da Serra (Alta Mogiana), pratica a cafeicultura familiar há dezoito anos. Segundo o produtor, seu plantio foi significativamente afetado pelas mudanças do clima.

A safra de café de 2025, que segue de outubro passado até outubro deste ano, gerou apenas 270 sacas de café em comparação com a média estimada de 500 sacas.

“A seca está judiando muito. O café é uma cultura perene e depende muito da chuva na época da florada, que é entre agosto e outubro. Há muita pouca chuva e altas temperaturas, e isso está influenciando muito o preço de mercado no café”, relata o agricultor.

Cafezal na Fundação Procafé, em Franca. (Foto por Manuela A. Pupo)

Algumas medidas sustentáveis se tornam necessárias diante desses casos. Para Carlos, o sistema agroflorestal, que combina árvores perenes com culturas agrícolas e, por vezes, animais, em uma mesma área, pode não ser a alternativa mais viável para o café. Desde o ano passado, o produtor está investindo na agricultura regenerativa: uma técnica que prioriza a saúde do solo e ecossistemas, aumentando a produtividade a longo prazo, ao mesmo tempo que oferece os recursos necessários para a recuperação da natureza.

Diante desse cenário e de um futuro incerto quanto às mudanças climáticas, o agrônomo acredita que a melhor forma de manter o cultivo é por meio da adaptação, além do incentivo público: “A gente tem que se adaptar ao clima que vivemos. O governo pode investir em mudança genética nos cafés, fazer algumas variedades que resistam mais à seca e à alta temperatura, realizar estudos; campos experimentais… não tem muito como fugir disso, né?”

A tecnologia seria um passo para enfrentar a crise climática no campo?

Além dessas alternativas, a tecnologia tem se mostrado uma aliada na hora de driblar as mudanças climáticas extremas. Antes mesmo do avanço do aquecimento global, diversas empresas já produziam tecnologias com o objetivo de auxiliar o trabalho no campo.

Cristiano Pontelli, gerente de negócios do Grupo Jacto, conta que um dos marcos da empresa foi ser a pioneira na produção da colheitadeira de café. “Até então [antes de 1979] o café era colhido todo na mão, dependia muito da operação manual, não tinha tecnologia nenhuma”.

Em 1980 a empresa desenvolveu a K3, primeira colheitadeira de café do mercado, e desde então, a produtividade do café cresceu muito. “Boa parte desse crescimento vem em função da mecanização”, diz ele.

A Jacto tem buscado desenvolver novas tecnologias, não só para os produtos de café, mas para os de laranjas e diversos outros setores do agronegócio. Cristiano explica que hoje, na área do café, eles possuem produtos como colheitadeiras, pulverizadores e logo pretendem lançar veículos autônomos para essa produção.

Pontelli explica que o veículo autônomo junto aos pulverizadores, que atuam na produção da laranja, utiliza sensores, entre eles o laser, e assim conseguem mapear a copa da planta e ajustar a aplicação de ar e calda conforme o volume de cada copa, dessa forma garante maior precisão e reduz o consumo de insumos.

Ele diz que junto a isso, eles desenvolveram uma plataforma digital chamada Ekos, que “consegue monitorar as condições que estão na lavoura, para poder fazer aplicações localizadas e, com isso, economizar insumo, e isso tudo a ver com o uso de água, de todos os recursos que têm disponível na fazenda do nosso cliente” diz o representante da empresa.

Diante do cenário climático atual, a tecnologia no campo pode ser uma grande aliada. (Foto: Reprodução/Freepick)

Quando o assunto é pequeno produtor, a empresa tem estendido a tecnologia utilizada nos veículos de grande porte, para a linha tratorizada, que vão para os cafeicultores, por exemplo. O Arbus e os Postais são pulverizadores que podem ser utilizados na cafeicultura.

Através do Postal, o cafeicultor consegue saber, com auxílio da telemetria, se ele está aplicando os insumos em uma área de bordadura, ou seja, na faixa de terra na borda de uma área cultivada. Essa área, por estar mais exposta a fatores externos, geralmente tem dificuldades em alcançar o mesmo desempenho das plantas que estão no centro, e por isso pode precisar de mais cuidados.

Empregar tecnologia nas fazendas requer muito investimento financeiro, por isso é importante entender qual será a rentabilidade do produto no dia a dia. O representante da Jacto, explica que os produtos da empresa usam “dois paradigmas, que é aumentar a produtividade e reduzir custos. Então, o aumento da produtividade tem a ver com aplicar o produto na hora certa, na quantidade certa, o produto adequado”.

Em meio às mudanças climáticas atuais e as que provavelmente chegarão, a solução, como disse o produtor Carlos Pasquali, é se adaptar ao clima, utilizando a Ciência e a Tecnologia a favor da agricultura, buscando meios rentáveis e sustentáveis para isso.

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