Cidade do interior paulista se destaca por sediar duas semanas do evento
Beatriz Marrancone, Guilherme Corte e Maria Paula Bertozzi
Ouça a playlist com artistas do evento no link
O Brasil, assim como diversos outros países, enfrentou o processo de apagamento da cultura negra. Tal processo pode ser realizado de diversas maneiras, dentre elas: supressão, invisibilização e esquecimento sistemático das contribuições, da história, da ancestralidade e das identidades da população negra.
Isso pode ser percebido a partir da exclusão de narrativas afro-brasileiras dos currículos escolares, da apropriação cultural sem reconhecimento das origens, da negligência do Estado em preservar espaços de memória e do racismo estrutural que marginaliza práticas e crenças de matriz africana.
A filósofa, antropóloga e autora brasileira, Lélia Gonzalez. aborda esse assunto ao falar sobre a América Latina, em que é chamada pela autora de Améfrica Ladina. O primeiro termo demonstra uma retomada do passado americano, tendo como base os africanos, trazidos por europeus como escravos.

Os africanos, além do trabalho, trouxeram contribuições visíveis, porém ignoradas por muitos, nos dias atuais. Diversos costumes e, até mesmo, religiões praticadas por brasileiros são de matrizes africanas. De acordo com a própria autora, o idioma falado no Brasil pode ser chamado de “Pretoguês”, pois retrata uma africanização do nosso idioma.
O exemplo trazido pela própria Lélia Gonzalez é o uso de R ao invés de L em algumas palavras. Enquanto nossos vizinhos sul-americanos falam “playa”, no Brasil falamos “praia”. Esse processo ocorreu por conta de idiomas falados por escravizados que, ao longo dos séculos, se tornaram disseminados no país.
Já o segundo termo, “Ladina”, se refere a tudo o que foi roubado e/ou sofreu tentativa de apagamento por conta de ser de origem africana. Esse processo fica visível no racismo estrutural do nosso país.
O racismo estrutural vai além de proferir ofensas racistas a alguém e foi instaurado de maneira proposital para continuar o processo de esquecimento e apagamento da cultura negra no país.
Dois dos movimentos artísticos mais marginalizados na nação tupiniquim são o Rap e o Hip Hop, movimentos de origem negra e chamados de “movimento de bandido” por certas pessoas. Tais ofensas são exemplos do racismo estrutural no país.
A Semana de Hip Hop em Bauru
Durante os dias 07 e 16 de novembro de 2025, ocorreu a 13º Semana do Hip Hop em Bauru. Mesmo trazendo consigo uma forma de lembrança, luta e resistência contra o racismo estrutural e o apagamento da cultura negra na cidade, os produtores encontraram diversos obstáculos para a realização do evento.
O evento nasceu em 2011 com iniciativa do Instituto Acesso Popular e foi transformado em Lei Municipal em 2013, e tornou-se evento oficial da cidade, considerado o maior festival de Hip Hop 100% gratuito da América Latina. Mesmo com apoio da Prefeitura, os organizadores contam com ajuda de coletivos e trabalho voluntário para realizar as apresentações e oficinas.
Em 2024 e 2025, o orçamento disponibilizado pela Secretaria de Cultura de Bauru foi de R$ 50.000,00, para o pagamento de cachês dos artistas que participaram das apresentações e oficinas.
| Descrição dos valores dos cachês artísticos 2025 | |||
|---|---|---|---|
| Quantidade | Contratação | Descrição das atividades | Remuneração total para cada artista |
| 02 | Mediador Eventos | 02 apresentações de no mínimo 4h | R$2.000,00 |
| 01 | Mediador Batalha de Breaking | 01 apresentação de no mínimo 4h | R$1.000,00 |
| 01 | Mediador Batalha de Rima | 01 apresentação de no mínimo 4h | R$1.000,00 |
| 02 | DJs | 02 apresentações de no mínimo | R$2.000,00 |
| 02 | Mestre do Conhecimento | 05 apresentações de no mínimo | R$2.000,00 |
| 10 | Rappers Oficinas | 03 apresentações, sendo:01 apresentação autoral nas Batalhas de Rima (mínimo 30 min cada) 02 apresentações em escolas (mínimo de 4h) | R$1.000,00 |
| 04 | Rappers Shows | 01 apresentação de no mínimo 1h | R$1.000,00 |
| 08 | B.Boys ou B.Girls | 03 apresentações, sendo:01 apresentação autoral (mínimo 30 min cada) 02 apresentações em escolas (mínimo de 4h) | R$1.000,00 |
| 07 | Grafite | Produção individual de Grafite em escolas e espaços públicos, com área mínima de 9m quadrados | R$1.000,00 |
| 03 | Beatmaker/Seletor | 02 apresentações em escolas (mínimo de 4h cada) | R$1.000,00 |
| 04 | Batalha de Rimas (Grupo formado por no mínimo 03 integrantes) | 02 apresentações com no mínimo 2h cada | R$1.000,00 |
Fonte: Agência Trilhos com informações do Edital 2025
Para o artista ser selecionado para se apresentar ou ser mediador durante o evento, a Secretaria da Cultura disponibiliza um edital. Nesse processo, os participantes enviam suas propostas de apresentações ou trabalho em forma de vídeo, a fim de mostrar seu desempenho.
Mas além da Prefeitura Municipal e dos coletivos organizadores, a Semana de Hip hop contou com apoio do Sesc e Senac na disponibilidade de espaços e organização de oficinas, como a de Fashion Cycling.

E quem faz esse evento acontecer?
Não é no palco, mas nas reuniões dos coletivos, grupos de whatsapp e dias e noites de organização que a Semana do Hip Hop realmente começa. Entre coletivos, produtores, cantores, DJs e vários outros profissionais, o evento — apesar da sua notoriedade — ainda é realizado quase exclusivamente por trabalho voluntário, como conta Luiza Lima, uma das produtoras do evento.
“A principal dificuldade foi reunir tantos artistas do hip hop sem poder oferecer compensação por isso”, explica ela sobre a falta de verba por parte da Semana do Hip Hop, o que limita a gama de artistas que participam do evento, uma vez que pessoas de outras cidades tenham que arcar com a hospedagem e transporte para Bauru. Para a produtora, isso é motivo de desânimo.
“Muita gente vive da sua arte e, merecidamente, deveria receber por isso. Ainda que seja um evento de grande porte, a Semana do Hip Hop de Bauru não consegue remunerar os artistas, as comissões, a equipe, justamente por ser um trabalho totalmente voluntário. Nisso, perdemos muito na hora de convidar um artista de outra cidade”, confessou.
A estrutura de organização do evento é híbrida e conta tanto com poder público, com a Secretaria de Esporte e Lazer (SEMEL), quanto a sociedade civil, com representantes de membros do coletivo, como o Instituto Formando Mentes Coletivas (IFMC), além dos próprios artistas.
“A comissão de organização é dividida entre poder público e sociedade civil. E sim, contamos com artistas nessa organização. No lado da sociedade civil, por meio dos coletivos, nossos representantes são o Vinão, produtor cultural, a DJ Mozzao e o Mano Dharlão”, explicou Luiza.
O foco dessa adição abraçou o seu objetivo inicial: valorizar a cultura hip hop, mas além disso: “mostrar que tem espaço pra todo mundo dentro da cultura do hip hop”, diz a produtora.
Ademais, outros detalhes foram incluídos na organização para democratizar ainda mais o acesso a essa semana cultural. Coletivos, como o Vozes da Periferia (AMTT) e o próprio IFMC, iniciativas que buscam “ensinar e integrar através do Hip Hop”, tiveram mais visibilidade durante a organização.
A localização de cada evento também foi pensada como forma de incluir as regiões mais periféricas de Bauru e dar visibilidade aos eventos gratuitos, que, segundo Luiza, são pouco conhecidos pela população local.
“O bauruense tem carência de atividades gratuitas que valorizem sua cultura. Principalmente, no que diz respeito à periferia de Bauru. Fazer vários eventos espalhados pela cidade faz com que cheguemos mais perto dessa galera e possamos mostrar um pouco mais do hip hop”, contou e completou dizendo que cada pessoa atingida, era uma vitória.
“Sempre achamos que poderia ter mais pessoas participando. Mas, se uma única pessoa foi atingida pelos nossos esforços, conheceu um artista novo, teve contato com essa arte pela primeira vez, nós já ficamos satisfeitos”
A semana foi repleta de diversos artistas, com enfoque nos artistas locais e na pluralidade de vozes presentes, como o Rapper Gog, DJ Ninja Killah, RFisEmControle, Olococão, DJ Mozzao, Laris MC. Além de Shows, batalha de breaking e rima, e performances de graffiti também comporão as principais atrações.
Confira no Web Story abaixo algumas das principais atrações que se apresentaram na 13º Semana do Hip Hop
A variedade de artistas de renome presentes no evento foi algo que agradou o público também, como contou Vinicios Cotrim, estudante de Jornalismo e espectador da Semana.
“O que me chamou a atenção nessa edição da Semana do Hip-Hop foi o tamanho das atrações que abriram a semana, que fecharam, no caso do GOG que abriu, o Febem que fechou, que são dois artistas muito conhecidos pelo público, pela bolha que acompanha o Hip-Hop, e até por quem não acompanha, também gostei muito da pluralidade de atrações”, disse.
Entretanto, como produtora, Luiza se mostra insatisfeita com um contratempo em uma das principais atrações da semana. “Um dos shows principais do encerramento, se não fosse o boicote da prefeitura, seria de uma grande artista que saiu daqui pro mundo, a Boombeat”, explicou ela.

Em um comunicado oficial feito pelo perfil da Semana de Hip Hop no instagram (@semanahiphopbauru.ofc), a comissão organizadora explica que o cancelamento tanto do show da Boombeat, quanto do da cantora Brisa Flow, se deu por conta de atrasos e falta de suporte por parte da Secretaria Municipal de Cultura.

A comissão explica que houve cobranças do setor cultural com pelo menos 6 meses de antecedência, mas o processo todo começou a ser realizado apenas no fim do prazo, “resultando na Semana com o menor tempo de organização em mais de treze anos”, diz o comunicado.
Além do atraso, a falta de apoio administrativo, por parte da secretaria responsável legal pela execução da política pública, também atrapalhou a realização do evento, como conta a nota divulgada dia 15 de novembro.

Apesar de todos os contratempos, a comissão agradeceu à comunidade e aos coletivos de artistas “que mantiveram a Semana viva apesar das dificuldades”.
E Luiza, como parte da comissão de comunicação, também se mostrou satisfeita com o engajamento nos posts de divulgação dos eventos: “Tivemos pessoas ativas o todo tempo, respondendo e repostando conteúdo, tirando dúvidas, coisas essenciais pra trazer o público pra mais perto.”
Já durante os eventos, Vinicios comentou sua percepção de que este ano, o engajamento do público geral foi um pouco baixo comparado aos anos anteriores. “Mas o que eu notei diferente foi que nos outros anos teve uma adesão maior do público geral, que não é tão assíduo do movimento hip-hop, que escuta mais o que de fato é estourado, dá pra dizer assim.”
Durante eventos mais específicos, como batalhas de breaking, grande parte das pessoas presentes era de participantes e não de espectadores. “Na batalha de breaking que teve no início da semana, pouquíssimas pessoas que não participaram da batalha estavam presentes”.
Apesar disso, a dinâmica de algumas crianças presentes com a batalha, o agradou bastante: “Foi algo bem legal assim, ver as crianças que são crianças ainda, de fato, batalhando, fazendo movimentos e o adulto com mais consciência do corpo, fazendo coisas inimaginável para a gente que não pratica a dança.”
E para Vinicios, que tem familiaridade com o Hip Hop, ter a oportunidade de participar do maior evento do gênero no Brasil, significa muito. “Isso representa muito para quem é morador da cidade e eu acho que representa ainda mais para quem vem da periferia como eu, que sou da periferia de São Paulo desde moleque”.
“O hip-hop é algo que está muito presente na minha vida. Chegar em Bauru e ter um evento desse porte, desse tamanho, é um dos maiores eventos de hip hop da América Latina, representa muita coisa”, explicou.







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