Com poucos espaços públicos, bares e casas independentes assumem o cenário de uma cidade onde o deserto cultural se mantém
André Merli, Bianca Costa, Maria Clara Coelho e Sinara Martins
Falar de cultura em Bauru é esbarrar sempre nas mesmas questões: falta de estrutura, excesso de vontade e uma cena que resiste mesmo quando a cidade não facilita. Quem circula pelos eventos, pelos pequenos festivais independentes, pelos saraus que surgem em intervalos de semanas, percebe rapidamente um padrão: tudo depende de esforço individual e de uma dose de improviso.
Em uma cidade universitária vibrante, a sensação é de movimento constante, que raramente encontra um apoio público consistente. Além da população bauruense, a presença da universidade impacta diretamente esse cenário.
A cada semestre chegam novos estudantes, muitos envolvidos com artes, comunicação e projetos culturais. Mas, quando esses novos grupos procuram lazer, assim como a população bauruense, encontram escassez cultural, agendas reduzidas, estruturas limitadas ou espaços que não funcionam de forma regular. A busca por cultura cresce, mas a resposta institucional não acompanha o ritmo.
A política cultural de Bauru tem um histórico irregular. Há anos em que editais aparecem, verbas são anunciadas e espaços ganham programação, mas o ritmo não se mantém. Entre uma iniciativa e outra, longos períodos de descontinuidade: aparelhos culturais fechados por tempo indefinido, eventos que não se sustentam e projetos que param no meio do caminho.
O resultado é um sistema que não se consolida e sempre parece estar recomeçando. Esses desafios são conhecidos por quem vive a cena: pouca verba, editais tímidos, dificuldades burocráticas e uma estrutura limitada. Para artistas e produtores, é comum lidar com a sensação de trabalhar contra um sistema que deveria ser aliado — com políticas capazes de garantir acesso, regularidade e diversidade de programações. Na prática, essa engrenagem emperra.
É neste contexto que os bares entram na pauta. Eles não surgem como substitutos ideais, nem como solução planejada. Surgem porque são espaços disponíveis, apesar de nem sempre gratuitos, tem as portas abertas e disposição para receber a arte que a cidade produz. Sem a regularidade dos equipamentos públicos, a programação cultural acaba migrando para “onde dá”: ambientes privados, que conseguem oferecer horário, autonomia e uma certa estabilidade.
Esses espaços passaram a cumprir uma função que, em outras cidades, seria compartilhada com espaços públicos. É uma solução prática para um problema antigo: quando a política cultural não sustenta a cena, a cidade procura alternativas. E em Bauru, essas alternativas, hoje, têm endereço, dia da semana, horário marcado e uma cerveja bem gelada.
Quanto Bauru investe em Cultura?
Os últimos anos mostram um orçamento cultural em ascensão, Bauru salta de R$16,2 milhões em 2022 para R$22 milhões em 2025, o maior valor da última década. No papel, parece um avanço sólido. Na prática, pouco muda para quem circula pela cidade e não encontra espaços públicos de lazer cultural funcionando de forma acessível. O investimento aumenta, mas não o suficiente para alterar a experiência cotidiana de quem procura cultura em Bauru.
Isso acontece porque grande parte do orçamento é absorvida pela própria estrutura que já existe. A Secretaria de Cultura mantém espaços como a pinacoteca, o MIS, bibliotecas, o museu ferroviário, entre outros — instituições fundamentais, mas que demandam manutenção contínua, como folha de pagamento, conservação de acervos e funcionamento diário. Antes mesmo de pensar em ampliar a oferta cultural da cidade, boa parte da verba já está comprometida com manter o básico de pé.

Fonte: Agência Trilhos, 2025
Nesse cenário, o acréscimo orçamentário não se converte em novos espaços, nem em programação frequente. O PEC, mecanismo municipal de fomento, incentiva projetos pontuais, mas não sustenta equipamentos culturais permanentes. Já as verbas federais, como a Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc, ajudam, mas são complementares: reforçam ações específicas, não criam estruturas duradouras. O resultado é um paradoxo evidente.
O orçamento sobe, mas Bauru continua, do ponto de vista do poder público, um deserto cultural: sem centros de convivência, sem casas de cultura ativas, sem descentralização nos bairros, sem equipamentos municipais capazes de dialogar com a vida noturna, com a juventude e com a cena independente que movimenta a cidade. Os dados, disponíveis no Portal da Transparência, mostram investimento, mas quem vive a cena percebe a ausência.
Além da insuficiência do orçamento, há outro ponto que ordena esse deserto cultural: a falta de prioridade da gestão municipal para a área. O problema não está apenas na quantidade de recursos, mas em como a política cultural é tratada no cotidiano administrativo. Um exemplo emblemático é a execução da Lei Paulo Gustavo.
Embora o município tenha recebido quase R$3 milhões em repasse federal, a prefeitura perdeu prazos importantes do processo e precisou refazer etapas, atrasando a chegada do dinheiro à cena local, um episódio que reforçou, entre artistas e produtores, a percepção de descaso institucional. Situações como essa revelam que, mesmo quando existe verba, falta direção: não há continuidade, nem urgência ou um projeto claro que trate cultura como política pública estruturante, e não como tarefa burocrática secundária.
Lazer prático, cultura ausente: o diagnóstico dos que vivem a cidade
Em um formulário que aplicamos entre moradores de Bauru, buscamos ouvir direto de quem vive a cidade sobre como é o lazer local, onde vão, o que procuram e o que sentem falta. A maior parte das respostas veio de jovens entre 18 e 24 anos, 86,7%, o público que mais circula e que mais pressiona a cidade por programação. E o recado está claro: faltam espaços culturais.
Quando a pergunta é onde ir, muitos citam os bares. 66,7% frequentam bares ocasionalmente, e não é difícil entender por quê. O que mais atrai é o preço, 84,3%, seguido da socialização, 68,9%, e de um ambiente aconchegante, 64,4%. Ou seja, as pessoas escolhem onde ir não só pelo programa, mas pela viabilidade no bolso e pela possibilidade de encontrar amigos.
Bares funcionam como opção prática num cenário em que opções públicas e independentes são escassas. Mas a vontade por cultura continua viva. 77,8% afirmam que já foram a bares, saraus ou outros eventos culturais especialmente pela programação. Isso mostra que o público quer mais do que um lugar para beber, quer programação consistente, diversidade e encontros que façam sentido. Ainda assim, 86,7% sentem falta de espaços culturais em Bauru, e a leitura é direta: existe demanda, falta infraestrutura.
A confiança de que os bares supram essa lacuna divide opiniões. 44,4% acham que não, 40% acham que sim. Essa divisão revela uma realidade ambígua. Para muita gente, os bares preenchem uma necessidade imediata; para outros, são paliativos que não substituem espaços pensados para cultura.
No fim, a sensação é de que a cidade delegou ao privado uma função que deveria ser compartilhada com equipamentos públicos e espaços independentes. A avaliação geral da cena cultural acompanha esse desalinho. 48,9% classificam como regular, 24,4% como fraca e apenas 22,2% como boa. Poucos descrevem a cena como vibrante. O lazer em Bauru existe, mas muitas vezes chega atrasado diante da pressa e da criatividade da juventude que movimenta a cidade.
O recado final é quase unânime: 91,1% acreditam que Bauru precisa de mais espaço cultural. Não é apenas um desejo, é um diagnóstico coletivo. A cidade tem público, tem vontade, tem pessoas dispostas a ocupar e produzir cultura. Falta combinar essa demanda com oferta contínua, acessível e diversificada. Enquanto isso não acontece, a cidade improvisa, e o improviso, pelos números, já não basta.
Os bares como espaços culturais
Quando pensamos em Bares na cena cultural bauruense, não pensamos apenas naqueles clássicos botecos com mesas de plástico e aquele litrão, mas também em lugares como Sarau Sem Lei e Casa Mangue, pensados como casas abertas, luz baixa, decoração afetiva e cômodos que servem como uma grande mostra.
Neles, a arte não entra como atração extra, mas como parte da arquitetura convidativa do lugar. A programação que aparece ali não tem a pretensão de parecer grande nem institucional. É uma curadoria que pensa na propagação da arte, pensada por artistas e produtores culturais que idealizaram o conjunto da obra.
Assim, esses eventos criam um tipo de intimidade que outras estruturas dificilmente alcançam, um espaço de acolhimento, onde o público vê, conversa, encontra, volta. Onde a música autoral cresce em volume e a poesia escapa, passeando por todos os corredores e cômodos. Esses espaços testam formatos, experimentam de tudo e mais um pouco, tudo aquilo que é arte, é bem vindo.
O clima de aconchego, sem palco alto, sem distância, tudo isso resulta em uma forte proximidade com a arte, uma cena que se reconhece nesses lugares. Não porque substituem algo, mas porque criam uma atmosfera que combina com o que está sendo produzido agora. Em espaços como Sarau Sem Lei e Casa Mangue, a cultura não precisa de justificativa: ela simplesmente acontece.
Cultura à margem, pertencimento no centro: o papel do Sarau Sem Lei
O Sarau Sem Lei nasceu como uma resposta silenciosa, porém firme, à falta de espaços culturais em Bauru. Criado por Rodolfo Garcia, Ed Florindo e Flávia Turtelli, o lugar surgiu do desejo de construir um ponto de encontro onde a produção artística pudesse existir sem pedir permissão. É uma casa reorganizada pela vontade de manter viva uma cena que, muitas vezes, a cidade insiste em ignorar.
A ambientação do espaço é marcante desde a entrada. A luz é baixa, suave, criando uma sensação de recolhimento que contrasta com o ritmo acelerado das ruas do centro de Bauru. As paredes são tomadas por tapeçarias, adesivos e registros de manifestações culturais, como se cada objeto tivesse sido deixado para deixar uma marca. No bar, as luzes baixas lançam brilhos sobre garrafas, quadros e murais. Em outro cômodo, uma mesa de sinuca dá espaço para grupos se reunirem. Nada parece montado para impressionar; tudo parece existir porque alguém precisou daquele ambiente para criar ou para respirar um pouco mais.
Fotos: Sinara Martins
A programação mantém esse mesmo espírito vivo e orgânico. Há noites de sarau com microfone aberto, encontros de música autoral, rodas de conversa, oficinas e reuniões de coletivos. Estudantes usam a casa como ponto de apoio, músicos se encontram para ensaiar ou conversar, e a comunidade artística circula com a segurança de quem sabe que ali há espaço para experimentar. O público busca justamente isso: acolhimento, escuta e um tipo de pertencimento raro na cidade.
Ed Florindo resume essa ideia ao dizer que o Sarau “acolhe diferente de uma casa noturna”. A ideia é ser um espaço cultural que abrange várias culturas e de várias formas, inclusivo e de fácil acesso. Flávia Turtelli complementa dizendo que o local “é um espaço que pode ser usado de outras formas por estudantes, aberto para músicos fazerem reunião… abrange muito mais.” Juntas, as falas ajudam a entender por que o Sarau funciona mais como ponto de convergência do que como uma simples casa de eventos.
Ainda assim, os obstáculos são muitos. A relação com o poder público aparece constantemente nas falas dos organizadores. Rodolfo Garcia é contundente ao afirmar que “tinha que ter bem mais espaços de cultura. É uma falta de vontade política em relação à cultura local que é difícil. São fatos, a Secretaria da Cultura é como um freio de mão, que puxa para trás. Existe uma profunda vontade política de segurar nossas oportunidades. Não é uma relação muito amigável entre a cultura e os espaços culturais. Para os espaços, falta oportunidade. Não tem falta de público, mas tem pouco investimento. Bauru, do tamanho que é, tendo o potencial que tem, é escasso.”
Florindo reforça a crítica ao dizer que “a cultura parece inimiga da gestão.” A frase pesa, mas resume um sentimento compartilhado por quem tenta construir ação cultural na cidade.
A dependência de poucas instituições também preocupa os organizadores. Florindo afirma que “Bauru seria um deserto cultural sem o Sesc.” Turtelli concorda e acrescenta que “a não ser o Sesc, não existem outros espaços. Não tem, muito menos vindo do poder público. Se tem, é de quem se organiza e faz acontecer no coletivo.”
A discussão passa também pela necessidade de descentralizar a cultura na cidade. Florindo comenta que espera ver atividades culturais espalhadas pelos bairros, pelo centro, e não concentradas apenas no Vitória Régia ou canceladas sem explicação. Turtelli complementa dizendo que “eles não estão interessados na população. Se nós, que temos acesso, já sentimos a carência, imagina quem não tem.”
Mesmo diante desse cenário, o Sarau Sem Lei se firma como um espaço que integra, acolhe e propõe. Para além do entretenimento, promove rodas de escuta e debates sobre temas diversos, construindo um ambiente onde diferentes trajetórias se cruzam. Garcia, Florindo e Turtelli se veem como fazedores de cultura e gestores de um espaço que só existe porque muitas pessoas, por muitos motivos, precisavam dele.
Casa Mangue: arte e a nova cena alternativa bauruense
A Casa Mangue nasceu do encontro de dois artistas que carregavam, cada um à sua maneira, uma vontade antiga de transformar criação em convivência. Guilherme Massuchini, fotógrafo, e Paulo Billy, artista e tatuador, ocuparam um imóvel no Centro de Bauru e o transformaram em um laboratório vivo. Ali eles produziam, tatuavam, fotografavam e, aos poucos, perceberam que o espaço poderia ser mais do que um local de trabalho.
“O Mangue acabou virando um lugar de encontro de artistas que expõem”, diz Massuchini. A casa virou ponto de encontro de quem buscava respirar arte de um jeito mais espontâneo que o oferecido pelos espaços tradicionais da cidade.
Entrar na Casa Mangue é entrar em outro ritmo. A iluminação baixa, em tons vermelhos e amarelados, cria uma atmosfera quente e íntima, como se cada cômodo guardasse uma narrativa própria. As janelas amplas deixam passar feixes suaves de luz, e o som de conversas se mistura ao barulho do taco do chão da casa e da música, ambientada em três espaços diferentes. Em um dos ambientes, uma escada curta divide espaço com um sofá cheio de personalidade, daqueles que convidam tanto a sentar quanto a observar.
Fotos: Maria Clara Coelho
Para Billy, essa construção estética e afetiva é um gesto político dentro da cidade. “Temos uma carência enorme numa cidade de quase 500 mil habitantes. Não se vê falar de arte e cultura, tudo fica segregado em bolhas”, diz. Ele comenta que a falta de espaços abertos à comunidade LGBTQNPIA+ também pesa, e que o Mangue tenta ocupar essa brecha: “É raro lugares que realmente acolhem e proporcionam segurança.”
Essa forma de existir diferencia a Casa Mangue do Sarau Sem Lei, embora ambos dialoguem dentro da mesma cena alternativa de Bauru.
O Sarau funciona como encontro coletivo, movimento, explosão de poesia, música e performance. Já a Casa Mangue se apresenta como um cotidiano expandido. O público não só consome arte, mas entra em um lugar onde ela é produzida, onde artistas trabalham, circulam e se encontram. Billy comenta que esse cotidiano é fundamental: “Como artista, faltam lugares seguros, estáveis e remunerados para fazer e mostrar arte na cidade.” O Mangue, então, acaba servindo como uma espécie de abrigo para quem necessita estar perto do processo criativo.
Massuchini destaca que existem editais como a Lei Aldir Blanc e a Lei Paulo Gustavo, mas o Mangue funciona de modo independente. “Não temos auxílio de algo maior, mas movimentamos artistas da cidade o ano inteiro”, afirma. Ele reforça ainda o compromisso do espaço com acolhimento: “O Mangue surgiu como um espaço seguro, inclusive para a comunidade LGBTQNPIA+.”
Para Guilherme, essa realidade está ligada ao próprio cenário cultural da cidade. “A cidade que acredita no artista, incentiva, tem show, teatro e arte viva, transforma o artista que vive nela”, diz. Ele acrescenta que a presença de mais espaços artísticos muda a forma como as pessoas se percebem: “Quando tem mais lugar artístico, as pessoas se veem mais como artista.”
A Casa Mangue, ao lado de iniciativas como o Sarau Sem Lei, compõe um ecossistema cultural que existe apesar das dificuldades
A importância da cena cultural em Bauru
No fim, o ponto central dessa reportagem é simples: os espaços que hoje seguram a cena cultural de Bauru não são públicos. São bares, casas independentes, lugares que nasceram da vontade de alguns e não de uma política cultural estruturada. Eles cumprem um papel importante, mas não conseguem ser totalmente acessíveis.
Mesmo com preços baixos, com entrada livre em alguns dias, continuam sendo iniciativas privadas, e isso cria uma barreira. Quem não pode pagar uma cerveja, um ingresso simbólico ou um transporte até o centro dificilmente ocupa esses lugares. E enquanto o poder público não assume seu papel, as possibilidades de circulação cultural ficam limitadas a quem consegue entrar.
Se o cenário bauruense tivesse mais espaços gratuitos para apresentações ou editais contínuos, a experiência cultural não dependeria tanto da iniciativa privada. O acesso seria ampliado. A programação seria mais diversa. A cultura chegaria onde hoje não chega. Com políticas contínuas, a cidade poderia oferecer ambientes seguros e gratuitos para jovens, coletivos, artistas iniciantes e públicos que hoje ficam à margem.
Assim, os bares e casas independentes, em vez de funcionarem como substitutos do que falta, se tornariam o que deveriam ser: parceiros de uma cena vibrante, complementares, e não o único caminho possível. O contraste é esse. Hoje, Bauru tem cultura, mas não tem acesso garantido. Tem público, mas não tem porta pública para recebê-lo. Tem orçamento crescente, mas não tem prioridade suficiente para transformar esse aumento em espaços reais.




















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