Entre limitações e contrastes, os espaços públicos revelam uma cidade que convive com o abandono, mas reivindica lazer como direito
João Vitor Soares Fidelis, João Victor Neves Gonçalves, Murilo Tognette e Vitor Cocito Bergamini
As praças e parques de Bauru já foram, em diferentes épocas, sinônimo de encontro, prática esportiva, descanso e convivência entre vizinhos. Ainda hoje, mesmo diante de estruturas deterioradas e da falta de manutenção recorrente, esses espaços seguem como pontos fundamentais da vida urbana, especialmente para quem vive nos bairros periféricos.
Eles expressam um paradoxo típico das cidades brasileiras: ao mesmo tempo em que são reconhecidos como essenciais, são negligenciados em decisões políticas e orçamentárias.
Para entender o cenário bauruense, a reportagem percorreu diferentes regiões da cidade, revisou dados oficiais, consultou especialistas e conversou com moradores que utilizam essas áreas no cotidiano.
O que se observa é um mapa de contrastes: regiões centrais ou próximas a corredores estruturais recebem reformas com maior frequência; já áreas periféricas convivem com quadras escuras, equipamentos quebrados, chão irregular e ausência de segurança. Ainda assim, são nesses locais que a população mais insiste em ocupar as praças — seja por necessidade, seja pela resistência da vida comunitária.
Mapeamento: onde estão e como estão os espaços de esporte e lazer
Dados da Prefeitura de Bauru mostram que o município possui 48 academias ao ar livre e 10 centros esportivos, porém ainda conta com inúmeros espaços não listados que estão espalhados pelo perímetro.
O número, embora expressivo, não reflete por si só a qualidade da infraestrutura. Quando se examina a distribuição territorial e o estado de conservação de cada área, surgem assimetrias evidentes.
Em visitas realizadas em espaços como a Quadra do Jardim Nicéia, o Campo Polegar e a pista de Skate da Rua Araújo Leite, revelam um conjunto de problemas recorrentes: iluminação quebrada, piso irregular, alambrados rasgados, equipamentos enferrujados, ausência de bebedouros e pontos de sombra insuficientes.
Quadra Nicéia, R. Três, 160 – Jardim Niceia (Foto: Vitor Cocito Bergamini)
Campo do Polegar, R. Seis, 144 – Jardim Niceia (Foto: Vitor Cocito Bergamini)
Pista de Skate, R. Araújo Leite, 37-17, Vila Universitária (Foto: Vitor Cocito Bergamini)
De onde vem o dinheiro?
A principal fonte para manutenção e revitalização das praças é o orçamento municipal. A Lei Orçamentária Anual de 2025 (LOA) traz um panorama quantitativo do investimento realizado nos setores públicos.
Comparação Orçamentária das Secretarias em 2025 – LOA
(Gráfico: Agência Trilhos)
O comparativo dos orçamentos da Lei Orçamentária Anual evidencia a diferença de escala entre as áreas: enquanto a Secretaria de Educação recebe R$ 450.9 milhões e a de Saúde R$ 427.8 milhões, a Secretaria de Esporte e Lazer conta com R$ 18.4 milhões.
A disparidade mostra que, embora todas as pastas componham serviços públicos essenciais, o investimento destinado ao esporte e ao lazer representa uma fração muito menor do total previsto para 2025.
Evolução do Orçamento da Secretaria de Esporte e Lazer nos últimos 10 anos
(Gráfico: Agência Trilhos)
O gráfico mostra a evolução das despesas previstas na LOA para a Secretaria Municipal de Esportes e Lazer de Bauru entre 2015 e 2025. Ele permite observar oscilações nos investimentos ao longo dos anos, com períodos de aumento expressivo e de redução nos recursos destinados ao setor.
Infraestrutura Atual x Estrutura Ideal
Com a variação na qualidade dos locais observados, fica claro que os espaços apresentam características que os distanciam de se tornarem estruturas modelos. Aspectos como iluminação, conservação dos equipamentos e regularidade da manutenção variam entre as áreas, o que influencia de maneiras distintas a forma como são utilizados pela população.
O secretário de Esportes e Lazer de Bauru, Leandro Avila Rodrigues, também conhecido como Foguinho, conta em entrevista realizada à Agência Trilhos que boa parte das demandas por manutenção chegam por meio dos próprios moradores e vereadores. Segundo ele, a equipe busca entender quais espaços têm maior fluxo, e por isso, exigem prioridade.
“Estamos concluindo um estudo para identificar quais praças têm maior frequência de uso. Um bosque da comunidade e o Parque Vitória Régia, por exemplo, são espaços que naturalmente exigem uma atenção especial devido ao grande número de crianças e moradores que frequentam esses locais”, explica.
Foguinho também aponta que há limitações de estrutura no momento, especialmente no que diz respeito a brinquedos e playgrounds.
“Hoje, por exemplo, nós estamos sem brinquedos, sem playground, mas já estamos buscando meios para fazer uma nova compra e instalar”, afirma o secretário, destacando que a parceria com moradores e comércios próximos também é essencial para enfrentar problemas como depredação e vandalismo, que ele descreve como “uma luta diária”.
O secretário reconhece que ainda existem dificuldades em estabelecer parcerias com empresas privadas, mas garante que isso está entre suas prioridades. Segundo ele, uma das metas é oferecer praças esportivas para que empresas adotem e ajudem na manutenção do espaço.
“Eles não vêm até nós, nós vamos ter que ir até eles, quero colocar o pessoal para ir até as empresas e buscar essa parceria, um exemplo é a negociação que está em andamento para instalar um stop bike na região da Avenida Getúlio Vargas”.

Secretário de Esportes e Lazer de Bauru, Leandro Avila Rodrigues (Foto: Prefeitura de Bauru)
Ele também destaca que busca trazer novidades para a infraestrutura esportiva da cidade, incluindo novos tipos de piso, conhecidos em cidades como Taboão da Serra e Osasco.
“Conheci um tipo de piso que funciona como um Lego, com amortecedor, usado até pela equipe Magnus Futsal Feminino, gostei muito e acredito que será uma das principais novidades que vamos trazer para Bauru” , relata o secretário.
Além disso, Foguinho menciona outras melhorias previstas.
“O objetivo é priorizar praças bem frequentadas e garantir que continuem vivas e úteis à comunidade com o novo projeto de iluminação pública, revitalização de gramados e a possível compra de equipamentos, como brinquedos e academias ao ar livre”, destaca.
+Praças e Espaços de Lazer e Esporte em Bauru:
Quadras da Getúlio, 16-75, Av. Getúlio Vargas, 16-1 – Jardim América, Bauru – SP
Quadra Esportiva (3-99, R. Rubens Pagani, 3-1 – Jardim Estoril, Bauru – SP)
Complexo de Esporte e Lazer (Av. Moussa Nakhl Tobias, 3-55 – Parque Sao Geraldo, Bauru – SP)
Como a população ocupa esses espaços
Apesar das dificuldades, as praças seguem sendo ocupadas. Assim conta o morador do Jardim Nicéia, Reginaldo Evangelista, que começou a oferecer aulas de jiu-jitsu na quadra do bairro porque não havia outro local disponível para treinar as crianças.
Ele lembra que era o único espaço possível, mas que a falta de estrutura tornava tudo muito difícil: “como a quadra não tem cobertura, quando chovia ou fazia muito sol ficava impossível continuar, as crianças não tinham condições de treinar com segurança”, afirma. Diante disso, o projeto acabou precisando interromper as atividades.
Há dois anos, porém, o grupo conseguiu um espaço dentro de uma igreja, onde atende cerca de vinte e cinco crianças gratuitamente.
“Com a ajuda da comunidade, conseguimos kimonos para todos, então estamos com uma estrutura bem melhor agora”, relata Reginaldo.
Mais importante do que formar atletas, ele explica, é transmitir valores. “O essencial é ensinar disciplina, dentro e fora do tatame; isso vale mais do que qualquer medalha, todo o trabalho é voluntário e busca priorizar o bem-estar das crianças” , destaca.
A dedicação também aparece fora das aulas. Em dias de competição, Reginaldo precisa “correr atrás de lanche, transporte e carro para levar todos”, mas afirma que o esforço sempre compensa. “Quando vejo o sorriso deles, todo o esforço vale a pena; queremos que cresçam como pessoas de bem e encontrem no esporte um caminho positivo”, conclui.
Por que praças importam: a visão dos especialistas
Praças não são apenas lugares de lazer, são estruturas de saúde pública, segurança, educação e convivência. Assim destaca o educador físico João Pedro Lopes, formado pela Unesp de Bauru.
João Pedro destaca sobre a falta de segurança como um dos principais fatores que limitam o acesso da população ao esporte em espaços públicos.
“Entre os fatores agravantes é importante falar da segurança, porque muitas praças esportivas em alguns bairros, principalmente da periferia, são utilizadas para atividade ilegal, como tráfico”, comenta.

(Foto: Instagram – João Pedro Lopes)
Para João, o esporte tem um papel fundamental no desenvolvimento social e emocional, ao exigir disciplina, respeito e capacidade de lidar com frustrações.
“Todas essas são habilidades que são essenciais no comportamento da pessoa e na hora de lidar com o outro ser humano, na interação social e como o seu caráter também pode ser moldado”, afirma.
Ele reforça que a falta de manutenção nas praças diminui ainda mais o uso desses espaços, tornando-os impróprios para atividades físicas.
“As universidades podem ajudar a reverter esse cenário ao aproximar esporte, escolas e comunidade por meio de projetos de extensão que utilizem tanto suas próprias estruturas quanto às praças públicas — como já ocorre na Unesp de Bauru, com iniciativas como o Ativa Parkinson, a iniciação ao handebol e aulas de natação gratuitas realizadas dentro e fora do campus”, explica.
+Entrevista completa com João Pedro Lopes
Jornalismo de soluções — Caminhos para uma Bauru mais democrática
Diante do cenário, as alternativas identificadas ao longo da reportagem, que envolvem não apenas orçamento, mas também definição de prioridades na gestão pública, destacam-se:
- Criação de um programa municipal permanente de manutenção, com equipes regionais e cronograma transparente.
- Ampliação de parcerias com empresas, especialmente em regiões periféricas.
- Calendário fixo de ocupação, com torneios, aulas, eventos culturais e ações esportivas.
- Comitês comunitários de gestão, auxiliando SEMEL e Obras no monitoramento.
- Transparência total dos dados de infraestrutura e reformas, com atualização mensal.
O lazer como direito e como disputa
Em Bauru, iniciativas comunitárias como o Vozes do Nicéia e o uso cotidiano das praças mostram que esses espaços continuam sendo incorporados à rotina dos moradores, mesmo com limitações estruturais.
Ao mesmo tempo, o cenário evidencia desigualdades: o acesso a áreas de lazer de melhor qualidade varia entre os bairros, e as decisões sobre onde investir seguem como pontos centrais no debate público.
Questões como a distribuição das reformas, a manutenção contínua e os critérios de prioridade permanecem em discussão. O acesso ao lazer está relacionado a aspectos de saúde, segurança e convivência social, e a organização desses espaços influencia diretamente a forma como diferentes grupos utilizam e se apropriam do ambiente urbano.
+Indicações
- “Vida em Movimento”: Este documentário, idealizado por Marcio Atalla, discute o impacto da atividade física na vida das pessoas e a importância de promover a saúde pública através do movimento e do uso de espaços acessíveis, como as academias ao ar livre e parques.
- Uma Skatista Radical (“Skater Girl”): Conta a história de Prerna, uma adolescente da Índia rural que descobre sua paixão pelo skate e luta contra as tradições e expectativas da sociedade para seguir seu sonho de competir no campeonato nacional.
- Praça do Skate: Este documentário brasileiro aborda a história da primeira pista de skate da América Latina, localizada em Nova Iguaçu – RJ, e as histórias e personagens envolvidos na sua criação. Disponível no Prime Video.






























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