Entre secas, enchentes, queimadas e falta d’água, Bauru expõe os extremos do desequilíbrio ambiental
Beatriz Almeida, Giulia Morais, Giovana Araujo, Lana Vitória e Sarah Galindo
Há mais de duas décadas, os moradores de Bauru convivem com a insegurança de abrir a torneira e não saber se haverá água. A crise hídrica, que começou a se intensificar no início dos anos 2000, tornou-se parte da rotina da cidade e revela um problema estrutural que atravessa governos, estiagens e gerações. Dependente do Rio Batalha para grande parte do abastecimento, o município enfrenta ciclos de racionamento que se agravam nos meses de seca, quando longos períodos sem chuva reduzem drasticamente o nível do manancial.

Imagem: Sampi.net.br
Ao longo desse tempo, Bauru cresceu, a população aumentou, novos bairros surgiram, a demanda por água disparou, mas os investimentos em infraestrutura não acompanharam esse ritmo. A expansão urbana avança há anos enquanto o sistema de abastecimento permanece limitado, pressionando ainda mais um rio já degradado e vulnerável. Assim, o que começou como uma dificuldade pontual se transformou em um cenário dramático: bairros que chegam a ficar até 72 horas sem água, rodízios frequentes e uma rotina marcada pela incerteza.
Com o passar dos anos, a saúde do Batalha se deteriorou por vários fatores, muitos deles ligados à falta de cuidado: pastagens, desmatamento e uso inadequado do solo na bacia hidrográfica provocaram erosão. A terra “lavada” vai para os afluentes e para o rio principal, aumentando o assoreamento. Muitas nascentes e pequenos córregos que alimentavam o Batalha recuaram ou desapareceram.
A crise hídrica atual é estruturalada e não se resume apenas à seca ou ao clima. A escassez vem de um acúmulo de erros de gestão, planejamento e investimentos insuficientes.

Em torno de 150 áreas de nascentes derivadas do Batalha precisam ser reflorestadas. Imagem: Tem Notícias/Luiz Toledo
Segundo o SINISA 2023, Bauru registra 44,30% de perdas na distribuição de água, um desperdício incompatível com um município que convive com crises hídricas recorrentes. Embora o índice não esteja entre os mais extremos da amostra, ele demanda ação imediata, sobretudo quando comparado às metas da Portaria 490/2021, que estabelece limite máximo de 25% até 2034. Na prática, Bauru opera 77,2% acima do limite recomendado e apresenta perdas volumétricas de 386,15 L/ligação/dia, valor 78,8% superior ao permitido (216 L/ligação/dia).
O desempenho também é desfavorável quando observados municípios paulistas com resultados mais eficientes: Campinas (19,67% de perdas), São José do Rio Preto (19,26%) e mesmo Piracicaba, que embora registre 55,40% de perdas, já universalizou o tratamento de esgoto. Bauru, com 44,30% de perdas, permanece distante de padrões considerados adequados.
A situação se agrava ao analisar o Indicador de Tratamento Total de Esgoto (ITR). Conforme o Ranking do Saneamento 2025, Bauru trata apenas 3,20% de todo o esgoto gerado — o segundo pior resultado entre os 100 municípios avaliados. Esse indicador mostra a proporção do esgoto coletado que passa por tratamento antes de retornar ao meio ambiente.
Na metodologia do estudo, ele representa a porcentagem do esgoto efetivamente tratado em relação à água consumida, refletindo a eficiência real do sistema. A média dos 100 maiores municípios é de 65,11%, mais de vinte vezes superior ao desempenho bauruense. O contraste é ainda mais grave quando comparado aos municípios classificados como universalizados, que tratam 80% a 100% do esgoto.
Essa insuficiência revela um problema estrutural: praticamente todo o esgoto produzido na cidade é lançado sem tratamento adequado, com impactos diretos sobre saúde pública, contaminação de corpos hídricos e degradação ambiental. O ITR de 3,20% coloca Bauru entre os piores cenários nacionais e evidencia que a cidade não só está distante da universalização, mas opera em patamar considerado crítico pelo próprio Instituto Trata Brasil.
Quadro: Piores Municípios – Indicador de Tratamento de Esgoto

Fonte: SINISA (2023). Elaboração: GO Associados.
O estudo também mostra que a redução das perdas de água para 25%, limite estabelecido pela Portaria 490/2021, poderia ampliar a capacidade de abastecimento sem novas captações, reduzir a pressão sobre o Rio Batalha durante estiagens e diminuir custos operacionais com energia e produtos químicos. Nacionalmente, atingir essa meta economizaria 1,9 bilhão de m³ de água por ano, suficiente para abastecer 31 milhões de brasileiros.
O Ranking revela ainda que, entre 2019 e 2023, Bauru investiu apenas R$ 21,43 por habitante, valor 90,4% inferior aos R$ 223,82 anuais necessários segundo o PLANSAB para que o país cumpra as metas de universalização até 2033. A insuficiência de investimentos aparece diretamente refletida nos índices municipais. As perdas decorrem de vazamentos frequentes, infraestrutura envelhecida, extravasamentos em reservatórios e falhas nos ramais de ligação até o ponto de medição. Já o baixíssimo tratamento de esgoto aponta falta de estrutura adequada para coleta, condução e operação de estações de tratamento.
No conjunto, os dados evidenciam que Bauru enfrenta simultaneamente desafios centrais, como a ineficiência hídrica e colapso no sistema de esgotamento sanitário.
Segundo a vereadora Estela Almagro (PT), o sistema de água e esgoto carece de inovação e modernização. Ela alerta que informações fundamentais para o município correm risco de se perder caso funcionários que detêm esse conhecimento se aposentem ou venham a falecer.
“A modernização ainda não chegou ao departamento de água e esgoto, eu vejo o DAE como um espaço onde você deveria ter um CEO comandando, ainda que tivesse viés político, mas ele precisa ter um gestor. E ultimamente, esses últimos mandatos todos, e neste também, você troca de presidente a cada ano, então todo ano eu troco o presidente do DAE. E aí você não estabelece uma política de médio e longo prazo”, afirma em entrevista.
Seca e queimadas
Bauru possui clima tropical, caracterizado por verões quentes e chuvosos (dezembro a fevereiro) e invernos secos, porém não necessariamente frios (junho a agosto). Em 2025, porém, a cidade vive um dos períodos de seca mais severos dos últimos anos, que se estende não apenas no inverno, mas por todo o ano. De acordo com os dados divulgados até o momento pelo IPMet, o único mês em que choveu igual ou acima da média histórica foi junho. A situação se agravou na transição entre o inverno e a primavera: de agosto a setembro, apenas 8,4 mm de acúmulo de chuva foram registrados.
Setembro e outubro foram os meses mais quentes do ano na cidade até então, com máximas de 37,2ºC e 37,8ºC, respectivamente. O período de estiagem (com pluviosidade zero) se manteve do dia 28 de agosto até 22 de setembro, com precipitações mínimas e insuficientes para alterar o cenário de seca ao longo dos dois meses. A primeira chuva significativa que excedeu 10mm ocorreu em 13 de outubro (64,3mm), marcando o último bimestre como o mais seco dos últimos 18 anos e colocando o município em estado de emergência, decretado pela prefeitura em 1 de outubro.
Segundo critérios de risco utilizados pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), a combinação de umidade relativa abaixo de 30%, temperaturas superiores a 30°C, escassez de chuvas e ventos moderados ou fortes são elementos cruciais que favorecem a formação e dispersão de focos de incêndio em vegetações.
Quando a umidade cai em níveis críticos, a cobertura vegetal perde água rapidamente, ficando altamente inflamável. A ausência prolongada de precipitação agrava o ressecamento do solo, enquanto o calor intensifica a evaporação e o vento ajuda a espalhar qualquer sinal de fogo. Esses fatores, usados no cálculo do Índice de Inflamabilidade do INMET, formam o ambiente ideal para que um pequeno foco se transforme rapidamente em incêndio de grandes proporções.
Durante os meses de setembro e outubro, o IPMet identificou índices de umidade relativa do ar entre 12% e 20% em Bauru em vários dias do mês, além de temperaturas que atingiram acima dos 37ºC, configurando um quadro climático semelhante ao de desertos.
Em 21 de setembro, foram identificados 67 focos de calor no município; já em 2 de outubro, a Defesa Civil Municipal registrou 96 ocorrências em apenas 24h, sendo o maior número do ano.
Setembro foi marcado por mais de 170 chamados de incêndios em matas, pastagens e áreas urbanas, atingindo fragmentos de Cerrado e afetando a fauna local. Na última semana do mês, a cidade passou dias coberta por fumaça densa resultante das diversas queimadas que assolaram a região simultaneamente.
Incêndio na mata ao lado do condomínio Residencial Rosa dos Ventos em frente à Unesp, no dia 30 de setembro de 2025. De acordo com a Defesa Civil, as chamas queimaram por volta de 16 hectares, equivalente a 23 campos de futebol. (Fotos: Lucas Rubim de Mello)
A partir do dia 29 de setembro, na região do Jardim Colonial, moradores registraram em massa ocorrências de incêndios em áreas de mata por volta das 17h. Contudo, o atendimento do Corpo de Bombeiros ocorreu apenas no dia 30, a partir das 13h30. Segundo a Polícia Militar do Estado, em razão da dificuldade de acesso ao local, as ações de combate tiveram início somente por volta das 16h e não foram suficientes para conter o avanço das chamas naquele momento.
A bióloga Jennifer Roberta, moradora da região, relata que, após a atuação dos bombeiros, o fogo foi retomado no início da noite e alcançou o muro do condomínio onde reside, levando os próprios moradores a se mobilizarem por horas no combate, enquanto o Corpo de Bombeiros atuava em outra queimada paralela no Instituto Lauro de Souza Lima. “Os moradores ficaram desesperados porque aí de fato o fogo estava no muro, aquela fumaça entrando em apartamento, o pessoal indo embora, o pessoal com falta de ar. E outras pessoas corajosas ficaram ali apagando o fogo e aí a gente ficou sabendo que eles apagaram até três, quatro horas da manhã. Aí o bombeiro acabou chegando, mas eles já tinham contido, já tinham apagado”, comenta Jennifer.
Além das influências climáticas, a Defesa Civil aponta como principal suspeita sobre a origem do fogo o descarte incorreto de lixo, mas não elimina a motivação criminosa.
Entre 1 de julho e 5 de agosto de 2025, a maior parte dos incêndios de Bauru foi causada por ações criminosas, segundo o coordenador da Defesa Civil, Marcelo Ryal. “As chuvas tardias deste semestre, que só chegaram no outono e início do inverno, contribuíram para o crescimento do capim em pastagens extensivas de Bauru, onde muitos ateiam fogo com intenção de ‘limpar’ o terreno”, afirmou o engenheiro ao JCNet. Neste período, o número total de ocorrências foi de aproximadamente 150 focos.
Impactos
A crise climática vivida por Bauru em 2025 integra uma tendência mais ampla observada em diversas regiões do país. A persistência de uma seca severa, com vários meses seguidos abaixo da média histórica, associada a temperaturas altas e baixa umidade, sugere a intensificação de eventos extremos. No cenário nacional, dados do INPE e do MapBiomas indicam que o Cerrado perdeu, somente em 2025 até o momento, 308.923 km² em incêndios. Essa é uma área maior que a extensão territorial da Itália (~301.340 km²) e representa 58,1% do total de vegetação perdida em todo o país neste ano.

Comparativo mapa do Cerrado brasileiro x mapa da Itália no Brasil
Fonte: Cerrado.org, Mapfight
Decorrente da seca prolongada, a lagoa de captação do Rio Batalha, responsável pelo fornecimento de água a cerca de 27% da população, registrou níveis muito abaixo do ideal. Em 2 de setembro, o volume chegou a 1,84m, quando o recomendado para operação segura é próximo a 3,20m. Sem chuvas significativas por meses consecutivos, o solo perdeu capacidade de infiltração e a recarga hídrica não ocorreu, reacendendo o debate sobre a vulnerabilidade do sistema, marcado por duas décadas de obras interrompidas, planejamento hídrico falho e infraestrutura defasada.
A queda contínua do nível agravou a crise: no início de outubro, com apenas 1,22m, moradores passaram a enfrentar até 72 horas seguidas sem água devido ao rodízio de abastecimento nos bairros atendidos pelo Batalha.
Além da captação hídrica, a seca e a fumaça atingem diretamente a saúde e a vida cotidiana da população. A baixa umidade intensificou casos de alergias, crises respiratórias, irritações de pele e sangramentos nasais. De acordo com o Secretário de Saúde de Bauru, Marcio Cidade, as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) registraram um aumento de quase 150% no volume de atendimentos relacionados a doenças respiratórias até junho de 2025, especialmente em crianças e idosos.
Jennifer Roberta pontua que, durante as queimadas intensas próximas à sua residência, “mesmo lacrando o apartamento, fechando tudo, a fumaça estava aqui dentro. Eu tenho uma gata que tem bronquite, eu já tenho meus problemas respiratórios, meu marido também. Eu não conseguia puxar o ar, começou a me dar uma dor muito forte no peito e na cabeça”.
Diante desse quadro, autoridades estaduais e municipais intensificaram ações emergenciais. A Defesa Civil emitiu sucessivos alertas por meio do programa SP Sem Fogo, orientando a população sobre os riscos e medidas de prevenção.
Já a Prefeitura de Bauru, ao decretar estado de emergência no início de outubro, orientou para que o Departamento de Água e Esgoto de Bauru (DAE) priorize o uso de águas não potáveis para combate aos focos de incêndio, oferecendo pontos para abastecimento de caminhões-pipa. Todos os órgãos municipais foram convocados para formar uma força-tarefa coordenada pela Defesa Civil Municipal de Bauru, com disponibilização de veículos, equipamentos e equipes para prevenção e combate a queimadas.
Plano Diretor
O Plano Diretor é o conjunto de planejamento, objetivos e princípios urbanisticos que visa garantir o desenvolvimento de uma cidade, elaborado pelo poder Executivo e Legislativo, com apoio de equipes técnicas multidisciplinares do município. Para sua elaboração, são necessárias três etapas fundamentais.
A primeira etapa consiste na leitura territorial, momento em que se reconhecem os problemas existentes e identificam-se os temas relevantes para o desenvolvimento urbano. Na segunda etapa, explora-se como esses problemas podem ser solucionados, quais desafios precisam ser enfrentados e quais estratégias são viáveis para o território, tomando como base os resultados da etapa anterior.
A terceira e última etapa determina os instrumentos que serão usados para intervir, controlar, regulamentar e direcionar o desenvolvimento previsto no Plano Diretor, além de definir as ferramentas complementares que funcionarão como recursos adicionais na realização das ações necessárias.
Em síntese, as etapas se classificam nesta ordem:

Fonte: Elaborado a partir do Guia Para Elaboração de Planos Diretores
Luciane Marisco, professora de Geografia Urbana da Universidade Federal de Alagoas e especialista em dinâmicas urbanas, gestão e planejamento territorial, explica que em alguns casos, a participação da sociedade civil na organização do Plano Diretor, por mais que seja uma das diretrizes gerais para a criação do documento, não acontece como deveria na prática.
“Não adianta falar assim ‘Olha, é planejamento participativo’, mas coloca [as reuniões públicas] em horário que a população não vai. Não tem condição de dia à tarde, numa terça-feira, 14 horas, por exemplo. […] o planejamento participativo ele, na maioria das vezes, é só de fachada”, afirma em entrevista.
O Plano Diretor de Bauru encontra-se em processo de revisão e foi encaminhado como Projeto de Lei à Câmara Municipal para aprovação e votação pelos vereadores. Até o fechamento desta reportagem, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente não havia informado quais outras iniciativas estão em andamento para o enfrentamento das crises climáticas e dos desafios de infraestrutura urbana, além das diretrizes previstas no Plano Diretor.
Enchentes e Infraestrutura
As enchentes em Bauru não são um problema recente, fazem parte da paisagem urbana há décadas e se intensificaram com o passar dos anos. De acordo com o Plano Diretor de Drenagem Urbana, as áreas mais suscetíveis a alagamentos estão distribuídas principalmente em regiões onde o solo urbano foi historicamente impermeabilizado sem que houvesse obras de infraestrutura proporcionais. Bairros cortados por fundos de vale e áreas próximas aos córregos aparecem entre os mais afetados.
Esse mapeamento identifica pontos críticos onde o sistema de drenagem já não suporta o volume das águas das chuvas, especialmente durante eventos intensos. Esta é a consequência de um conjunto de fatores: canalizações antigas, ocupação desordenada e falta de manutenção contínua ao longo dos anos. Ao tentar diminuir os impactos, a Prefeitura afirma que segue as orientações do Plano Diretor, que inclui limpeza regular de galerias, abertura de bocas de lobo e a execução de obras de micro e macrodrenagem.

Fonte: Baseado em dados do IPMet UNESP Bauru (1981 a 2015).
As enchentes em Bauru afetam diretamente a rotina e a segurança de milhares de moradores, principalmente aqueles que vivem ou circulam diariamente por regiões próximas a córregos e avenidas como a Nações Unidas – área historicamente vulnerável ao transbordamento e ao acúmulo rápido de água.
Reportagens ao longo dos anos mostram que os impactos vão muito além da água que invade ruas. Em períodos de muita chuva, cenas recorrentes incluem carros sendo arrastados pela força da enxurrada, como ocorreu em fevereiro de 2024, quando a avenida Nações Unidas se transformou em um rio improvisado, obrigando equipes de resgate a salvar motoristas presos no fluxo.

Imagem: Reprodução
A mobilidade urbana também entra em colapso. Em dezembro do mesmo ano, Bauru registrou 121 milímetros de chuva em poucas horas – o maior índice do Estado naquele dia. Como consequência, avenidas inteiras ficaram bloqueadas, ônibus deixaram de circular e moradores ficaram isolados em bairros onde a água subiu rápido demais.
Apesar dos esforços pontuais, a sensação dos moradores é de que as soluções estão longe de acompanhar a velocidade e a intensidade das chuvas que atingem a cidade. Questionada sobre como lida com os impactos e quais medidas podem ampliar a proteção da população, a Secretaria de Obras afirma que atua “dentro de suas limitações”, seguindo o planejamento previsto no Plano Diretor e as diretrizes orçamentárias aprovadas pela Câmara Municipal. A pasta reforça que, em situações de emergência, as ações são coordenadas pela Defesa Civil, com equipes de sobreaviso para atender ocorrências em conjunto com a Emdurb.
No entanto, enquanto a crise climática intensifica eventos extremos e a infraestrutura continua operando no limite, a realidade nas ruas mostra que o desafio vai muito além da manutenção: exige investimentos estruturais de longo prazo, capazes de garantir que enchentes deixem de ser parte da rotina de quem vive em Bauru.
Desigualdade Social, Mobilidade e Segregação Urbana
Ao falar sobre o tópico que engloba desigualdade social e segregação urbana, a professora Luciane Marisco cita uma lógica de expansão territorial que ocorre em um processo horizontal principalmente em países latino-americanos como o Brasil.
Nesse sentido, ela explica que há sempre um processo que busca ampliar a presença de loteamentos, muitas vezes distantes dos centros urbanos, construídos por programas do Governo Federal que auxiliam a população de baixa renda à adquirir sua moradia.
Esse contexto colabora para o crescimento de uma zona periférica, distante do centro da cidade, dificultando a mobilidade urbana e o acesso às infraestruturas municipais essenciais para a população: “E as áreas mais centrais, dotadas de uma infraestrutura, dotadas de serviços e de mobilidade, ou estão ocupados pela classe média, média alta, alta, ou por vazios urbanos”.
Luciane também menciona que esses fatores influenciam no crescimento de uma segregação que não é somente urbana, mas que começa a partir da diferença de renda entre os grupos sociais:
“Porque a nossa diferença de renda é muito abissal, né? Dos milionários e da classe trabalhadora, do pobre, do miserável. […] E isso daí vai fazer com que essa população que são as menos privilegiada, né? Elas sempre vão sofrer esse processo de segregação, porque aqui no Brasil, dividido é isso, a segregação é por renda”.
Carlos Eduardo Silva Alcaraz, 27 anos, morador do Centro de Bauru, expõe como a crise hídrica da cidade se manifesta nos territórios urbanos. Mesmo vivendo em uma região historicamente mais abastecida e melhor atendida pela infraestrutura municipal, ele relata que os dias de rodízio ocorrem ao longo do ano em diferentes períodos.
O racionamento gera uma rotina de restrições profundas, “quando não tem água, realmente não tem. A gente não pode tomar banho, não pode lavar roupa, não pode lavar louça, nem pegar água da torneira pra beber”, afirma.
O relato de Carlos revela um paradoxo comum nas cidades brasileiras: mesmo aqueles que moram em áreas centrais, onde o impacto costuma ser menor, já enfrentam situações que ele descreve como “tristes” e, por vezes, “humilhantes”, como ter de ir ao trabalho para tomar banho, armazenar água para os animais domésticos ou reorganizar a rotina inteira para esperar o retorno do abastecimento.
Se essa é a experiência de quem vive no Centro, onde os cortes duram apenas um dia, ele próprio reconhece o contraste com outras regiões: “áreas mais ricas não têm esse problema. Áreas mais pobres e afastadas do centro têm, com maior frequência e por mais dias”.
A falta d’água é um marcador de desigualdade urbana. Em bairros periféricos, os rodízios costumam ser mais longos e frequentes, intensificando vulnerabilidades que já fazem parte do cotidiano: moradias com menor capacidade de armazenamento, famílias numerosas dividindo poucos cômodos, longas distâncias até serviços básicos e ao trabalho, além de maior dependência de transporte público. Na prática, a água, um direito essencial, se torna mais escassa justamente para quem mais precisa dela.
Censo Demográfico 2022 e ranking de Saneamento 2025
Segundo dados disponibilizados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), através do Censo Demográfico de 2022, Bauru conta com uma extensão territorial de 667.68 km² e uma densidade demográfica de 567.85 hab/km².
A cidade possui uma população de 379.146 habitantes com estimativas de que esse número teria atingido o valor de 392.947 em 2025. Desses, cerca de 6.310 pessoas residem em favelas. Dos 97,07% domicílios de Bauru que possuem conexão à rede de esgoto, nas favelas esse valor cai para 58,23%. No abastecimento de água, cerca de 95,97% dos domicílios possuem o abastecimento de água pela rede geral, nas favelas o abastecimento pela rede só ocorre em 79,34%.

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2022/ Município de Bauru.

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2022/ Município de Bauru.
Em julho de 2025, o Instituto Trata Brasil (ITB) em parceria com a GO Associados, uma empresa especializada em consultorias econômicas e financeiras, divulgou um estudo que numera de 1 à 100 os municípios mais populosos do Brasil na questão da qualidade do saneamento básico ofertado por aquela cidade.
Para a construção desse material foram utilizados dados recentes do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA) com base no ano de 2023, publicado pelo Ministério das Cidades do Governo Federal.
A metodologia utilizada pelo estudo utiliza critérios como: Nível de atendimento e cobertura nos serviços que oferecem água tratada e coleta de esgoto para a população; Avanço na oferta de serviços de saneamento; Nível de eficiência no serviço prestado, levando em consideração indicadores de desperdício de água.
Bauru, apesar de possuir uma porcentagem maior que 90% no que relaciona ao atendimento da rede de esgoto e do abastecimento de água da cidade -com exceção das favelas, no qual a porcentagem é inferior-, quando é comparado com outros municípios tão populosos quanto ele, sua posição no ranking de saneamento em relação serviços prestados pelo Departamento de Água e Esgoto de Bauru, o DAE, ocupa a 81º posição, com uma nota final de 5,33.
Fonte: Lana Novais – Agência Trilhos / Elaborado a partir dos dados do Ranking de Saneamento 2025 – Instituto Trata Brasil e Go Associados.
Mobilidade Urbana
Quando o assunto é o deslocamento dessa população pelo município em que residem, o censo demográfico demonstra que a preferência dos bauruenses é o uso de automóveis, cerca de 53,6% da população utilizam carros para se locomover pela cidade, enquanto a porcentagem correspondente ao uso do transporte público é de 21,6%, de 1,5% para bicicletas e de 9,6% para aqueles que preferem traçar o percurso a pé.
Valores como esses levantam questionamentos em relação a ausência de aderência da população ao uso de transportes menos nocivos ao meio ambiente, algo que pode ser motivado pela ausência de ciclofaixas na cidade. No próprio Censo de 2022, a porcentagem de vias sinalizadas para uso de bicicletas eram de apenas 0,6%.

Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2022/ Município de Bauru.
Uma reportagem realizada pela Agência Trilhos em 2024, trouxe um conteúdo que calculou a quantidade de tempo que é gasto quando realizamos um trajeto simples de aproximadamente 3 km com três tipos de transportes distintos, sendo ônibus, carro e bicicleta.
Na reportagem, o caminho escolhido é o vivenciado por muitos moradores daquela região, incluindo estudantes, que cursam sua graduação no maior câmpus da UNESP (Universidade Estadual Paulista) e frequentam o mercado mais próximo, denominado Confiança Flex, localizado em uma das avenidas mais movimentadas da cidade, a Nações Unidas.
No conteúdo, o tempo utilizado para cada meio de transporte foi diferente, sendo cerca de 19 minutos e 23 segundos para o ônibus, incluindo as paradas em pontos obrigatórios, 13 minutos utilizando bicicleta, percorrendo a maior parte do trajeto nas mesmas vias utilizadas por carros e motos pela ausência de ciclovias, e de 5 minutos e 44 segundos para o trajeto realizado pelo carro.
Tais contextos destacam a dificuldade da mobilidade urbana presente em Bauru, o município mais populoso do Centro-Oeste Paulista, que conta com o maior câmpus de uma das melhores universidades públicas do país, a UNESP , assim como diversas outras instituições de ensino que atraem jovens de diversas regiões para estudar.
A ausência de planejamento urbano aliada às dificuldades de mobilidade urbana e a realidade climática vivenciada pela cidade, precariza a qualidade de vida dos habitantes dos bairros mais afetados, impactando diferentes setores da vida da população. A segregação urbana em uma cidade como Bauru, que já sofre com a qualidade do tratamento de água e esgoto, demonstra um nível de dificuldade ainda maior para aqueles que convivem diariamente com a desigualdade social.
Cidades Inteligentes
Entre as cidades que adotam ações efetivas para neutralizar e reduzir os impactos das mudanças e crises climáticas, Curitiba destaca-se como uma tradicional referência. A capital paranaense vai além das diretrizes do Plano Diretor e desenvolve instrumentos inovadores de gestão ambiental.
Um exemplo é o Painel de Indicadores de Mudanças Climáticas, ferramenta que identifica indicadores, causas e impactos das alterações climáticas na região. O painel fornece recursos técnicos fundamentais para a tomada de decisões estratégicas e para o monitoramento contínuo das ações implementadas, consolidando a cidade como um modelo em ferramentas complementares de enfrentamento à crise climática.
Apesar de Curitiba ser reconhecida como referência em planejamento urbano, ao lado de cidades tradicionais como Florianópolis, Niterói e São Paulo, não foi a capital paranaense que liderou o Ranking de Cidades Inteligentes 2025. O 1º lugar ficou com Vitória, capital do Espírito Santo, que se destacou por avanços em infraestrutura digital, melhorias nos sistemas de educação e saúde, além da redução de cargos comissionados para redirecionar recursos a áreas essenciais.
Cidades Inteligentes são municípios comprometidos com a transformação sustentável e o desenvolvimento urbano, utilizando tecnologias para melhorar a qualidade de vida e reduzir desigualdades de forma inovadora e planejada. Para se tornar uma Cidade Inteligente, é preciso identificar os desafios estruturais, identificar oportunidades de crescimento, apoiar desenvolvedores locais e definir a tecnologia inovadora.
Os indicadores de uma cidade em direção ao modelo de Cidade Inteligente é orientado pela análise de 11 setores-chaves:
- Urbanismo
- Economia
- Educação
- Empreendedorismo
- Energia
- Governança
- Mobilidade
- Segurança
- Meio Ambiente
- Tecnologia & Inovação
- Saúde
Em ambito nacional, Bauru ocupa a 75º posição, alcançando maiores pontuações em Segurança e Telecomunicações, e tendo uma pior classificação com Meio Ambiente, Mudanças Climáticas e Populações, Condições Sociais.


Fonte: Ranking CSC 2025
Iniciativas de cidades inteligentes
A capital capixaba, citada anteriormente, se destaca pela ampla cobertura de 5G, praticamente total, pela expansão do acesso à internet e telefonia e pela digitalização crescente dos serviços públicos. Na saúde, a oferta de teleatendimentos já integra a rotina da rede municipal.Entre as iniciativas que impulsionam esse desempenho está o Big Data e Cidades Inteligentes, plano de ação desenvolvido em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
A proposta utiliza ciência de dados para aprimorar a gestão urbana e orientar decisões em áreas como saúde, educação, segurança e arrecadação.Outra política de destaque é o Programa Olhar Vitória, focado em atendimento oftalmológico para estudantes da rede escolar pública municipal , integrando inovação tecnológica à atenção básica em saúde. Já o CETIC – Fundo de Apoio à Ciência e Tecnologia (Facitec) atua como ferramenta estratégica de fomento, financiando projetos de inovação e tecnologia que fortalecem soluções urbanas inteligentes em diferentes setores da administração pública.
Iniciativa em Bauru: O projeto SACRE
Enquanto enfrenta perdas de água acima da média nacional, aquíferos sob pressão e sucessivas crises de estiagem, Bauru começa a despontar como um laboratório de inovação na gestão hídrica com o Projeto SACRE – Soluções Integradas de Água para Cidades Resilientes. A iniciativa, de caráter internacional, transforma o município em um campo experimental para o desenvolvimento de tecnologias e estratégias capazes de reduzir a vulnerabilidade no abastecimento urbano e rural.
Financiado por instituições como FAPESP, CNPq, CAPES e USP e coordenado pelo hidrogeólogo Ricardo Hirata, o SACRE reúne pesquisadores do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), da Universidade de Hiroshima (Japão) e da Universidade de Waterloo (Canadá).
O trabalho se concentra nas bacias do Batalha e do Bauru, consideradas críticas pela combinação de estiagens recorrentes, perdas na distribuição e forte dependência do Aquífero Guarani, cujas águas são fósseis e de reposição extremamente lenta.
O projeto parte de um diagnóstico minucioso ao ir além das perdas estruturais; Bauru convive com contaminação subterrânea por nitrato, metais pesados e solventes clorados, decorrentes de falhas no esgotamento sanitário, além de assoreamento e degradação no Rio Batalha. Para enfrentar esse cenário, o SACRE desenvolve soluções híbridas hidroeconômicas, modelo que integra engenharia, Soluções Baseadas na Natureza e mecanismos avançados de governança para recuperar águas contaminadas, ampliar a segurança hídrica e reduzir custos operacionais.
Entre as alternativas estudadas estão o uso combinado de águas superficiais e subterrâneas por meio do binômio rio-aquífero, a recarga gerenciada de aquíferos, técnicas inovadoras de tratamento de águas poluídas e ferramentas voltadas à governança hídrica.
Parte central da iniciativa é a criação de um Sistema de Suporte à Decisão (SSD) e de uma plataforma digital hidroeconômica (HYMP), projetados para integrar dados ambientais, hídricos, socioeconômicos e territoriais. O uso de drones, sensores, modelagem computacional e bases georreferenciadas torna o SACRE uma das mais completas experiências nacionais que aliam ciência de dados e política pública na área de recursos hídricos.
A estrutura do projeto reúne ainda cinco frentes de pesquisa dedicadas ao monitoramento de contaminantes, análise dos ciclos das águas, testes de soluções de engenharia e definição dos cenários economicamente mais viáveis. A intenção é fornecer ao município instrumentos técnicos e de gestão capazes de orientar decisões de longo prazo, especialmente relevantes para uma cidade que depende de um aquífero não renovável.
Por integrar diagnóstico, tecnologia e políticas públicas em uma única iniciativa, o SACRE se alinha diretamente aos princípios das cidades inteligentes, especialmente nos eixos de resiliência urbana, gestão integrada e tomada de decisão baseada em dados.
Além de mitigar riscos imediatos, o projeto busca transformar Bauru em referência nacional no enfrentamento de crises hídricas em municípios de médio porte, modelo que pode ser replicado em outras cidades brasileiras igualmente vulneráveis.
Se alcançar os resultados previstos, o município pode deixar de representar apenas um caso emblemático de escassez hídrica para se tornar um dos principais exemplos de como ciência, inovação e governança articulada podem construir cidades mais sustentáveis, eficientes e preparadas para o futuro.









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